SUJEITO 6
T2/E10
T2/E10
República Suprema, Cozinha — 8h15 da manhã, três dias depois
Joseph estava sentado à mesa tomando café. As mãos ainda tremiam — sempre tremiam — mas menos que antes. Oitenta por cento recuperado, talvez. O suficiente pra funcionar. O suficiente pra trabalhar.
O dispositivo de interferência neural estava setenta por cento pronto. Só faltava calibração final e alguns componentes que Paulo ainda estava procurando. Dias, não semanas. Estava perto.
Andrew entrou na cozinha já vestido. Calça jeans, camiseta preta, jaqueta. Pronto pra sair.
— Bom dia — ele disse, pegando uma xícara.
— Bom dia, filho. — Joseph olhou o relógio. — Cedo hoje.
— A gente vai ver o apartamento. Lembra?
Joseph assentiu. Claro que lembrava. Tinha pensado nisso a noite inteira. O apartamento em Perdizes. O lugar onde ele e Luíza tinham vivido. Onde tinham planejado suas vidas. Onde tudo tinha começado.
Antes da Tentáculos. Antes dos dezoito anos perdidos.
Isadora apareceu logo depois, cabelo preso num rabo de cavalo, mochila nas costas.
— Pronto? — ela perguntou.
Andrew confirmou. Joseph se levantou, pegou as chaves que sempre carregava no bolso. Mesmo durante os dezoito anos de prisão, tinha conseguido mantê-las. Escondidas. Protegidas. Eram sua âncora. Lembrança de que tinha existido antes. De que tinha tido vida.
Kira apareceu na porta da cozinha. Ela tinha dormido no quarto do fundo temporariamente — Ainda nervosa. Ainda assustada. Mas melhorando.
— Vocês vão sair? — ela perguntou.
— Só por algumas horas — Andrew respondeu. — Você fica aqui com o Paulo e a Camila. Mais seguro.
Ela assentiu. Não discutiu. Kira entendia o conceito de "não se expor desnecessariamente". Tinha aprendido da pior forma.
Joana passou pelo corredor naquele momento, mochila nas costas, xícara de café na mão.
— Opa, vocês saindo cedo! — ela disse, animada como sempre. — Passeio?
Isadora sorriu.
— Vamos mostrar a cidade pro Joseph. Ele nunca conheceu direito.
— Aproveitem! — Joana disse, já descendo as escadas. — Previsão de sol hoje, hein? Raro em São Paulo!
Quando ela saiu, Andrew soltou o ar.
— Ela acredita em tudo, né?
— Por enquanto — Isadora disse. — Vamos logo antes alguém fazer mais perguntas.
Ônibus pra Perdizes — 8h40 da manhã
Andrew tinha sugerido ir de ônibus. Não voar. Muito chamativo. Poderia atrair muita atenção.
Então ali estavam eles. Sentados no fundo de um ônibus lotado, balançando com cada buraco da rua, rodeados de gente indo pro trabalho.
Joseph olhava pela janela. São Paulo passando. Prédios. Carros. Pessoas. Vida.
— Como você ainda tem as chaves? — Andrew perguntou baixinho.
Joseph tocou o bolso.
— Sempre carreguei comigo. Mesmo quando... — Ele parou. Respirou fundo. — Mesmo durante os dezoito anos. Era meu jeito de lembrar que existia antes. Que tinha vida.
Isadora, sentada do outro lado de Joseph, colocou a mão sobre a dele. Ele olhou pra ela, surpreso pela gentileza.
— Vai ficar tudo bem — ela disse.
Joseph assentiu, agradecido. Mas as mãos tremeram mais forte. Ansiedade. Medo. Esperança. Tudo misturado.
O ônibus virou à direita. Mais quinze minutos.
Perdizes — 9h10 da manhã
O prédio era velho mas bem mantido. Anos oitenta, seis andares, fachada amarela desbotada pelo tempo. Portaria pequena com um senhor de uns sessenta anos lendo jornal.
Eles entraram. O porteiro levantou a cabeça.
— Bom dia. Vão visitar alguém?
— Apartamento 32 — Joseph disse, voz saindo estranha. Rouca.
O porteiro fez gesto casual com a mão.
— Ah sim, pode subir.
E voltou pro jornal.
Os três subiram as escadas em silêncio. Joseph ficou tenso. O porteiro não tinha pedido identificação. Não tinha questionado. Como se o apartamento 32 recebesse visitas regularmente. Como se fosse esperado.
Terceiro andar. Sem elevador. Corrimão de madeira gasto por décadas de mãos. Porta do apartamento 32 — verde escura, três fechaduras.
Joseph parou na frente da porta. Tirou as chaves do bolso.
As mãos tremiam tanto que ele não conseguiu encaixar a primeira chave na fechadura.
Andrew tocou seu ombro.
— Deixa eu ajudar.
Joseph entregou as chaves. Andrew destrancou. Primeira fechadura. Click. Segunda. Click. Terceira... Click.
A porta se abriu.
E Joseph congelou.
Porque o apartamento não estava abandonado.
Interior do Apartamento — 9h15 da manhã
Não completamente abandonado, pelo menos.
Tinha camada fina de poeira, sim. Móveis cobertos com lençóis brancos, sim. Mas o cheiro não era de mofo. Era de... limpeza. Produto de limpeza. Recente.
Isadora entrou primeiro, cautelosa. Instinto de advogada — examinar o ambiente antes de tirar conclusões.
Foi até a cozinha. Abriu armários.
Sabão. Esponja — seca mas não velha. Pano de chão dobrado.
Banheiro. Desinfetante. Papel higiênico lacrado.
Ela voltou pra sala onde Joseph estava parado, imóvel, olhando tudo como se visse fantasma.
— Alguém limpa aqui — Isadora disse. — Regularmente.
Andrew estava examinando a mesa da sala. Tinha algo ali. Envelope. Papel timbrado.
Ele abriu.
Recibos. IPTU de 2024, quitado. Condomínio, quitado. Conta de luz — mínima, mas ativa. Conta de água — mínima, mas ativa.
E embaixo de tudo, uma anotação à mão. Letra feminina. Delicada. Familiar.
Andrew reconheceu instantaneamente. Era a letra da mãe dele.
"Caso J. volte. — L."
O coração de Andrew apertou. Garganta fechou. Ele olhou pro envelope, pra anotação, pras contas todas pagas.
— Mãe... — ele sussurrou.
Joseph atravessou a sala, pegou o recibo das mãos de Andrew. Leu. Releu. As mãos tremendo violentamente agora.
— Luíza pagou tudo isso? — A voz dele saiu quebrada. — Por dezoito anos?
Andrew confirmou, voz embargada.
— Ela nunca desistiu de você.
Joseph desabou no sofá coberto por lençol branco. Segurou o papel como se fosse tesouro mais valioso do mundo.
E chorou.
Soluços profundos. Dezoito anos de dor, culpa, solidão. E agora... esperança. Amor. Ela tinha esperado. Ela tinha mantido o lugar deles vivo. Intacto. Pronto pra ele voltar.
Andrew sentou ao lado do pai, colocou o braço ao redor dele. Não disse nada. Só ficou ali. Ancorando.
Isadora se afastou discretamente, foi pra cozinha. Dava privacidade. Mas também estava chorando silenciosamente. Era história de amor devastadora e linda ao mesmo tempo. Tipo que corta o coração mas também dá esperança.
Depois de longos minutos — talvez cinco, talvez dez — Joseph se recompôs. Limpou o rosto com as costas da mão.
— Eu preciso vê-la — ele disse, voz firme apesar das lágrimas. — Preciso agradecer. Preciso... preciso dizer que voltei.
Andrew segurou a mão do pai.
— Você vai. Quando tudo isso acabar. Quando você estiver pronto. Quando for seguro. Os dois vão se reencontrar. Eu prometo.
Joseph assentiu. Acreditou na promessa do filho.
Explorando o Apartamento — 10h00 da manhã
Joseph explicou enquanto caminhavam pelos cômodos. Voz mais controlada agora. Professoral.
— Quando eu e Luíza compramos esse apartamento, foi em 2004. Usamos todas as nossas economias. Ela tinha acabado de se formar em Engenharia Química. Eu estava no doutorado em Física Nuclear. A gente tinha tão pouco dinheiro... — Ele riu, triste. — Mas era nosso.
Três quartos. Sala. Cozinha. Banheiro. Simples mas funcional.
A sala tinha sofá velho mas confortável, mesa de centro, TV de tubo que provavelmente ainda funcionava. Estante com livros — física, química, alguns romances.
Quarto principal: cama de casal, guarda-roupa grande, janela com vista pra rua. O colchão precisava ser trocado — dezoito anos era tempo demais. Mas estrutura estava boa.
Segundo quarto...
Joseph parou na porta. Respiração ficou pesada.
Quarto vazio exceto por berço desmontado no canto. Madeira ainda clara. Nunca usado.
— Eu comprei quando decidimos ter filho — Joseph disse, voz quebrando de novo. — Tava tão empolgado que comprei antes mesmo de saber que ela tava grávida. — Ele riu sem humor. — Só descobri da gravidez no dia do desastre nuclear.
Andrew colocou a mão no ombro do pai. Não disse nada. Não tinha palavras certas.
Isadora perguntou gentilmente:
— Quer que eu mova o berço? Guarde em outro lugar?
Joseph balançou a cabeça.
— Não. Deixa. A gente vai usar esse quarto como laboratório. — Ele olhou pra ela. — Prefiro assim. Dar novo propósito ao espaço. Transformar dor em algo útil.
Isadora entendeu. Assentiu.
Terceiro quarto era pequeno. Cama de solteiro, guarda-roupa, escrivaninha com cadeira, estante cheia de livros sobre física nuclear, mecânica quântica, matemática avançada.
— Meu escritório — Joseph explicou. — Onde eu trabalhava à noite. Onde eu... — Parou. — Onde eu era feliz.
Cozinha estava equipada. Fogão, geladeira (desligada), pia, armários. Tudo funcionando ainda.
Banheiro limpo. Muito limpo. Produto de limpeza recente.
— A faxineira deve ter vindo essa semana — Andrew disse.
Joseph confirmou.
— Sua mãe deve ter mantido faxineira mensal todos esses anos. — Ele balançou a cabeça, admirado. — Ela realmente nunca desistiu.
Transformando o QG — 11h30 da manhã
Decidiram ali mesmo. Segundo quarto viraria laboratório. Joseph preferia assim — ressignificar o espaço, como ele tinha dito.
Sala viraria centro de comando. Quarto principal ficaria como estava, caso alguém precisasse dormir lá. Terceiro quarto também.
Trabalharam o dia todo.
Andrew usou super-força pra mover móveis pesados. Sofá, mesa, estante. Coisas que levariam três pessoas pra carregar, ele pegava sozinho.
Isadora organizou. Criou zonas funcionais. Área de planejamento aqui. Área de equipamentos ali. Área de descanso acolá. Tinha talento pra isso — transformar caos em ordem.
Joseph ajudava onde podia. Mas emoções o atingiam constantemente. Lembranças.
Encontrou caixa no armário do quarto principal. Dentro, presentes de casamento ainda guardados. Jogo de copos de cristal. Toalhas bordadas. Porta-retratos vazios.
E fotos. Fotos do casamento que tinham ficado pra trás quando Luíza fugiu pra Cosmópolis com urgência. Joseph de terno, jovem, sorridente. Luíza de vestido branco simples, linda, radiante. Os dois felizes. Apaixonados. Sem ideia do que viria.
Joseph segurou uma foto, garganta apertada.
Isadora apareceu na porta, viu. Aproximou-se com cuidado.
— Quer que eu guarde isso? — ela perguntou gentilmente.
Joseph balançou a cabeça.
— Não. Deixa aqui. Faz parte da história. — Ele colocou a foto de volta na caixa. — Não posso fingir que não aconteceu. Não posso apagar o passado.
— Você não precisa.
— Eu sei. Mas dói. Ainda dói.
— Sempre vai doer. — Isadora sentou ao lado dele. — Mas um dia vai doer menos. E você vai ter novas memórias felizes. Com Andrew. Com Luíza. Com todos nós.
Joseph olhou pra ela. Essa garota era incrível. Tinha, o quê, dezoito anos? Mas falava com sabedoria de alguém muito mais velho.
— Obrigado — ele disse.
— Imagina!
Tarde, Paulo chegou. Trazendo caixas de equipamentos — ferramentas, cabos, componentes eletrônicos.
Kira e Camila apareceram logo depois com suprimentos. Comida, água, produtos de limpeza.
Paulo notou atmosfera emocional pesada assim que entrou. Percebeu que tinha acontecido algo. Mas não perguntou. Respeitou.
Final da tarde, o QG estava funcional.
Não era high-tech como base da GENOS. Não tinha computadores de última geração ou equipamentos de milhões de dólares.
Mas era deles. Seguro. Escondido. E carregado de significado.
Telhado do Prédio — 19h30
Andrew tinha subido pro telhado. Hábito. Sempre verificava perímetro. Sempre escaneava área.
São Paulo ao anoitecer era linda de um jeito estranho. Milhões de luzes se acendendo. Barulho constante de carros, buzinas, sirenes. Vida pulsando em cada esquina.
Milhões de pessoas vivendo suas vidas normais. Sem ideia da guerra secreta acontecendo bem debaixo do nariz delas.
Andrew respirou fundo. O ar frio de agosto cortava os pulmões.
— Você é Andrew Menning.
Andrew se virou num pulo. Olhos começando a brilhar verde. Posição de luta. Corpo tenso.
Mas parou.
Um homem estava parado a cinco metros de distância. Aparência de uns vinte e cinco anos. Pele clara, um metro e oitenta e dois de altura. Cabelo branco — não grisalho, branco puro, neve. Natural mas anormal.
Magro mas definido. Roupas escuras — calça jeans preta, camiseta cinza, jaqueta de couro surrada.
E cicatrizes.
Cicatrizes metálicas. Brilhando levemente sob a luz alaranjada do pôr do sol. Base do crânio, visíveis onde o cabelo era curto. Irregulares. Feias. Como se tivessem sido arrancadas cirurgicamente.
Mal arrancadas.
O homem levantou as mãos. Gesto universal de paz.
— Calma. Não vim lutar.
— Quem é você? — Andrew perguntou, ainda tenso.
O homem sorriu. Amargo.
— Nomes verdadeiros ou números de prisão?
— Como assim?
— Eles me chamavam de Sujeito 06. — O sorriso ficou mais triste. — Mas meu nome é Samuel. Samuel da Luz.
Andrew arregalou os olhos. Esse era um dos nomes nos arquivos. Um dos Sujeitos ativos.
— Você é... o Sujeito 06.
— Ex-Sujeito. — Samuel tocou as cicatrizes no crânio. — Livre faz seis meses.
— Como?
— Arranquei os implantes. — Ele disse isso casualmente. Como se falasse de trocar pneu. — Faca de cozinha. Espelho de banheiro. Sozinho. Foi... desagradável.
Andrew sentiu náusea só de imaginar.
— Você podia ter morrido.
— Preferia morrer livre que viver escravo. — Samuel deu passo à frente.
Andrew se tensionou automaticamente. Samuel parou.
— Relaxa. Se eu quisesse te machucar, já teria atacado. Você tava distraído olhando a cidade.
Andrew processou. Verdade. Esse cara tinha tido oportunidade perfeita.
— O que você quer?
— Ajudar. — Samuel encostou no parapeito do telhado. — Ouvi que você libertou o Sujeito 10. Kira Voss.
— Como sabe disso?
— Tenho contatos. E monitoro GENOS faz meses. — Ele olhou pra cidade. — Quando alguém foge, eu sei. Os sistemas deles são bons, mas não perfeitos. Deixam rastros.
Andrew ainda desconfiado:
— Por que você quer ajudar?
Samuel virou pra encará-lo. Olhos sérios.
— Porque tem mais gente presa lá dentro. Sofrendo. Sendo controlada. — Pausa. — E sozinho, eu não consigo salvar ninguém. Tentei uma vez. Quase morri.
Andrew esperou.
— Mas com o Sujeito Zero... — Samuel continuou. — Com você... talvez a gente tenha chance.
Demonstração — 19h45
— Que poderes você tem? — Andrew perguntou. Precisava saber em que estava se metendo.
Samuel sorriu. Não era sorriso feliz. Era sorriso de quem sabe que é monstro.
— Quer ver?
— Sim.
Samuel fechou os olhos. Respirou fundo. Peito subindo e descendo.
Então aconteceu.
Os olhos abriram — brilhando. Azul luminescente. Tipo LED mas orgânico, vivo, pulsante.
E as veias.
Começando no rosto, descendo pescoço, braços. Todas acendendo azul por baixo da pele. Como se eletricidade estivesse correndo no sangue dele.
Efeito visual era impressionante. Quase alienígena. Belo e assustador ao mesmo tempo.
Andrew recuou meio passo, fascinado e aterrorizado.
— Que porra...
Samuel falou, voz normal mas corpo inteiro brilhando:
— Regeneração acelerada. Força aumentada — não tanto quanto a sua, imagino, mas boa. Sentidos aguçados. — Ele apontou pro bolso de Andrew. — E eu detecto campos eletromagnéticos. Sei que você tem celular ligado no bolso, bluetooth desligado, bateria sessenta e sete por cento.
Andrew tirou o celular. Conferiu. Sessenta e oito por cento. Quase perfeito.
— Você... sente eletrônicos?
— Até dez metros de distância. — Samuel assentiu. — Útil pra detectar câmeras, escutas, rastreadores. E eu posso desligar eletrônicos temporariamente. PEM orgânico. Pulso eletromagnético biológico.
— Isso é... — Andrew procurou palavra.
— Assustador? Útil? Ambos.
— Não, é incrível — Andrew completou.
Samuel virou de lado, apontou a mão pro céu.
— E tem isso aqui também.
Eletricidade. Raio de energia pura disparando da palma da mão dele. Azul brilhante. Subindo vinte, trinta metros. Como relâmpago controlado.
O barulho foi alto. Estalo de trovão. Cheiro de ozônio no ar.
O raio durou três segundos. Depois Samuel fechou a mão e parou.
As veias pararam de brilhar. Olhos voltaram ao normal.
Andrew estava boquiaberto.
— Você solta raios.
— Basicamente. — Samuel deu de ombros. — Mais ou menos o poder de um raio natural. Eletrocinese. Útil em combate. Péssimo pra tentar viver discretamente.
Ele estendeu a mão.
— Então? Aceitam minha ajuda?
Andrew hesitou. Só um segundo. Avaliou.
Esse cara tinha tido oportunidade de atacar. Não atacou. Mostrou vulnerabilidade. Ofereceu informação.
E mais importante — tinha a mesma dor nos olhos. A dor de quem sofreu. De quem perdeu.
Andrew apertou a mão.
— Bem-vindo à equipe, Samuel.
QG, Sala — 20h00
Andrew e Samuel desceram pro apartamento. Entraram pela porta.
Kira estava sentada no sofá. Se levantou defensivamente quando viu Samuel.
Reconheceu. Outro Sujeito. Os olhos dela brilharam levemente roxo.
Mas então viu as cicatrizes. Feias. Brutais. Na base do crânio dele.
— Ex-Sujeito — Samuel disse, mostrando as marcas. — Livre faz seis meses.
Kira relaxou. Respeitoso reconhecimento mútuo. Ambos sobreviventes.
Paulo apareceu da cozinha, laptop na mão. Camila atrás dele.
Isadora saiu do segundo quarto com Joseph.
Samuel olhou pra todos. Contou mentalmente. Seis pessoas. Incluindo Andrew. Pequeno exército contra organização gigante.
Mas era o começo.
Ele tirou um pen drive do bolso da jaqueta.
— Trouxe presente. — Estendeu pro Paulo. — Mapas completos do Bloco H. Atualizados. Saídas secretas. Códigos de acesso. Padrões de patrulha.
Paulo pegou o drive como se fosse ouro.
— Como você conseguiu isso?
— Trabalhei lá. — Samuel sentou numa cadeira. — Depois que meus poderes 'estabilizaram', eles me transformaram em agente temporário. Tive acesso a arquivos. Memorizei tudo que pude.
— Por quê? — Isadora perguntou.
— Porque planejei minha fuga por oito meses. — Ele olhou pra ela. — Precisava conhecer cada corredor, cada câmera, cada ponto fraco.
Paulo já tinha conectado o pen drive no laptop. Tela encheu de plantas baixas. Detalhadas. Profissionais.
Cada andar do Bloco H. Cada corredor. Cada sala. Códigos de acesso. Horários de patrulha. Pontos cegos de câmeras.
Era tesouro de informação.
Isadora já estava anotando furiosamente no caderno. Olhos brilhando — não literalmente, mas de empolgação intelectual.
— Isso muda tudo — ela disse.
Samuel também começou a detalhar verbalmente. Rotinas. Troca de turno — quatro da manhã e quatro da tarde. Dr. Salles ficava no laboratório nível 2. Spectro aparecia aleatoriamente, sempre nas sombras.
Localização provável de Léo — Contenção 08, subsolo 3.
Kira confirmou:
— Sim. Três paredes da minha antiga cela.
Joseph fez perguntas técnicas. Samuel respondeu com precisão cirúrgica. Ficou claro — ele tinha estudado aquele lugar obsessivamente. Tinha transformado em ciência.
História de Samuel — 20h45
Sentaram pra conversar. Samuel na cadeira. Todos ao redor dele.
— Por que você quer tanto ajudar? — Camila perguntou. — Você escapou. Podia ter sumido. Ido pra outra cidade. Vivido em paz.
Samuel deu risada sem humor.
— Paz. — Ele repetiu a palavra como piada. — Não existe paz quando alguém que você ama tá presa sendo torturada.
Silêncio pesado.
— Micheli — ele disse. Nome doído. — Sujeito 7. Minha namorada.
— Conta — Andrew pediu gentilmente.
Samuel suspirou. Contou versão resumida:
Conheceu Micheli em hospital. Ele doava sangue regularmente — regeneração facilitava, corpo produzia sangue rápido. Ela era enfermeira. Conversaram. Meses depois, estavam namorando. Felizes.
Ela foi capturada primeiro. Desapareceu voltando do trabalho. Samuel procurou desesperadamente. Achou pistas levando à GENOS.
Invadiu sozinho. Estúpido, apaixonado, impulsivo. Foi capturado. Virou Sujeito 06.
— Ela foi transformada em sujeito 7 depois. Descobri que eu tinha regeneração ativa, já era meta-humano desperto, então GENOS priorizou experimentar em mim primeiro. Micheli tinha poderes latente, fracos, então ficou em "fila de espera" alguns dias.
Trabalhou como agente sob controle parcial. Viu Micheli — Sujeito 12, olhar vazio, não o reconhecia mais. Olhava pra ele sem ver.
Planejou fuga durante meses. Removeu implantes — quase morreu de infecção e hemorragia. Escapou. Tentou resgatar Micheli mas ela atacou. Tentou matá-lo. Ele fugiu sozinho.
— Desde então — Samuel concluiu, voz cansada — monitoro GENOS. Espero oportunidade. Procuro aliados.
Ele olhou pra Andrew.
— Até você aparecer. Sujeito Zero. Pela primeira vez em seis meses, tenho esperança real.
Andrew sentiu peso da expectativa. Mas não recuou.
— A gente vai buscar todo mundo. Incluindo Micheli. Eu prometo.
Samuel fechou os olhos. Respirou fundo.
— Obrigado. — Quando abriu os olhos, tinha lágrimas. — Obrigado por não desistir dela.
— Nunca. — Andrew prometeu. — A gente não desiste de ninguém.
Planejamento Refinado — 21h15
Isadora espalhou mapas na mesa. Os de Samuel eram muito melhores que os anteriores. Detalhados. Precisos.
Ela refez o plano rapidamente. Cérebro trabalhando em velocidade impressionante.
— Ok. Novo plano. Mais preciso.
Todos se aproximaram.
— Fase 1: Atrair Léo. — Ela marcou no mapa. — Fábrica abandonada em Osasco. Vinte quilômetros daqui. Isolada. Sem civis por perto. Andrew é isca. Kira fica como backup.
Andrew e Kira confirmaram.
— Fase 2: Joseph ativa dispositivo de interferência neural. — Ela apontou pra Joseph. — Duração: trinta a quarenta e cinco segundos. Simultaneamente, Samuel usa PEM pra desativar rastreadores em Léo. Não podemos deixar GENOS saber localização exata.
Samuel assentiu.
— Consigo fazer isso.
— Fase 3: Andrew e Kira seguram Léo fisicamente durante a interferência. — Isadora olhou pros dois. — Trinta a quarenta e cinco segundos. Vocês conseguem?
— Conseguimos — Andrew garantiu. Kira confirmou com aceno.
— Fase 4: Se bem-sucedido, Léo desperta e se junta a nós. Se não for bem-sucedido, retirada imediata. Não arriscamos mais que isso.
Camila perguntou, voz preocupada:
— E depois? GENOS vai intensificar. Vão caçar a gente com tudo que têm.
— Por isso agimos rápido. — Isadora fechou o caderno. — Léo primeiro. Amanhã ou depois. Depois, resgate em massa. Entramos no Bloco H. Libertamos todos de uma vez. Antes que eles reorganizem defesas.
Joseph franziu a testa.
— Ambicioso. Perigoso.
Kira falou:
— Mas necessário. Cada dia que passa, eles sofrem mais.
Samuel completou:
— Se vocês me prometem trazer Micheli de volta, eu topo qualquer risco. Qualquer.
Silêncio. Todos olhando uns pros outros.
Pela primeira vez desde que tudo começou, parecia possível. Difícil, perigoso, com chances pequenas.
Mas possível.
Paulo quebrou o silêncio:
— Quando a gente faz isso?
Andrew respondeu:
— Quarenta e oito horas. Assim que o dispositivo estiver pronto.
Todos concordaram.
Isadora escreveu no topo da página do caderno, letra grande e firme:
OPERAÇÃO: DESPERTAR — FASE LÉO — 48H
República Suprema — 22h30
Beto interceptou Andrew no corredor.
— Ei, cara! — Ele estava animado. — Churrasco sábado. Você e os amigos vêm, né? Vai ser massa. A Joana tá fazendo aqueles espetinhos dela.
Andrew forçou sorriso.
— Claro. A gente vai.
— Ótimo! Trás cerveja se puder. Tá acabando.
— Levo sim.
Beto foi embora assobiando.
Andrew entrou no quarto. Isadora estava no sofá, revisando anotações.
— Churrasco sábado — ele disse.
Ela levantou a sobrancelha.
— Sério? No meio de tudo isso?
— Fachada de normalidade. — Andrew sentou ao lado dela. — Se a gente cancelar tudo, fica óbvio que algo tá errado.
— Você tem razão. — Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Só parece surreal. Planejar resgate de prisioneiros e ao mesmo tempo ir em churrasco universitário.
— Bem-vindo à nossa vida.
Ela riu. Cansado mas genuíno.
QG, Perdizes — 22h45
Samuel ficou no apartamento. Joseph ofereceu o sofá.
— Pode ficar quanto tempo precisar — Joseph disse.
— Obrigado. — Samuel organizou travesseiro, cobertor. — Por acreditarem em mim. Por me aceitarem.
— Você provou que merece confiança. — Joseph foi pro quarto. — Boa noite, Samuel.
— Boa noite.
Quando ficou sozinho, Samuel olhou pela janela. São Paulo iluminada. Milhões de luzes.
Em algum lugar lá fora, Micheli estava presa. Sofrendo. Esperando.
— Aguenta mais um pouco — ele sussurrou pro vidro. — Eu vou te tirar de lá. Prometo.
Bloco H, Sala de Controle — 23h00
Dr. Salles assistia monitor. Câmeras de segurança espalhadas por São Paulo. Uma delas tinha captado Samuel. Entrando no prédio em Perdizes. Junto com Andrew.
Ele sorriu.
— Sujeito 06 foi visto. Com Sujeito Zero.
Spectro emergiu das sombras. Parcialmente. Silhueta impossível de definir.
— Deixe. — A voz distorcida ecoou. — Quanto mais aliados eles juntarem, mais peças teremos quando a armadilha fechar.
— E o resgate de Sujeito 11?
— Deixe tentarem. — Spectro caminhou em direção à escuridão. — Será a isca perfeita. Quando vierem buscar um, pegaremos todos.
Ele desapareceu completamente.
Dr. Salles voltou aos monitores.
No da cela de Léo, o garoto dormia. Mas mesmo dormindo, sussurrava.
Dr. Salles aumentou áudio.
— Kira... não me deixa... volta... Kira...
Mesmo sob controle mental absoluto. Mesmo drogado. Mesmo programado.
O vínculo persistia.
Dr. Salles desligou o áudio.
— Patético — ele murmurou.
E saiu da sala.
FIM DO CAPÍTULO 10