Aos seis anos, revoltou-se contra Deus. Aos sete, expressou suas dúvidas na justiça dos homens. Aos oito, compôs um ensaio em latim, no qual comparava a sabedoria dos pagãos com a dos cristãos. Aos onze, escreveu uma novela cosmopolita em sete línguas. Aos doze, teve um duelo. Aos quatorze, apaixonou-se violentamente pela primeira vez. Aos setenta e quatro, apaixonou-se violentamente pela última vez. Aos oitenta e dois, completou o maior de seus poemas, a segunda parte de Fausto. (...) Nasceu em 1749, filho de um Conselheiro Imperial em Frankfurt, Alemanha. Seu pai queria que ele estudasse leis e se tornasse professor de universidade. Mas Goethe não se interessava nem por leis nem pelo ensino. (...) Pelos professores não tinha o menor respeito. (...) Um dos seus colegas, escrevendo a respeito da conduta livre de Goethe na época, notou que seria mais fácil “influenciar as árvores e as rochas do que trazer Goethe à realidade”. Mas ele volveu à realidade dos seus sentidos, à maneira própria. Durante toda a vida fez experiência com vinho e mulheres e depois transformou os ensaios em canto. Tendo aprendido tudo que queria saber a respeito da sociedade de Leipzig, partiu para a solidão do campo, onde dava largos giros, lendo seu Shakespeare e seu Homero e sonhando poeticamente. Porque viveu para cantar. (...) Die Mitschuldigen (Os companheiros do pecado) foi escrito com experiência espantosa para um rapaz de dezessete anos. Como a maioria das obras dos adolescentes, joga com a moral; mas a moral que nele existe tem em si a sabedoria concentrada de todos os velhos melancólicos que pecaram e pelos seus pecados sofreram. “Como a maioria de nós é culpada”, conclui o indulgente e jovem filósofo de Leipzig, “a melhor coisa que temos a fazer é perdoar e esquecer”. (...) A dissipação dos seus dias e noites em Leipzig quase lhe punha fim à vida. No verão de 1768 foi atacado por violenta hemorragia, e durante algum tempo se duvidou que sarasse. Quando, finalmente, pôde abandonar o leito, voltou para casa – para a mãe, que o adorava, e para o pai, grandemente desapontado. Herr Johann Caspar Goethe procurara fazer do filho um advogado e o rapaz se transformara em poeta!
Seu pai fez outra tentativa, mandando-o para Estrasburgo. Mas aí também, como em Leipzig, Goethe negligenciou a lei e retornou ao estudo da vida. Borboleteou pela arte, aprendeu a tocar violoncelo, tomou remédios, filosofou, namorou e fez-se chefe da inteligentsia estrasburguesa. Excelente esgrimista e cavaleiro, cantor de frases mágicas como a Alemanha jamais ouvira, virou a cabeça de todas as Fräulein de Estrasburgo. E sua própria cabeça estava quase sempre no redemoinho. Mas, se amava facilmente, facilmente esquecia. Quer abandonasse ele, quer fosse abandonado, transportava a experiência para um poema e encetava a aventura seguinte. Na sua ânsia de estudar a vida de todos os ângulos possíveis, travou relações com gente de toda espécie (...) e, encontrou, em todos que conheceu, algo louvável e divino. (...) Durante sua curta permanência em Wetzlar ele se apaixonou deseperadamente, como de hábito. Desta vez a situação era complicada pelo fato de Lotchen, a jovem de sua escolha, já ser noiva. Por algum tempo, pensou em suicidar-se. (...) Finalmente, porém, decidiu escrever uma novela a respeito de seu infortunado caso amoroso e matar o herói da novela, em vez de suicidar-se. O resultado foi As Tristezas do Jovem Werther, livro de romântica insensatez e sublime beleza. (...) É uma elegia à tristeza da vida e um hino à alegria da morte. (...) Mas o próprio Goethe não tinha mais vontade de se matar. Deixando para trás o amor, o livro e os admiradores, passou para novos campos e novas aventuras.(...) A poesia, para eles, era um meio sagrado de transformar os homens em super-homens. (...) Goethe era um poeta ansioso de viver pela Beleza.
(retirado do livro A História da Raça Humana, de Henry Thomas)