ANTOLOGIA DE
POESIA AÇORIANA
Prefácio de Pedro da Silveira (1977)
Suposto que esta antologia houvesse sido concebida e feita no propósito de provar que a literatura açoriana existe, era dispensável o prefácio. Em seu lugar, então, tão-só a acompanharia uma breve nota, ou advertência: a justificar que começa onde começa, ou seja, no século XVIII, e não antes, no século XVI. Mas da minha parte não houve aquele propósito, pela boa razão de a literatura açoriana não precisar de que se aduzam argumentos a favor da sua existência: apenas precisa, o que é diferente, de sair do «ghetto» que lhe tem sido a sina, de ser mais bem conhecida. Em matéria de literaturas ditas de expressão portuguesa, aquelas cuja existência ainda carece de argumentos a favor não têm entre si a açoriana: são, com a excepção (relativa) da cabo-verdiana, as das ex-colónias portuguesas da África Negra — e não digo África tout court, porque a Madeira, que de resto foi lugar de criação literária primeiro que os Açores, também é (como a colónia castelhana das Canárias) geograficamente africana.
O referir aqui as ex-colónias portuguesas de África não sucedeu por mero acidente, mas de propósito. De facto, acontece que, nestes últimos anos, os Portugueses se foram dando conta de em algumas dessas terras assomarem, de par com a aspiração dos seus naturais à independência, literaturas novas. E mais acontece (fenómeno este típico dum país que, desde os ominosos tempos do Santo Ofício da Inquisição, e, depois, com as pedagógicas orelhas-de-burro e palmatória, sempre aprendeu à força de pancada e vexames), mais acontece, dizia eu, que o darem por isso se processou em termos extremos: após ignorarem de mais, fizeram um subitâneo giro completo, passando a tomar a sério, como literatura de primeira ordem, toda a casta de subprodutos. No seguimento, da parte dos exegetas improvisados (ou de aviário, como se diria em gíria de agora), as patuscas teorizações do como nascem e se desenvolvem as novas literaturas dos países de formação colonial, decretando-se o molde.
Não obstante certas inegáveis afinidades com Cabo Verde (ilhas, e desertas ao acharem-se, povoamento — enquanto branco — por gente tantas vezes das mesmas estirpes, primeiro passadas a Porto Santo e à Madeira, etc....), os Açores, como novo lugar de nascença duma literatura, que ao longo do tempo cresce e vai ganhando individualidade própria, não podem ser vistos às mesmas luzes. Muito menos, às de ver, por exemplo, Angola, a sua literatura (por enquanto ainda pouco além da fase dos balbucios). Porque, no povoamento dos Açores, na formação histórica do Açoriano, só pesaram elementos europeus: um misto de portugueses, em predominância nortenhos (galegos inclusos), e flamengos. Tudo dizendo, os Açores ilustram, no quadro da expansão ultramarina portuguesa, o posto, tanto geográfico como étnico, do seu avanço rumo às terras quentes do Sul. A mestiçagem, lá, foi uma mestiçagem às avessas, reeuropeizante. Mais não houvesse, já seria razão fortíssima a impor que não se afira a expressão literária do arquipélago norte-atlântico recorrendo-se aos instrumentos utilizados na aferição da das outras colónias portuguesas (desde, inclusivé, o Brasil, onde o Europeu se caldeou com o Ameríndio e o Negro africano).
Onde procurar casos parecidos, a «muleta» que nos sustenha no caminho de chegar à compreensão do caso literário dos Açores, da sua literatura em vias de se autonomizar da literatura-mãe portuguesa?
Nisso que pomposamente se diz «o Mundo que o Português criou» não há nenhum, aproximado ou quase. Mas sucede que Portugal não foi, da Europa, o único país a expandir-se além-mar e a dar origem a novos países, no sangue e na cultura. E eis que logo achamos outros casos, nada menos de cinco: o Canadá anglófono e o Canadá francófono, isto é, o Quebeque, os Estados Unidos, a Austrália, a Nova Zelândia. Certo que em todos estes novos países há populações autóctones, não é menos certo que as literaturas neles nascidas não tiveram a sua participação criadora; são, diga-se assim, literaturas neo-europeias, ou europeias de além da Europa. E mesmo admitindo que o caso Estados Unidos discrepe um pouco (pelo que há de indianismo em alguns seus escritores do século passado, como Fenimore Cooper, e com a literatura dos Negros deste século), afinal só a esses espelhos de Europa transplantada se poderá contemplar imagem semelhante, na construção, à dos Açores. Que se trate de países hoje dispondo do seu próprio destino, ao passo que os Açores permanecem colónia[1], pouco monta: ou até conduzirá, entendido que as sujeições coloniais em geral nunca são só político-administrativas e económicas, mas também culturais (nos Açores inclusivé sujeição religiosa — com os bispos impostos, em saldo de mitráveis, por Lisboa), conduzirá, repito, a melhor se entender que a distanciação da literatura-filha açoriana relativamente à literatura-mãe portuguesa não seja mais completa. Na verdade, os colonialismos manifestam-se, totalitariamente, das mais diversas maneiras, sem exclusão das tão ridículas que se colhem de compêndios de literatura francesa ou de literatura castelhana: lá onde aqueles não só puxam ao domínio de Paris literaturas de fora das fronteiras do Estado francês (da Valónia e da Suíça) como as noutras línguas que ele tem dentro (do provençal ao... bretão!); e lá onde os de literatura castelhana arrumam como «regionalismos dialectais» as literaturas galega, catalã e (cúmulo da megalomania!) euscara.
Gostava de desenvolver tudo isto. Mas há outras coisas, que o prefácio não pode excluir, além de não dever ser longo e, logo, porque os prefácios longos são mesmo secantes, passível de não ser lido. Pelo que sigo avante.
Mas com Luís Ribeiro, Vitorino Nemésio e Ruy Galvão de Carvalho é que chegamos, senão a um conceito de literatura açoriana clara e abertamente exposto, às mais importantes achegas para a sua formulação, e também à necessária inventariação crítica de autores e obras (que Urbano de Mendonça Dias mal esboça, sem real espírito crítico, nos Literatos dos Açores, que publicou em 1933).
Ao primeiro, notabilíssimo etnógrafo, cuja obra infelizmente ainda continua por reunir, devemos os Subsídios para um Ensaio sobre a Açorianidade (primeiro publicados, em 1936-1937, em vários números do Correio dos Açores, e, em livro, enriquecidos com muitas notas por João Afonso, em 1964), onde, além de se ocupar da etnogénese do Açoriano e do que, do meio ilhéu (vulcanismo, clima, mar), contribuiu para o diferençar dos povos que lhe estão na raiz, analisa as suas «aptidões artísticas e inspiração poética» e, por fim, refere vários «poetas literários» em cujas produções o mar entra desta ou daquela maneira.
Enquanto joga com dados históricos e da Etnografia, Ribeiro esclarece muita coisa essencial, que uma sociologia da literatura açoriana não deixará de aproveitar. Mas já não assim quando aduz exemplos literários, através de citações textuais ou nomeando, sem selecção qualitativa, autores (um deles até não açoriano, nem sequer açorianizado, pois apenas viveu alguns anos, na adultez, em S. Miguel: Luís Filipe Leite) e obras. Enfim, alegando falecer-lhe a «competência e materiais de estudo», escusa-se de abordar a «influência do meio na transformação do tipo [humano] e na evolução da língua portuguesa». Faltos desta última sondagem (com uma paralelização língua popular-língua das obras literárias), os Subsídios ficaram demasiado limitados.
Aqui trazido como autor d’O Açoriano e os Açores (conferência proferida e publicada em folheto em 1928, reeditada na colectânea de ensaios Sob os Signos de Agora, 1932), do artigo «Açorianidade» (saído na revista ponta-delgadense Insula, n.os 7-8, 1932) e d’«O Poeta e o Isolamento: Roberto de Mesquita» (in Revista de Portugal, n.° 6, Janeiro de 1939), Vitorino Nemésio, com estes três textos, supre algumas das faltas e limitações do de Luís Ribeiro. Se é discutível a sua divisão do Açoriano em três tipos característicos (o Micaelense, o das Ilhas de Baixo e o Picaroto), esboçada no primeiro trabalho citado, por outro lado não há dúvida de que, tanto aí como no segundo, onde o termo açorianidade surge pela primeira vez e lhe é proposto conteúdo, achamos não pouco que vai direito a uma visão global da realidade açoriana, distanciada da portuguesa. Com o terceiro estudo (e não é ocioso reparar-se que apareceu entre O Bicho Harmonioso, 1938, e Eu, Comovido a Oeste, 1940), em que releva o que de autenticamente insular há nas Almas Cativas, colocando Roberto de Mesquita na posição cimeira (logo a seguir a Antero) que, por isso e pelo apuro da sua arte do verso, lhe cabe na literatura açoriana, avocou-se este outro grande serviço: apontar aos novos o certo caminho rumo à «descolonização» literária dos Açores. As reacções (indirectamente expressas em letra de imprensa), da parte de «consagrados», autopromovidos a deuses vivos do Parnaso islenho (Osório Goulart, Oliveira San-Bento), não se fizeram esperar, mas tiveram efeito em contrário do pretendido. Pelos vistos, os novos açorianos estavam já mais que enfastiados daquilo que, n’O Açoriano e os Açores, Nemésio ironicamente classificara de «hinos à terra, no estilo das caravelas e das cruzes de Cristo dos cinzeiros»): exactamente o que só deram o saudosismo e o «nacionalismo literário» cultivados nos Açores (inclusivé por novos notoriamente capazes de melhor, como Correia de Melo, que afinal se eclipsou da cena literária, ou Maduro Dias, que acabou por se libertar desse cisco. Em suma: com esses três estudos, mais o exemplo da sua obra adulta de poeta e de ficcionista (sem esquecer o cronista, às vezes, doublernent, contista — como ainda sucede no Jornal do Observador), Nemésio tornou-se um misto de João Baptista e de vero Messias da nova literatura açoriana — que Armando Côrtes-Rodrigues, demasiado tempo enredado no «nacionalismo literário») (o «franciscanismo» de que o seu amigo Pessoa lhe apontou os perigos), não pudera ou não se atrevera a ser.
[…]
Não me cabe, obviamente, pronunciar-me sobre obra minha. O caso, porém, é que há aquela panorâmica e, talvez mais defeituosa do que hoje sei que é, ao cabo, não há outra — e também ainda não uma história da literatura açoriana que, substituindo-a, me fizesse calá-la. Escrevendo-a, e sujeitando-me nisso a limitações várias (não referência a historiadores, ensaístas, etc.), por outro lado procurei não espartilhar a literatura açoriana, isto é, não a reduzir ao que dela tem expressa a marca ilha. Entendo, na verdade, que literatura açoriana quer dizer, para os Açores, exactamente o equivalente ao que quer dizer, para Portugal, literatura portuguesa, ou, para qualquer outra terra do mundo, a sua literatura: a que foi e está sendo realizada pelos seus naturais ou naturalizados, dando ou não dando dela e seus habitantes um testemunho imediatamente localizável.
E eis que, de mim me ocupando, afinal disse o que talvez pudera dizer com muito menos gasto de prosa. Mas resta-me acrescentar que, tratando-se duma literatura nascida numa colónia (não tem importância que colónia de povoamento e não de ocupação), escrita numa língua «trazida», a sua autonomização passa pelo ajustamento não só ao meio, ao viver nele, mas também à língua que nele, inevitavelmente, se foi diversificando (naturalizando). Sem dar muitos exemplos, aí vão estes: Devido ao ensino «unicitário» que Lisboa impõe aos Açores, frequentemente os nossos letrados, e até escritores (poetas e prosadores), usam na escrita termos completamente divorciados do seu meio, «estrangeiros». Lembro aldeia, designativo que nenhum açoriano conhece senão dos livros, em vez de, como usamos, freguesia ou lugar, ou até curato; gaivina, quando de ponta a ponta dos Açores se diz garajau (ou grajau); adelaida, que é gíria de Lisboa, quando nós chamamos aos ditos zabelas ou, desde, há trinta e poucos anos, naiões (de Naia, nome de família dum tropa das bandas do Porto, maricas de dar ao rabo, que à ilha Terceira foi ter integrado nas expedições de «defesa da soberania nacional» a que chamámos «a invasão do piolho cinzento»); gaivota, que nas ilhas é garça (S. Miguel) ou ganhoa (Ilhas de Baixo) ou passarouco (em parte das Flores e no Corvo); etc. Se até já vi num texto descritivo duma paisagem o granito, onde devia estar tufo ou basalto! e noutro (um contarelo pseudo-regional) chamar ao pão de milho (oh, vontade de dar bofetadas!) broa!...
À laia de conclusão
O prefácio alastrou-se a bem além dos limites que me propusera — e também colide com o que penso devem ser os prefácios relativamente ao cerne dos livros: introdutores e não… abafadores. Mas já que sucedeu como sucedeu, nem por isso deixo de, agora comprimindo-me, pôr aqui o mais que falta.
Alguns leitores possivelmente notarão nesta antologia, talvez com uma pontinha de espanto, ausências e presenças não esperadas. Ausências, admito que algumas haverá injustas, devidas a ignorância minha — mas não são as de certas «glórias» locais já do século XX. Na verdade, não me sinto fadado nem vocacionado por educação para antologista digamos estatístico ou respeitador de vícios mitofágicos. Por outro lado, inclino-me a que antes um «bissexto» bom, nem que conhecido só por uma poesia, do que vinte desses outros, autores de milhares de versos apenas registáveis como tais segundo critério tecnicista. Se me vergasse a semelhante preconceito, cá estariam não só, por exemplo, o reverendo António Moreno e o advogado Oliveira San-Bento, como até o funcionário de Finanças José S. da Costa — do mesmo modo que uma antologia da poesia portuguesa do século XIX para cá não excluiria os fecundos metrificadores artilheiro Fernandes Costa, abastado proprietário João Maria Ferreira (vulgo Poeta Sevilha) ou burocrata corporativo Santos Cravina. E quanto a outra acusação, sempre possível em certa terra — a de banir A ou B por preconceito ideológico —, os que me conhecem sabem que sou dos que não vão por aí. Com efeito, fosse esta uma antologia de contos açorianos, e não de poesia açoriana, nela estaria representado, e de pleno direito, o contista Armando Cândido — sem que, contra isso, me engulhasse, muito ou pouco, o ter ele sido antes do 28 de Maio membro de organizações juvenis fascistas e depois maioral da União Nacional. Será que, numa antologia de poesia norte-americana, alguém cometeria a enormidade de banir Ezra Pound? Por mim, penso que não.
Quanto à representação de cada poeta, não segui, como se depreenderá do já dito, critério considerador da extensão de obra. Isso só em pequeníssima parte pesou. No geral, fiz sempre por não sobrecarregar a antologia, vindo a torná-la imanuseável. Alguns poetas, é certo, podiam (ou mesmo deviam) estar representados com mais largueza; e outro, com obra publicada pouco extensa, em contrapartida, para outro antologiador, haviam de ocupar menor espaço. Fui, assim, um pouco generoso quanto aos neoclássicos, inculpáveis eles da perda das suas obras, e quanto aos mais novos aqui por entender como camarada mais velho (mas não bajulador a querer colher proveitos!), que lhes devemos incentivos.
Já dei a entender que não me esforcei para catar de cada poeta o que mais exteriorize a sua condição de nacido e criado nos Açores. Entendo que o Açoriano tem o mesmo direito de ser universal, desde que assim atinja bom nível de realização, que tem outro qualquer poeta, doutra qualquer literatura.
Enfim, alguns poetas cuja linguagem, ou temas, não são dos mais respeitadores do pudor dos catões e das santas teresinhas insulanos e da terra firme. Se não gostarem, por exemplo, dos excertos do «Testamento de D. Burro», paciência, passem de largo. Poesia, como todas as mais artes, não tem que ver com isso — até porque José António de Camões já morreu há muito, não podendo portanto transferir-lhes os legados do Grão-Jumento, desde o «óculo de alcançar» ao que coube a Alexandre Pimentel...
Só mais isto. Espero que o leitor, seja ou não seja açoriano, tire do conjunto de composições poéticas que vai ler, considerando-as em bloco e atendendo ao que representam da vitalidade duma literatura marginal, de vida sempre difícil, contrariada, a conclusão que me apetece tirar: que nenhum outro povo europeu tão minúsculo como o Açoriano, excepção feita do Islandês, aliás bem mais antigo e sempre mais livre, deu na poesia (podia acrescentar: e no conto) tão boa nota de si. Que Antero é de facto um grande poeta açoriano, como também o são Roberto de Mesquita ou Vitorino Nemésio, já se sabia. Agora, para quem só isso ou pouco mais alcançava, penso ficará esclarecido que eles não são «ilhas» isoladas, únicas, no «mar» da literatura açoriana.
Pedro da Silveira
Prefácio à Antologia de poesia açoriana, Lisboa Livraria Sá da Costa, 1977. Excertos das páginas 1-4; 17-19: 21-22; 39-41 antologiados em: A questão da Literatura Açoriana, Angra do Heroísmo, SREC, 1983, pp. 81-91
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[1] «Ilhas adjacentes», diz eufemisticamente o Código Administrativo e vem nas Constituiçõs, enquanto Portugal e apelida (oh, a mania das grandezas!)... «Continente».
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Projeto concebido por José Carreiro.
1.ª edição: http://lusofonia.com.sapo.pt/acores/acorianidade_silveira_1977.htm, 2008.
2.ª edição: http://lusofonia.x10.mx/acores/acorianidade_silveira_1977.htm, 2016.
3.ª edição: https://sites.google.com/site/ciberlusofonia/PT/Lit-Acoriana/acorianidade_silveira_1977, 2021.