Nota: Saramago costuma iniciar as vozes das pessoas nos diálogos após uma vírgula, em letra maiúscula.
“(...) saberíamos muito mais das complexidades da vida se nos aplicássemos a estudar com afinco as suas contradições em vez de perdermos tanto tempo com as identidades e as coerências, que essas têm obrigação de explicar-se por si mesmas.”
“O sonho foi um aviso para trabalhar depressa, Os sonhos não avisam, A não ser quando os que sonham se sentem avisados, Acordou sentencioso o meu querido pai, Cada idade tem os seus defeitos, e este tem vindo a agravar-se-me nos últimos tempos, Ainda bem, gosto das suas sentenças, vou aprendendo com elas, Mesmo quando não passam de meros jogos de palavras, como agora, perguntou Cipriano Algor, Penso que as palavras só nasceram para poderem jogar umas com as outras, que não sabem mesmo fazer outra coisa, e que, ao contrário do que se diz, não existem palavras vazias (...)”
“O cão tinha-se levantado também, preparado para ir atrás do dono. Ah, fez Cipriano Algor, esquecia-me dizer que o Achado ficou toda a noite debaixo do banco de pedra a vigiar o lume, Pelos vistos também com os cães se pode aprender alguma coisa, Sim, aprende-se sobretudo a não discutir o que deve ser feito, algumas vantagens o simples instinto haveria de ter (...)”
“Marta sai do quarto e vai pensando Dorme, eis uma palavra que aparentemente não fez mais do que expressar uma verificação de facto, e contudo, em cinco letras, em duas sílabas, foi capaz de traduzir todo o amor que num certo momento pôde caber num coração humano. Convém dizer, para ilustração dos ingênuos, que, em assuntos de sentimento, quanto maior for a parte de grandiloqüência, menor será a parte de verdade.”
“É uma estupidez deixar perder o presente só pelo medo de não vir a ganhar o futuro.”
“O erro (...) também pode ser a conseqüência de ter pensado bem, além disso, que eu saiba, na está escrito em nenhuma parte que precipitar-se tem forçosamente de levar a maus resultados.”
“Que muitos dos mitos antropogenéticos não prescindiram do barro na criação do homem, é um facto já mencionado aqui e ao alcance de qualquer pessoa medianamente interessada em almanaques eu-sei-tudo e enciclopédias quase-tudo. (...) Este singular criador a que nos estamos referindo e cujo nome esquecemos ignoraria provavelmente, ou não teria suficiente confiança na eficácia taumatúrgica do sopro nas narinas a que um outro criador recorreu antes ou viria a recorrer depois (...) Outro qualquer talvez tivesse desistido, teria despachado à pressa um dilúvio para acabar com o preto e o branco, teria partido o pescoço ao amarelo, o que até se poderia considerar como a conclusão lógica do pensamento que lhe passou pela mente em forma de pergunta, Se eu próprio não sei fazer um homem capaz, como poderei amanhã pedir-lhe contas dos seus erros.”