Link do episódio: #S3E04 - Transvisibilidade na mídia, você já parou pra pensar?
Salve, salve Mamutada!!! Aqui é a Gabi! E vocês sabiam que o dia 20 de novembro é também o dia internacional da memória trans? Nesse dia, lembramos e honramos todas as pessoas que morreram em decorrência da transfobia. Trata-se de uma importante data para chamar a atenção à violência contínua e, infelizmente, crescente, que a comunidade trans enfrenta. A data foi escolhida em homenagem à Rita Hester uma mulher trans negra, que aos 34 anos foi brutalmente assassinada. Seu corpo foi encontrado no dia 28 de novembro de 1998 em seu apartamento na cidade estadunidense de Allston, Massachusetts. O caso, infelizmente, ainda permanece em aberto. Sua morte, juntamente com o descaso da mídia local em cobrir o seu assassinato respeitando a sua identidade de gênero, motivou uma vigília à luz de velas na sexta-feira seguinte, dia 4 de dezembro de 1998.
Contudo, Rita não havia sido a primeira e, infelizmente, está longe de ser a última, mulher trans a ser morta de maneira violenta e ter sua história completamente esquecida pelo sistema. Revoltada com essa situação, Gwendolyn Ann Smith lançou o projeto Relembrando Nossos Mortos (“Remembering Our Dead”) para narrar o terror dos assassinatos motivados pelo ódio anti-transgênero. Foi através desse projeto que ela propôs o Dia Internacional da Memória Trans, celebrado pela primeira vez em 1999, com marchas em homenagem às vítimas da transfobia em Boston e São Francisco.
As mídias de massa, notadamente a TV e o cinema, fornecem, por muitas vezes, as únicas oportunidades que, muites de nós, pessoas trans, temos para sermos representades para fora de nossos refúgios por meio de imagens e personagens em filmes, séries de ficção, telenovelas, animações, etc. A forma com a qual essas imagens são criadas, produzidas e veiculadas pode exercer um impacto profundo em como vemos e, principalmente, classificamos e julgamos pessoas trans e das demais letras da comunidade LGBTQIA+.
Historicamente, pessoas LGBTQIA+ e, em particular, pessoas trans, têm sido representadas de uma maneira muito caricata e extremamente superficial pela mídia. Muitos desses estereótipos envolvem a vitimização, a vilanização ou a ridicularização das pessoas trans. Além disso, eles insistem na exotificação, fetichização, objetificação, patologização e domesticação de seus corpos a partir de uma ótica cisheteronormativa. Um ponto de vista que reforça o imaginário popular de uma personificação paradoxal da fascinação e do nojo, do desejo e da perversão. Tais ferramentas são empregadas em duas camadas. Primeiramente, para tornar os corpos trans inteligíveis para uma população majoritariamente cisgênera e que, por isso, nunca refletiu sobre as opressões da cisheteronorma. Mas, também para policiar as identidades cisheteronormativas, mostrando, por contraste, o que é socialmente aceitável
A partir da virada do milênio e, mais proeminentemente na última década, houve um aumento significativo da presença tanto de personagens quanto de atories trans em filmes e produções televisivas. Contudo, será que essa melhora quantitativa também reflete uma melhora qualitativa da representatividade? Pesquisas de opinião realizadas pela GLAAD, uma organização não governamental fundada em 1985 com o intuito de monitorar a forma com que a mídia retrata as pessoas LGBTQIA+, têm mostrado indicadores positivos.
O estudo “Inclusão LGBTQ na Mídia e na Propaganda”, realizado em 2019 pela GLAAD em parceria com a Procter & Gamble envolvendo 2031 estadunidenses não LGBTQIA+ maiores de 18 anos, ajuda a entender um pouco melhor o cenário. Enquanto que cerca de 86% des respondentes afirmam conhecer pessoalmente uma pessoa LGBTQIA+, apenas 34% conhecem uma pessoa transgênero pessoalmente. Portanto, a única forma de contato e, consequentemente, de aproximação com a realidade das pessoas trans que a maioria da população tem ainda é através da mídia, ressaltando a importância de uma representação adequada e que fuja dos estereótipos nocivos.
Além disso, esse estudo ajuda a corroborar a hipótese de que a representação de pessoas LGBTQIA+ na mídia está relacionada com uma maior aceitação dessa comunidade, indicando pelo menos um sucesso parcial das representações contemporâneas. Notadamente, pessoas não LGBTQIA+ que foram expostas a imagens de pessoas LGBTQIA+ na mídia nos 3 meses anteriores à pesquisa reportaram uma maior aceitação, quando comparadas com pessoas não LGBTQIA+ que não foram expostas. Em particular, a aceitação de pessoas trans sobe de 33% (no grupo não exposto) para 44% (no grupo exposto). Finalmente, esse estudo mostra também que 76% des respondentes estão confortáveis com a presença de personagens LGBTQIA+ no cinema e na televisão.
Mas, de que forma essa mudança na representação de pessoas trans na mídia tem realmente ajudado a combater o preconceito e a aumentar a aceitação de pessoas trans na sociedade? Será que representatividade basta para garantir uma existência digna às pessoas trans? Trata-se de duas perguntas cruciais no contexto geopolítico atual, em que assistimos uma avassaladora onda conservadora abalar diversas democracias no mundo e colocar em risco a já frágil legitimidade das corpas trans.
Como será que pessoas trans se sentem ao verem outras pessoas trans sendo representadas nos filmes e na televisão? São espelho do que desejam para elas mesmas? São personagens que permitem oferecer perspectivas variadas sobre elas? São imagens que reproduzem repulsa ou chacota? Fazem rir? Fazem temer? Criam projetos de futuro ou reproduzem preconceitos?
Representação e representatividade não são necessariamente sinônimos. Durante muito tempo, grande parte das personagens trans no cinema e na televisão eram representadas por pessoas cisgênero de forma estereotipada e só muito recentemente passaram a ser interpretadas por pessoas trans. Mas, não necessariamente são imagens positivas ou mais próximas da experiência cotidiana delas. Resta então a questão de como elaborar mídias de forma ética e responsável que possam efetivamente criar mecanismos de combate à homofobia e à transfobia.
Um ponto primordial para se pensar na valorização da visibilidade trans refere-se ao respeito ao processo de autodeterminação, nas palavras da Leticia Carolina Nascimento:
“O conceito de autodeterminação nos coloca como protagonistas de nossas experiências subjetivas, retirando a autoridade que, na sociedade vigente, ainda está tutelada por instituições médicas, jurídicas, religiosas e estatais, que nos delimitam em uma condição subalterna, patológica, criminosa e imoral. Quando os corpos trans* assumem processos de produções discursivas sobre suas subjetividades, passam a rechaçar o pensamento colonizador e os processos de patologização”.
Desse modo, é essencial levar em conta as autodefinições e as autoidentificações das pessoas trans para que elas mesmas possam construir imagens de si que escapem às cisheteronormatividades e não criem imagens de controle que reproduzam desigualdades e violências. Para perceber essas experiências de forma ampla, reconhecendo as singularidades das transgeneridades possíveis, é preciso captar, produzir e veicular imagens por meio de uma perspectiva interseccional, e possibilitar cruzamentos entre gênero, raça, classe, geração, sexualidade, nação, entre outros marcadores sociais da diferença.
Sexo, gênero e desejo são três elementos observáveis independentes nas dinâmicas socioculturais humanas. Eles criam relações afetivas, sexuais ou românticas que, não necessariamente nessa ordem, também produzem normatividades em relação a identidades, subjetividades, formas de família, modos de dominação e desigualdade, práticas e comportamentos, etc.
Aqui, entendemos a identidade de gênero de uma pessoa como a sua percepção sobre a sua existência sexuada em um dado contexto ambiental, cultural e social. Em outras palavras, como ela interpreta as suas demais características sexuais levando em conta aspectos do ambiente, cultura e sociedade na qual está inserida. Dessa forma, não apenas a identidade de gênero emerge de uma complexa relação entre fatores ambientais, biológicos, culturais e sociais, como pode ser apenas autodeterminada. Definimos, então, gênero como o conjunto de todas as identidades de gênero possíveis dotado de relações que possibilitam inúmeras combinações que envolvem subjetividades, construções corporais, comportamentos, desejos, formas de expressão, formas de aliança, diferenciações, relações multiespécie, etc.
Por atração sexual, afetiva ou romântica entendemos o conjunto de gêneros que despertam desejo em uma dada pessoa. Algo que é mais comumente chamado de “orientação sexual”. Note, contudo, que não há uma determinação daquilo que cada ume faz com sua sexualidade ou com seu desejo por outrem. Usualmente, empregamos o gênero como referência para classificar a sexualidade. Assim, a atração ou desejo por pessoas do mesmo gênero são denominadas homossexuais, enquanto que pessoas que se atraem por outros gêneros, heterossexuais. Já, pessoas que sentem atração por múltiplos gêneros se encaixam em alguma das multissexualidades, como bissexualidade e pansexualidade. Finalmente, existem pessoas que sentem pouca ou nenhuma atração sexual, denominadas assexuais. Nesse sentido, a relação entre sexo, gênero e desejo não é linear muito menos causal, mas permite infinitas combinações.
Ao empregar pseudebijeções para amarrar apenas dois tipos de genitália, ou seja, pênis ou vagina, a apenas dois dos possíveis gêneros, a saber, homem ou mulher com a heterossexualidade, nossa sociedade cria a chamada cisheteronorma que privilegia duas classes de corpos em detrimento de uma miríade de corpas que se tornam, pois, ininteligíveis socialmente. São exatamente essas corpas marginalizadas que constituem a chamada comunidade LGBTQIA+, compostas por pessoas lésbicas, gays, bissexuais, trans, queer, intersexuais, assexuais entre outras sexualidades e gêneros que transcendem a cisheteronorma. Neste contexto, entendemos uma pessoa transgênero, ou mais simplesmente trans, aquela cujo gênero não corresponde ao atribuído ao nascimento através da pseudobijeção entre genitália e gênero. Reciprocamente, uma pessoa que não é trans é denominada cisgênero, ou mais simplesmente cis.
De acordo com Tristan Booth, no livro “Transgender Communications Studies - Histories, Trends and Trajectories”, que infelizmente não foi traduzido ainda para o português, a representação acurada de pessoas trans na televisão enfrenta diversos problemas cuja origem pode ser traçada a uma interação destrutiva entre a cisnormatividade e a dependência intrínseca dessa mídia em imagens. Em particular, espectadores necessitam de uma confirmação visual da identidade de gênero para tornar os personagens exibidos na tela inteligíveis. A grande dificuldade em apresentar identidades de gênero que não correspondem imediata e trivialmente à aparência física, como acontece, notadamente, com pessoas trans não passáveis ou não-binárias, propicia uma caracterização que super enfatiza, de modo muitas vezes caricato, os estereótipos de gênero cisnormativos, como o uso exagerado de maquiagem e a interpretação de personagens trans por parte de atories cisgênero.
Por exemplo, grande parte des personsagens trans presentes nas telenovelas e nos filmes, até os anos 2000, eram representados por profisisonais cis, criando, na maioria das vezes, imagens muito exageradas e cômicas sobretudo de pessoas transfemininas, como foi o caso da personsagem Ana Bela, interpretada por Ney Latorraca na novela Um Sonho a Mais, de 1985, que fazia o público rir. Segundo pesquisas de Anderson Luiz de Mello, “Entre 1985 e 2020 foram mais de vinte personagens trans em telenovelas nacionais, a maioria expressiva delas interpretadas por mulheres e homens cis. Nas poucas ocasiões em que a regra foi quebrada, uma mesma atriz trans, Rogéria, foi escalada para três desses papéis, em Tieta (1989), Paraíso Tropical (2007) e Babilônia (2015)”. Rogeria, conhecida como “a travesti da família brasileira”, falecida em 2017, foi maquiadora, atriz, transformista e participou de diversas novelas e filmes, entre eles a famosa novela Tieta com a personagem Ninete.
Atrizes e modelos transfemininas que passaram a ganhar visibilidade nas telas estavam voltadas, sobretudo, para o mundo do carnaval e da moda, reproduzindo de certo modo, um desejo objetificante de espectadories curioses e desejantes por corpas exóticas, que podiam fazer rir e divertir a plateia. Além disso, elas estavam sempre sob suspeita e se tentava revelar seu “verdadeiro sexo”, tanto com relação a modelos, como Roberta Close, quanto em relação às personagens nas novelas, como Ninete (Mello, 2022). “Será que ela é?”. E, portanto, ainda não havia espaço para visibilidades trans que pudessem contemplar outras experiências e expressões de gênero.
Só mais recentemente, em 2009, uma atriz trans, a Fabiana Brazil, interpretou uma personagem trans, com uma pequena participação especial, na novela Vende-se um Véu de Noiva, dirigida por Íris Abravanel. Na novela Salve Jorge, dirigida por Gloria Perez, a atriz trans Maria Clara Spinelli interpretou Alice, uma mulher trans que foi vítima de uma rede internacional de tráfico humano, tema que reproduz imagens de controle em relação a pessoas transfemininas, relacionadas à exploração sexual. Além de Alice, também havia uma personsagem cis e lésbica que foi interpretada por Thammy Miranda, atualmente vereador pela cidade de São Paulo, que se identifica como homem trans. Essa diretora também foi a primeira que introduziu um personagem transmasculino nas telenovelas, mas que foi interpretado por uma atriz cisgênera, Carol Duarte, em A Força do Querer, de 2017.
Em meio a inúmeros personsagens trans interpretados por atories cis, em 2018, a novela O Sétimo Guardião, dirigida por Aguinaldo Silva, contou com a participação da conhecida Nany People, mulher trans, humorista, que interpretou o papel de Marcos Paulo, supostamente uma pessoa transfeminina, mas que manteve o pronome masculino, o que mostra uma questão altamente problemática e desrespeitosa para pessoas trans, para as quais os direitos ao uso do nome social e à mudança do nome civil são fundamentais. E, por fim, mais recentemente, duas atrizes transfemininas puderam interpretar papéis de personsagens transfemininas: Glamour Garcia, em A Dona do Pedaço, com a personsagem Britney, que sofre por não ter sua identidade de gênero respeitada pelo seu amado, um homem cisgênero heterosexual, e Gabrielle Joie, em Bom Sucesso, que interpretou a adolescente Michelly, que sofre transfobia no ambiente escolar.
Nesses exemplos citados, é notório como ainda é incipiente a representatividade trans nas telenovelas brasileiras e a quase ausência de transmasculinidades nos elencos e nos enredos. Há também um reforço das cisheteronormatividades pela insistência da presença de atories cisgênero interpretando todos os papéis e, sobremaneira, pessoas brancas. Assim, reforça-se uma imagem falseada - transfake - que esbarra também em black face, essa última tão presente na história do cinema ocidental. Essa questão toca em um tema extremamente delicado para pessoas trans, que é o da passabilidade. Esse conceito originou-se em discursos raciais e, desde então, tem sido aplicado a situações nas quais um indivíduo de um grupo marginalizado é lido ou percebido como parte do grupo dominante e, com isso, recebe condicionalmente os privilégios associados ao grupo dominante.
No caso de pessoas trans, passar, ou a passabilidade, significa ser lida e tratada como cis e com isso evitar que seu gênero seja questionado ou considerado não natural ou uma cópia de segunda categoria dos gêneros ditos "verdadeiros". Muitas vezes, a passabilidade significa tentar sobreviver em meio a um ambiente extremamente hostil, violento e transfóbico. Não obstante, as narrativas envolvendo pessoas trans utilizam recorrentemente intervenções cirúrgicas como ritos de passagem para validar as identidades trans. Afinal, no contexto do binário cisheteronormativo um gênero só é inteligível se corresponder ao conjunto "correto" de genitais. Além de contribuir para a patologização das existências trans, tais narrrativas criam toda uma fetichização em torno das cirurgias popularmente conhecidas como de "mudança de sexo".
O filme A Garota Dinamarquesa, que retrata a vida da pintora e mulher trans Lili Elbe e sua esposa Gerda Wegener, é um exemplo paradigmático da visão cisnormativa sobre as narrativas trans. Para começar, há um foco desnecessário na obsessão de Lili com a sua aparência, notadamente, antes de sua cirurgia de readequação genital, reforçando a visão de que se trata de um homem se vestindo de mulher. Representação que, em particular, reduz todo o complexo processo de se entender como uma pessoa trans a um breve e raso momento de epifania, quando ela veste roupas femininas pela primeira vez. A sua cirurgia serve, então, como rito de passagem para consertar o seu corpo defeituoso e lhe validar como mulher. A centralidade da cirurgia na narrativa serve para enfatizar o tropo cisnormativo do "nascida no corpo errado" e corroborar a medicalização e a patologização das identidades trans.
A questão da passabilidade também revela que, em muitas situações, as transgeneridades também estão diretamente relacionadas a questões racializadas. O documentário Revelação, disponível na Netflix, demonstra como personagens trans e negres são retratados nas mesmas chaves estereotipadas, entre a chacota, a repulsa e fetichização e revelam que há a construção de um gênero racializado, onde corporeidades consideradas dissidentes, ou seja, que não estão ajustadas às normas da branquitude e da cisheteronormatividade, rapidamente são reproduzidas como exotizantes, anormais, irreais. Raça e gênero aqui se encontram, para além da cor da pele.
Julia Serano, lembrando que já falamos dela e de seus trabalhos aqui no Mamucast!, argumenta que a disparidade de representação entre transmasculinos e transfemininas na mídia está intimamente ligada à diferença de valores que a nossa sociedade associa à masculinidade e à feminilidade, em outras palavras, ao sexismo. Assim, ao considerarmos características tipicamente associadas ao masculino superiores às tipicamente associadas ao feminino, torna-se incompreensível por que uma pessoa abriria mão dos privilégios masculinos para se "transformar" em uma mulher. Isso torna as transfeminilidades escandalosas e passíveis de serem sensacionalizadas pela mídia. Por outro lado, pessoas transmasculinas são vistas como subindo na escala de privilégio social, algo não apenas normal, mas esperado. Ademais, é impossível sensacionalizar as transmasculinidades sem colocar a própria masculinidade em questão. Resta, portanto, que o único motivo para uma pessoa transfeminina transicionar seria obter o único tipo de poder que mulheres têm em nossa sociedade: a habilidade de expressar a feminilidade e para atrair homens. Ao reduzir as identidades transfemininas a meros fetiches e perversões sexuais, a mídia garante que pessoas transfemininas não têm nenhum valor além do seu potencial de sexualização.
Esse potencial é então explorado através da representação de personagens transfemininas como interessadas única e exclusivamente em atingir uma aparência ultrafeminina em dois arquétipos principais: a transexual enganadora e a transexual patética, cuja diferença consiste primordialmente em sua passabilidade. As enganadoras, usualmente interpretadas por mulheres cis, são consideradas uma ameaça, por usarem a sua passabilidade completa e, consequentemente, a sua beleza e sensualidade dentro dos padrões cisheteronormativos para enganarem homens cisgênero e heterossexuais a se apaixonarem por um outro "homem". A revelação de sua transgeneridade é, então, empregada como um plot twist para evocar nojo nes expectadories. Esse nojo, dispara respostas emocionais e físicas perenes que evocam ódio e promovem a mercantilização da violência contra pessoas trans como forma de entretenimento.
Por outro lado, as patéticas são pessoas transfemininas que, apesar de todo o esforço em performar a feminilidade, são extremamente não passáveis, seja por exibirem características físicas ou comportamentais usualmente atribuídas a homens. É exatamente dessa contradição violenta entre a identidade de gênero e a aparência física que surge, de acordo com Miller (2015), um humor fársico, ou seja, aquele que resulta de uma identidade equivocada, disfarce ou outra situação improvável, já que, apesar do desejo (e esforço) de serem mulheres, elas não conseguem mudar o fato de que são homens. Assim, ao rir da patética, a audiência se distancia dela, subentendendo que é socialmente aceitável zombar de identidades trans. Exemplos de personagens patéticas são Roberta de O Mundo Segundo Garp, Bernadette de Priscilla, A Rainha do Deserto e Henrietta de As Aventuras de Sebastian Cole. Diferentemente, do que acontece com as enganadoras, cujo pênis é revelado em um momento crítico da história para evocar nojo e violência, a genitália das patéticas, usualmente representada após algum procedimento como castração ou cirurgia de redesignação genital é empregada como um alívio cômico.
Além dos problemáticos arquétipos que acabamos de discutir, ao analisar 102 episódios de séries de televisão envolvendo pessoas trans exibidos no período de 2002 a 2012, a GLAAD identificou que:
Em 40% dos episódios a pessoa trans é colocada no papel de vítima;
Em 21% dos episódios a pessoa trans é colocada no papel de vilã ou assassina;
Em 20% dos episódios a pessoa trans é descrita como uma trabalhadora sexual;
Em 61% dos episódios é empregado termos transfóbicos.
Ademais, seriados policiais como Law & Order (1990-2010), CSI (2000-2015), NCIS (2003-) e The Closer (2005-2012), não apenas representam usualmente pessoas transfemininas como vítimas, seja de homicídio ou de crimes sexuais, mas também mostram o tratamento desumano que lhes é dispensado pelas forças policiais. O assédio é constante e envolve tanto o uso de pronomes masculinos e o do nome morto quanto de termos ofensivos. A reiteração de personagens transfemininas como vítimas de assassinatos e como suspeitas de crimes reforça as imagens de controle que as associam a pessoas a quem se deve temer e não proteger, justamente uma realidade contrária a que vivem, por exemplo, no Brasil, travestis negras, que são as maiores vítimas de transfeminícídio perpetrados por homens cisgêneros. Além disso, esta associação a uma suspeição de seus comportamentos também reforça políticas transexcludentes, que são cada vez mais reivindicadas por feministas radicais e outros setores conservadores.
Um bom começo é empregar atories trans para representar personagens trans. Mas, como a série Orange Is The New Black (Netflix, 2013-2019) exemplifica, trata-se de uma condição necessária, porém não suficiente. Em Orange Is The New Black, vemos pela primeira vez uma atriz trans e negra, Laverne Cox, interpretando uma mulher trans negra, a detenta Sophia Burset, que foi presa por fraude bancária para pagar por sua cirurgia. Apesar, de ter sido considerada como o melhor exemplo de representatividade trans na televisão, a série cai em diversos tropos como: um foco desnecessário na transição, o contraste do antes e depois, a narrativa de ter nascido no corpo errado, objetificação e sexualização de seu corpo, e a simultânea vitimização e vilanização das identidades trans.
Lançada em 2015 às sombras de Orange Is The New Black, a série Sense8 (Netflix, 2015-2018) revolucionou a representação trans na mídia como nunca antes visto. Foi a primeira série televisiva a possuir uma protagonista trans (Nomi Marks) interpretada por uma atriz trans (Jamie Clayton) e a ser criada, escrita e dirigida por pessoas trans (as irmãs Lana e Lilly Wachowsky). Talvez, por essa combinação até então impensada, a série consegue não apenas escapar dos tropos usuais, mas reinterpretá-los de uma maneira a apresentar narrativas inovadoras em que a transgeneridade surge como uma forma de percepção que transcende os limites de raça, gênero, corpo e cultura. Diferentemente de outras personagens trans, Nomi não é definida pela sua transgeneridade, muito pelo contrário, trata-se de apenas mais um aspecto de sua vivência, que inclui ser uma hacker, ativista e blogueira política. Ela também tem um relacionamento saudável com a sua namorada Amanita, com quem casa no final da série, mostrando não apenas que pessoas trans merecem ser amadas, mas também quebrando a heteronormatividade com que são frequentemente representadas.
Há também outras produções que apontam caminhos mais próximos da multitude de experiências trans, e que oferecem possibilidades de construção de redes de afeto e de apoio, de formação de famílias escolhidas, de novas formas de paternidade e maternidade possíveis, de processos de envelhecimento com respeito e dignidade, etc.. Esse é o caso de Manhãs de Setembro, uma série brasileira criada por Luís Pinheiro e Dainara Toffoli (Prime Video, 2021), cuja protagonista principal é a mulher trans Cassandra, interpretada pela cantora e atriz Liniker. Aqui, mostra-se, entre outras temáticas, as complexidades de uma maternidade possível e ambivalente de Cassandra, e de uma história afetiva que é narrada a partir de um olhar cuidadoso e nada romantizado de diferentes personagens.
É importante ressaltar que essa maior representatividade trans encontrada em serviços de streaming não pode ser necessariamente atribuída a um melhor entendimento ou aceitação da diversidade. Canais de streaming operam sob um sistema de negócio diferente da televisão aberta e a cabo e, por isso, não estão sujeitos aos mesmos vínculos comerciais. Booth argumenta que a natureza comercial da televisão molda sua programação de forma a manter em sua audiência o maior número simultâneo de consumidores possíveis assistindo ao mesmo programa. Em outras palavras, eles não querem que os detentores de dinheiro mudem de canal. Consequentemente, não basta que sua programação seja apenas inteligível para a camada dominante da população, mas que, sobretudo, agrade seus interesses.
Todavia, se as séries têm sido um espaço importante para a representatividade e a representação trans, elas não estão disponíveis nos canais abertos e só podem ser veiculadas para um público mais restrito. São telas trans inclusivas para um nicho reduzido de espectadories, enquanto que nas telenovelas ainda se mantém a presença trans de forma residual. Como ampliar a veiculação de produções para além dos canais de streaming?
Boas práticas deveriam identificar as principais pautas dos movimentos trans - suas reivindicações, direitos, desafios, anseios - e respeitar contextos locais nos quais essas problemáticas têm sido produzidas; respeitar e valorizar as auto identificações e as múltiplas identidades trans, incluindo questões étnico-raciais e interseccionais; possibilitar uma maior visibilidade a pessoas transmasculinas e a construção de masculinidades não hegemônicas; dar voz e, principalmente, dar ouvidos a pessoas trans que são profissionais de comunicação e incluí-las em todos os processos de produção cinematográfica e televisiva.
Pessoas trans sempre estiveram presentes nas telas, como profissionais, e também foram espectadoras, projetando seus medos, expectativas, frustrações e, antes de mais, ansiando que houvesse imagens nas quais elas se sentissem representadas e reconhecidas. E você, tem colaborado para quais imagens? Se tornará ume aliade?
[1] https://tdor.translivesmatter.info/dir
[2] https://defrostingcoldcases.com/rita-hester-nov-30-1963-nov-28-1998/
[3] https://boston.edgemedianetwork.com/s
[4] https://www.transgenderdor.org/
[5] BOOTH, E. Tristan , "Television - The Provisional Acknowledgment of Identity Claims in Televised Documentary", Transgender Communications Studies - Histories, Trends and Trajectories, edited by Leland G. Spencer and Jamie C. Capuzza, Lexington Books, 2015.
[6] BUTLER, Judith. Problemas de gênero - feminismo e subversão da identidade, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2003.
[7] COLLINS, Patricia Hill. O pensamento feminista negro. SP: Boitempo, 2019.
[8] GLAAD, https://www.glaad.org
[9] LESTER, Paul Martin ; "Visual Communication - From Abomination to Indiference: A visual Analysis of Transgender Stereotypes in the Media", Transgender Communications Studies - Histories, Trends and Trajectories, edited by Leland G. Spencer and Jamie C. Capuzza, Lexington Books, 2015.
[10] NASCIMENTO, Leticia Carolina. Transfeminismo. Col. Feminismos Plurais, São Paulo: Jandaíra, 2021.
[11] SERANO, Julia , Whipping Girl : a Transsexual Woman on Sexism and the Scapegoating of Femininity. Emeryville, CA: Seal Press, 2007.
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Pra aprender:
Paris is Burning (1990)
Revelação (2020)
Pra descontrair:
Sense8 (2015-2018)
Manhãs de Setembro (2021-2022)
PS. Cheque a classificação etária das séries!
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