O sobrenome dessa linhagem é Yaga. Os filhos da Baba Yaga exalam uma presença ancestral, como se tivessem saído diretamente de uma lenda esquecida. Sua pele é pálida como as neves russas, os cabelos castanhos e ondulados lembram as sombras que dançam no breu das florestas. Sua aura é densa, quase palpável, distorcendo o ar ao redor e causando um desconforto instintivo em qualquer mortal que os encare por muito tempo. Seu toque é frio como a morte e seus passos silenciosos, mas nem sempre conseguem esconder o peso da magia que carregam, que por vezes se volta contra eles, denunciando sua origem sobrenatural.
Um grimório vivo, confeccionado da pele curtida de um traidor e escrito com o sangue coagulado de criaturas de pântano. Suas páginas murmuram segredos esquecidos, sussurrando feitiços proibidos ao serem folheadas. Ele permite conjurações sem verbalização e age como uma bússola mágica, detectando seres vivos em um raio de até cinquenta metros através de pulsos rúnicos. Em perigo mortal, pode abrir uma fenda dimensional que transporta o usuário diretamente para a Casa Móvel, salvando-o de sua morte — mas o livro cobra seu preço: cada feitiço poderoso o deixa mais pesado, como se drenasse a vida do herdeiro, e insistir em usar sua força demasiadamente pode fazer o grimório começar a se alimentar de quem o segura.
“Nem todo mal vem para destruir; alguns vêm para ensinar.”
Os passos da prole da Yaga raramente são ouvidos. Seus corpos parecem não pertencer completamente ao mundo físico, deixando de registrar pegadas, marcas ou sinais claros de passagem. A presença dessas criaturas se funde às sombras ao redor, como se a própria realidade tentasse ignorá-las. Em ambientes urbanos, ruínas ou locais tomados pela escuridão, tornam-se extremamente difíceis de rastrear e, quando permanecem imóveis, podem quase desaparecer da percepção comum, como se o mundo os esquecesse por um breve instante. Ainda assim, essa furtividade não é absoluta. Movimentos bruscos, corridas prolongadas ou ataques diretos fazem com que a aura oculta se distorça temporariamente, revelando sua posição a observadores atentos. Criaturas ligadas ao sagrado ou à morte possuem maior sensibilidade para perceber sua existência, sentindo um desconforto ou presença próxima, embora não sejam capazes de localizá-los automaticamente sem esforço ou atenção.
Herdando o domínio sombrio de Baba Yaga sobre a natureza, a prole exerce controle sobre árvores, raízes e cipós, capazes de se mover, atacar ou se erguer como muralhas vivas. Esse poder se manifesta de forma agressiva e ancestral, como se a floresta reconhecesse neles um herdeiro legítimo. Em bosques e matas densas, essa ligação se intensifica: a terra responde ao seu toque, feridas leves se fecham com maior rapidez, animais se mostram obedientes e uma névoa espessa pode se espalhar, protegendo ou ocultando a área. Esse domínio pode alcançar seu auge com a invocação da chamada Floresta Amaldiçoada, transformando temporariamente uma região inteira em um reduto vivo e hostil aos inimigos. No entanto, tamanho poder exige grande esforço espiritual. Quanto mais intenso ou prolongado for o chamado, maior será a fadiga acumulada, reduzindo gradualmente a eficiência das habilidades até que o herdeiro descanse ou se reconecte com a natureza. Em desertos, cidades artificiais ou terrenos estéreis, a magia não é anulada, mas se manifesta de forma mais contida, exigindo maior concentração para surtir efeito.
Três ecos de feiticeiras ancestrais habitam a mente da prole da Yaga, sussurrando conselhos, fragmentos de rituais antigos e conhecimentos esquecidos pelo tempo. Essas presenças garantem proteção contra invasões mentais e mantêm o herdeiro em constante estado de alerta, fazendo com que quase não necessite dormir, sempre atento ao que ocorre ao seu redor. Entretanto, essa vigília constante tem seu preço. Recorrer aos ecos repetidamente em curto espaço de tempo gera uma tensão mental crescente, resultando em confusão momentânea, lapsos de atenção ou interferências emocionais sutis. Apenas quando o herdeiro ousa acessar memórias extremamente antigas ou proibidas existe o risco real de fragmentação da consciência ou influência externa mais profunda.
A lendária Casa Móvel de Baba Yaga deixou de ser apenas uma construção física, tornando-se uma dimensão viva, mutável e instável. Ao tocar uma superfície sólida, a prole pode abrir um portal que leva a esse labirinto sobrenatural, onde corredores se rearranjam, paredes se movem e o tempo perde sua linearidade. Inimigos arrastados para dentro da Casa se veem presos em um ambiente hostil, que parece possuir vontade própria. A Casa aceita servir por períodos curtos sem exigir pagamento, como se reconhecesse o direito do herdeiro sobre ela. Contudo, tentativas de prolongar sua manifestação ou impor controle excessivo despertam sua fome latente. Nesses casos, a dimensão passa a exigir sacrifícios simbólicos, energia mágica ou pode simplesmente rejeitar o invocador de forma violenta, fechando o portal abruptamente.
O sangue e as lágrimas da prole da Yaga carregam traços raros de poder curativo, capazes de fechar feridas profundas, purificar males graves ou até mesmo trazer de volta alguém que ainda não tenha se afastado completamente do fio da vida. Durante o Halloween, essa dádiva se intensifica, permitindo curas mais rápidas e milagres de maior alcance. Cada uso, porém, drena parte da vitalidade do herdeiro. Curas simples provocam apenas cansaço passageiro, enquanto milagres mais poderosos geram exaustão temporária, reduzindo a força física ou a clareza mental até que o corpo se recupere. Somente o uso excessivo e contínuo pode causar consequências mais duradouras.
A feitiçaria herdada de Baba Yaga é vasta, antiga e amoral. A prole pode lançar maldições, manipular o clima em escala limitada e evocar criaturas de sombra para servir a seus propósitos. Seus rituais não seguem conceitos de bem ou mal, podendo tanto proteger quanto destruir com a mesma facilidade. Magias comuns exigem apenas preparo ritual e concentração adequada. Contudo, feitiços de grande escala ou proibidos cobram preços mais altos, como sangue, desgaste espiritual ou marcas temporárias no corpo e na mente. A deformação permanente surge apenas quando o herdeiro ignora repetidamente seus próprios limites e insiste em abusar desse poder.
O solo se rompe e mãos espectrais emergem das profundezas, formadas por almas condenadas que tentam arrastar inimigos para um abismo de trevas. Essas mãos drenam energia vital e enfraquecem a resistência mágica de suas vítimas, tornando-as presas fáceis. Quanto mais corrompida a alma do alvo, mais intenso é o puxão exercido. Contra seres de luz ou essência divina, o efeito é significativamente reduzido. Invocações repetidas sem descanso tornam as manifestações instáveis, exigindo maior controle do conjurador para evitar que as mãos se voltem contra aliados ou o próprio invocador.
Com uma única gota de sangue, a prole da Yaga pode invocar a Árvore do Carnecer, um ser vegetal profano cujos galhos vivos estrangulam, perfuram ou se erguem como defesa. Seus ramos são capazes de armazenar feitiços, liberando-os em ataques devastadores, e enquanto houver sangue derramado no solo, a criatura continua a crescer e se fortalecer. Sua existência, entretanto, não é eterna. Após um período, a árvore exige novo sacrifício para continuar enraizada no mundo. Caso não receba o pagamento, ela se desfaz lentamente, retornando à terra. Apenas se forçada além de seus limites naturais pode voltar sua fome contra o próprio invocador, lembrando-o da natureza insaciável dos poderes da Yaga.