FRAGMENTOS DE VERDADE
T2/E9
T2/E9
República Suprema, Sala - 7h15 da manhã
Kira acordou sufocada.
Por um segundo não sabia onde estava. Teto desconhecido. Cheiro estranho. Barulhos que não reconhecia.
Pânico.
Suas mãos começaram a brilhar. Energia roxa pulsando nos dedos. Involuntária. Instintiva.
Mas então viu ele.
Andrew dormindo na poltrona ao lado. Braços cruzados. Cabeça torta. Cabelo loiro bagunçado caindo na testa. Rosto relaxado. Parecia tão jovem. Tão normal.
A energia se dissipou. Kira respirou fundo. Se recompôs.
Ela estava segura. Tinha fugido. Estava livre.
Por enquanto.
Olhou pra Andrew de novo. Difícil acreditar que esse garoto tinha poderes como os dela. Mais difícil ainda acreditar que alguém ficaria acordado a noite inteira só pra ela se sentir segura.
Passos na escada.
Kira se tensionou imediatamente. Corpo preparado pra lutar ou fugir. Mãos brilhando de leve de novo.
Um cara apareceu. Alto. Magro. Óculos de armação grossa. Cabelo castanho completamente bagunçado. Olhos pequenos de sono.
Ele parou ao ver Kira no sofá.
— Opa. Oi?
Andrew acordou num pulo. Se posicionou instintivamente entre Rafael e Kira.
— Rafael! Bom dia. Essa é a Kira. Amiga da... da Isadora. Tá visitando uns dias.
Rafael coçou a cabeça. Ainda meio dormindo.
— Ah, legal. Bem-vinda. — Ele bocejou. — Desculpa a cara de zumbi. Eu acordo mal pra caralho.
Foi direto pra cozinha. Arrastando os pés.
— Alguém quer café?
Quando ele sumiu, Kira sussurrou:
— Ele não desconfiou?
— Por que desconfiaria? — Andrew falou baixo também. — Pra ele você é só visita normal.
Passos na escada de novo. Dessa vez mais leves.
Isadora apareceu. Já arrumada pra aula. Cabelo loiro preso em rabo de cavalo alto. Mochila nas costas. Olhos azuis alertas, avaliando a situação rapidamente.
Viu que Rafael já tinha visto Kira.
Entrou na cozinha com naturalidade total.
— Rafa, a Kira é prima da minha mãe. Veio de Belo Horizonte conhecer São Paulo. Vai ficar uns dias.
Rafael encheu a cafeteira de água.
— Massa! BH é legal. Já fui lá uma vez no carnaval, curti demais. — Ele olhou pra Kira pela porta da cozinha. — Você veio conhecer a cidade ou tem algum rolê específico?
Kira abriu a boca. Não sabia o que dizer.
Andrew respondeu por ela:
— Ela tá pensando em fazer faculdade aqui. Veio ver como é.
— Ah sim, faz sentido. A USP é foda mesmo.
Isadora fez café. Pegou xícara. Ação completamente normal. Mas Andrew via a tensão nos ombros dela. Estava preocupada. Só escondia bem.
Rafael tomou café rápido. Pegou a mochila.
— Tenho aula às oito. Falou, gente. — Ele acenou pra Kira. — Kira, aproveita SP! Qualquer coisa, o Andrew conhece os roles.
A porta da frente fechou.
Todos respiraram aliviados.
Kira olhou pros dois.
— Isso vai acontecer muito?
Isadora sentou no braço do sofá.
— Tem três moradores aqui. Rafael, Joana e Beto. A gente precisa manter aparências.
— E se eu... — Kira olhou para as próprias mãos. — Se eu perder o controle? Dos poderes?
Andrew sentou de volta na poltrona.
— A gente não deixa isso acontecer. Mas por via das dúvidas, evita ficar sozinha com eles.
República Suprema - 8h30 da manhã
Paulo e Camila chegaram antes de ir pra aula.
Camila viu Kira e foi direto abraçar ela. Impulsivo. Caloroso.
— Que bom que você tá bem!
Kira ficou tensa. Não estava acostumada com afeto assim. Mas não rejeitou. Deixou acontecer.
Paulo acenou meio sem jeito.
— E aí. Conseguiu dormir?
— Mais ou menos.
— Normal. — Ele ajeitou a mochila. — Vou levar o laptop. Se precisarem de alguma coisa enquanto eu tô na aula, manda mensagem.
Camila soltou Kira.
— A gente volta umas seis. Aí a gente conversa direito.
Antes de saírem, Isadora combinou baixinho:
— Hoje à noite. Porta trancada. Privacidade total.
Os dois concordaram e saíram.
Ficaram na República durante o dia: Andrew, Kira, Joseph e Isadora.
Andrew tinha matado aula de propósito. Isadora também. Prioridades.
— Quer que eu mostre a casa? — Andrew ofereceu. — Sem pressão. Só pra você se orientar.
Kira assentiu.
Ele mostrou tudo. Banheiro. Toalhas limpas no armário. Cozinha. Geladeira — podia comer o que quisesse, só evitar as coisas com nome escrito. Quarto do fundo estava vazio.
— Ou você pode continuar no sofá. O que for mais confortável.
Kira olhou pro quarto. Pequeno. Cama de solteiro. Mesa. Cadeira. Mas tinha janela.
Ela precisava ver o céu.
— Eu fico com o quarto.
Entrou. Testou a janela. Abria fácil. Boa. Rota de fuga se necessário.
Hábito que não ia embora tão rápido.
República Suprema, Cozinha - 14h20 da tarde
Kira estava ajudando Joseph.
Ele tentava descascar uma laranja. Mas as mãos tremiam. Efeito residual do controle mental. Dos implantes. Do tempo preso.
Kira pegou a laranja dele sem falar nada. Descascou. Dividiu os gomos. Devolveu metade.
— Obrigado — Joseph disse baixinho.
Eles comiam em silêncio. Confortável. Dois sobreviventes que entendiam sem precisar explicar.
— Os implantes... — Kira começou. — Eles ainda doem?
Joseph tocou a nuca. As cicatrizes ali.
— Às vezes. Tipo fantasma. O cérebro lembra da dor mesmo depois de tirar.
— Quanto tempo até parar?
— Não sei. Ainda tô esperando.
A porta da frente se abriu.
Barulho de chaves. Mochila batendo. Reclamação alta:
— Cancelaram a aula! Professor ficou doente. Nem avisou no grupo. Eu acordei cedo à toa!
Joana.
Kira se tensionou. Joseph também.
Joana entrou na cozinha. Parou ao ver os dois.
— Opa! Gente nova!
Andrew apareceu rápido da sala.
— Joana! Essa é a Kira, prima da Isadora. E esse é o Joseph, primo da mãe minha mãe.
Joana sorriu largo. Tipo de sorriso que ocupava o rosto inteiro.
— Caramba, a casa tá cheia hoje! — Ela foi direto fazer café. Sempre fazia café quando chegava. — Oi gente, eu sou Joana. Arquitetura. Terceiro ano. Vocês almoçaram? Tem lasanha que o Beto fez ontem na geladeira. Tá boa pra caramba.
— A gente comeu — Andrew disse.
Joana encheu a cafeteira. Continuou falando enquanto trabalhava.
— Sério, o professor podia ter avisado né? Eu peguei dois ônibus. Cheguei lá, portaria fechada. Aí olhei o grupo e tinha mensagem dele de meia hora atrás. Tipo, cara, meia hora? Eu já tava no segundo ônibus!
Ela pegou xícara. Serviu café.
— Vocês são de onde? BH também?
Kira olhou pra Andrew. Socorro.
— A Kira é de BH — ele disse. — O Joseph é de Curitiba.
— Ah, Curitiba é legal. Mais tranquilo que São Paulo. — Joana tomou um gole. — Vocês vieram passear ou é visita de família mesmo?
— Meio dos dois — Andrew improvisou. — A mãe da Isadora tá fazendo aniversário semana que vem. Vai ter festa.
— Que legal! Eu adoro festa de família. Sempre tem comida boa.
Ela continuou falando. Sobre a aula cancelada. Sobre o professor dramático. Sobre o projeto que estava fazendo de uma biblioteca comunitária.
Kira respondia no mínimo possível. Joseph também. Andrew e Isadora carregavam a conversa, desviando de perguntas mais pessoais com habilidade.
Depois de vinte minutos, Joana olhou o relógio.
— Bom, vou aproveitar pra adiantar uns desenhos já que tô aqui. — Ela pegou a xícara de café. — Qualquer coisa, grita!
Subiu pro quarto dela.
Quando a porta fechou lá em cima, Joseph sussurrou:
— Ela é sempre assim?
— Sempre — Andrew confirmou. — Mas é boa pessoa. Só... muito curiosa.
Kira olhou pro relógio na parede.
— Quanto tempo até a gente poder conversar de verdade?
Isadora já tinha calculado.
— Paulo e Camila voltam às seis. Joana provavelmente vai sair pra jantar com as amigas dela — ela sempre sai sexta à noite. Beto tem plantão até meia-noite. Podemos nos trancar no quarto do Paulo às seis e meia.
República Suprema, Quarto de Paulo - 18h30
Porta trancada. Música indie rock tocando baixo no Spotify. Cobertura de som.
Todos sentados. Andrew na cama. Isadora na cadeira do escritório, caderno aberto no colo. Paulo no chão com o laptop. Camila ao lado dele. Joseph encostado na parede. Kira no meio. No centro de tudo.
Andrew olhou pra ela.
— Você não precisa contar se não quiser.
Kira balançou a cabeça.
— Eu preciso. Vocês merecem saber no que estão se metendo.
E ela começou.
— Meu pai era alemão. Gerhard Voss. De Potsdam. Veio pro Brasil trabalhar como engenheiro. Pele clara, olhos castanhos, sotaque engraçado. — Ela quase sorriu. Quase. — Conheceu minha mãe numa festa. Karina. Professora de História. Negra. Cabelo crespo que eu herdei. — Tocou os próprios cachos. — Ela sempre dizia que foi amor à primeira vista. Ele dizia que foi amor à primeira dança.
Silêncio respeitoso. Todo mundo ouvindo.
— A gente morava num apartamento em Pinheiros. Pequeno. Dois quartos. Mas era nosso. Éramos felizes. Eu, Léo, mãe, pai. Família pequena. Mas completa.
— Léo sempre foi protetor. Mesmo sendo só dois anos mais velho. Quando eu era pequena, caí de bicicleta. Ralei o joelho. Chorei pra caramba. Ele carregou eu nas costas até em casa. Duas quadras. Eu devia ter uns seis anos. Ele oito. — Pausa. — Sempre foi assim. Sempre cuidou de mim.
Camila já estava com os olhos marejados.
Kira continuou. Voz ficando mais difícil agora.
— Dezembro de 2022. A gente ia pra praia. Viagem de família. Natal. Meus pais tinham alugado uma casa em Ubatuba. — Respirou fundo. — Chuva forte. Estrada escorregadia. A gente viu o caminhão vindo. Muito rápido. Ele tinha perdido o freio.
Ela parou. Fechou os olhos.
— Meus pais morreram na hora. Impacto frontal. Eu e Léo estávamos no banco de trás. Sobrevivemos. Eles não.
— Eu tinha dezessete. Léo dezenove. Órfãos.
Isadora parou de escrever. Só olhava pra Kira com aquela expressão que queria ajudar mas não sabia como.
— Léo assumiu tudo. Dois empregos. Entregador de dia. Segurança à noite. Fazia tudo pra me manter na escola. Pra eu poder ir pra faculdade. — Lágrima escorreu. Kira limpou rápido. — Ele desistiu dos próprios sonhos pra eu poder ter os meus.
— Entrei na USP. Engenharia Elétrica. Léo chorou quando saiu o resultado. Disse que os pais estariam orgulhosos. — Pausa. — No cemitério, no enterro deles, a gente fez uma promessa. Eu e ele. "A gente sempre se acha." Não importava o que acontecesse. A gente sempre se achava de novo.
Joseph tinha os olhos fechados. Andrew estava com a mandíbula tensa. Paulo olhava pro chão.
— Seis meses atrás. Março de 2024. — Kira abriu os olhos. — Três da manhã. Barulho. Porta sendo arrombada. Acordei assustada. Vi homens de preto no corredor. Equipamento militar. Eficientes. Treinados.
— Léo saiu do quarto dele. Viu eles. Gritou pra eu trancar a porta. — Voz de Kira tremeu. — Ele lutou. Sempre lutava por mim. Derrubou dois. Mas eram muitos. Tasers. Golpe na nuca. Ele caiu.
— Eu tentei fugir pela janela. Nem cheguei perto. Alguém me pegou por trás. Injeção no pescoço. O mundo ficou turvo. Escuro. A última coisa que ouvi foi Léo gritando meu nome.
Camila estava chorando agora. Tentando não fazer barulho. Paulo segurou a mão dela.
— Acordei numa cela. Fria. Pequena. Sem janelas. Não sabia onde estava. Quanto tempo tinha passado. — Kira olhou para as suas mãos. — Mas eu ouvia ele. Léo. Na cela ao lado. Gritando. "KIRA! KIRA, ONDE VOCÊ TÁ?!" Desesperado. Rouco. Ele tinha gritado tanto que a voz tava quebrada.
— Eu gritei de volta. Tentei bater na parede. Guardas entraram. Me seguraram. Injetaram alguma coisa. Tudo ficou preto de novo.
Joseph se mexeu. Voz embargada:
— A cirurgia...
— Acordei numa mesa — Kira disse. — Fria. Metálica. Amarrada. Não conseguia me mexer. Dr. Salles estava acima de mim. Explicando. Friamente. Como se fosse palestra científica. — Imitou a voz dele. — "Você foi escolhida. Compatibilidade genética 76% com espécime Menning. Vai ser nosso Sujeito 10."
Andrew fechou os olhos.
— Implantes sendo instalados. Na base do crânio. — Kira tocou a nuca. — A dor era... não tem palavras. Não tem como descrever. Tipo ser rasgada por dentro. Tipo ter o cérebro pegando fogo. E você consciente. Sentindo tudo.
Silêncio absoluto no quarto. Só a música tocando baixo.
— Quando acordei... eu não era mais eu. A Voz no comando. Minha vontade suprimida. Eu pensava coisas que não eram minhas. Fazia coisas que não queria fazer. E não conseguia parar.
— Vi Léo depois. — Lágrimas descendo livre agora. — Sujeito 11. Olhos vazios. Brilho artificial dos implantes. Eu falei com ele. Gritei o nome dele. Ele olhou pra mim e... nada. Não me reconheceu. Aquilo me quebrou. De formas que a tortura física nunca conseguiria.
Kira parou. Limpou o rosto com as costas da mão.
— Meses seguintes são confusos. Treino. Missões. Às vezes simulações. Às vezes reais. Eu não tenho certeza. A Voz apagava memórias inconvenientes. — Ela olhou pra Andrew. — Eu lembro de matar. Mas não sei se eram pessoas reais ou manequins. Lembro de sangue. Mas não sei se era meu ou de outros.
— Até aquela noite. A luta contra vocês. — Ela olhou pra Andrew. Depois pro grupo todo. — Andrew olhou nos meus olhos. E algo quebrou. A Voz falhou. Por um segundo. Foi o suficiente pra eu começar a despertar.
Ela terminou. Chorando mas sem esconder mais.
Isadora se levantou. Sentou no chão ao lado de Kira. Colocou a mão no ombro dela. Não disse "vai ficar tudo bem". Seria mentira. Só ficou ali. Presença solidária.
Andrew também se aproximou. Agachou na frente dela.
— Você sobreviveu. E agora a gente vai trazer seu irmão de volta também.
Joseph tinha lágrimas descendo também. Voz embargada:
— Eu sinto muito. Por tudo que fiz. Mesmo sob controle, eu ajudei a criar isso...
Kira olhou pra ele. Diretamente.
— Você também é vítima. A gente não escolhe ser quebrado. Só escolhe se vai tentar se consertar.
República Suprema, Quarto de Paulo - 19h15
Depois que todos se recompuseram, Joseph fez perguntas. Gentis mas necessárias.
— Sobre seu irmão. Você sabe onde ele fica no Bloco H?
Kira assentiu.
— Contenção 08. Três celas da minha. Ouvi guardas falando. Ele é considerado "mais estável" que eu era. 92% de obediência. Eu era 87%.
— Na represa — Andrew disse. — Quando eu lutei com ele. Ele hesitou. Por um segundo. Disse seu nome. Confuso. Lutando internamente. Depois a Voz voltou mais forte.
Joseph se animou. Primeira vez em horas.
— Isso confirma. O vínculo entre vocês é forte o suficiente pra rachar o controle. Exatamente o que eu precisava saber.
Ele pegou papéis da mesa. Diagramas. Esquemas.
— O dispositivo de interferência neural está 60% pronto. Mais três, quatro dias até finalizar. Quando estiver completo, preciso expor Léo à frequência por trinta a quarenta e cinco segundos contínuos.
— E vai funcionar? — Kira perguntou.
— Deve funcionar. Mas durante esse tempo, ele vai lutar. Violentamente. É instinto de preservação do controle mental. O cérebro interpreta a interferência como ataque mortal.
Andrew não hesitou.
— Eu seguro ele.
Joseph olhou pro filho.
— Ele é tão forte quanto você. E vai usar tudo que tem.
— Eu aguento. Aguentei o Xavante. Aguento o Léo.
Kira se levantou.
— Eu ajudo. Conheço como ele luta. Consigo prever movimentos dele.
Paulo pensou alto:
— E se a gente usar algemas? Algo pra conter fisicamente? Tipo aquelas algemas de meta-humano que a polícia usa em quadrinhos?
Joseph balançou a cabeça.
— Não. Estresse físico extremo pode danificar o cérebro durante a interferência. Precisa ser contenção manual. Firme mas não violenta.
Isadora estava anotando tudo. Fazendo diagramas. Pensando taticamente.
— Precisamos de lugar controlado. Sem civis. Múltiplas rotas de fuga.
Paulo já estava no laptop.
— Tem uma metalúrgica desativada em Osasco. Oito quilômetros daqui. Fechou faz cinco anos. Perfeito.
— Como a gente atrai ele? — Kira perguntou.
Andrew olhou pra ela.
— Eu apareço. Eles mandam ele.
— Sozinho?
— Com você de backup. E Joseph escondido com o dispositivo.
Isadora fez ressalvas. Voz firme mas preocupada.
— Muito arriscado. E se mandarem mais agentes? Guardas com Kraken-S? A gente não consegue lidar com isso.
— Por isso a gente precisa de mais ajuda — Joseph disse. — Os outros Sujeitos. Samuel, Micheli. Se conseguirmos contato...
Paulo já estava digitando.
— Eu posso procurar. Rastros digitais. Redes sociais. Câmeras de segurança. Qualquer coisa.
Batida na porta.
Todos congelaram.
— Ei, galera! — Voz de Beto do outro lado. — Tô fazendo pizza! Alguém quer?
Paulo rapidamente fechou as janelas técnicas do laptop. Abriu Netflix. Série aleatória.
Andrew destrancou. Abriu só uma fresta.
— Opa, Beto. A gente tá meio no meio de um trabalho de grupo aqui...
Beto viu todo mundo lá dentro. Isadora. Paulo. Camila. Joseph. Kira.
— Trabalho? Nas férias?
— É um... projeto voluntário. ONG.
— Ah, massa! — Beto sorriu. — Então vocês vão querer pizza depois né? Eu faço de calabresa e de mussarela.
— Fechou. Daqui uma hora a gente desce.
Beto foi embora assobiando.
Quando os passos se afastaram, todos respiraram.
Camila sussurrou:
— Isso tá ficando difícil. Não dá pra ter conversa séria aqui durante o dia.
Isadora fechou o caderno.
— Precisamos de outro lugar. Seguro. Privado.
Paulo sugeriu:
— O galpão do Andrew?
— Longe — Andrew disse. — E alguém pode seguir a gente.
Joseph teve uma ideia.
— Minha apartamento antigo. Antes da Tentáculos me pegar. Ninguém usa faz anos. Pode estar abandonado ainda.
— Onde fica?
— Perdizes. Quinze minutos daqui.
Isadora já estava anotando.
— Podemos checar amanhã. Se tiver vazio, vira nosso QG.
Voltaram ao planejamento. Mais focados agora. Decididos.
Próximos dias focavam em:
Terminar o dispositivo
Localizar apartamento seguro
Encontrar Samuel e Micheli
Planejar armadilha detalhada pra Léo
O grupo se separou pra descer. Jantar com Beto. Manter normalidade.
Kira ficou sozinha com Andrew por um momento.
— Obrigada. Por tudo.
— Não precisa agradecer. É o certo a fazer.
— Mas você nem me conhecia...
Andrew sorriu. Pequeno mas genuíno.
— Conheço agora. E você vale a pena salvar. Seu irmão também.
República Suprema - 22h45 da noite
Todos fingindo normalidade na sala.
Comiam pizza. Beto contava histórias engraçadas do trabalho publicitário. Cliente que queria logo com 47 cores diferentes. Campanha de desodorante que foi censurada. Chefe que não sabia usar PowerPoint.
Eles riam nos momentos certos. Faziam perguntas. Pareciam grupo de amigos normal.
Mas a tensão estava ali. Embaixo da superfície. Missão perigosa se aproximando.
Kira dormiu no quarto do fundo dessa vez. Primeiro passo pra recuperação.
Mas deixou a porta entreaberta. Luz do corredor acesa. Precisava ver se alguém se aproximava.
Andrew ficou acordado na sala de novo. Só por precaução. Pra ela se sentir segura.
Bloco H, Sala de Controle - 23h10
Dr. Salles analisava dados na tela.
Gráficos. Números. Frequências neurais.
Léo - Sujeito 11. Relatório do confronto na represa.
Frequência neural tinha oscilado. De 9.2 Hz pra 8.9 Hz. Por três segundos. Quando viu Kira.
Anomalia.
Spectro estava nas sombras atrás dele. Como sempre.
— O vínculo está interferindo? — A voz distorcida perguntou.
— Temporariamente. Mas podemos usar isso. — Dr. Salles ampliou o gráfico. — Se ela aparecer de novo, ele vai perseguir. Instintivamente. Vínculo familiar é mais forte que controle mental em curto prazo.
— Ótimo. — Spectro se aproximou dos monitores. — Deixe ela se sentir segura. Deixe eles planejarem. Deixe eles montarem a armadilha deles.
Dr. Salles sorriu.
— E quando atacarem...
— Estaremos esperando. — Spectro virou. Desapareceu nas sombras. — Com uma armadilha melhor.
Dr. Salles ficou sozinho.
Olhou pro monitor mostrando a cela de Léo.
O garoto estava deitado. Olhos fechados. Mas não dormindo. Nunca dormia de verdade. O controle não permitia.
Dr. Salles desligou os monitores. Saiu da sala.
As luzes se apagaram.
Só o brilho azul dos equipamentos iluminando o vazio.
FIM DO CAPÍTULO 9