MEMÓRIAS ENTERRADAS
T2/E12
T2/E12
QG, Perdizes — 23h47, noite após a recaptura
Ninguém dormiu.
Ninguém tentou.
Isadora estava na mesa há horas. Mapas espalhados por toda superfície. Marcadores coloridos — vermelho pra perigo, amarelo pra incerto, verde pra rotas possíveis. Três cadernos diferentes abertos, cada um com anotações em sua letra meticulosa. Olheiras fundas que maquiagem nenhuma conseguiria esconder. Planejando obsessivamente porque era o único jeito de manter a sanidade intacta.
Andrew na janela. Olhando São Paulo dormindo lá embaixo. Milhões de luzes. Milhões de pessoas que não faziam ideia do que estava acontecendo. Seus olhos estavam vermelhos — tinha chorado, não admitia pra ninguém. Punhos cerrados ao lado do corpo. Culpa devastadora correndo nas veias como veneno: Kira foi capturada protegendo ele. De novo alguém sofria por causa dele.
Samuel no sofá. Cabeça entre as mãos. Cabelo branco caindo sobre os olhos. As cicatrizes metálicas na nuca brilhavam levemente sob a luz fraca do abajur. Culpa diferente da de Andrew mas igualmente pesada, ele tinha tentado ajudar, mas não foi suficiente. Nunca era suficiente.
Joseph na cozinha. Trabalhando no dispositivo de interferência neural. Forçando calibração final mesmo sabendo que não estava completamente pronto. As mãos tremiam — efeito permanente dos dezoito anos sob controle mental — mas o cérebro funcionava perfeitamente. Focado. Determinado. Tentando consertar décadas de erro em poucas horas.
Paulo no laptop. Digitando furiosamente. Hackeando, planejando rotas digitais, criando backups dos backups. Preparando invasão virtual simultânea à física. Os dedos doíam de tanto digitar mas ele não parava. Não podia parar.
Camila fazendo café. Décima xícara da noite. Ninguém bebia, só esfriava na mesa. Mas ela precisava fazer algo útil senão enlouquecia. Precisava sentir que contribuía de alguma forma.
Silêncio pesado. Apenas som de teclas clicando, papéis sendo virados, café pingando na jarra.
Isadora finalmente parou. Levantou a cabeça. Voz rouca de tanto não usar nas últimas três horas:
— Temos um plano.
Todos olharam pra ela.
— Não é bom. — Ela olhou pra cada um. — Mas é o que temos.
Planejamento — Meia-noite e quinze
Isadora se levantou. Espalhou o mapa principal na mesa. Todos se aproximaram.
— Operação Resgate Total. — Ela tinha colocado nome oficial. Como se isso tornasse mais real. Mais possível. — Invasão ao Bloco H às quatro e quinze da manhã. Troca de turno. Momento estatisticamente mais fraco da segurança segundo análise do Paulo.
Ela apontou pra nomes escritos no caderno.
— Equipe de Invasão: Andrew, Samuel, Joseph e Paulo.
Paulo arregalou os olhos.
— Eu?
— Você. — Isadora olhou pra ele. — Precisamos de alguém que entenda os sistemas internos. Que possa hackear de dentro. Desativar travas. Abrir portas. Você é essencial.
— Mas eu não sou... eu não luto. Não tenho poderes.
— Você tem cérebro. — Samuel falou pela primeira vez em horas. — Vale mais que força bruta.
Paulo engoliu seco. Assentiu.
Isadora continuou:
— Equipe de Comando: eu e Camila. Coordenação tática remota. Suporte médico. Comunicações. Ficamos na van a três quarteirões. — Ela olhou pra Andrew. — Não adianta discutir.
Andrew ia protestar. Ela cortou:
— Você me proibiu de entrar. Eu aceito. Mas você aceita que eu coordeno de fora. Combinado?
Ele hesitou. Depois assentiu.
— Combinado.
Isadora marcou no mapa com caneta vermelha.
— Objetivos. Em ordem de prioridade. — Ela numerou. — Um: libertar Kira. Contenção 07, subsolo 3. Dois: libertar Léo. Contenção 08, subsolo 3. Três: libertar Thiago, Bruno e Carla. Em processo de ativação, subsolo 2. Quatro: libertar Micheli se possível. Localização desconhecida, provavelmente subsolo 3. Cinco: destruir servidores de dados do projeto. Dificultar replicação futura. Seis: sair vivos.
Pausa.
— Opcional mas desejável.
Ninguém riu.
Camila perguntou, voz pequena:
— Riscos conhecidos?
Isadora virou página do caderno. Lista longa.
— Spectro. Poderes desconhecidos. Ameaça nível máximo. Prioridade: evitar confronto direto se possível. — Virou. — Dr. Salles. Cientista-chefe. Imprevisível. Potencialmente armado. — Virou. — Guardas potencializados com Kraken-S. Estimativa de vinte a trinta. Força sobre-humana temporária. — Virou. — E isso aqui.
Ela mostrou desenho que Paulo tinha feito baseado em dados hackeados. Criatura mecânica. Grande. Duas cabeças robóticas. Canhões de plasma nos ombros.
— Cerberus. Cyborg de combate. Guardião do subsolo 2. Se encontrarmos ele...
— A gente corre — Andrew completou.
— Exatamente.
Paulo interrompeu, voz tensa:
— Taxa de sucesso?
Isadora olhou pro caderno. Hesitou. Tinha calculado e recalculado. Decidiu não mentir.
— Vinte e oito por cento. Com margem de erro de mais ou menos dez pontos.
Silêncio absoluto.
Andrew processou. Voz saindo sem emoção:
— Então pode ser até dezoito por cento.
— Pode.
— E mesmo assim a gente vai.
Não foi pergunta. Foi constatação.
Todos olharam uns pros outros. Joseph assentiu primeiro. Depois Samuel. Paulo hesitou só meio segundo antes de concordar também.
Porque não havia escolha real.
Kira estava lá. Léo estava lá. Micheli estava lá. Thiago, Bruno, Carla estavam lá.
Ninguém ficava pra trás.
Não dessa vez.
São Paulo, dois anos atrás
O mundo mudou quando Samuel conheceu Micheli.
Ele tinha vinte e três anos. O cabelo já era branco — efeito colateral da regeneração, tinha começado aos dezoito. Vivia sozinho num apartamento pequeno em Pinheiros. Trabalho simples em depósito. Vida simples. Solitária. Segura.
Hospital Santa Cruz. Seção de doação de sangue. Quinta vez no mês.
Enfermeira diferente hoje. Nova. Crachá: Micheli A. Barbosa.
Morena clara. Cabelos pretos curtos e lisos, na altura do queixo. Olhos castanhos expressivos. Bonita, sim. Mas não foi a beleza que chamou atenção de Samuel.
Foi o jeito que ela olhou pra ele quando viu no sistema: quinta doação em trinta dias.
— De novo? — Ela levantou as sobrancelhas. — Você não cansa?
— Regeneração. — Samuel deu de ombros. — Não fico cansado.
Ela parou. Olhou ele diferente. Curiosidade. Não medo. Não ceticismo. Curiosidade genuína.
— Regeneração? Tipo... superpoder?
Samuel normalmente não contava. Mantinha segredo. Mas algo nela fez ele confiar.
— Algo assim. Descobri quando criança. Osso quebrado curou em dois dias. Cortes profundos somem em horas. Sangue se recompõe em minutos.
— Isso é... — Ela procurou palavra. — Incrível.
— É útil pra doação, pelo menos.
Ela sorriu. Primeiro sorriso genuíno que Samuel tinha visto em meses.
— Eu sou Micheli.
— Samuel.
Seis meses de conhecimento gradual.
Toda vez que Samuel ia doar, Micheli fazia questão de atendê-lo. Conversas começaram pequenas — clima, notícias, bobagens. Evoluíram pra coisas reais — sonhos, medos, o peso de ser diferente num mundo que não entende diferente.
Micheli revelou, numa dessas conversas sussurradas enquanto o sangue dele enchia bolsas:
— Eu também sou... diferente.
— Como?
— Leio mentes. Às vezes. Sem querer. É raro, difícil de controlar. Mas acontece. — Ela olhou pras próprias mãos. — Assusta as pessoas quando descobrem.
Samuel não se assustou. Sorriu.
— Então somos dois. Meta-humanos. Esquisitos.
— Esquisitos juntos?
— Prefiro assim.
Primeiro encontro real: café depois do expediente dela. Conversa por quatro horas. Riram. Debateram filosofia, música, o sentido de ser diferente. Conectaram de jeito que nenhum dos dois tinha conectado com alguém antes.
Segundo encontro. Terceiro. Décimo.
Um ano depois: morando juntos. Apartamento pequeno mas era deles. Paredes com fotos. Plantas que Micheli insistia em manter vivas — Samuel sempre esquecia de regar. Rotina. Café da manhã juntos. Jantares improvisados. Filmes ruins de sexta à noite.
Felicidade.
Normal.
Até que...
Um ano e meio atrás
Terça-feira, 19 de março de 2023. 22h40.
Micheli voltando do plantão noturno. Caminhando três quarteirões do ponto de ônibus até o apartamento. Rua residencial, normalmente tranquila.
Mas estava silenciosa demais.
Ela percebeu. Instinto. Olhou em volta. Postes acesos. Carros estacionados. Mas nenhuma pessoa. Nenhum som de TV, de conversa, de vida.
Van preta dobrou a esquina. Devagar. Intencional.
Micheli acelerou o passo. Coração disparando.
A van acelerou também. Parou na frente dela, bloqueando o caminho.
Porta lateral se abriu. Quatro homens saíram. Táticos. Militarizados. Equipamento profissional.
Ela tentou correr. Um bloqueou. Tentou usar poderes — manipulação mental, forçar eles a pararem.
Mas eles tinham bloqueadores. Capacetes com tecnologia anti-telepática. Ela sentiu a resistência, como tentar empurrar parede de concreto com as mãos nuas.
Lutou fisicamente. Chute. Soco. Grito por ajuda.
Não foi suficiente. Nunca era.
Injeção no pescoço. Líquido frio entrando na veia. Queimando.
Mundo ficou turvo. Pernas falharam. Última coisa que pensou antes da escuridão total:
Samuel. Desculpa.
Samuel, 23h30 — mesma noite.
Chegou em casa. Micheli não estava. Estranho. Ela sempre chegava primeiro.
Ligou. Celular dela direto pra caixa postal.
23h45: Preocupação.
00h15: Pânico.
00h45: Desespero absoluto.
Saiu procurando. A pé, correndo. Três quarteirões até o ponto. Depois voltando. Procurando entre carros, becos, qualquer lugar.
Encontrou o sapato dela. Escarpin preto que ela usava no trabalho. Caído na calçada. Perto de mancha escura no asfalto.
Sangue.
Samuel caiu de joelhos ali mesmo. Segurou o sapato como se fosse relíquia sagrada.
E soube.
Ela tinha sido levada.
Sete dias de busca obsessiva.
Samuel não comeu direito. Não dormiu mais que duas horas por noite. Procurou em hospitais. Delegacias. IML. Nada.
Redes sociais. Fóruns obscuros. Deep web. Procurando padrões.
E encontrou.
Outros desaparecimentos. Mesmo perfil. Meta-humanos. Jovens. Saudáveis. Sem família próxima ou com famílias que não tinham recursos pra investigar direito.
Um nome aparecia várias vezes: GENOS.
E localização aproximada: instalações subterrâneas. Universidade de São Paulo.
Samuel traçou plano. Estúpido. Suicida. Desesperado.
Ia invadir. Ia buscar Micheli. Ia trazê-la de volta ou morrer tentando.
Oito anos atrás
Casa dos Voss, Pinheiros — 2016.
Kira tinha doze anos. Léo, quatorze.
Manhã de sábado. Pai Gerhard Voss — alemão de Potsdam, engenheiro, pele clara, cabelos e olhos castanhos, sotaque ainda forte mesmo após quinze anos no Brasil — na cozinha preparando panquecas. Especialidade dele.
Mãe Karina Voss — brasileira negra de São Caetano do Sul, professora de História, cabelos crespos médios — na mesa corrigindo provas com caneta vermelha.
Léo irritando Kira propositalmente:
— Nerd. Fica aí estudando num sábado.
— Melhor que jogar videogame feito idiota.
— Pelo menos eu sei viver.
— Viver é perder tempo?
Gerhard interviu, sotaque ficando mais forte quando estava sendo pai:
— Kinder, sem brigas. É sábado. Dia de família. Paz.
Mas estavam sorrindo. Provocação amorosa, não briga real.
Karina levantou, beijou a testa de cada filho:
— Vocês dois são impossíveis. Mas são meus impossíveis.
Família. Simples. Feliz. Completa.
Cinco anos depois — 23 de dezembro de 2021.
Estrada pra Ubatuba. Viagem de Natal. Família toda no carro. Gerhard dirigindo. Karina no banco do passageiro. Kira e Léo atrás, fones nos ouvidos, cada um no seu mundo.
Chuva forte. Muito forte.
Gerhard diminuiu velocidade. Cauteloso. Sempre cauteloso.
Não foi suficiente.
Um caminhão perdeu freio na descida. Descontrolado. Aquaplanando na pista molhada.
Colidiu lateral. Força absurda.
Carro dos Voss capotou. Uma vez. Duas. Três.
Metal amassando. Vidro explodindo. Gritos.
Depois, silêncio.
Kira acordou no hospital três dias depois. Corpo inteiro doendo. Enfermeira explicando gentilmente, como se gentileza tornasse menos devastador.
Léo no quarto ao lado. Braço quebrado. Três costelas. Mas vivo.
Os pais não tiveram a mesma sorte.
Cemitério, 30 de dezembro de 2021.
Dois caixões. Chuva de novo. Como se o céu estivesse chorando junto.
Kira — dezessete anos — desmoronando. Chorando convulsivamente. Mundo acabando ao redor dela.
Léo — dezenove anos — segurando ela. Braço engessado mas não importava. Ele segurou a irmã como se fosse a única coisa que mantinha ela ancorada ao mundo.
Porque era.
— A gente vai ficar bem — ele sussurrou, voz quebrando. — Eu prometo, mana. A gente sempre se acha.
— Como? Eles se foram...
— Mas a gente não. Eu cuido de você. Sempre cuidei. Sempre vou cuidar.
Abraço apertado. Chuva caindo. Dois órfãos contra o mundo inteiro.
Promessa selada ali. Naquele cemitério frio.
A gente sempre se acha.
26 de março de 2023
Sete dias após Micheli desaparecer.
Samuel — vinte e três anos — na frente de prédio suspeito em zona industrial. 3h da madrugada. Sozinho. Armado com faca, determinação suicida e amor desesperado.
Invadiu. Silencioso no começo. Evitou câmeras. Nocauteou dois guardas. Técnica improvisada mas eficiente.
Mas então o alarme disparou.
Mais guardas vieram. Muitos. Ele lutou. A regeneração manteve ele vivo — golpe que mataria pessoa normal só o machucava temporariamente. Ossos quebravam e se consertavam. Cortes fechavam sozinhos.
Derrubou seis guardas. Sete. Oito.
Mas então vieram os potencializados. Kraken-S ativo. Força sobre-humana. Quatro deles.
Samuel lutou até não conseguir mais levantar. Até a regeneração não acompanhar o dano. Até desmaiar de exaustão pura.
Acordou em cela. Fria. Escura. Três metros por três.
Dr. Henrique Salles — quarenta e poucos anos, cabelos e olhos castanhos, óculos, jaleco branco impecável — olhando pra ele através do vidro de observação.
— Sujeito 06. Bem-vindo ao Projeto GENOS.
Samuel cuspiu sangue no chão.
— Onde está Micheli?
— A enfermeira? Ah sim. Sua namorada. — Dr. Salles consultou prancheta. — Ela está aqui. Aguardando processamento. Mas você... regeneração ativa, poderes já desenvolvidos, resistência excepcional. Você é mais valioso imediatamente.
— Não me importa o que fizerem comigo. — Samuel bateu no vidro. — Mas deixem ela ir.
— Não funciona assim. — Dr. Salles fez anotação. — Amanhã começamos os implantes. Você vai ser nosso Sujeito 06. E se cooperar, sua namorada será processada sem dor desnecessária.
— Se eu cooperar?
— Se lutar, ela sofre. Simples assim.
Samuel cerrou os punhos. Impotente.
No dia seguinte, cirurgia.
Implantes na base do crânio. Metal perfurando carne. Agonia além de palavras. A regeneração tornava pior — o corpo tentava curar ao mesmo tempo que o metal era forçado dentro, criando ciclo de dor infinita.
Quando acordou, não era mais completamente ele.
Era Sujeito 06.
Voz no cérebro. Fria. Mecânica.
OBEDEÇA.
Mas a regeneração também dificultava o controle total. Corpo expulsava parcialmente os implantes. Criou controle parcial — mais flexível que outros Sujeitos. Conseguia pensar. Planejar. Fingir.
Foi transformado em agente. Trabalhava pra GENOS. Missões. Contenção. Vigilância. Sempre com a Voz no fundo da mente, mas conseguia resistir parcialmente.
Dias depois — Micheli foi processada.
Virou Sujeito 07.
Dr. Salles explicou clinicamente:
— Você primeiro porque era prioridade. Regeneração ativa vale mais. Ela agora porque está pronta.
Samuel a viu pela primeira vez após ambas transformações.
Cabelos pretos curtos. Olhos castanhos que ficavam completamente brancos quando ela usava poderes de manipulação mental agora aumentados.
Mas estavam vazios. Completamente vazios.
Ele tentou falar. Sussurrou o nome dela.
— Micheli...
Ela olhou pra ele sem reconhecimento nenhum. Voz monótona:
— Sujeito 06. Aguardando ordens.
O coração de Samuel se partiu de formas que tortura física nunca conseguiria.
Oito meses depois.
Samuel planejou fuga obsessivamente. Pequenos atos de sabotagem. Memorizou rotas. Códigos. Padrões de patrulha.
E numa noite, removeu os implantes.
Sozinho. Faca de cozinha roubada. Espelho de banheiro quebrado pra ver a própria nuca.
Cortou. Arrancou. Metal saindo da carne. Sangue escorrendo em rios.
A regeneração o salvou de morrer. Mas não salvou da dor.
Escapou. Mas tentou resgatar Micheli no caminho.
Ela atacou sem hesitar. Olhos ficando completamente brancos. Manipulação mental tentando destruir a mente dele de dentro pra fora.
Ele fugiu. Sozinho. Coração partido. Livre mas vazio.
Presente — QG, 3h15 da manhã
Uma hora antes da operação.
Todos se preparavam em silêncio pesado. Equipamentos. Armas improvisadas. Dispositivo de interferência neural — Joseph tinha terminado, estava funcionando mas não testado.
Andrew vestiu roupas táticas escuras. Simples. Práticas.
Samuel também se arrumou. Preto total. Jaqueta de couro surrada. Bolsos cheios de ferramentas úteis.
Joseph vestiu jaqueta com vários bolsos — dispositivo cabia em um, ferramentas em outros. As mãos tremiam mas ele conseguiu fechar todos os zíperes.
Paulo encheu mochila com equipamento eletrônico. Tablet. Cabos. Dispositivos de hacking portáteis. Respiração acelerada. Medo óbvio mas estava indo mesmo assim.
Momento entre Andrew e Isadora.
Ela estava na porta, observando ele se preparar. Loira. Olhos azuis vermelhos de tanto chorar nas últimas horas.
— Promete que volta.
Andrew parou. Olhou pra ela.
— Eu prometo tentar.
— Andrew...
— Não posso prometer mais que isso, Isa. — Ele se aproximou. — Mas juro que vou fazer de tudo. De tudo. Pra voltar pra você.
Ela se jogou nos braços dele. Abraço apertado. Desesperado.
Depois, beijo. Longo. Profundo. Talvez o último.
— Eu te amo — ela sussurrou contra os lábios dele.
— Eu também te amo. Mais que tudo nesse mundo.
Momento entre Paulo e Camila.
Ela estava ajudando ele a ajustar as alças da mochila. Mãos tremendo.
Paulo segurou os pulsos dela. Parou o movimento.
— Cami...
— Não. — Ela balançou a cabeça. — Não fala.
— Eu preciso...
— Não precisa. — As lágrimas começaram a cair antes que ela conseguisse segurar. — Porque você vai voltar. Vai dar tudo certo e você vai voltar.
Paulo puxou ela pro abraço. Apertado. Sentiu ela tremer.
— Eu sou péssimo com despedidas — ele sussurrou no cabelo dela.
— Então não se despeça. Só... — A voz dela quebrou. — Só volta pra mim, tá? Promete.
— Prometo.
Ela se afastou só o suficiente pra olhar no rosto dele. Segurou com as duas mãos.
— Se você morrer, eu vou te matar. Entendeu?
Ele riu. Chorando junto.
— Entendi.
Beijo desesperado. Rápido porque se demorasse nenhum dos dois ia ter coragem de soltar.
Quando se separaram, Camila limpou o rosto dele com os polegares. Depois o próprio.
— Vai — ela disse. — Antes que eu mude de ideia e te tranque num armário.
Momento entre Samuel e foto de Micheli.
Sozinho no banheiro. Tirou foto velha da carteira. Eles dois, há dois anos. Felizes. Inteiros.
Micheli sorrindo genuinamente. Cabelos pretos brilhando ao sol. Olhos castanhos cheios de vida. Tão diferente do que ela era agora.
Samuel tocou a foto com dedo trêmulo. Lágrima caiu, manchando a borda.
— Eu vou te trazer de volta, amor. — Voz saindo rouca. — Ou morro tentando. Mas você volta pra mim. Você TEM que voltar.
Guardou a foto no bolso interno da jaqueta. Perto do coração.
Secou as lágrimas. Olhou no espelho.
Olhos determinados. Cicatrizes metálicas na nuca brilhando levemente sob a luz fluorescente.
Estava pronto.
Armadilha — 3h45 da manhã
No QG, grupo final se reuniu.
Andrew, Samuel, Joseph e Paulo
A van preta estava estacionada na rua. Motor ligado. Isadora no volante. Camila no banco do passageiro com mochila médica completa.
Hora de ir.
Abraços finais. Palavras não ditas. Olhares que diziam tudo que palavras não conseguiam.
Entraram na van.
Partiram às 3h50.
Destino: Bloco H. Campus da USP. Seis quilômetros de distância. Doze minutos de viagem.
Silêncio pesado dentro da van. Cada um mergulhado em pensamentos próprios. Preparando-se mentalmente pro que estava por vir.
No Bloco H — simultaneamente.
Sala de controle. Luzes baixas. Monitores mostrando todos os ângulos da instalação.
Dr. Henrique Salles revia posicionamento final. Vinte guardas potencializados com Kraken-S distribuídos estrategicamente. Cerberus ativado, patrulhando subsolo 2 em padrão imprevisível.
Spectro nas sombras. Sempre nas sombras. Apenas silhueta visível. Olhos brilhando com luz artificial.
— Eles vêm — Spectro disse. Não foi pergunta.
— Sim. Drones os detectaram saindo de Perdizes há três minutos.
— Perfeito. — A voz distorcida soou satisfeita. — Deixe entrarem. Deixe pensarem que têm chance. E quando estiverem completamente comprometidos...
— Fechamos a armadilha.
Spectro sorriu. Não tinha boca visível mas o sorriso estava na voz. Predatório. Vitorioso.
— Todos eles. De uma vez. Especialmente Sujeito Zero. Andrew Menning, finalmente onde pertence.
— E os outros?
— Sujeito 06 volta pra cela. O pai também — nunca deveria ter saído. O hacker... pode ser útil ou descartado. Decisão posterior.
Dr. Salles confirmou com aceno de cabeça.
No monitor central: van preta se aproximando do campus. Cinco minutos até chegada.
A armadilha estava pronta.
Só faltava a presa entrar.
Limiar — 3h58 da manhã
Van parou a três quarteirões do Bloco H. Não podiam chegar mais perto sem disparar alarmes prematuros.
Equipe desceu. Checaram equipamentos pela última vez.
Comunicadores. Funcionando.
Dispositivo de interferência. Pronto.
Tablet de Paulo. Online.
Armas improvisadas. Distribuídas.
Andrew olhou pros companheiros. Samuel, determinado e focado. Joseph, tenso mas pronto. Paulo, assustado mas corajoso.
— Última chance de desistir — Andrew disse. — Ninguém vai julgar.
Samuel respondeu imediatamente:
— Micheli está lá.
Joseph, voz firme:
— Meu trabalho é consertar o que quebrei.
Paulo, voz tremendo mas determinada:
— Kira precisa da gente. Todos precisam.
Andrew assentiu. Não esperava resposta diferente.
Isadora, da janela da van:
— Comunicadores checados. Eu e Camila vamos monitorar tudo. Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, vocês saem. Entendido?
— Entendido.
Mentira. Todos sabiam. Ninguém ia sair enquanto houvesse gente presa lá dentro.
Andrew olhou pro céu. Ainda escuro. Sol nascendo em uma hora.
Pensamento final antes de irem:
Kira, aguenta. A gente está chegando.
Eles caminharam em direção ao Bloco H. Quatro homens contra instalação militar secreta.
Quatro homens contra exército.
Quatro homens contra destino.
Mas iam mesmo assim.
Porque às vezes, o certo a fazer era também a coisa mais impossível.
E eles sempre faziam o certo.
Não importava o custo.
FIM DO CAPÍTULO 12