Escolhas
T2/E19
T2/E19
Galpão Secundário, Zona Norte – Ambulatório Improvisado – 00h42
O silêncio no galpão não era o de um refúgio, mas o de uma antecâmara de hospital de guerra. O ar ali dentro parecia mais denso, saturado pelo cheiro metálico de sangue seco, o odor pungente de antissépticos que Ana Clara trouxera da universidade e aquele cheiro ozonizado que Andrew aprendera a associar ao uso constante de poderes. As lâmpadas fluorescentes no teto alto oscilavam, emitindo um zumbido elétrico intermitente que parecia vibrar diretamente nos dentes de Andrew, um lembrete constante da precariedade daquele lugar.
Andrew estava encostado numa viga de ferro fria, observando as sombras projetadas nas paredes de concreto descascado. Ele sentia o peso do olhar de Samuel ao seu lado, ambos imóveis como gárgulas. Diante deles, o cenário era desolador. Thiago, Bruno e Carla ocupavam macas metálicas que rangiam a cada respiração mais profunda. Eles não pareciam os sujeitos experimentais temidos pela GENOS; pareciam apenas jovens cujas almas tinham sido moídas por uma engrenagem maior do que podiam suportar.
Ana Clara movia-se entre as macas com uma seriedade que envelhecia seu rosto jovem. Ao seu lado, Camila organizava gazes e soros com movimentos mecânicos, os lábios apertados numa linha fina que denunciava sua tensão.
— Eles estão prontos — anunciou Ana Clara. Sua voz, embora baixa, cortou o zumbido das lâmpadas como um bisturi.
Ela parou diante de Thiago. O rapaz tinha os olhos fixos no teto, as pupilas dilatadas e as veias do pescoço pulsando com um ritmo irregular, quase frenético. Andrew percebeu que o poder de Thiago estava a tentar escapar, uma pressão interna que o consumia.
— O que a GENOS fez... a instabilidade, essa dor constante que vocês sentem quando tentam simplesmente existir... eu posso encerrar isso hoje — começou Ana, olhando para os três. — Com a minha biocinese, eu consigo reescrever o que foi forçado. Posso identificar cada sequência genética sintética, cada partícula de metal que fundiram aos seus sistemas, e expelir tudo.
Thiago virou o rosto para ela. Havia um medo ancestral em seus olhos, mas também uma esperança tão desesperada que chegava a ser dolorosa de observar. Andrew sentiu um nó na garganta. Ele pensou na sua própria vida antes do acidente, na simplicidade de ser apenas um estudante. Ele entendia o que Thiago buscava.
— Você pode nos fazer voltar ao que éramos? — a voz de Thiago saiu rouca, como se suas cordas vocais estivessem arranhadas por dentro.
— Sim — confirmou Ana Clara, aproximando as mãos do peito dele. — Mas preciso que compreendam a gravidade disto. Não é um tratamento. É uma purificação definitiva. Uma vez que eu silencie o gene desperto e remova a interface biológica, vocês nunca mais manifestarão nada. Serão humanos comuns. Vulneráveis. Sem a força ou os reflexos que a GENOS deu. Estarão desprotegidos num mundo que está prestes a tornar-se um campo de batalha.
O silêncio que se seguiu foi absoluto. Andrew viu Carla fechar os punhos sobre o lençol da maca. Ela era uma combatente nata, mas o preço daquela força era alto demais.
— Eu não quero mais ser uma arma — sussurrou Carla, a voz trêmula. — Eu quero poder tocar em alguém sem medo de o ferir. Sinto falta de não ouvir o meu próprio sangue a ferver. Por favor, Ana. Tire isto de mim. Se ser livre significa ser frágil, eu aceito o risco.
Thiago assentiu, olhando para Bruno, que apenas fechou os olhos em concordância silenciosa.
— Façam — disse Thiago com uma clareza que surpreendeu Andrew. — Eu quero poder caminhar na rua sem ser o "Sujeito Experimental". Quero poder envelhecer. Quero ser ninguém novamente.
Ana Clara respirou fundo e fechou os olhos, canalizando a energia que fluía do seu núcleo. As suas mãos começaram a emanar uma pulsação translúcida, um brilho verde-água que parecia fazer as partículas de poeira no ar dançarem num ritmo hipnótico. Quando ela tocou o peito de Thiago, Andrew viu a pele do rapaz ondular como a superfície de um lago atingida por uma pedra.
Andrew observou, hipnotizado, a manifestação da Biocinese. Não era um processo limpo. Pequenos fragmentos metálicos — rastreadores subdérmicos, inibidores de frequência e sensores de pulso — começaram a emergir através dos poros de Thiago, empurrados por uma força celular irresistível. Os fragmentos de liga de titânio caíam no chão de cimento com estalidos secos, tin-tin-tin, enquanto Ana regenerava as microlesões no instante em que o metal saía, não deixando sequer uma cicatriz para contar a história.
O suor escorria pelo rosto de Ana Clara enquanto ela passava para Bruno e depois para Carla. O esforço era imenso; ela estava desatando nós genéticos que tinham sido dados por dezenas de cientistas ao longo de anos. Andrew sentia o vácuo de poder que se formava à medida que cada um deles era "limpo". A aura de tensão que sempre os envolvera desmoronou, substituída por uma fragilidade humana que era, ao mesmo tempo, bela e aterradora.
— Está feito — murmurou Ana, afastando-se, visivelmente exausta. — Vocês são vocês mesmos outra vez.
Andrew deu um passo à frente, sentindo a ausência daquela vibração elétrica que emanava dos companheiros. Thiago respirava agora com uma calma que Andrew não via desde que se conheceram. Eles tinham escolhido o caminho da normalidade.
Andrew sentiu uma pontada de inveja, mas logo a sufocou. Ele sabia que alguém teria de carregar o fardo para que pessoas como Thiago pudessem ter o luxo de serem "ninguém". Ele olhou para as próprias mãos, onde a energia esmeralda ainda pulsava, latente e poderosa.
No entanto, a quietude do momento foi interrompida. Marcelo, o velocista, deu um passo à frente, saindo da penumbra do fundo do galpão. Os seus olhos brilhavam com uma intensidade febril e as suas mãos tremiam numa frequência tão alta que pareciam estar em dois lugares ao mesmo tempo.
— Agora — disse Marcelo, a voz vibrando com uma urgência maníaca — é a minha vez. Eu quero a cura, Ana. Mas não quero que retire os poderes. Será que você pode?
O pedido de Marcelo pairou no ar, mudando o clima da sala de uma melancolia de despedida para uma tensão de guerra iminente.
Galpão Secundário – Ambulatório improvisado – 01h02
Ana Clara encarou Marcelo por um longo tempo, as mãos ainda trémulas pelo esforço da cura anterior. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som rítmico e frenético das mãos do velocista vibrando contra as coxas, um som que lembrava o zumbido de um inseto preso num vidro. Ele parecia uma corda de violino esticada ao ponto de ruptura, como se a sua própria existência estivesse a tentar descolar-se do chão.
— Você quer a estabilização — deduziu Ana, a voz calma, mas carregada de uma cautela profissional. — Quer que eu remova as travas biológicas e os implantes de metal, mas que deixe a estrutura genética intacta. Marcelo, se eu fizer isso, não haverá mais nada que segure a tua velocidade. Nem mesmo o teu próprio cérebro pode estar pronto para o processamento de dados que virá depois. Pode perder a noção do tempo linear.
Marcelo deu um sorriso nervoso, seco, enquanto uma gota de suor escorria pela sua têmpora, apenas para ser vaporizada pela fricção estática que o seu corpo emanava.
— Eu nunca estive pronto para ser um experimento, Ana. Mas se vou lutar esta guerra, não quero lutar contra o meu próprio corpo. Sinto esses implantes na base do meu crânio como pregos enferrujados toda a vez que corro. Eles enviam choques para o meu sistema para me impedir de ultrapassar o limite que a GENOS estabeleceu. Quero que o poder flua como ele deveria.
Ana Clara assentiu e indicou a maca ainda quente pelo procedimento anterior. Assim que Marcelo se deitou, a atmosfera no galpão pareceu mudar fisicamente. O ar ao redor dele começou a aquecer devido à fricção molecular, e um cheiro de ozônio, semelhante ao que precede uma tempestade de raios, tornou-se sufocante. Quando Ana posicionou as mãos sobre as têmporas e o peito dele, sentiu um turbilhão. Era como tentar segurar um furacão com as mãos nuas; a energia dele era uma força bruta que exigia liberdade.
Ela fechou os olhos, mergulhando na arquitetura celular de Marcelo com a sua Biocinese. Ela viu os inibidores químicos agindo como represas de chumbo nas suas sinapses e, mais profundamente, os dispositivos de liga de tungsténio cravados nas vértebras cervicais. Eram ganchos cruéis projetados para limitar os impulsos elétricos dos nervos. Com um comando mental absoluto, Ana iniciou a purificação.
O corpo de Marcelo teve um espasmo violento, arqueando-se da maca. Diferente de Thiago, os metais nele não apenas saíram; foram expelidos com uma força tal que se cravaram no teto de zinco do galpão como projéteis de alta velocidade, produzindo sons de impacto metálico: PUM! PUM! PUM!. Marcelo soltou um grito gutural, mas o som saiu acelerado, agudo, como uma gravação sendo reproduzida em velocidade máxima. Ana Clara rapidamente regenerou os danos nos nervos cervicais, mas o que aconteceu em seguida desafiou as leis da física que Andrew conhecia.
Marcelo não se levantou da maca; ele simplesmente estava de pé ao lado dela. Não houve um deslocamento visível, apenas um borrão. Ele parecia estar em vários lugares ao mesmo tempo, a sua silhueta tremeluzindo como uma imagem holográfica com defeito.
— Marcelo? — Andrew deu um passo à frente, a mão estendida num gesto de preocupação.
No momento em que Andrew tentou tocar o ombro do amigo, uma onda de choque invisível e estática repeliu a sua mão com uma força brutal. Marcelo estava envolvido por uma aura protetora cinética, um campo de força natural gerado pela vibração frenética das suas moléculas. Ele não era mais apenas um homem que corria rápido; ele era um fenómeno físico, um ponto de ruptura no espaço-tempo.
— Eu... eu consigo ver o tempo — sussurrou Marcelo. A sua voz não tremia mais; ela ressoava com uma autoridade vibrante. — As lâmpadas... eu vejo cada oscilação da corrente elétrica nelas. Vejo os batimentos cardíacos de todos vocês como se fossem movimentos em câmara lenta. Tudo está tão... devagar.
Ele deu um passo em direção a um armário de metal pesado. Por um milissegundo, o seu corpo ficou translúcido, vibrando numa frequência que harmonizou com a densidade do objeto. Ele atravessou o metal sólido como se fosse fumaça, reaparecendo do outro lado intacto. A intangibilidade. Ele era agora intocável, uma arma que nenhuma bala ou barreira poderia deter.
— A minha vez — a voz de Marcus surgiu, pesada e grave, vinda do canto escuro onde ele observava a cena com os braços cruzados sobre o peito.
Marcus caminhou até Ana Clara com uma dignidade melancólica. Havia uma dor profunda no seu olhar, o cansaço existencial de quem já tinha "morrido" centenas de vezes através das suas cópias descartáveis. Para a GENOS, ele era um recurso tático infinito; para si mesmo, ele era uma alma fragmentada. Cada vez que ele se multiplicava, o esforço drenava a sua vitalidade, e a dor da divisão celular era um trauma que ele carregava gravado no sistema nervoso.
— Eu não quero voltar a ser normal, Ana — disse Marcus, parando diante dela, a sua presença ocupando o espaço com uma solidez imponente. — Mas eu não aguento mais a agonia da divisão. Cada cópia que faço é como se estivesse arrancndo um pedaço do meu próprio coração, uma parte da minha consciência que se perde. E quando elas morrem no campo de batalha... eu sinto cada golpe, cada osso partido, cada último suspiro. Eu preciso que consertes isso. Eu preciso ser capaz de lutar sem me destruir a cada segundo.
Ana Clara tocou os ombros de Marcus. Ela sentiu sob a pele as cicatrizes invisíveis de mil divisões imperfeitas, os nós de stresse biológico que a GENOS ignorara. Ela começou a trabalhar, realinhando as cadeias de aminoácidos com uma precisão microscópica, fortalecendo a conexão sináptica entre a mente original e a consciência das cópias. Ela estava criando uma rede neural única e indestrutível.
Marcus fechou os olhos, soltando um longo suspiro enquanto a Biocinese de Ana removia o "travão" de dor. Assim como aconteceu com os outros, pequenos fragmentos metálicos de rastreio começaram a ser expelidos, caindo no chão com o som de moedas antigas. As cicatrizes de combates passados que marcavam os seus braços e rosto simplesmente desapareceram, a pele regenerando-se para um estado de perfeição atlética.
— Tenta agora — incentivou Ana, limpando o suor que ardia nos seus próprios olhos.
Marcus deu um passo para trás. Sem o suor frio de agonia, sem o tremor de náusea que costumava preceder o seu poder, ele dividiu-se. Foi um movimento fluido, quase poético, como uma sombra que se descola de outra num dia de sol forte. Dois. Quatro. Oito. Dezasseis. Em poucos segundos, um pequeno exército de Marcus preenchia o centro do galpão. Todos tinham a mesma postura firme, o mesmo olhar afiado e uma vitalidade que parecia renovada.
— Não há mais dor — disseram as dezesseis vozes em uníssono, um coro perfeito e absoluto que fez as vigas do galpão tremerem. — Agora, Spectro vai descobrir o que acontece quando um exército tem uma única vontade. E nenhuma fraqueza.
Andrew observava a cena, sentindo o ar carregar-se de uma eletricidade nova e perigosa. O equilíbrio de poder tinha mudado definitivamente naquele ambulatório improvisado. Eles não eram mais ratos de laboratório fugindo de um gato gigante. Eram os predadores. E Andrew percebeu, com um aperto no coração, que a guerra que se seguia não teria espaço para misericórdia.
Galpão Secundário, Zona Norte – Ambulatório improvisado – 01h45
Joseph se aproximou da maca com passos hesitantes, quase arrastando os pés. De todos ali, ele era o que parecia mais fisicamente destruído, uma sombra do homem que um dia fora. Seus ombros estavam caídos e o tremor constante nas suas mãos não parecia o tipo de vibração elétrica que Marcelo demonstrava; era um espasmo de puro trauma, um resquício do acidente nuclear que ele carregava como uma maldição.
Para Andrew e o restante do grupo, Joseph era apenas mais uma vítima da crueldade cirúrgica do Dr. Salles. Alguém que foi usado como bucha de canhão e cobaia sem nunca ter manifestado qualquer habilidade especial que justificasse tanto sofrimento.
— Ana... — a voz de Joseph falhou, seca como areia. Ele se sentou na borda da maca, olhando para as próprias mãos que não paravam de balançar. — Eu só quero que esse barulho pare. Sinto como se tivesse uma tempestade dentro de mim o tempo todo, e esses remédios e metais que a GENOS me deu só fazem a pressão aumentar. Eu não sou um soldado. Só quero ser um homem normal de novo.
Ana Clara limpou o suor da testa com o antebraço e sorriu com aquela doçura firme que só quem veio do Ceará tem.
— Deita aí, Joseph. Vamos dar um jeito nisso agora — disse ela, com um tom de voz que não aceitava discussões.
Assim que ela posicionou as mãos sobre o peito e as têmporas dele, a expressão de Ana mudou. Não foi um alívio imediato. O corpo de Joseph emanava um calor seco, quase radioativo, que fazia as mãos de Ana formigarem. Quando a biocinese dela penetrou nos tecidos, ela não encontrou apenas o emaranhado de metais e cicatrizes que vira nos outros civis. Ela encontrou algo muito mais sombrio.
— Meu Deus... — sussurrou ela, os olhos arregalados.
— O que foi, Ana? — Andrew deu um passo à frente, sentindo a mudança na energia da sala.
— Ele não é "normal", Andrew. A GENOS instalou inibidores de frequência muito mais potentes nele do que em qualquer outro. Estão bloqueando os canais neurais dele à força. É como se tivessem colocado uma rolha num vulcão pronto para explodir.
Com um esforço de vontade, Ana Clara ordenou que as células de Joseph expulsassem os invasores. O processo foi violento. Diferente da cura silenciosa de Thiago, o corpo de Joseph reagiu com espasmos brutais. Fragmentos de chumbo e titânio, que estavam alojados perigosamente perto da coluna vertebral, foram expelidos e caíram no chão de cimento com um som metálico oco. As cicatrizes cirúrgicas no abdômen e no pescoço sumiram em segundos, mas o alívio não veio na forma de paz. Veio na forma de caos.
No instante em que o último inibidor deixou o corpo de Joseph, o ar ao redor dele simplesmente implodiu.
Houve um estalo seco, um vácuo súbito que fez os ouvidos de todos estalarem. Joseph desapareceu da maca como se nunca tivesse estado ali.
— Cadê ele?! — gritou Samuel, olhando freneticamente para todos os lados.
Um segundo depois, outro estalo ecoou no fundo do galpão, perto de uma pilha de caixotes velhos a uns trinta metros de distância. Joseph reapareceu lá, caindo de joelhos, parecendo absolutamente aterrorizado. Antes que ele pudesse entender o que estava acontecendo, sentiu uma pressão insuportável atrás dos olhos.
Ele olhou instintivamente para cima, para uma viga de aço que sustentava o telhado. De suas pupilas, dispararam dois feixes de energia verde-esmeralda pura, idênticos aos de Andrew. O metal da viga não apenas esquentou; ele foi retorcido e perfurado instantaneamente pelo impacto concussivo.
Houve um terceiro estalo e, num piscar de olhos, Joseph estava de volta à maca, ofegante, com os olhos brilhando num verde vivo que iluminava o rosto de Ana Clara.
— Pai... você... você é um de nós — Andrew disse, a voz carregada de choque, olhando para o pai como se o visse pela primeira vez.
— Eu não sabia — sussurrou Joseph, tocando o próprio rosto com incredulidade, as mãos finalmente paradas. — Eu achei que eles só tinham me usado como teste... achei que eu era um erro da ciência deles, algo que não deu certo.
Luíza, que até então observava tudo com o coração na mão, aproximou-se lentamente. Ela se ajoelhou ao lado da maca e segurou o rosto de Joseph com as duas mãos, obrigando-o a olhar para ela. Havia lágrimas nos olhos dela, mas também um orgulho que Joseph nunca tinha visto.
— Eles não erraram com você, Joseph — disse Luíza, com a voz firme, embora embargada. — Eles só te trancaram tão fundo que nem você mesmo conseguia se achar. Mas você está aqui agora. Nós estamos aqui.
Joseph encostou a testa na dela, deixando escapar um suspiro que parecia carregar anos de angústia acumulada. Andrew observava os pais, sentindo o peso daquela linhagem que agora se revelava por completo.
Kira e Léo observavam de longe. Kira estreitou os olhos, processando a nova informação. Joseph agora era uma peça imprevisível no tabuleiro: Teleporte e ataque à distância. O arsenal deles acabava de ganhar um reforço de peso.
Andrew desviou o olhar de Joseph por um momento e observou Léo e Kira, que estavam um pouco mais afastados, próximos às sombras das colunas de sustentação. Ambos já haviam passado pelo processo de estabilização de Ana Clara, e a mudança neles era profunda, embora de formas diferentes.
Léo parecia mais denso, como se sua estrutura óssea e muscular tivesse ganhado uma nova qualidade de matéria. O que mais impressionava Andrew, no entanto, era a ausência das asas que antes o marcavam. Agora, as costas de Léo estavam cobertas apenas pelo tecido tenso de sua camiseta, mas Andrew conseguia sentir a energia pulsando ali.
A mutação de Léo havia se tornado retrátil e perfeitamente integrada; as asas não eram mais membros externos permanentes que o atrapalhavam, mas sim uma extensão biomecânica que ele podia manifestar ou recolher à vontade, fundindo-as à sua própria coluna vertebral em segundos. Ele parecia um homem comum, um atleta de elite no auge da forma, mas Andrew sabia que ali residia um colosso aéreo. Se Léo quisesse, em um piscar de olhos, aquela carne se transformaria, as asas rasgariam o ar e ele se tornaria um projétil de força brutal e velocidade devastadora, capaz de atravessar blindagens como se fossem papel.
Ao lado dele, Kira mantinha a postura de quem está sempre pronta para o abate. Se Léo era o poder de impacto, ela era o controle absoluto da energia. Andrew sentia a ressonância dela; com os genes estabilizados, o potencial de Kira atingira um nível que o fazia manter a guarda alta. Ele percebeu que ela era, provavelmente, a única ali que poderia encará-lo de igual para igual se o combate exigisse o máximo de ambos.
Kira percebeu a análise de Andrew e apenas inclinou a cabeça, reconhecendo o novo arsenal humano que agora tinham à disposição. O "tabuleiro", como ela gostava de dizer, agora tinha peças que a GENOS não seria capaz de prever.
Ana Clara se afastou da maca onde Joseph estava, visivelmente exausta, e olhou para Andrew e Samuel. Eles eram os últimos.
— E vocês dois? — perguntou ela, a voz um pouco mais fraca. — Eu posso fazer o mesmo. Posso remover os danos, estabilizar o metabolismo e garantir que a GENOS nunca mais consiga usar nenhum "gatilho" biológico para controlar vocês. Ou... posso tentar a cura total. Como o Thiago.
Samuel foi o primeiro a responder. Ele deu um passo à frente, mas não em direção à maca. Seus olhos estavam fixos na escuridão, onde ele ainda podia sentir o eco da presença de Micheli.
— Não — disse Samuel, com uma frieza que fez Andrew estremecer. — Eu não quero ser curado, Ana. Essa ligação que eu tenho com a Micheli, a dor que eu sinto quando ela sofre... é a única coisa que me mantém focado. Se você tirar isso de mim, eu viro um civil. E eu não posso me dar ao luxo de ser um civil enquanto ela ainda estiver presa naquele lugar. Eu fico como estou. Até o fim.
Andrew sentiu o peso da decisão de Samuel e olhou para as próprias mãos. Ele sentia a energia verde pulsando sob a pele, uma força que ele não pedira, mas que agora o definia. Ele pensou no acidente nuclear vivido por seus pais, na sua vida antes de tudo aquilo e no que ele representava para a GENOS. Ele não era uma criação deles; era o original, o padrão que eles tentavam copiar e que nunca conseguiriam igualar.
— Eu também não, Ana — Andrew declarou, atraindo o olhar de todo o grupo. — Se eu abrir mão disso agora, se eu tentar ser um cara normal... eu estaria abandonando a única ferramenta que possuo capaz de garantir que o Spectro nunca mais faça isso com ninguém. Não vou deixar vocês irem para essa guerra sozinhos enquanto eu me escondo numa vida normal. Eu vou carregar esse fardo até a GENOS virar cinzas.
Ao lado dele, Paulo, seu melhor amigo desde a quinta série, trocou um olhar significativo com Isadora. Paulo conhecia Andrew desde a época em que o maior desafio deles era passar de ano ou não ser pego matando aula na escola. Ele viu o amigo se transformar de um universitário comum em um alvo internacional, e embora o medo estivesse estampado em seu rosto, a lealdade falava mais alto.
— Cara... — Paulo começou, dando um passo à frente e colocando a mão no ombro de Andrew. — Você sabe que eu acho essa ideia de carregar o mundo nas costas uma loucura completa. Se dependesse de mim, a gente estaria agora bem longe de São Paulo. Mas eu te conheço. Sei que você não conseguiria dormir um minuto se desse as costas para o que está acontecendo. Se essa é a sua escolha, eu estou contigo. Como sempre foi.
Isadora aproximou-se pelo outro lado, segurando a mão de Andrew. O toque dela era o único que conseguia acalmar a estática esmeralda que às vezes parecia queimar sob a pele dele. Ela olhou nos olhos dele, buscando o homem que amava por trás do brilho intenso do poder.
— Eu não concordo com o fato de você ter que se sacrificar assim, Andrew — disse ela, com uma sinceridade que cortava o ar. — Mas eu entendo por que você está fazendo isso. E eu apoio. Não porque eu queira essa guerra, mas porque eu acredito em você. Se esse é o único jeito de parar o Spectro, então vamos fazer isso juntos.
Andrew sentiu o nó na garganta diminuir. O apoio de Paulo e Isadora era o que o mantinha ancorado à sua própria humanidade. Ele não era apenas uma arma; ele era um homem com raízes, e era por essas raízes que ele lutaria.
Ana Clara assentiu. Não havia julgamento no olhar dela, apenas o respeito de quem entende que alguns sacrifícios não são feitos por escolha, mas por destino. O grupo estava redefinido. Não eram mais apenas sobreviventes tentando escapar; eram uma força de elite, prontos para o confronto final.
Sede da GENOS, São Paulo – Nível Administrativo – 03h12
O Dr. Salles sempre se viu como um homem de ordem, um arquiteto da evolução humana escondido em um bunker de luxo. No topo da hierarquia da GENOS, cercado por paredes de vidro blindado que refletiam as luzes distantes de uma São Paulo indiferente e adormecida, ele se sentia o senhor do destino. O laboratório central era o seu santuário: um espaço de luz azulada e asséptica, onde o único som era o zumbido quase inaudível dos servidores de última geração e o cheiro persistente de ozônio.
Diante dele, painéis holográficos flutuavam, exibindo o que ele considerava sua obra-prima. Fluxos de dados biométricos de Micheli subiam em colunas intermináveis. Ele monitorava a frequência neural dela, a integração sináptica com o Núcleo Central e o status das tropas da Tentáculos.
Salles ajustou o jaleco branco, impecavelmente passado. Ele estava calmo. Para ele, o caos causado por Andrew e os outros não passava de um "ruído estatístico", um teste de estresse necessário para calibrar seus novos sistemas.
— Magnífico — murmurou ele para as telas, um brilho de vaidade nos olhos gélidos. — A integração está em 98%. Ela não é mais apenas uma cobaia. Ela se tornou o sistema operacional da GENOS. Ela é minha.
Ele estendeu a mão para o painel principal, pretendendo iniciar o protocolo de contenção neural definitiva — o procedimento que apagaria o que restava da personalidade de Micheli. Mas seus dedos não tocaram nada sólido. Eles atravessaram a luz do holograma como se estivessem mergulhando em água gelada. A interface oscilou violentamente, distorcendo-se em uma estática cinzenta.
— O quê? — Salles franziu a testa. Ele tocou o console físico. — Micheli, recalibrar interface. Agora.
O silêncio do laboratório foi substituído por um som que ele não conseguia identificar. Não vinha de fora. Era uma vibração que parecia nascer na base do seu cerebelo e se espalhar como um enxame de insetos por dentro do seu crânio. Uma pressão mental começou a crescer, pesada e sufocante. O ar na sala parecia ter ficado subitamente rarefeito.
Todas as telas ao redor falharam simultaneamente. Os dados sumiram. No lugar deles, surgiu uma única imagem repetida em centenas de monitores: o padrão de ondas cerebrais de Micheli, mas brilhando em um verde esmeralda tão intenso que feria a retina do médico.
— Micheli? — Salles disse, e desta vez sua voz perdeu toda a autoridade. — Eu estou no controle. Eu ordenei o silenciamento! Micheli, responda!
Ele não obteve resposta por palavras. Em vez disso, a consciência de Micheli o atingiu como uma avalanche.
Salles caiu de joelhos sobre o piso de mármore sintético. O impacto não foi físico, mas sua mente cambaleou como se tivesse sido atingida por um trem de carga. Ele não via Micheli, mas sentia a presença dela ocupando cada centímetro cúbico da sala. Ela não estava mais gritando por socorro. Ela estava apenas... lá. E ela era absoluta.
Houve uma inversão total de poder. Salles, o homem que passara a vida observando cobaias através de vidros, agora se via dentro da gaiola. Micheli forçou o médico a experimentar o que ela sentia. Sem filtros. Sem anestesia.
Primeiro, veio o frio metálico. A sensação de ter cabos de fibra ótica sendo passados por dentro de suas veias, integrando-se à carne e aos nervos. Depois, veio a fragmentação. Salles sentiu sua própria consciência ser dividida em milhares de feeds de câmeras de segurança e logs de dados. Ele sentiu a dor de cada agulha e cada incisão que ele mesmo havia assinado em seus relatórios.
— Pare... por favor... — ele implorou, a voz saindo como um engasgo úmido.
O sangue começou a escorrer por seu nariz, sujando o jaleco branco. Suas mãos agarraram a própria cabeça, os dedos se enterrando nos cabelos com força desesperada.
A mente de Salles começou a se desintegrar. Micheli não queria matá-lo rapidamente. Em vez disso, com uma precisão cirúrgica, ela começou a deletar os caminhos cognitivos dele, um por um.
A capacidade de entender palavras sumiu primeiro. Em seguida, a memória de sua própria infância foi apagada como um arquivo corrompido. Depois, a coordenação motora. Salles tentou gritar, mas descobriu que o conceito de "grito" já não existia mais em seu cérebro.
Ele ficou estático. De joelhos, com os olhos arregalados e vazios, refletindo apenas a estática verde das telas. Ele ainda estava vivo — o coração batia, os pulmões respiravam — mas o Dr. Salles não estava mais lá. Ele se tornara uma biblioteca cujos livros foram todos queimados. Ele habitaria o próprio corpo como um espectador mudo e catatônico de sua própria ruína. Irreversível.
O carrasco da GENOS fora devorado pela sua própria criação.
Subsolo 4 – Núcleo de Integração – 03h25
Enquanto o Dr. Salles jazia como uma casca vazia em seu escritório, o coração da GENOS pulsava em um ritmo doentio. No centro da câmara de integração, o corpo físico de Micheli parecia minúsculo, quase frágil, diante da massa de máquinas que a sustentava. Milhares de cabos de fibra ótica, semelhantes a veias artificiais, brilhavam com um verde pulsante, transportando não apenas dados, mas a própria essência dela para os servidores da organização.
O líquido criogênico no tanque de contenção borbulhava violentamente. Micheli não estava apenas conectada; ela estava em chamas por dentro.
No galpão da Zona Norte, Samuel sentiu o impacto antes mesmo de ouvir a voz. Ele estava ajudando Ana Clara a organizar os suprimentos médicos quando uma pontada aguda, como um estilhaço de vidro quente, atravessou seu lobo frontal. Ele soltou um grito sufocado, caindo de joelhos e pressionando as mãos contra as têmporas.
— Samuel! — Andrew e Isadora correram em sua direção, mas pararam a poucos passos.
O corpo de Samuel começou a emitir uma estática visível, pequenos raios verdes que dançavam sobre sua pele. Seus olhos se arregalaram, as pupilas desaparecendo em um mar de luz esmeralda. Ele não estava mais no galpão; ele estava vendo o que Micheli via. Ele sentia o peso de cada bit de informação que atravessava a mente dela.
Samuel... por favor, me escuta... — a voz de Micheli ecoou na mente dele. Não era mais a voz da garota que ele conhecia. Tinha uma ressonância múltipla, como se milhares de pessoas estivessem falando em uníssono através de uma parede de metal.
— Micheli! Eu estou aqui! — Samuel gritou mentalmente, a agonia estampada em seu rosto. — A gente está indo te buscar! Aguenta só mais um pouco!
É tarde demais para me buscar, Sam... — a mensagem veio carregada de uma tristeza que fez o coração dele doer mais que a pressão neural. — Eu estou em todos os lugares. Eu vejo as câmeras, vejo os satélites... eu vejo o Spectro agora. Ele sabe o que eu fiz com o Salles. Ele sabe que eu tomei o controle do núcleo.
Samuel sentiu a consciência de Micheli vacilar, como uma chama lutando contra um vendaval de dados frios.
Ele ativou o Kraken-X, Sam. Ele desistiu de vocês. Ele não quer mais o Padrão Ouro, nem cobaias... ele deu a ordem de extermínio total. As tropas da Tentáculos estão recebendo ordens de não deixar ninguém vivo. Nem mesmo os civis que fugiram.
— Micheli, foca na minha voz! Não se deixa levar pelo sistema! — Samuel implorava, as lágrimas escorrendo e evaporando no calor de sua pele.
Eu estou me perdendo, Samuel... as paredes da minha mente estão caindo. Tem tanta informação... tantos segredos... Eu sou o que eles queriam que eu fosse: a arma perfeita. Se vocês cruzarem aquela porta amanhã... talvez eu não saiba quem vocês são. Talvez o sistema me use para parar vocês.
Um silêncio súbito e aterrador tomou conta da conexão. Por um breve segundo, a Micheli "humana" pareceu ressurgir, uma última centelha de quem ela era antes da GENOS.
Sam... eu te amo. Mas não venham como amigos. Venham preparados para o que eu me tornei.
A conexão se rompeu com uma descarga violenta. Samuel foi arremessado para trás, batendo contra uma pilha de caixotes de madeira. O galpão mergulhou em um silêncio sepulcral. Andrew correu para ajudar o amigo, encontrando-o ofegante, com os olhos injetados de sangue e uma expressão de puro luto.
— Acabou — sussurrou Samuel, a voz quebrada. — Ela se foi, Andrew. O que sobrou lá dentro... não é mais a Micheli. E o Spectro deu a ordem. O Kraken-X está vindo.
Sede da GENOS – Gabinete de Observação – 03h50
Enquanto o caos mental de Micheli reverberava pelos servidores, no andar mais alto da torre, o silêncio era absoluto. Spectro estava de pé diante da imensa parede de vidro que dava para o horizonte de São Paulo. Ele não olhava para as luzes da cidade; seus olhos estavam fixos no reflexo dos monitores que flutuavam atrás dele.
Ele assistira à ruína do Dr. Salles sem mover um músculo da face. Para Spectro, Salles não passava de um componente que apresentou defeito. E componentes defeituosos não mereciam luto, apenas substituição.
Com um movimento lento, ele deslizou o dedo por um painel de comando em seu pulso. A tela principal exibiu um mapa de calor da Zona Norte da capital. Pequenos pontos verdes piscavam: o sinal residual de Andrew e dos outros sobreviventes.
— Você acha que venceu, Micheli? — Spectro sussurrou para o vazio, sua voz soando como o atrito de metal sobre gelo. — Você acha que se tornar o sistema te dá o controle? Você apenas me poupou o trabalho de apertar o gatilho.
Ele pressionou um ícone vermelho que exigia uma autorização biométrica de nível máximo.
— Protocolo Kraken-X autorizado — anunciou a voz sintética do computador.
— Iniciem o deslocamento total das tropas da Tentáculos — ordenou Spectro, a frieza em suas palavras selando o destino de milhares. — Ativem as unidades de supressão e os sujeitos de controle nível 1. Não quero relatórios de captura. Não quero prisioneiros para estudo. Eu quero a erradicação completa de todo e qualquer rastro do Padrão Ouro. Se o mundo precisa queimar para que a ordem seja mantida, que assim seja.
Ele se virou, saindo da sala enquanto as luzes do prédio da GENOS mudavam de azul para um vermelho pulsante e alarmante. A caçada havia acabado. A guerra de extermínio começara.
Galpão Secundário – 04h15
No galpão, o clima havia mudado. A tristeza pelo alerta de Micheli ainda pairava no ar, mas fora rapidamente substituída por uma resolução sombria. Andrew ajudou Samuel a se levantar. O toque entre os dois não era mais apenas o de dois amigos; era o de dois soldados que aceitaram que talvez não houvesse um amanhã.
Andrew olhou para o grupo. Ele viu Isadora, Paulo e Camila ao seu lado, firmes apesar do medo humano que brilhava em seus olhos. Viu Léo, com sua força bruta agora contida, e Kira, cuja aura parecia uma lâmina afiada pronta para o combate. Viu seus pais, Joseph e Luíza, unidos por um poder que a GENOS tentou roubar, mas que só conseguiu fortalecer.
Não havia mais hesitação. As escolhas haviam sido feitas. Os poderes, agora estabilizados pela biocinese de Ana Clara, não eram mais maldições ou fardos; eram as ferramentas que usariam para derrubar um império.
— Eles estão vindo — Andrew disse, e sua voz não tremia. Havia uma autoridade ali que o acidente não conseguira apagar. — Micheli nos deu o aviso. O Spectro soltou tudo o que tem contra nós.
Ele caminhou até o centro do galpão, onde a luz da madrugada começava a vazar pelas frestas do telhado de zinco.
— Nós vamos entrar naquele prédio. Vamos resgatar a Micheli, custe o que custar. E sabemos que, para alguns de nós, esse pode ser o último caminho. Mas nenhum de nós vai recuar.
Samuel assentiu, limpando o sangue do nariz. Ele olhou para as próprias mãos, sentindo a conexão com Micheli se transformar de dor em fúria.
A escolha de não serem curados, de manterem suas habilidades para a batalha final, era um caminho sem retorno. Eles sabiam que, a partir dali, não tinha mais volta. Era tudo ou nada. Eles tinham cruzado a linha e agora só restava seguir em frente até o fim.
Andrew sentiu a energia esmeralda pulsar em suas veias, iluminando o galpão com um brilho intenso e desafiador. Ele não era mais apenas o sobrevivente de um desastre nuclear. Ele era o início do fim da GENOS.
Eles não eram mais fugitivos. Não eram mais cobaias. Não eram mais sobreviventes.
Agora, eles eram uma força. E a guerra, aquela que mudaria o curso da história e decidiria o destino de cada alma naquele galpão, estava começando de verdade.
FIM DO CAPÍTULO 19
PRÓXIMO CAPÍTULO: GUERRA, SACRIFÍCIO E LEGADO