Hospital Copa Star, UTI Privativa — 10h15
O quarto parecia mais uma nave espacial do que um leito hospitalar. Telas de LED nas paredes monitorando cada função vital, equipamentos importados da Alemanha e dos Estados Unidos zumbindo em harmonia mecânica, o cheiro estéril de álcool e plástico novo. Mas todos aqueles milhões em tecnologia não conseguiam entender o corpo que jazia na cama.
Wagner Cavalieri estava vivo. Mas os números nas telas não faziam sentido.
Batimentos cardíacos oscilando entre 45 e 140 sem padrão. Pressão arterial subindo e descendo como ondas caóticas. Temperatura corporal variando entre 35°C e 38°C a cada hora. Os médicos chamaram especialistas. Os especialistas pediram mais exames. E todos saíam da sala com a mesma expressão: isso não é possível.
Leon Cavalieri estava sentado numa poltrona de couro ao lado da cama, o terno amassado pela primeira vez em décadas, a gravata pendurada frouxa no pescoço, a barba por fazer crescendo em fios grisalhos. Ele não tinha dormido desde que recebeu a ligação do SAMU. Setenta e duas horas. Três dias olhando para o filho respirar, inconsciente, preso em algum lugar entre a vida e algo que a medicina não tinha nome.
— As funções cerebrais estão normais. — Dr. Almeida tinha dito na última visita, segurando o tablet com os exames. — Não é coma, não é morte cerebral. É como se ele estivesse... reiniciando.
Reiniciando.
Como se um ser humano fosse um computador que podia desligar e ligar de novo.
Leon olhou para as mãos do filho. As veias ainda tinham aquele tom esverdeado fraco, pulsando de vez em quando sob a pele. Os médicos não comentavam sobre isso. Provavelmente porque não sabiam o que dizer.
A porta se abriu sem bater. Lena entrou, mochila nas costas, laptop debaixo do braço, olheiras tão fundas que pareciam tatuadas no rosto. Ela tinha o mesmo aspecto de alguém que não dormia há dias.
— Alguma mudança? — Ela perguntou, jogando a mochila numa cadeira.
— Nenhuma.
— Os médicos ainda não sabem o que tá acontecendo?
— Eles sabem que é impossível. Mas está acontecendo mesmo assim.
Lena puxou uma cadeira e sentou do outro lado da cama. Ela olhou para Wagner, depois para Leon.
— Você comeu alguma coisa?
— Não tenho fome.
— Leon...
— Eu disse que não tenho fome.
Silêncio. Apenas o bip constante dos monitores e o sussurro do ar-condicionado.
— Eu achei algo. — Lena disse finalmente, abrindo o laptop.
Leon levantou os olhos, cansados demais para parecerem esperançosos.
— Sobre Vivian?
— Sobre a CGR. E sobre onde eles levaram ela. — Lena girou a tela para ele. Imagens de satélite. Uma área no Morro do Falcão. Marcações térmicas indicando atividade recente. — Eu hackeei os satélites de vigilância da polícia. Três noites atrás, houve atividade intensa nessa área. Dois veículos. Movimento de pelo menos dez pessoas.
Leon se inclinou, analisando as imagens. O rosto dele endureceu.
— Você tem certeza?
— Não tenho certeza de nada. Mas é o lugar mais provável. — Ela pausou. — Eu também achei mercenários dispostos a subir lá. Mas vai custar caro. E vai ser perigoso.
— Quanto?
— Dois milhões. Adiantado.
Leon pegou o celular.
— Transfere.
— Leon, você entende que a chance de encontrar ela viva é...
— Eu sei. — Ele cortou. — Mas eu preciso ter certeza. Wagner precisa ter certeza.
Lena assentiu. Ela voltou a digitar, seus dedos voando sobre o teclado.
Leon voltou a olhar para o filho. Os tubos conectados no braço. O oxigênio no nariz. O corpo imóvel sob o lençol branco.
— Ele vai me odiar. — Leon disse, a voz baixa. — Quando acordar e descobrir. Ele vai me odiar.
— Talvez. — Lena não mentiu. — Mas pelo menos ele vai estar vivo pra te odiar.
A resposta não trouxe conforto. Mas era a verdade.
E às vezes, a verdade era tudo que sobrava.
Dentro da Mente de Wagner — Algum Lugar Entre o Sono e a Morte
Wagner estava de pé numa fazenda. Não uma que ele reconhecia imediatamente, mas que parecia familiar de um jeito ancestral, como se a memória estivesse gravada mais fundo que a consciência.
O sol estava alto. O ar cheirava a terra molhada e capim. Ao longe, o som de cães latindo. Não latidos de brincadeira. Latidos de caça. Agressivos. Desesperados.
— Wagner! Vem cá!
Ele virou. Leon estava ali. Mais jovem. Talvez trinta e poucos anos. Sem os fios grisalhos. Sem as rugas ao redor dos olhos. Ele usava uma camisa de botão arregaçada e botas sujas de lama.
Wagner olhou para as próprias mãos. Pequenas. Mãos de criança.
Ele tinha sete anos.
— Pai? — Sua voz saiu fina, infantil.
— Vem, rápido. Os cães acharam algo.
Eles correram juntos pelo pasto, pulando cercas de arame, os pés afundando na terra úmida. O som dos latidos ficava mais alto, mais frenético. E então, virando uma curva entre árvores, eles viram.
Quatro cães. Grandes. Cães de guarda. Eles cercavam algo no chão, rosnando, investindo, recuando. E no centro, uma ave.
Um carcará.
As asas abertas, tentando parecer maior do que era. O bico aberto, gritando de volta para os cães. Uma das asas estava ferida, penas arrancadas, sangue escorrendo. Ele não podia voar. Estava encurralado.
— FORA! — Leon gritou, correndo em direção aos cães. Ele pegou um galho no chão e bateu perto deles. — FORA DAQUI!
Os cães recuaram, rosnando baixo, mas obedeceram. Leon se aproximou devagar do carcará. A ave tentou atacar, mas estava fraca demais.
— Calma. — Leon sussurrou. — Eu não vou te machucar.
Ele tirou a camisa, envolveu a ave com cuidado, imobilizando as garras e o bico. O carcará lutou, mas estava perdendo sangue demais. Leon o segurou firme, virando-se para Wagner.
— Vem aqui, filho. Olha pra ele.
Wagner se aproximou, os olhos arregalados.
— Ele tá machucado.
— Tá. Os cães pegaram ele no chão. Provavelmente caiu tentando caçar e não conseguiu levantar voo a tempo. — Leon segurou a ave contra o peito. — Mas olha nos olhos dele. Tá vendo? Ele ainda luta. Mesmo ferido, mesmo cercado. Ele não desistiu.
Wagner olhou. Os olhos amarelos do carcará brilhavam com uma ferocidade que não combinava com o corpo quebrado.
— A gente vai cuidar dele?
— Vamos tentar. — Leon começou a caminhar de volta pra casa. — Se ele sobreviver aos cães, Wagner, nada mais neste mundo o derruba. Porque o que não te mata, te ensina a matar de volta.
Wagner seguiu o pai, olhando pra ave envolta na camisa. E por um momento, ele jurou que o carcará olhou de volta pra ele.
Como se reconhecesse algo.
Como se soubesse.
A imagem começou a tremer. O sol ficou escuro. O pasto virou cinza. E de repente, Wagner não estava mais na fazenda.
Ele estava no Morro do Falcão.
Os pneus. O cheiro de gasolina. O corpo de Vivian cercado pelas chamas.
— WAGNER! — Ela gritou. — ME AJUDA!
Ele correu. Tentou alcançá-la. Mas suas mãos atravessavam o ar como se ela fosse fumaça. Ele gritou o nome dela, mas nenhum som saiu.
As chamas cresceram. Envolveram tudo. E então, no meio do fogo, ele viu.
O carcará. Queimando. As penas virando cinza. Os olhos amarelos apagando.
Ele estendeu a mão. Tentou salvá-lo como Leon tinha salvado.
Mas a ave desintegrou entre seus dedos.
E ele caiu.
Caiu em escuridão.
Sozinho.
Hospital Copa Star, UTI Privativa — 18h40 (Quatro Dias Depois)
Leon estava cochilando na poltrona quando ouviu.
Um suspiro.
Ele abriu os olhos. Wagner estava mexendo a cabeça. Devagar. Os dedos contraindo no lençol.
— Wagner? — Leon se levantou, o coração disparando. — Filho?
Os olhos de Wagner se abriram. Verdes. Mas mais escuros agora. Menos brilhantes. Mais... humanos.
Ele olhou para o teto. Depois para os lados. Depois para Leon.
— Pai...? — A voz saiu rouca, quebrada.
— Tô aqui. — Leon segurou a mão dele. — Você tá no hospital. Você tá seguro.
Wagner piscou, tentando focar. Sua respiração estava irregular. Ele tentou se sentar, mas o corpo não obedecia direito.
— Calma. Você passou quatro dias inconsciente. Os médicos disseram que...
— Vivian. — Wagner cortou. — Onde tá a Vivian?
O silêncio que se seguiu foi pesado demais para qualquer palavra carregar.
Leon soltou a mão do filho. Recuou um passo. E Wagner viu.
Viu no rosto do pai. Nos olhos vermelhos. Na forma como ele não conseguia olhar diretamente.
— Não. — Wagner sussurrou. — Não, não, não...
— Wagner...
— NÃO! — Ele gritou, e o grito rasgou a garganta. — ELA NÃO PODE ESTAR MORTA! ELA NÃO PODE!
Leon segurou os ombros dele, mas Wagner se debateu.
— EU PROMETI! EU PROMETI QUE IA TIRAR ELA DE LÁ!
— Filho, você não podia...
— EU DEIXEI ELA MORRER! — Wagner gritou, lágrimas escorrendo. — EU VI! EU VI ELA QUEIMAR E EU NÃO FIZ NADA!
E então a memória voltou.
Como uma represa se rompendo.
Ele reviveu tudo. O cheiro da gasolina. O som do isqueiro acendendo. As chamas explodindo. O grito de Vivian — aquele grito que nunca ia sair da cabeça dele, que ia ecoar em cada pesadelo pelo resto da vida. O corpo dela se contorcendo. A pele queimando. O cabelo virando cinza. Os olhos castanhos que ele amava se apagando.
Wagner desabou na cama, soluçando. Não eram lágrimas silenciosas. Era um choro animal, visceral, o tipo de dor que rasga o peito e não tem cura.
Leon sentou na beira da cama e puxou o filho num abraço. Wagner não resistiu. Ele apenas desabou no ombro do pai e chorou até não ter mais nada dentro.
— Eu sinto muito. — Leon sussurrou, a própria voz quebrando. — Eu sinto muito, filho. Eu falhei com vocês dois.
Wagner não respondeu. Apenas continuou chorando.
Porque não havia palavras para isso.
Só havia dor.
Hospital Copa Star, Quarto Privativo — 19h30 (Sete Dias Depois)
Wagner estava sentado na beira da cama, olhando pela janela. Ele tinha recebido alta da UTI dois dias atrás. Os médicos chamaram de "recuperação milagrosa". As feridas de bala nas costas tinham cicatrizado completamente, deixando apenas três marcas rosadas. Impossível, os médicos disseram. Mas ali estavam.
Lena entrou no quarto sem bater, carregando uma sacola de papel.
— Trouxe comida. — Ela jogou a sacola na mesa. — Sanduíche, suco, bolo. Sei que você não vai comer, mas pelo menos finge.
Wagner não respondeu. Apenas continuou olhando pela janela.
Lena sentou numa cadeira, cruzando as pernas.
— O enterro é amanhã. Às dez da manhã. No São João Batista.
Wagner fechou os olhos.
— Eu vou.
— Os médicos disseram que você não tá em condições de...
— EU VOU. — Ele olhou pra ela. Os olhos tinham algo diferente agora. Algo frio. Distante. — Eu preciso estar lá.
Lena assentiu devagar.
— Tá. Mas Leon vai junto. E vai ter segurança. A CGR sabe que você tá vivo. Eles podem tentar de novo.
— Deixa tentar.
A forma como ele disse aquilo fez Lena arrepiar.
— Wagner... você tá diferente.
— Eu morri, Lena. — Ele olhou de volta pra janela. — E voltei. Óbvio que eu tô diferente.
Ela não soube o que responder.
Porque ele estava certo.
O Wagner Cavalieri que tinha entrado naquele hospital quatro dias atrás não era o mesmo que estava sentado na cama agora.
Algo tinha mudado.
E Lena não sabia se isso era bom ou terrível.
Cemitério São João Batista, Botafogo — 10h15
A chuva fina caía como lágrimas do céu. O cemitério estava cheio. Amigos da faculdade, colegas de trabalho, família de Vivian. Todos de preto. Todos chorando.
Wagner estava parado ao lado do caixão fechado. Ele não chorava. Não conseguia. Era como se tivesse esgotado todas as lágrimas que tinha. Agora só restava um vazio gelado no peito.
Leon estava ao lado dele, um guarda-chuva cobrindo os dois. Mas Wagner nem sentia a chuva.
O padre falou. Palavras sobre vida eterna, sobre paz, sobre Deus. Wagner não ouviu nada. Apenas olhou para o caixão.
Fechado. Porque não havia corpo para ser visto. Apenas cinzas e ossos carbonizados que mal podiam ser identificados.
— ...e agora, entregamos nosso irmã Vivian ao descanso eterno...
O caixão começou a descer. Wagner observou até sumir completamente na terra.
E então, finalmente, algo quebrou dentro dele.
Não era raiva. Não era tristeza. Era aceitação.
Aceitação de que ela se foi. De que ele não podia salvá-la. De que o mundo tinha tirado dela a única coisa que importava: o futuro.
Ele se virou e começou a caminhar. Leon o seguiu.
— Wagner...
— Não. — Wagner parou, olhando para o pai. E pela primeira vez, não havia raiva nos olhos dele. Apenas cansaço. — Não foi sua culpa. Você tentou proteger. Do jeito que você sabia. E falhou. Igual eu falhei. A gente foi enganado, manipulado, usado. Mas não foi culpa nossa.
Leon piscou, surpreso.
— Filho...
— Eu não te odeio. — Wagner disse. — Eu só... eu preciso de tempo.
Leon assentiu, a garganta apertada demais pra falar.
Wagner continuou andando, deixando o cemitério para trás.
Mas ele não estava indo pra casa.
Estava indo pra longe de tudo que ele conhecia.
Porque enquanto fosse Wagner Cavalieri — filho, jornalista, vítima — ele continuaria sendo presa.
E presas morrem.
Ele precisava virar outra coisa.
Precisava virar o caçador.
Apartamento de Wagner e Vivian — 2h45 da Madrugada
A tempestade tinha chegado à meia-noite. Trovões sacudindo as janelas, chuva martelando no vidro como balas. O tipo de noite onde o mundo parecia estar acabando.
Wagner estava acordado. Olhando para as próprias mãos. Elas pareciam normais. Mas ele sentia. Algo diferente. Mais forte. Mais rápido. Como se cada célula do corpo tivesse sido reescrita.
Ele se levantou da cama. Silenciosamente. Os seguranças de Leon estavam do lado de fora. Dois homens armados. Mas Wagner não ia sair pela porta.
Ele foi até a janela. Décimo andar. Cinquenta metros de queda. Suicídio para qualquer pessoa normal.
Mas ele não era mais normal, não sentiu medo.
Ele abriu a janela. O vento e a chuva invadiram o quarto. Ele olhou pra baixo. A rua molhada, os carros passando, as luzes borradas pela tempestade.
E então pulou.
O vento bateu no rosto. A chuva cegou. A gravidade puxou. Mas seus reflexos responderam.
Ele agarrou uma sacada no oitavo andar. Os dedos seguraram com força impossível. Ele balançou, encontrou apoio, desceu mais. Quinto andar. Terceiro. Térreo.
Seus pés tocaram o chão molhado. Ele olhou pra cima. O hospital iluminado como uma fortaleza. Mas ele tinha escapado.
Wagner caminhou pra rua. A chuva lavando o sangue, o medo, a dor. Ele não olhou pra trás.
Porque Wagner Cavalieri tinha morrido no Morro do Falcão.
O que caminhava agora pela tempestade era outra coisa.
Algo que os cães não conseguiram matar.
Algo que tinha aprendido, com dor e sangue, a matar de volta.
Carcará.
E ele não ia descansar até que todos que tiraram Vivian dele pagassem.
Cada um. Até o último.
FIM DO CAPÍTULO 6