O QUE É SER REALISTA?
É muito comum encontrarmos pessoas que se auto-intitulam realistas. Este termo é mais comumente utilizado para que se diferenciem dos que se dizem otimistas e dos pessimistas. Estariam, assim, no meio dos dois.
Mas, analisando-se mais profundamente, o que é ser realista?
Primeiramente, é necessário que abstraiamos o seu significado real do que na maioria das vezes lhe é atribuído pelo senso comum, e que é, na verdade, a concepção sob a qual seu sentido é tomado pela maioria das pessoas (apesar de não haver entre elas acordo algum no tocante a seu significado objetivo, como é de se esperar de quem constrói seus pensamentos com base no senso comum).
Muitas pessoas acham que ser realista significa ser um indivíduo que segue os padrões da sociedade, ou do sistema econômico-ideológico ao qual pertence. Uma pessoa que acredite nos mesmos valores que são compartilhados por todos os seguidores deste modo de vida, adaptado por sua vez às necessidades do sistema ao qual pertencem. Os que, por sua vez, procuram seguir caminhos alternativos são considerados lunáticos e alienados.
Os que assim pensam, em minha opinião, não são realistas, mas conservadores. E como não acho que o realismo tenha necessariamente alguma relação com o conservadorismo, descarto totalmente este argumento em prol de uma discussão mais produtiva.
Há também os que, por ignorância, acham que, além de seguir os padrões de comportamento considerados normais pela sociedade, a pessoa não deve sequer esforçar-se para tentar de alguma maneira contribuir para a construção de um mundo melhor, visto que, segundo eles, é uma atitude inútil, e o melhor é “seguir a correnteza” e aproveitar-se das oportunidades que lhes tragam maior satisfação individual. Estes se chamam realistas, mas, na verdade, novamente, não passam de seres individualistas e reacionários. Agarram-se ao individualismo e, a meu ver, é como se invocassem: “Sejamos realistas, hajamos como os animais que somos!” Pois é praticamente certo que podemos considerar o individualismo como a máxima expressão da natureza animal do ser humano. Quando é individualista, o homem nada mais está sendo do que a sua porção animal, elevada exponencialmente várias vezes, haja vista a alta capacidade de planejamento racional típica da raça humana (o que muitos insistem em chamar de inteligência), associada por sua vez ao desenvolvimento sem precedentes da parte posterior do córtex cerebral. Assim, com um cérebro maior e com um raciocínio mais apurado, pôde o homem usar das mais surpreendentes ferramentas tecnológicas para colocar seus instintos individualistas a um nível tal, inclusive a ponto de poder, em nome de sua ganância, destruir o próprio planeta e a própria civilização. Ou algo que talvez seja pior que isso. É capaz de permitir que seres humanos sofram as mais graves injustiças e barbáries, simplesmente pela sua ganância e pelo seu apego à padrões ideológico-sociais.
Mas, então, o que seria exatamente o realismo?
Inicialmente, mesmo que por simples protocolo, não poderíamos nos furtar a uma consulta, para verificar o que nos dizem os dicionários, nos quais o termo “realismo” é encontrado como “a atitude de prender-se ao real, verdadeiro, objetivo”.
Mas ainda restaria a pergunta: o que é “real, verdadeiro ou objetivo”?
Com relação à “verdade”, um indivíduo realista saberia que nunca conseguiria efetivamente alcançá-la, uma vez que é algo que não nos pertence. Deveria ter a noção de que nunca conseguirá entender a verdade sob todos os seus ângulos, haja vista ser, por natureza, um ser limitado.
Segundo ele, apenas um Deus, caso existisse, conheceria realmente a verdade, vista sob todos os ângulos possíveis, uma vez que deve haver centenas de milhares de ângulos possíveis, ou quem sabe até infinitos.
Mas isso não impede que a busquemos – diria ele, para que possamos chegar dela cada vez mais pertos.
Desta forma, basicamente, eu poderia dizer que ser realista é buscar constantemente chegar o mais próximo possível da verdade.
Encará-la tal qual ela é, traçando objetivos concretos sob sua forma, podendo assim elaborar estratégias mais eficientes no alcance dos objetivos. E neste processo, nada impede que uma pessoa realista possa ser mais otimista para algumas coisas e mais pessimista para outras. O que não pode, a meu ver, é deixar-se levar por estas opiniões, ou pelo conservadorismo e individualismo, para ser negligente ou deixar de fazer sua parte.
REALISMO E UTOPIA
Ter uma utopia, e buscá-la constantemente através de todos os seus atos cotidianos, é prova de falta de realismo?
Ao que me parece, não. Aliás, é possível que seja mesmo o contrário. Vejamos. Ter utopias, e lutar para alcançá-las, mesmo sabendo que, por sua própria natureza, são elas inatingíveis, não demonstra falta de realismo, mas talvez um realismo pragmático que as pessoas não estão acostumadas a compreender. Pois, pragmatica e realisticamente, para que servem as utopias? Ora, entre suas várias razões eu poderia destacar as de: servir de guia às nossas ações, entregar algum sentido às nossas vidas, inspirar nossas atitudes no sentido de um mundo melhor, lutar contra o conformismo e o conservadorismo (que só servem para manter intocado o atual estado das coisas), etc. Assim, penso que são necessárias as utopias para que medidas objetivas sejam pensadas e tomadas, e para que o mundo não seja refém dos interesses conservadores que se beneficiam do atual e injusto estado das coisas. E isto, a meu ver, é uma atitude realista.
REALISMO E CONFORMISMO
Como vimos na primeira parte do texto, realismo não pode ser confundido com conformismo ou inoperância. Pois o conformismo geralmente descamba para o individualismo, e individualismo não é realismo, mas fruto e herança de nosso lado animal menos evoluído.
Assim, poderia se considerar realista alguém que segue esse conformismo que nos leva à caminhar rumo a um mundo cada vez pior, apenas para seguir um caminho ou assumir um comportamento padrão? Não seria mais realista buscar uma maneira mais eficiente para atingirmos uma vivência melhor, ou até mesmo, na pior das hipóteses, para a própria sobrevivência do homem? Ser realista não significaria analisar a possibilidade de se procurar um caminho menos destrutivo? Ou é mais fácil achar-se realista dizendo que não há outro caminho, além de cada um buscar o melhor para si mesmo? Estes continuam a seguir o caminho padronizado, não acreditando no trágico fim da civilização, acreditando por sua vez que o homem não deixará que isso aconteça. Ora, com toda a sorte de sofrimento e injustiças que há pelo mundo, dos quais a esmagadora maioria da população é refém, não me preocuparia tanto a destruição de tudo, porque talvez o que haja hoje seja pior do que isso.
Mas, obviamente, se de alguma maneira, o homem, algum dia, conseguir melhorar esta situação, e quiçá de alguma forma conseguir revertê-la, não terá sido por contribuição destes que se acham realistas, mas que na verdade são o que há de pior do mundo, e que contribuem para a sua derrocada. Resta a nós torcermos para que as pessoas verdadeira e sabiamente realistas sejam maioria algum dia, ao ponto de conseguirmos construir um mundo melhor para as gerações futuras. Pois se já é difícil com pessoas tentando ajudar a melhorar, imaginem se todos decidissem lavar as mãos para o problema, como se eles não fossem seus. Acho que a situação pioraria enormemente. E acho que esta é uma opinião realista.
Paulo A C B Jr
(texto escrito em 2002)