INVASÃO
T2/E13
T2/E13
Campus da USP — 4h12 da manhã
O Bloco H era diferente dos outros prédios do campus.
Brutalista. Concreto cru e cinza. Poucas janelas — estreitas, altas, mais parecidas com fendas que aberturas de verdade. Luzes frias e institucionais brilhando por trás de vidros reforçados.
Tinha algo errado nele. Mesmo sem saber o que acontecia lá dentro, qualquer um que passasse podia sentir. Uma sensação no estômago. Um mal-estar sutil.
Como se o prédio estivesse doente.
Andrew, Samuel, Joseph e Paulo observavam à distância. Escondidos atrás de um galpão de manutenção. Céu ainda escuro. Faltava uma hora pro sol nascer.
Andrew ativou visão telescópica. Escaneou o prédio. Contou guardas visíveis — três no perímetro externo. Câmeras nos quatro cantos. Sensores de movimento nas portas principais.
— Rota de entrada? — Samuel perguntou baixinho.
— Fundos. Porta de serviço. — Andrew apontou. — Dois guardas. Câmera com ponto cego entre 4h15 e 4h17 quando a patrulha passa.
Paulo checou o tablet. Digitando rápido. Nervoso.
— Sistema de segurança externo é... bom. Mas não impossível. Posso criar loop nas câmeras por três minutos. Talvez quatro se tivermos sorte.
Joseph ativou o dispositivo de interferência neural. Pequeno. Do tamanho de celular. Luzes verdes piscando suavemente.
— Modo passivo ativado. Vai mascarar assinaturas biométricas num raio de cinco metros. Não é perfeito mas ajuda.
Samuel fechou os olhos. Concentrou. Sentiu campos eletromagnéticos ao redor. Câmeras. Travas eletrônicas. Sistemas de comunicação.
E algo mais. Algo grande. Profundo. Como buraco negro de energia vindo do subsolo.
— Tem algo lá embaixo — ele disse. — Muita energia. Muito poder.
— Spectro? — Paulo perguntou.
— Não sei. Mas seja o que for... é grande.
A voz de Isadora veio pelo comunicador. Clara. Controlada.
— Vocês têm oito minutos antes da primeira checagem manual de rotina. Entrem, peguem quem puderem, saiam. Não sejam heróis.
Andrew tocou o próprio comunicador.
— Entendido.
Olhou pros outros três. Última chance de recuar.
Ninguém recuou.
— Vamos — ele disse.
Atravessaram o espaço aberto em silêncio, rápido mas sem correr — movimento brusco demais chamava atenção mesmo sem câmeras funcionando.
Paulo andava com o tablet na mão, dedos voando sobre a tela.
— Loop ativado... agora.
As câmeras congelaram. Três minutos de imagem estática. Era tudo que ele conseguia dar.
Chegaram na porta de serviço. Metal reforçado, pesado. Tranca eletrônica brilhando em vermelho.
Samuel colocou a mão na fechadura e fechou os olhos por meio segundo. Quando abriu, estavam brilhando azul. Sentiu a corrente elétrica dentro do mecanismo, entendeu o circuito, e enviou pulso eletromagnético preciso. A tranca fez click e a luz mudou pra verde.
— Pronto.
A porta abriu com sussurro pneumático. Eles entraram.
A porta se fechou atrás deles com som pneumático suave.
E no subsolo 3, numa sala escura cheia de monitores, um alarme silencioso disparou.
Dr. Salles sorriu.
— Eles entraram.
Corredores, Térreo — 4h14 da manhã
Dentro era pior que fora.
Corredor longo. Iluminação fluorescente. Cheiro de desinfetante misturado com algo químico que Andrew não reconhecia.
Paredes brancas. Chão de linóleo refletindo tudo. Portas numeradas de ambos os lados.
Silêncio.
Silêncio demais.
— Isso não está certo — Paulo sussurrou. — Cadê os guardas? As patrulhas?
Andrew também achava estranho. Mas não tinham tempo pra questionar.
Avançaram. Checando cada porta. A maioria trancada. Algumas abertas revelando salas vazias. Laboratórios. Equipamentos científicos. Computadores desligados.
Primeira sala à direita — Andrew entrou.
Laboratório maior. Bancadas de aço inoxidável. Microscópios. Centrífugas. E no canto, uma cadeira.
Cadeira de contenção.
Cintas de couro nos braços e pernas. Gastas. Usadas. Manchas escuras no estofamento que podiam ser qualquer coisa mas provavelmente eram sangue.
Joseph entrou atrás dele. Parou. Olhou pra cadeira.
— Eles ainda usam métodos antigos — ele disse, voz distante. — Pensava que teriam evoluído.
Samuel checou a sala rapidamente. Abriu gavetas. Armários.
— Nada. Está limpa. Limpa demais.
Andrew tocou a cadeira. Sentiu algo. Energia residual. Medo cristalizado. Dor absorvida pelo metal.
— Alguém sofreu aqui. Muito.
Camila na escuta:
— Não fiquem parados. Continuem se movendo.
Saíram. Corredor seguinte.
Mais portas. Mais salas vazias.
Até que Andrew sentiu. Presença. Atrás deles.
Virou rápido.
Dois guardas. Uniformes táticos pretos. Sem armas de fogo — apenas cassetetes eletrificados.
Mas algo estava errado neles. Olhos muito abertos. Respiração pesada. Veias salientes no pescoço.
— Kraken-S — Joseph sussurrou. — Eles já estão potencializados.
Os guardas atacaram.
Velocidade absurda. Inumana. Um segundo estavam a dez metros. No próximo estavam em cima deles.
Andrew bloqueou o cassetete no último segundo. O impacto mandou choque elétrico pelo braço inteiro, fazendo cada músculo se contrair. Doeu. Doeu pra caralho.
Ele contra-atacou instintivamente — soco direto no estômago do guarda. O homem saiu do chão com a força do golpe, voou uns cinco metros pra trás e bateu na parede com força suficiente pra rachar o concreto.
Mas levantou imediatamente, como se nada tivesse acontecido.
Samuel enfrentou o segundo guarda sozinho. O cassetete veio em arco lateral — Leu o movimento do cassetete pelos campos eletromagnéticos — sentidos aguçados dando vantagem — desviou, girou o corpo e acertou chute na lateral do torso. Sentiu costelas quebrando sob o impacto do pé dele.
O guarda gritou de dor mas não caiu. Virou, ignorando as costelas quebradas, e atacou de novo com o cassetete.
Samuel levantou instintivamente um campo eletromagnético ao redor do braço. O cassetete foi desviado por força invisível, a eletricidade dele conflitando com a energia ao redor de Samuel e criando faíscas azuis no ar.
— PAULO, CORRE! — Andrew gritou.
Paulo já estava correndo. Atravessou porta lateral. Sala de servidores. Trancou a porta atrás de si. Mãos tremendo ao abrir o laptop.
Joseph tentou ajudar mas era velho. Fraco. Melhor era não atrapalhar.
A luta continuou. Andrew e Samuel contra dois guardas potencializados. Força contra força. Velocidade contra velocidade.
Andrew acertou o guarda em cheio no rosto com um gancho de direita. Finalmente o cara caiu, nocauteado de verdade.
Samuel concentrou energia nas duas mãos e disparou raios elétricos direto no peito do segundo guarda. O homem convulsionou violentamente, corpo inteiro se debatendo fora de controle, antes de desabar no chão inconsciente.
O silêncio voltou. Só respiração pesada dos dois.
Andrew olhou para as mãos. Estavam machucadas, pele dos nós dos dedos rachada e sangrando.
A voz de Camila:
— Andrew, você está machucado.
— Estou bem.
— Não, você não está. Seus sinais vitais...
— Depois, Cami. Agora não.
Samuel apoiou na parede. Respiração pesada. Olhos ainda brilhando levemente azul.
— Eles eram fortes — Samuel disse, ainda apoiado na parede enquanto tentava normalizar a respiração. — Muito mais fortes que humanos normais.
— Kraken-S — Joseph confirmou, se aproximando dos corpos inconscientes com cuidado. — Amplia força física entre 500 e 900%. Duração de 8 a 12 minutos dependendo do metabolismo. Mas tem custo alto.
Ele se ajoelhou e virou um dos guardas de lado com esforço. O homem ainda estava vivo, respirando irregularmente, mas sangue escorria dos cantos dos olhos. Hemorragia capilar. Efeito colateral do soro.
— Vamos — Andrew disse. — Precisamos descer.
Subsolo 1 — 4h22 da manhã
Encontraram escada de emergência. Porta de metal pesado. Sem tranca — abriu fácil demais.
— Isso está errado — Samuel disse de novo.
— Eu sei — Andrew concordou. — Mas a gente não volta agora.
Desceram em silêncio tenso.
O ambiente mudou completamente assim que entraram no subsolo.
O ar ficou muito mais frio, tipo câmara frigorífica. Cada respiração virava vapor branco na frente do rosto.
A iluminação também era completamente diferente. Nada de branco institucional — aqui era tudo vermelho. Luzes de emergência em modo constante, criando sombras distorcidas e estranhas que faziam tudo parecer mais sinistro.
E o cheiro. Químico e forte, queimando as narinas assim que inalavam.
— Formol — Joseph identificou imediatamente. — Conservante usado em laboratórios. E tem algo mais também. Anestésico. Provavelmente sedativos pesados.
Chegaram finalmente no corredor do subsolo 1. Era bem mais estreito que o de cima, quase claustrofóbico. Portas de metal numeradas de ambos os lados. 101. 102. 103. Continuando.
Paulo voltou a se juntar a eles. Ainda tremendo.
— Consegui entrar no sistema. Mas a arquitetura... cara, é militar. Tipo Pentágono. Nunca vi nada assim.
— Consegue abrir as celas? — Andrew perguntou.
— Consigo. Mas vai disparar alarme.
— Faz.
Paulo digitou. Sequência de comandos. Três tentativas.
As portas clicaram. Todas ao mesmo tempo.
E então veio o som.
Alarme. Alto. Estridente. Luzes vermelhas piscando mais rápido.
— MERDA! — Paulo gritou.
Mas as portas estavam abertas.
Primeira cela — vazia.
Segunda — vazia também.
Terceira — tinha alguém.
Andrew entrou correndo.
Um garoto. Talvez vinte anos. Magro demais. Pálido. Conectado a tubos e fios. Sedado mas acordando com o alarme.
Os olhos abriram. Confusos. Aterrorizados.
Viram Andrew.
E gritaram.
— NÃO! NÃO DE NOVO! POR FAVOR!
Ele pensava que Andrew era um dos torturadores.
— Ei, ei, calma! — Andrew levantou as mãos. — A gente veio te tirar daqui!
Mas o garoto continuou gritando. Tentando se soltar dos tubos. Rasgando a própria pele.
Camila na escuta:
— Ele está em choque. Trauma severo. Precisa de sedação.
— Não temos!
Joseph entrou. Aproximou devagar. Voz suave.
— Filho, olha pra mim. Olha. A gente não vai te machucar. A gente veio te salvar.
O garoto olhou. Reconheceu algo. Humanidade. Sinceridade.
Parou de gritar. Mas continuou tremendo.
Samuel checou outras celas. Mais três prisioneiros. Todos em estados similares. Sedados. Machucados. Traumatizados.
— Não vamos conseguir levar todos — ele disse. — Não temos como.
Andrew sabia. Doía admitir mas era verdade.
Isadora na escuta:
— Marquem localização. Depois que sairmos, chamamos autoridades.
— Autoridades controladas pelo GENOS? — Paulo contestou.
— Então improvisa!
Joseph olhou ao redor. Viu computador na parede. Terminal de acesso.
— Paulo. Consegue acessar registros daqui?
Paulo correu até o terminal. Conectou. Hackeou em dois minutos.
— Consegui. Arquivos de... puta que pariu.
Ele virou o monitor pra eles verem.
Vídeos. Centenas. Organizados por nome de Sujeito.
Samuel se aproximou. Olhos escaneando. Procurando.
E achou.
SUJEITO_07_MICHELI_SESSAO_34.mp4
O coração dele parou.
Clicou.
Tela mostrou Micheli. Numa cadeira igual à que tinham visto lá em cima. Amarrada. Chorando. Implorando.
Dr. Salles apareceu no quadro. Seringa na mão.
Samuel quase socou o monitor.
Andrew segurou ele.
— Ela está viva. Isso significa que ela está viva.
— Mas o que eles fizeram com ela...
— A gente vai tirar ela daqui. Eu prometo.
Samuel respirou fundo. Forçou controle. Afastou da tela.
Joseph tinha ido pra outra sala. Laboratório maior. E o que viu fez ele parar.
Corpos.
Não muitos. Cinco. Cobertos parcialmente. Sobre mesas de autópsia.
Jovens. Todos jovens. Não passavam de vinte e cinco anos.
Implantes ainda conectados. Experimentos que falharam. Pessoas que não sobreviveram.
Joseph caiu de joelhos. Mãos na cabeça.
— Eu ajudei a criar isso. Eu... eu sou responsável...
Andrew entrou. Viu. Sentiu bile subindo.
— Não. Eles são responsáveis. Você foi vítima também.
Mas Joseph não ouvia. Estava desmoronando. Dezoito anos de culpa explodindo de uma vez.
Samuel entrou. Olhou. Rosto virou pedra.
— Vamos acabar com isso. Hoje. Agora.
Subsolo 1, Corredor Principal — 4h31 da manhã
O alarme continuava. Mais alto. Mais urgente.
Paulo no tablet. Freneticamente tentando desativar.
— Não consigo! Sistema está trancando tudo!
E então ouviram.
Som mecânico. Pesado. Metálico. Vindo do fundo do corredor.
THUM. THUM. THUM.
Passos. Mas não humanos. Grandes demais. Pesados demais.
As luzes piscaram.
THUM. THUM. THUM.
Mais perto.
Andrew empurrou todos pra trás.
— Saiam do corredor. AGORA.
Eles se jogaram pra dentro de uma sala lateral. Porta entreaberta. Observando.
E então viram.
Cerberus.
Três metros de altura. Corpo de metal negro e cromado. Duas cabeças — ambas robóticas, olhos vermelhos brilhando. Canhões de plasma montados nos ombros.
Cada passo fazia o chão tremer.
THUM. THUM. THUM.
Passou pelo corredor. Lento. Metodicamente escaneando.
Parou.
Uma das cabeças girou. Diretamente pra porta onde estavam escondidos.
— Ele sabe — Samuel sussurrou.
Cerberus se virou. Completamente. Encarando a porta.
Os canhões começaram a brilhar. Azul elétrico. Carregando.
— CORRAM! — Andrew gritou.
Disparou.
A parede inteira evaporou.
Explosão de plasma puro. Calor absurdo. Concreto virando vapor. Metal derretendo.
Andrew foi pego pela onda de choque. Arremessado como boneco. Bateu na parede oposta. Afundou o concreto. Caiu.
Samuel se jogou pra frente. Olhos acenderam azul. Veias brilhando. Disparou raio de eletricidade.
Acertou Cerberus no peito.
A criatura nem vacilou.
Avançou. Garra mecânica pegou Samuel pela garganta. Levantou. Começou a apertar.
Samuel tentou disparar outro raio. Mas estava sendo esmagado. Não conseguia concentrar.
Joseph, desesperado, ativou o dispositivo de interferência neural.
Frequência máxima. Sem testes. Sem preparo.
O pulso saiu. Invisível mas sentido.
Cerberus vacilou. Só meio segundo. Sistema confuso.
Soltou Samuel. Ele caiu. Tossindo. Pescoço marcado.
Mas o dispositivo começou a superaquecer. Fumaça saindo. Joseph desligou antes que explodisse.
— Não aguenta! Preciso de tempo pra recalibrar!
Andrew se levantou. Tonto. Sangrando da testa. Primeira vez que sangrava de verdade depois do combate com Léo.
Cerberus se virou pra ele.
Os dois se encararam.
— Vem — Andrew disse. — Vem, seu filho da puta.
Cerberus aceitou o convite.
Subsolo 1, Combate — 4h34 da manhã
A luta foi absolutamente brutal.
Cerberus atacou primeiro com força mecânica implacável. O soco veio rápido demais pra algo tão grande — poderia ter atravessado uma parede de concreto sem nem desacelerar.
Andrew conseguiu bloquear no último instante. O impacto foi tão forte que quebrou o chão de cimento sob os pés dele, criando uma cratera pequena. Ele sentiu a força nos ossos, reverberando pelo corpo inteiro. Doeu pra caralho, mesmo com sua invulnerabilidade.
Ele contra-atacou imediatamente. Soco com tudo no torso metálico de Cerberus. O impacto amassou o metal, deixando marca funda em formato de punho. Mas não foi suficiente pra derrubar a máquina.
Cerberus disparou o canhão de plasma praticamente encostado em Andrew. Ele desviou por puro instinto, se jogando pro lado — quase não conseguiu. A rajada de plasma passou raspando tão perto que queimou completamente a manga da roupa e deixou marca de queimadura na pele do braço.
Ele era invulnerável, mas isso tinha limites, e ele estava descobrindo esses limites, então tentava se preservar. Samuel voltou pra luta mesmo ainda tossindo e com a garganta machucada, mas funcionando. Disparou vários raios de eletricidade em sequência rápida, um atrás do outro, mirando pontos diferentes.
Alguns acertaram em cheio. Os sistemas de Cerberus piscaram e falharam por segundos, interferência eletrônica causando micro-paralisias nos circuitos.
Paulo tentou ajudar do jeito que sabia. Correu até um terminal de acesso próximo e conectou o tablet com mãos trêmulas. Começou a digitar freneticamente.
— Tem que ter... tem que ter algum backdoor no sistema dele...
Dedos voando sobre o teclado virtual. Suor escorrendo pela testa.
Joseph trabalhava no dispositivo de interferência com desespero controlado. Recalibrando frequências. Tentando estabilizar o sistema antes que queimasse completamente.
A batalha continuou violenta. Andrew e Samuel dando tudo que tinham contra uma máquina de guerra que parecia indestrutível.
E Cerberus estava vencendo.
E então Paulo gritou:
— ACHEI!
Ele disparou vírus direto no sistema de Cerberus. Código malicioso invadindo.
Cerberus travou. Congelou. Sistemas em conflito.
— Agora! — Paulo gritou. — Não vai durar!
Andrew concentrou todo o poder que tinha. Máximo absoluto. Os olhos começaram a brilhar num verde tão intenso que iluminava tudo ao redor.
Raio concussivo do olhos. Toda a energia que conseguia canalizar. Mirou direto no peito já amassado de Cerberus.
A explosão de energia foi devastadora. Criou uma cratera profunda no chão de concreto. A onda de choque quebrou todas as lâmpadas num raio de dez metros. Paredes racharam e soltaram pedaços. Poeira e destroços voaram pra todo lado.
Cerberus foi arremessado pra trás. Caiu pesado. CRASH ensurdecedor de metal contra concreto.
Silêncio absoluto depois da tempestade.
Só fumaça subindo. Poeira no ar. Cheiro acre de eletrônica queimada e concreto pulverizado.
Andrew caiu de joelhos, completamente exausto. Era a primeira vez que tinha usado tanto poder de uma vez só. Sentia como se tivessem drenado toda a energia do corpo dele.
Samuel cambaleou e se apoiou na parede, deslizando até sentar no chão. Tinha queimaduras leves mas visíveis nos braços, nos pontos exatos de onde os raios elétricos tinham saído.
Paulo simplesmente desabou onde estava. As mãos tremiam tão forte que ele mal conseguia segurá-las. Tinha funcionado. O hack tinha realmente funcionado.
Joseph checou o dispositivo com mãos igualmente trêmulas. Ainda estava funcionando. Milagrosamente não tinha fritado.
— A gente... a gente conseguiu — Paulo disse, incrédulo.
Mas então a parede explodiu.
Não Cerberus. Explosão controlada. Precisão cirúrgica.
Abertura pro subsolo 2 revelada.
E no escuro, olhos vermelhos brilhando.
Separação — 4h38 da manhã
Andrew se levantou. Olhou pela abertura.
Corredor do subsolo 2. Mais escuro. Mais profundo.
— Eles abriram pra gente — Samuel disse. — Querem que a gente desça.
— Eu sei. — Andrew olhou pros outros. — Armadilha óbvia.
— Mas Kira está lá embaixo — Joseph lembrou. — Léo. Micheli. Todos.
Decisão impossível.
Andrew tomou.
— Eu e Samuel descemos. Vocês dois ficam. Libertam quem puderem aqui. Se a gente não voltar em quinze minutos, saiam.
— Andrew... — Paulo começou.
— Não é discussão.
Joseph ia protestar. Mas entendeu. Ele era velho. Fraco. Seria peso morto lá embaixo.
— Cuidado — foi tudo que conseguiu dizer.
Andrew e Samuel entraram pela abertura. Desceram escada improvisada. Desapareceram no escuro.
Joseph e Paulo ficaram pra trás, já começando a trabalhar.
Foram de cela em cela, checando cada prisioneiro, marcando posições no mapa improvisado de Paulo. Chamando coordenadas pro comunicador, com Isadora anotando tudo do outro lado.
Por alguns minutos, tudo parecia estar funcionando perfeitamente. O plano estava dando certo.
E então.
As portas se fecharam.
Todas. Ao mesmo tempo. Um barulho metálico ensurdecedor ecoando pelo corredor inteiro.
Trancas eletrônicas ativadas. Luzes vermelhas acendendo em cada fechadura.
Paulo correu até a porta mais próxima e conectou o tablet freneticamente. Tentou hackear, usando todos os truques que conhecia.
Nada funcionou.
— Não... não consigo abrir! — A voz dele saiu em pânico. — Sistema não responde! É como se...
Joseph tentou força bruta. Empurrou. Chutou. Socou o metal com toda força que tinha nos braços velhos.
Não adiantou nada. As portas eram reforçadas demais.
Estavam completamente presos.
O comunicador no ouvido de Paulo crepitou. Interferência forte. Chiado agudo.
A voz de Isadora chegou cortada, desesperada:
— Paulo?! Joseph?! Respondam! O que está...
Estática.
Silêncio morto.
Comunicação tinha caído completamente.
No subsolo 2, Andrew e Samuel continuaram avançando. Sem saber.
Até que pararam.
Sentindo. Presença.
Não estavam sozinhos.
Subsolo 2 — 4h41 da manhã
O corredor do subsolo 2 era completamente diferente de tudo que tinham visto até agora.
Liso. Sem uma porta sequer. Apenas paredes negras e perfeitamente polidas, refletindo tudo como espelho escuro.
O silêncio era absoluto e antinatural. Nem som de ventilação. Nem vibração de maquinário. Nada. Como se estivessem dentro de um vácuo.
Andrew e Samuel avançaram devagar, lado a lado, guardas completamente levantadas. Cada passo ecoava de forma estranha.
E então a voz veio.
Calma. Extremamente controlada. Vindo de todos os lugares ao mesmo tempo, como se as próprias paredes estivessem falando.
— Vocês realmente acreditaram que isso não era uma armadilha?
Os dois pararam instantaneamente.
As luzes acenderam de repente. Todas de uma vez. Brancas e ofuscantes, fazendo os dois fecharem os olhos por reflexo.
E quando abriram de novo e conseguiram focar...
No fim do corredor, saindo literalmente das sombras como se fosse feito delas, estava Spectro.
Ele era... impossível de descrever completamente. Como se a própria luz se recusasse a tocá-lo direito, sendo absorvida ou distorcida antes de revelar detalhes. Silhueta vagamente humanoide mas claramente errada. Alto — devia ter uns dois metros e dez. O corpo coberto por algo que não dava pra dizer se era armadura ou pele orgânica. Negro. Brilhante. Viscoso.
E os olhos.
Vermelhos como brasas. Brilhando com luz própria e constante. Sem pupilas. Sem íris. Sem nada que lembrasse humanidade.
Spectro começou a caminhar na direção deles. Os passos eram completamente silenciosos apesar do tamanho impressionante.
— Sujeito Zero. — Spectro olhou diretamente pra Andrew, aqueles olhos vermelhos impossíveis fixando nele. — Finalmente nos encontramos face a face. Estava esperando por este momento.
Andrew não respondeu. Apenas se colocou em posição de combate, músculos tensos e prontos.
Spectro continuou falando, a voz saindo distorcida e eletrônica mas carregada de emoção clara. Diversão. Ele estava se divertindo com isso.
— E Sujeito 06. Samuel da Luz. — Virou a atenção pro outro. — O único que conseguiu remover os próprios implantes sem morrer no processo. Impressionante. Doloroso, imagino. Mas genuinamente impressionante.
Samuel cerrou os punhos com força. Os olhos dele começaram a brilhar azul, poder se acumulando.
Spectro parou a exatos dez metros de distância deles. Postura relaxada, quase casual.
— Vocês lutaram muito bem até aqui. Cerberus. Os guardas potencializados. Realmente muito bem. Mas agora...
Ele abriu os braços lentamente num gesto teatral.
Outras luzes acenderam ao redor, revelando o que estava escondido.
Guardas. Vinte deles pelo menos. Todos com aquela postura rígida e olhos vidrados que indicavam Kraken-S ativo. Cercando completamente a sala.
E nas câmaras de observação suspensas acima, visíveis através de vidros grossos, estavam os prisioneiros. Kira inconsciente numa cápsula. Léo na cela ao lado. Micheli duas câmaras adiante. Thiago, Bruno, Carla. Todos ali. Todos inconscientes. Todos perfeitamente visíveis.
Isca absolutamente perfeita.
Spectro sorriu. Era impossível ver boca naquela face distorcida, mas o sorriso estava claro na voz, no tom, na postura.
— Bem-vindos ao GENOS, cavalheiros.
Andrew olhou rapidamente ao redor. Avaliou a situação em segundos. Cercados por todos os lados. Sem saída visível. Sem comunicação funcionando. Paulo e Joseph presos em outro andar.
A armadilha tinha fechado completamente. Perfeitamente. Eles tinham caído direitinho.
Ele trocou um olhar rápido com Samuel. Samuel olhou de volta com a mesma compreensão.
Não precisaram falar em voz alta. Ambos entenderam perfeitamente.
Iam lutar. Até o último suspiro. Até não conseguirem mais se levantar. Porque não existia outra opção.
Spectro fez um gesto casual e quase entediado com a mão.
— Capturem-nos. Vivos se possível, para continuar os experimentos. Mas não é um requisito obrigatório.
Os vinte guardas avançaram em sincronia perfeita.
E a verdadeira batalha, a impossível, começou.
FIM DO CAPÍTULO 13
PRÓXIMO CAPÍTULO: LINHA TÊNUE