Em Rosária, um dos reinos mais sensíveis à magia dentro de Auradon, os primeiros sinais da Corrupção surgiram de forma quase imperceptível, começando pela vegetação ao redor do reino, que passou a murchar e perder vida sem explicação aparente. A origem desse fenômeno foi associada à Torre de Hollowgrave, onde, segundo o que se acredita, a Corrupção teria começado a se manifestar, espalhando-se como uma presença viva e instável. O reino entrou em alerta quando a área ao redor da torre começou a ser completamente tomada por essa força desconhecida, levando a Rainha Aurora e o Rei Philip a convocarem estudantes para investigar o que estava acontecendo. Antes deles, outros grupos já haviam sido enviados, mas nenhum retornou em condições normais; alguns nunca voltaram e outros regressaram gravemente traumatizados e feridos, incapazes de explicar claramente o que haviam enfrentado. Quando os estudantes finalmente chegaram à torre, encontraram diretamente a Corrupção em sua forma mais agressiva, uma massa viva que reagia como se tivesse consciência própria, atacando brutalmente o grupo e causando ferimentos graves, quebrando ossos e deixando-os incapacitados. Nesse momento crítico, Malévola interveio e conseguiu salvá-los, retirando-os do local e levando-os de volta ao castelo de Rosária. Com a situação fora de controle e a Corrupção começando a se espalhar rapidamente pelo reino, destruindo tudo em seu caminho e avançando contra a população, Malévola ergueu uma poderosa barreira mágica ao redor do castelo para proteger Aurora, Philip e os sobreviventes, enquanto os moradores lutavam para encontrar abrigo diante do caos crescente. Mesmo sustentando a barreira, Malévola precisou dividir sua magia entre conter o avanço da Corrupção e tratar parcialmente os estudantes feridos. Durante esse processo, conseguiu recuperar um pequeno fragmento daquela substância sombria, congelando-o temporariamente para impedir que continuasse se expandindo. O fragmento foi então entregue aos sobreviventes, que receberam a missão de levá-lo até Auradon para que pudesse ser analisado pelo Conselho Mágico e pelos governantes dos reinos. Entretanto, devido ao enfraquecimento da magia causado pela presença da Corrupção, Malévola não conseguiu abrir um portal para abandonar Rosária, permanecendo no reino para sustentar a barreira enquanto a Corrupção continuava pressionando suas defesas. Após os acontecimentos em Rosária, o fragmento congelado foi levado até Auradon para análise, mas antes que qualquer resposta fosse encontrada, novos fenômenos começaram a surgir em outros pontos do continente. Em Maldônia, diversos moradores passaram a relatar interferências inexplicáveis em objetos mágicos e tecnológicos. Espelhos encantados deixavam de funcionar, bússolas mágicas giravam sem controle, comunicações eram interrompidas por uma forte estática e equipamentos movidos a magia simplesmente paravam de responder, como se alguma força invisível estivesse contaminando toda a região. Diante da gravidade da situação, a Rainha Tiana e o Rei Naveen organizaram uma nova expedição, reunindo um pequeno grupo de jovens ao lado de Elias Bayou Odie para investigar a origem daquela anomalia. Seguindo os rastros da interferência mágica, eles descobriram antigas ruínas escondidas nas profundezas de Maldônia, um gigantesco complexo subterrâneo preservado havia séculos e completamente desconhecido pela história oficial de Auradon. O local era protegido por um sofisticado sistema mágico criado pelos maiores magos que já existiram, desenvolvido para impedir que pessoas indignas alcançassem os registros guardados ali. Conforme avançavam, os jovens chegaram a uma enorme câmara ocupada por antigos guardiões rúnicos. A princípio acreditaram que bastaria destruí-los utilizando seus poderes, sombras, fogo e ataques mágicos, porém perceberam rapidamente que cada golpe apenas fortalecia seus inimigos. Sempre que um guardião era danificado, as runas espalhadas pelas paredes brilhavam intensamente, absorviam parte da magia utilizada pelos próprios jovens e restauravam completamente os construtos. Elias foi o primeiro a perceber que os guardiões não eram entidades independentes, mas estavam ligados às runas por delicados fios de energia invisíveis, formando um único sistema mágico. Mesmo percebendo isso, o grupo continuou tentando destruir apenas parte da estrutura, cada um lutando da sua própria maneira. Como resposta, o sistema evoluiu. Todas as runas espalhadas pela câmara fundiram-se em uma única runa colossal enquanto todos os guardiões uniram seus corpos para formar um gigantesco colosso de aproximadamente oito metros de altura, capaz de drenar magia em uma velocidade absurda e enfraquecer qualquer habilidade utilizada contra ele. Apenas naquele momento compreenderam o verdadeiro propósito do teste. O sistema não havia sido criado para matar invasores, mas para identificar aquilo que o grupo mais precisava aprender antes de prosseguir. Naquele caso, a lição era simples: trabalho em equipe. Somente quando abandonaram o individualismo e coordenaram perfeitamente seus ataques conseguiram atingir simultaneamente a runa gigante e o guardião colossal, rompendo a ligação entre ambos no mesmo instante. O colosso começou a se desfazer, as runas perderam seu brilho e toda a estrutura da câmara voltou ao estado original, revelando uma passagem secreta que permaneceu escondida por incontáveis séculos. Ao atravessarem a passagem, encontraram uma imensa biblioteca subterrânea perfeitamente preservada. No centro daquele lugar repousava um artefato extraordinário conhecido como Coração do Sol, um dos antigos selos responsáveis por sustentar o Véu Esquecido. Ao redor dele existiam pedras de memória, mapas, pergaminhos, registros históricos e inúmeros documentos deixados pelos maiores magos da história. Quando um dos jovens ativou o mecanismo central da biblioteca, uma antiga gravação mágica foi reproduzida. Nela apareciam Merlin e Yen Sid nos primeiros anos da fundação do Reino de Auradon. Eles explicavam que aquela gravação havia sido criada para preservar a verdade caso algum dia os selos fossem ameaçados novamente. Revelavam que, muito antes da criação de Auradon, existia uma ruptura na própria realidade conhecida como Fenda Primordial, um vazio onde toda a magia negativa, destruição, sofrimento, medo, ódio e caos do mundo eram atraídos e acumulados desde épocas anteriores ao Primeiro Pedido (A.P.P.). Com o passar de incontáveis eras, aquela concentração absurda de energia desenvolveu consciência própria, tornando-se uma entidade capaz de consumir toda a existência caso fosse libertada. A própria presença da Fenda distorcia a realidade e impedia que os reinos coexistissem plenamente, fazendo com que cada um desenvolvesse sua própria atmosfera, tecnologia, fluxo temporal e evolução de maneira isolada. Enquanto a Fenda permanecesse ativa, a magia necessária para unir definitivamente os reinos jamais funcionaria completamente. Foi então que Merlin, Yen Sid e uma grande legião de magos iniciaram secretamente um projeto muito antes da consolidação definitiva de Auradon. Eles construíram uma dimensão-prisão conhecida como Véu Esquecido, selando a Fenda entre a realidade e o vazio, e espalharam diversos artefatos de contenção pelo mundo, entre eles o próprio Coração do Sol, além de outras relíquias ocultas em bases subterrâneas construídas sob locais estratégicos como Rosária, Maldônia e outras regiões importantes. Após concluírem o projeto, todos os envolvidos decidiram apagar voluntariamente de suas próprias memórias qualquer lembrança da Fenda Primordial, acreditando que aquele conhecimento jamais deveria cair nas mãos erradas. Nem mesmo figuras como a Fada Azul ou a Fada Madrinha receberam essas informações. Utilizando todos os registros encontrados na biblioteca, Elias e os jovens finalmente montaram o enorme quebra-cabeça deixado pelos antigos magos e compreenderam a verdade: a Corrupção não estava atacando aleatoriamente. Ela seguia exatamente a rota dos antigos selos do Véu Esquecido, destruindo um a um para enfraquecer a prisão e libertar completamente a Fenda Primordial.
Com todas as evidências reunidas, Elias decidiu apresentar imediatamente aquelas descobertas durante a grande Convergência dos Reinos, um encontro extraordinário realizado em Maldônia que reuniu praticamente todas as maiores autoridades do mundo conhecido. Reis, rainhas, governantes, magos, bruxas, divindades, líderes de diferentes povos e representantes de inúmeros reinos viajaram até Maldônia para discutir a crise causada pela Corrupção e buscar uma solução conjunta antes que fosse tarde demais. O evento começou com discursos de Merlin, Yen Sid, da Fada Madrinha e da Fada Azul, reforçando a importância da união entre os reinos diante da ameaça que crescia a cada dia. Em seguida, o Rei Adam e a Rainha Bela lamentaram profundamente a situação de Rosária, solidarizando-se com Aurora, Philip e todos os sobreviventes que permaneciam resistindo graças ao sacrifício de Malévola. Logo depois, Tiana e Naveen anunciaram que os jovens enviados à investigação haviam conseguido descobrir respostas que nenhum estudioso havia encontrado em séculos. Sob aplausos de todos os presentes, Elias Bayou Odie foi chamado ao centro da cerimônia para compartilhar oficialmente as descobertas feitas nas ruínas subterrâneas de Maldônia. Antes mesmo que pudesse iniciar sua explicação, porém, a tragédia aconteceu. Maxwell Demons interrompeu brutalmente a cerimônia e, diante de toda Auradon, utilizou suas sombras para assassinar Elias. A escuridão atravessou seu corpo diante de reis, rainhas, magos e divindades, erguendo-o no ar antes de abandoná-lo sem vida sobre a plataforma principal. A morte de Elias mergulhou todo o salão em completo desespero. Simultaneamente, a Corrupção invadiu o local, espalhando trevas, chamas negras e destruição enquanto sombras perseguiam todos os presentes, transformando a Convergência na maior tragédia já presenciada pelos reinos desde a fundação de Auradon. A Fada Azul assumiu imediatamente o comando da situação, utilizando sua magia para proteger civis e conter temporariamente a escuridão. A Fada Madrinha, Merlin, Yen Sid e diversos outros magos uniram seus poderes para abrir dezenas de portais de evacuação enquanto reis, rainhas e guerreiros protegiam a retirada dos sobreviventes. Mama Odie presenciou a morte do próprio filho e tentou desesperadamente alcançá-lo, mas já era tarde demais. O evento terminou completamente destruído, marcado pela perda de Elias e pelo medo de que a Corrupção estivesse apenas começando seu verdadeiro avanço. Após sobreviverem ao massacre, os jovens retornaram para Auradon, mas encontraram um reino completamente transformado pelo medo. Abalado pelos acontecimentos e acreditando que medidas extremas eram necessárias para preservar a segurança dos reinos, o Rei Adam decretou que todos os descendentes de vilões fossem imediatamente enviados para a Ilha dos Perdidos, enquanto estudantes e cidadãos estrangeiros deveriam retornar aos seus respectivos reinos até que a situação fosse controlada. Assim, os quatro descendentes de vilões que haviam participado da investigação foram presos utilizando algemas mágicas capazes de bloquear ou enfraquecer seus poderes antes de serem escoltados para a Ilha dos Perdidos. Ao mesmo tempo, Glindell, por ser cidadão de Oz, foi separado do restante do grupo e enviado de volta ao seu reino sob escolta oficial. Os jovens que haviam arriscado suas próprias vidas para descobrir a verdade não receberam qualquer reconhecimento por suas descobertas e tornaram-se as primeiras vítimas das novas políticas adotadas por Auradon após a tragédia da Convergência. Antes de serem definitivamente separados, porém, todos viveram um último acontecimento inexplicável. Enquanto caminhavam, encontraram um misterioso gato preto com um dos olhos cegos. Naquele instante, ouviram dentro de suas próprias mentes a voz de Elias Bayou Odie, que lhes deixou palavras de despedida, esperança e conforto, incentivando cada um deles a continuar seguindo em frente, permanecer unido aos amigos que havia encontrado durante a missão e jamais abandonar a busca pela verdade, pois a batalha que estava por vir seria muito maior do que qualquer um deles imaginava. Quando a voz desapareceu, o gato simplesmente foi embora, deixando para trás apenas a dúvida sobre o que realmente havia acontecido. Desde então, Auradon entrou oficialmente em estado de crise. Rosária permanece resistindo graças à barreira sustentada por Malévola, que continua impedindo o avanço completo da Corrupção sobre o castelo e protegendo os sobreviventes do reino. A Corrupção segue avançando exatamente pela rota dos antigos selos do Véu Esquecido, destruindo um após o outro na tentativa de libertar completamente a Fenda Primordial. A morte de Elias representou a primeira grande perda causada por essa ameaça, enquanto os poucos que conhecem a verdadeira dimensão do problema encontram-se separados justamente quando o mundo mais precisa deles. Embora os registros encontrados em Maldônia tenham revelado a existência da Fenda Primordial, do Véu Esquecido e dos antigos selos, ninguém sabe quem está por trás dos acontecimentos, nem por que a Corrupção parece agir com tanta precisão ao atacar exatamente os locais onde os selos foram escondidos. A única certeza é que existe uma inteligência guiando esses acontecimentos nas sombras, sempre um passo à frente de Auradon, enquanto o tempo para impedir a libertação completa da Fenda Primordial se torna cada vez menor.
Poucos dias após o Decreto Real que resultou no isolamento completo da Ilha dos Perdidos e no fechamento das fronteiras mágicas de Auradon, enquanto os reinos começavam lentamente a se adaptar à nova realidade e as primeiras reconstruções eram iniciadas nas regiões afetadas pela Corrupção, uma decisão emergencial ainda permanecia pendente nos bastidores dos governos. Embora a ameaça visível da Corrupção tivesse desaparecido misteriosamente, os acontecimentos da Convergência dos Reinos ainda permaneciam recentes na memória de todos, principalmente a morte de Elias Bayou Odie e a participação de Maxwell Demons naquele evento. Diferente dos demais descendentes de vilões enviados para a Ilha dos Perdidos após o Decreto Real, Maxwell recebeu um tratamento diferente devido ao nível de perigo que representava e à natureza de seus poderes sombrios. Por isso, poucos minutos antes da barreira mágica de Auradon ser definitivamente fechada e antes que o isolamento completo da Ilha dos Perdidos fosse concluído, Maxwell foi levado para um local específico dentro da própria ilha, uma antiga caverna escondida em uma região isolada da floresta da Ilha dos Perdidos, longe das áreas habitadas e esquecida pela maioria dos moradores. A escolha daquele lugar não foi feita por acaso. Aquela caverna carregava uma história ligada ao passado de Hades, sendo o mesmo local onde ele havia permanecido escondido durante o período em que ficou isolado na Ilha dos Perdidos, antes de retornar aos acontecimentos dos reinos após um pedido de Zeus ao Rei Adam. Com o passar dos anos, o local permaneceu abandonado, tornando-se uma das regiões mais afastadas e difíceis de alcançar da ilha, um lugar onde poucos habitantes se aventuravam devido ao isolamento e às condições perigosas do ambiente. Mesmo sem magia funcionando dentro da Ilha dos Perdidos, aquela caverna possuía uma estrutura naturalmente resistente, formada por grandes paredes de pedra e túneis profundos que dificultavam qualquer tentativa de fuga ou invasão. Antes da chegada de Maxwell, as autoridades de Auradon prepararam o local utilizando recursos não mágicos, reforçando a entrada da caverna com materiais extremamente resistentes, estruturas metálicas e sistemas de contenção criados para impedir que ele abandonasse o lugar. Como a Ilha dos Perdidos anulava a magia existente em seu território, Maxwell não poderia depender de seus poderes para escapar ou manipular o ambiente ao seu redor, tornando aquela prisão ainda mais eficiente. No interior mais profundo da caverna, foi instalado um enorme portal de saída construído pelos especialistas de Auradon, uma passagem extremamente resistente que representava a única ligação entre aquele local e o exterior da ilha. Porém, antes de Maxwell ser deixado na prisão, o portal foi completamente fechado e bloqueado, impedindo qualquer tentativa de abertura sem autorização direta das autoridades responsáveis. Diferente de uma prisão comum, aquele local não havia sido criado para punir apenas um crime, mas para manter isolado alguém considerado uma ameaça imprevisível até que todos os acontecimentos recentes fossem completamente compreendidos. A prisão de Maxwell aconteceu em um dos últimos momentos antes que Auradon fosse completamente separado do restante dos reinos. Poucos minutos depois de sua chegada à caverna, o Rei Adam colocou oficialmente em prática o decreto que fecharia novamente as fronteiras mágicas, determinando o envio dos descendentes de vilões para a Ilha dos Perdidos e estabelecendo novas restrições para proteger os cidadãos enquanto a crise ainda era investigada. Enquanto os outros jovens começavam uma nova realidade dentro da ilha, Maxwell permanecia sozinho naquela antiga caverna, separado não apenas fisicamente, mas também de qualquer informação sobre o que acontecia no mundo exterior. Durante as semanas seguintes, Maxwell permaneceu preso naquele local, cercado pelo silêncio da caverna e pela ausência completa de qualquer contato com o restante da ilha. Sem aliados próximos, sem acesso aos acontecimentos externos e sem seus poderes funcionando plenamente devido à ausência de magia na Ilha dos Perdidos, ele passou a depender apenas da própria inteligência e capacidade de observação para compreender tudo que havia acontecido. Enquanto isso, Auradon começava sua reconstrução. A Corrupção permanecia desaparecida, os reinos afetados iniciavam seus trabalhos de recuperação e muitos cidadãos acreditavam que finalmente haviam alcançado um período de paz após meses de medo e destruição. Porém, para aqueles que conheciam a verdade descoberta em Maldônia, aquela tranquilidade parecia estranha demais para ser considerada uma vitória definitiva. O desaparecimento da Corrupção não explicava por que seus ataques haviam seguido exatamente a rota dos antigos selos do Véu Esquecido, nem revelava quem estava guiando todos aqueles acontecimentos. Dentro daquela caverna esquecida no coração da Ilha dos Perdidos, Maxwell permanecia como uma das poucas peças ainda isoladas daquele grande mistério. Enquanto muitos acreditavam que o fechamento das fronteiras havia finalmente protegido Auradon e que a crise estava chegando ao fim, aquela prisão continuava mantendo alguém que poderia possuir informações importantes sobre tudo aquilo. Porque, mesmo depois do desaparecimento da Corrupção, das reconstruções dos reinos e da nova ordem criada pelo Rei Adam, algumas perguntas continuavam sem resposta. E entre todas elas, uma permanecia sendo a mais importante: qual era o verdadeiro papel de Maxwell Demons em tudo que havia acontecido e por que ele parecia estar conectado a acontecimentos que ainda poderiam mudar completamente o destino de Auradon?
Enquanto, nas profundezas da Floresta Sombria, a cápsula de cristal iniciava lentamente sua reação com a assinatura mágica presente na antiga fissura aberta por Hades, outro grupo de jovens seguia um caminho completamente diferente dentro da própria Ilha dos Perdidos, sem imaginar que, em poucos instantes, seus destinos se cruzariam com aquele acontecimento. Desde o retorno da missão em Maldônia, Kalev Facilier, Asteria Ogneva, Azazel Nochnaya e Heos Navrin Dushev passaram a se reunir discretamente em diversos pontos da ilha. A experiência vivida nas ruínas subterrâneas, a morte de Elias Bayou Odie diante de toda a Convergência dos Reinos e os registros sobre a Fenda Primordial haviam mudado completamente a forma como enxergavam o mundo. Presos na Ilha dos Perdidos, sabiam que eram algumas das poucas pessoas que conheciam a verdadeira dimensão da ameaça e, justamente por isso, acreditavam que permanecer parados significaria condenar Auradon ao mesmo destino previsto pelos antigos registros. Durante um desses encontros, acabaram conhecendo Elle Grimhilde. A jovem aproximou-se do grupo por iniciativa própria, revelando que havia descoberto recentemente a existência de um irmão que jamais conhecera e que, segundo tudo o que conseguira investigar, exercia enorme influência sobre a Ilha dos Perdidos. Embora nunca tivesse encontrado esse irmão pessoalmente, Elle acreditava que ele poderia conhecer caminhos, pessoas e segredos capazes de ajudá-los a compreender quem realmente controlava a ilha e como poderiam voltar a estabelecer contato com o mundo exterior. A revelação despertou imediatamente o interesse do grupo e, seguindo as poucas pistas reunidas por Elle, todos partiram em direção à The Queen’s Atelier, uma das lojas mais luxuosas da Ilha dos Perdidos. Localizada na região mais rica da ilha, o estabelecimento era conhecido pela venda de roupas refinadas, joias, perfumes, fragrâncias e artigos destinados à pequena elite que ainda mantinha influência naquele lugar. Quando chegaram, encontraram Raven atrás do balcão desenhando novos modelos de vestimentas enquanto organizava alguns tecidos espalhados pela bancada. Bastou um rápido olhar para perceber que a visita daqueles jovens não tinha qualquer relação com compras. Sem fazer perguntas, Raven permitiu que todos entrassem e fechou discretamente a loja. Assim que ficaram sozinhos, Kalev e os demais relataram tudo o que havia acontecido desde a missão em Maldônia. Contaram sobre as ruínas escondidas, os registros deixados por Merlin e Yen Sid, o Véu Esquecido, a Fenda Primordial, a verdadeira natureza da Corrupção e a morte de Elias Bayou Odie. Também revelaram que acreditavam estar completamente isolados e que precisavam encontrar alguma maneira de fazer aquelas informações chegarem até Auradon. Raven ouviu atentamente cada palavra antes de revelar que talvez ainda existisse uma pequena esperança. Segundo ela, apesar da barreira impedir qualquer passagem entre Auradon e a Ilha dos Perdidos, embarcações continuavam chegando periodicamente às docas para entregar alimentos, materiais e suprimentos destinados aos habitantes da ilha. Talvez fosse possível esconder cartas ou mensagens entre as cargas, aproveitando aquela pequena brecha para estabelecer contato com alguém do outro lado. Enquanto discutiam maneiras de colocar aquele plano em prática, Lucien entrou na loja. Depois de ouvir parte da conversa, revelou conhecer um príncipe, filho do Rei Adam e da Rainha Bela, que nunca concordou totalmente com a decisão de aprisionar todos os descendentes de vilões na ilha. Caso conseguissem fazer uma mensagem chegar até ele, talvez finalmente encontrassem um aliado dentro de Auradon. A conversa, porém, foi interrompida por uma estranha sensação. Entre os inúmeros espelhos espalhados pelas paredes da loja, todos tiveram a impressão de que alguém os observava. Um vulto apareceu por um breve instante refletido em uma das superfícies, permanecendo imóvel enquanto acompanhava cada movimento do grupo. Quando perceberam a presença, a figura desapareceu imediatamente, como se jamais tivesse estado ali. O silêncio que tomou conta do ambiente foi suficiente para Raven compreender que permanecer na loja significava colocar todos em risco. Sem perder tempo, conduziu o grupo por caminhos pouco conhecidos da Ilha dos Perdidos, atravessando vielas estreitas, passagens escondidas e trilhas esquecidas até alcançarem uma antiga casa abandonada, utilizada havia muito tempo como esconderijo. No instante em que atravessou a porta, Raven percebeu que havia algo errado. Nenhum móvel havia sido quebrado, nenhuma janela fora arrombada e aparentemente tudo permanecia intacto. Ainda assim, ela conhecia aquele lugar melhor do que qualquer outra pessoa. Livros estavam em posições diferentes, alguns objetos haviam sido movidos poucos centímetros e a desorganização era maior do que aquela que costumava deixar ao sair dali. Alguém havia entrado na casa enquanto ela estava ausente. O grupo subiu lentamente as escadas, atento a qualquer movimento. Quando alcançaram o corredor do segundo andar, encontraram uma única figura parada à frente deles. Era Mr. Snake. Sem demonstrar qualquer emoção, ele observou cada um dos presentes antes de afirmar que estavam se envolvendo em assuntos que jamais deveriam ter investigado. Disse que certas verdades existiam para permanecer escondidas e que, dali em diante, aprenderiam da pior maneira possível o preço da curiosidade. Antes que qualquer reação fosse possível, Mr. Snake simplesmente desapareceu diante dos olhos do grupo. Um instante depois surgiu atrás de Kalev Facilier. O golpe foi tão rápido que ninguém conseguiu sequer tentar impedir. Com uma única investida, lançou Kalev violentamente contra a parede. O impacto foi devastador. Seu corpo deslizou lentamente até o chão enquanto sua arma escapava de suas mãos e caía ao seu lado, mergulhando todos em um silêncio absoluto. Mr. Snake voltou a encarar os sobreviventes e declarou que aquele era apenas um exemplo, esperando sinceramente não precisar repetir a lição. Assim que terminou de falar, desapareceu novamente como se jamais tivesse estado ali. No mesmo instante em que sua presença deixou a casa abandonada, uma violenta onda percorreu toda a Ilha dos Perdidos. Nas profundezas da Floresta Sombria, a cápsula de cristal finalmente concluiu a cópia da assinatura mágica da barreira e a antiga fissura aberta por Hades reagiu imediatamente. A energia do selo foi parcialmente rompida, permitindo que uma pequena parcela dos poderes sombrios de Maxwell Demons atravessasse a abertura pela primeira vez desde o restabelecimento da barreira. As sombras envolveram lentamente seu braço antes de se espalharem por todo o seu corpo. No instante seguinte, Maxwell desapareceu da caverna e reapareceu sobre uma das torres da Ilha dos Perdidos. Diante da cidade inteira, ergueu a cabeça enquanto as sombras giravam ao seu redor e declarou que ninguém seria capaz de detê-los. Logo em seguida lançou-se do alto da torre, desaparecendo completamente dentro da própria escuridão. A ruptura parcial da barreira provocou um tremor que atravessou toda a Ilha dos Perdidos. Casas balançaram, ruas estremeceram e todos os descendentes sentiram uma energia antiga despertar em seus corpos. Pela primeira vez desde o fechamento da barreira, um pequeno fragmento de seus poderes retornava. O choque foi sentido inclusive na casa abandonada, interrompendo o luto pela morte de Kalev. Enquanto todos tentavam compreender o que estava acontecendo, rumores começaram a se espalhar rapidamente pela ilha. Alguns juravam ter visto Maxwell novamente. Outros afirmavam que a barreira havia sido danificada. Muitos apenas sentiram que algo havia mudado. Naquele mesmo momento, muito além dos limites da Ilha dos Perdidos, o antigo feitiço firmado por João Honesto finalmente se completava. A magia transportou o vigarista para a Floresta Encantada, onde ele caiu gargalhando em meio às árvores, comemorando de forma completamente insana sua liberdade após tantos anos. A euforia, porém, desapareceu poucos segundos depois. Ao olhar ao redor, percebeu que Gideão não havia atravessado com ele. A lembrança da biblioteca, dos livros espalhados pelo chão e do caos vivido em Fabletown fez uma única conclusão surgir em sua mente. Convencido de que seu antigo companheiro havia morrido, João Honesto foi tomado por um desespero absoluto e desapareceu correndo pela floresta, sem perceber que, naquele mesmo instante, acontecimentos muito maiores começavam a mudar definitivamente o destino de Auradon e da Ilha dos Perdidos.
Dois anos depois...
Dois anos de tranquilidade foram suficientes para fazer Auradon acreditar que finalmente havia superado a maior crise de sua história. Novas gerações cresceram ouvindo sobre a Corrupção apenas através de relatos preservados em livros, enquanto muitos passaram a tratar os acontecimentos envolvendo Rosária, Maldônia e a Convergência dos Reinos como episódios exagerados por testemunhas traumatizadas. Aos poucos, registros oficiais começaram a ser simplificados, documentos permaneceram arquivados sob sigilo do Conselho Mágico e diversas informações descobertas por Elias Bayou Odie jamais foram tornadas públicas. A existência da Fenda Primordial, do Véu Esquecido e dos antigos selos continuou conhecida apenas por um pequeno grupo de pessoas que juraram preservar aquele segredo a qualquer custo. Para a população, Auradon havia vencido. Para aqueles que conheciam a verdade, a guerra jamais havia terminado. Durante esses dois anos, Merlin, Yen Sid, a Fada Azul e a Fada Madrinha mantiveram reuniões frequentes longe dos olhos da realeza e da população. Embora nenhuma manifestação da Corrupção tivesse voltado a ocorrer, os quatro perceberam que diversos artefatos antigos espalhados pelos reinos apresentavam pequenas oscilações mágicas impossíveis de explicar. Nenhuma delas representava perigo imediato, mas todas possuíam algo em comum: surgiam exatamente nas regiões onde antigos registros indicavam a existência de outros selos do Véu Esquecido. As anomalias desapareciam poucos minutos depois, tornando impossível determinar sua origem. Mesmo assim, bastaram para convencer os antigos magos de que alguma força continuava agindo silenciosamente. Na Ilha dos Perdidos, a divisão entre os territórios de Raven Grimhilde e Maxwell Demons permaneceu estável. Apesar das diferenças entre seus grupos, ambos compreenderam que uma nova guerra apenas enfraqueceria toda a ilha. Pequenos conflitos continuavam acontecendo nas fronteiras estabelecidas entre os dois lados, porém eram rapidamente controlados antes que se transformassem em confrontos maiores. A população acostumou-se com aquela nova organização e, pela primeira vez desde a criação da ilha, surgiu um delicado equilíbrio entre duas lideranças completamente opostas. Enquanto isso, a Gangue do Corvo expandia discretamente sua influência através do comércio, da informação e de alianças silenciosas, tornando-se uma das organizações mais respeitadas daquele território. Do outro lado, Maxwell reunia lentamente descendentes que acreditavam que Auradon jamais deixaria de enxergá-los como inimigos. Sem discursos grandiosos ou demonstrações públicas de poder, ambos fortaleciam suas posições, preparando-se para um futuro que acreditavam inevitável. Longe dali, os Herdeiros da Ruína continuavam existindo apenas como uma lenda para quase todos os habitantes de Auradon. Seus integrantes jamais voltaram a agir abertamente, mas mensagens codificadas, encontros secretos e movimentações discretas continuavam acontecendo em diferentes reinos. Nenhuma autoridade conseguiu localizar sua verdadeira base de operações, nem descobrir quem havia assumido o comando após o desaparecimento de William Sanderson. Ainda assim, informações continuavam desaparecendo de bibliotecas, artefatos antigos mudavam misteriosamente de localização e estudiosos ligados aos acontecimentos da Corrupção passavam a desaparecer sem deixar rastros. Em meio à aparente normalidade, outro fenômeno começou a chamar atenção dos poucos especialistas que ainda investigavam os antigos registros deixados por Merlin. Em diferentes regiões de Auradon, pessoas passaram a relatar sonhos extremamente semelhantes. Em todos eles existia um enorme vazio envolto por completa escuridão, onde uma única fissura brilhava ao longe como se tentasse romper a própria realidade. Ninguém conseguia recordar exatamente o que via além daquele ponto, apenas a sensação de que alguma presença observava silenciosamente do outro lado. Os relatos foram tratados como coincidência durante meses, até que magos responsáveis por estudá-los perceberam que pessoas de reinos completamente diferentes descreviam exatamente o mesmo sonho, utilizando inclusive as mesmas palavras para representar aquilo que haviam visto. Sem que ninguém percebesse, pequenos acontecimentos como aqueles começaram a se multiplicar pelo mundo. Objetos encantados reagiam sem motivo aparente. Antigas ruínas emitiam breves pulsos de energia durante a madrugada. Criaturas mágicas alteravam suas rotas migratórias como se evitassem determinadas regiões. Nada parecia suficientemente grave para despertar preocupação pública, mas, quando reunidos, todos aqueles eventos formavam um padrão inquietante. Talvez a Corrupção realmente tivesse desaparecido. Talvez William Sanderson jamais voltasse. Talvez a paz conquistada após dois anos fosse verdadeira. Ou talvez o mundo estivesse novamente ignorando os primeiros sinais de uma ameaça que aprendera a agir com muito mais paciência do que antes. Afinal, algumas forças não precisam atacar imediatamente para vencer. Às vezes, basta permanecerem escondidas tempo suficiente para que todos esqueçam que elas ainda existem. E, enquanto Auradon comemorava dois anos de paz, algo voltava a despertar lentamente nas profundezas do Véu Esquecido.