Link do episódio: #S02E03 - Pena de urubu, asa de galinha, tem muita ciência, nessa tal de bruxaria!
Salve Mamutinhes! Aqui é a Rebeca! E aqui é a Gabi! Hoje vamos falar sobre como os saberes tradicionais das mulheres, curandeiras, parteiras ou apenas avós foram usurpados e suas detentoras originais vilanizadas com a estabilização de uma força religiosa durante a formação das monarquias européias.
Como as mulheres, que sempre foram protagonistas da cura e do cuidado, foram isoladas do saber acadêmico e culpadas por simplesmente envelhecer. E quais são as consequências a longo prazo desse isolamento? O que as bruxas têm a ver com desenvolvimento do conhecimento científico, desigualdade e poções mágicas?
Imagine uma senhora que já casou, teve filhos, tornou-se viúva e colabora ativamente para aumentar a qualidade de vida das pessoas de sua comunidade. Ajuda outras mulheres, cuida de crianças ou adultos. Imagine, então, que alguém vai na casa dessa mulher e toma um chá. Logo depois, por outro motivo aleatório, esse visitante não se sente bem. Essa pessoa resolve ir até a igreja local e denunciar a dona da casa e do chá como bruxa. De repente, vários rumores de que essa mulher realiza atividades escusas aparecem. Sem nenhuma prova concreta, ela é jogada num calabouço sem direito a defesa de mais de 40 acusações de bruxaria. Ela é torturada por meses, mas não confessa, diferente de muitas outras mulheres, que, sob tortura, disseram o que seus algozes desejavam.
Agora pense que essa mulher é a mãe de um dos cientistas mais importantes da época, Johannes Kepler, o pai da astronomia moderna. Matemático do Sacro Império Romano-Germânico e conselheiro do imperador Rodolfo II em Praga! Kepler poderia ter feito o que muitas famílias fizeram na época ao passar por essa suspeita. Simplesmente pedir à igreja que condenasse sua mãe à fogueira para limpar seus pecados, mas não, Kepler lutou arduamente por sua mãe. Fez sua defesa pessoal e depois de 6 anos de julgamento ela foi solta e liberada de ser queimada viva.
Kepler usou toda a sua capacidade argumentativa, e teve que justificar as práticas médicas de sua mãe, traçando um paralelo com mulheres de privilégio real, como as Sibilas (mulheres sábias e, geralmente, mais velhas). Essas mulheres tinham um vasto conhecimento sobre herbalismo e uma grande experiência na observação de pacientes diferentes, por longos períodos de tempo, sendo, pois, uma fonte considerável de saber médico.
Você pode até pensar que isso seria normal na época, ou normalizado pela cultura misógina que persiste até hoje. Contudo, o próprio Kepler e outros cientistas da época como o Galileu Galilei, sempre tiveram posições antagônicas aos ensinamentos religiosos da época, como, por exemplo, o Copernicismo, ou mais simplesmente heliocentrismo, em contraponto à visão cristã geocêntrica, mas nunca foram julgados como “bruxos”. Nunca foram acorrentados, torturados ou tiveram sua vida transformada em um pesadelo digno dos mais sombrios filmes de terror. Galileu foi julgado, mas ficou preso em sua residência. Kepler não quis se converter ao catolicismo, o que lhe foi exigido por um dos imperadores a quem serviu, e mesmo assim, foi apenas mandado para outro lugar, ou perdeu financiamento do império para publicar seus livros. Ele não foi acorrentado. Não foi torturado. Não precisou que alguém interviesse em sua defesa.
Então fica a pergunta que não quer calar: por que as mulheres eram o alvo dessas denúncias? Algumas pesquisas estimam que mais de 78% dos condenados de bruxaria nos terríveis Julgamentos de Salem no séc. XVI eram mulheres. Os homens que fizeram parte dos julgamentos, em geral, eram denunciados por estarem em conluio, ou serem parentes das mulheres também julgadas por bruxaria.
Doulas, parteiras e curandeiras sempre foram suspeitas de “bruxaria”, devido ao parco conhecimento que tinham e, principalmente, à sua taxa de sucesso ou falha no tratamento de seus pacientes. Tradicionalmente, esses papéis sempre foram relegados às mulheres, mas não lhes foi dada nenhuma opção de educação formal no assunto. Esses saberes informais eram passados de geração em geração, ou aprendidos através da observação, como dito por Kepler na defesa de sua mãe.
Mesmo sendo excluídas do estudo regulamentado com o surgimento da educação formal, as mulheres continuaram com suas práticas, especialmente em pequenas comunidades. A maior parte da população só teria acesso a alguma forma de cuidado mais especializado através dessas mulheres. Durante a maior parte da Idade Média, o parto de bebês era uma atividade exclusiva e destinada às mulheres, por exemplo. O maior problema era a margem de erro de suas intervenções e tratamentos, que muitas vezes dependiam do acaso. Como saber a dose adequada de um determinado medicamento à base de plantas? Ou como tratar doenças sem conhecimento de microorganismos? Ou como explicar por que um parto foi tranquilo e outro não foi tão bem sucedido? Ou, como explicar uma “cura” que deu muito certo ou uma que deu muito errado?
Com o começo da disputa entre protestantes e católicos no século 16-17, a bruxaria se tornou a resposta simples e fácil. A nossa visão moderna das bruxas é uma mistura complexa e repleta de inúmeras influências culturais que, atualmente, são consumidas como entretenimento, mas há séculos a situação era bem mais complicada e ameaçadora. Estima-se que ocorreram de 90.000 a 100.000 julgamentos de bruxaria na região centro-oeste da Europa, Escandinávia e “Américas” entre 1400 a 1800. Acusações ocorriam em tempos de crise, guerra, fome e peste. Os magistrados, juízes e o clero eram compostos por homens que controlavam (e ainda controlam) muito bem a sociedade e, as mulheres que saíam dos papéis designados por esses homens viravam alvo.
Você poderia ser uma mulher pobre, como Mary Webster de Hadley em Massachusetts, casada, de 60 anos e sem filhos que vivia de doações. Um dia, em meados de 1683, seus vizinhos acharam que ela não agradeceu o suficiente e a acusaram de bruxaria, dizendo que ela tinha envenenado o gado da região. A Corte de Assistentes de Boston a julgou inocente. Um tempo depois um vizinho dela ficou doente, novamente Mary foi acusada de bruxaria e, dessa vez, foi declarada culpada e, posteriormente, enforcada. E assim continuaram com as acusações estapafúrdias, não interessava se você fosse rica ou de uma família influente, bastava que não fosse submissa o suficiente, para que eventualmente fosse acusada de bruxaria.
Assim como chegou para Katharina Kepler em 1615, ela era viúva, tinha uma vida estável e foi acusada por uma ex-amiga de ter recebido, na casa de Katharina, uma “poção” que a fez passar mal. Provavelmente, foi apenas um chá ou alguma infusão herbal que não lhe caiu bem. Mesmo sendo mãe do Matemático Imperial, ela passou 14 meses acorrentada ao chão. Nos EUA, depois das histórias famosas de Salem, as acusações e as execuções começaram a ficar mais frequentes, colocando as mulheres umas contra outras, fazendo-as confessarem sob tortura, transformando-se num instrumento de repressão.
E para quem acha que a perseguição à bruxaria é algo que ficou na Idade Média, ainda existem resquícios desse instrumento de repressão até hoje, como o “Satanic Panic”, uma tendência americana religiosa prevalente nas décadas 1970-80 que associava qualquer coisa fora da “moral” com o satanismo. Um dos melhores exemplos de tal “Satanic Panic” em terras brasileiras é o caso de Ouro Preto, que se refere ao assassinato não esclarecido da Estudante Aline Silveira Soares. Ela foi encontrada morta em cima de um túmulo do cemitério Nossa Senhora das Mercês em Ouro Preto, com 17 facadas no corpo, na madrugada do dia 14 de outubro de 2001.
A causa do crime apontada pela polícia, sustentada pelo Ministério Público e amplamente divulgada pela imprensa teria sido uma partida de RPG, que Aline perdera e por isso foi punida com a morte. Qualquer ume sabe que não existem perdedories, e muito menos sacrifícios, em uma partida de RPG, de fato, todes ganham com a contação colaborativa de histórias. Mas a mídia inflamada pela obsessão das autoridades locais na moral religiosa em demonstrar a implicação do jogo de RPG com o suposto satanismo presente no evento, promoveu uma violenta campanha de desinformação relacionando indevidamente o RPG com rituais satânicos, bruxaria e homicídios. O jogo em questão, Vampiro: A Máscara, chegou a ser, temporariamente, proibido pela justiça. Após 8 anos sofrendo um profundo linchamento público, os acusados foram inocentados do crime, que continua em aberto. Outro caso muito famoso é o das Bruxas de Guaratuba, também conhecido como Caso Evandro, onde mulheres também foram torturadas pela polícia para confessar a autoria do crime.
E mesmo com toda essa opressão sistemática e violenta, as mulheres continuaram a ser curandeiras, parteiras, cuidadoras e sábias! E não deveriam ser comparadas às versões simplistas atuais de maneira leviana. Longe da figura de ignorante que a mídia propaga, elas conheciam muito bem os benefícios das plantas que utilizavam! A maioria das "poções" eram à base de plantas que hoje sabemos conter alcalóides tropânicos, como a escopolamina, a atropina e a hiosciamina, presentes em plantas como Beladona (Atropa belladonna), Mandrágora (Mandragora officinarum), Meimendro ou Belenho (Hyosciamus niger). Dependendo da dosagem de cada uma das plantas, a poção poderia ser estimulante ou com efeito anestésico. O medicamento também poderia ser em formato de unguento ou creme para passar nos membros como relaxante muscular. Por exemplo, a casca do Salgueiro (gênero Salix) ou o súber (felema) têm uma seiva que contém ácido acetilsalicílico, usado ainda hoje para tratar inflamações.
Esses saberes passados por incontáveis gerações começaram a ser pesquisados, identificados, testados e, eventualmente, utilizados como medicamentos de maneira segura. Um caso notório é o da Digitalis ou dedaleira (Digitalis purpurea). Trata-se de uma planta medicinal de propriedades altamente tóxicas, mas que hoje sabemos ter uma substância, a digitalina ou digoxina, que pode ser empregada no tratamento de cardiopatias como arritmia e insuficiência cardíaca. Quem começou o estudo sistemático dessa substância foi o Dr. William Withering em 1780. Mas, o que quase ninguém sabe é que Withering não descobriu a Digitalis sozinho, ele ouviu de uma “sábia curandeira de Shropshire”, mas nunca a citou formalmente, claro. Por mais que ele tenha sido responsável pela padronização da utilização dessa planta como um medicamento, o conhecimento da sábia da vila e de como tratar algumas condições médicas, mesmo que de forma bem rudimentar, já existia por muitos séculos.
Muitos outros medicamentos tradicionais foram produzidos a partir desses saberes populares. A medicina tradicional chinesa nos deu a epinefrina para asma. O povo Quechua do Peru descobriu a quinina para a malária, e o povo Tapebas do Ceará usa a Amburana cearenses, ou o Cumarú, como um remédio broncodilatador, para citar alguns poucos exemplos.
No final do episódio, deixaremos alguns artigos específicos sobre poções mágicas cientificamente revisitadas pra vocês conferirem.
Em um intervalo de 200 anos, entre 1500 e 1700, a maioria das cidades europeias teve um salto de desenvolvimento impulsionado pelas grandes navegações e a subsequente colonização das Américas, com um grande crescimento populacional e desenvolvimento científico. Mas tudo isso ao custo de muitas vidas inocentes, dentre elas as inúmeras mulheres executadas por bruxaria. Muitos historiadores apontam como a revolução científica pode ter “terminado” com os julgamentos por bruxaria, ou ao menos diminuído essas ocorrências, dado o crescimento do pensamento lógico e da racionalidade. Mas será mesmo?
Por outro lado, alguns historiadores e filósofos da ciência apontam que a Era da Razão e a Revolução Científica não são os reais catalisadores do declínio inicial da caça às bruxas, bem como da elucidação da relação entre a “bruxaria” e a fundação do desenvolvimento científico. De acordo com Kuhn, o progresso na ciência tem duas fontes: (i) estudos sistemáticos de campos específicos e o desenvolvimento de metodologias para a quebra de paradigmas; (ii) mudanças drásticas de um paradigma para outro, revoluções e modificações que não podem mais ser descritas com o paradigma antigo.
Então, em algum momento da história, a magia era tida como real e a alquimia era considerada uma verdade. O próprio Isaac Newton “acreditava” na alquimia, fazia experimentos químicos e se envenenou com vapores de mercúrio (ouça o Mamucast! #006). Assim, a partir do estudo sistemático da química, o entendimento dos elementos propiciou a quebra do paradigma então vigente, que admitia a transmutação da matéria e com isso a possibilidade de transformar chumbo em ouro. E com a “magia” e os ditos rituais “pagãos” aconteceu o mesmo, com a única diferença de que esse segundo processo foi acompanhado por uma forte repressão das classes dominantes. O grande avanço da medicina, a partir do conhecimento roubado dessas mulheres paulatinamente excluídas da educação formal, foi estabelecido pelos homens que dominaram a ciência.
Esse desenvolvimento social, político e religioso foi decisivo para a mudança de paradigma no papel da “magia” e de rituais religiosos pagãos como cura, sendo forçosamente substituídos por um novo dogma. Não que isso signifique uma “melhora”, mas apenas o surgimento de uma nova moral e novos costumes dominantes atrelados às crenças da classe dominadora. Essas mudanças no cristianismo, juntamente com a Guerra dos 30 anos e a Reforma Protestante foram tão importantes que, hoje, definimos esse período como o fim da Idade Média e início da Idade Moderna na Europa.
O filósofo da ciência Feyerabend, no seu livro Contra o Método, sugere que o mito da bruxa e da possessão demoníaca foi criado por teólogos no século 15 e que o conceito da “bruxaria”, como uma ciência mística, foi inventada pelos próprios caçadores de bruxa. Como se o problema fosse criado para ser resolvido pelo julgamento moral da igreja como parte de um processo de “colonização” por uma nova moral a ser seguida. A partir do avanço do pensamento racional, da noção de dedução lógica e do retorno da filosofia Aristoteliana, capitaneados, por exemplo, por Descartes, a ênfase passou a ser na descrição cientificamente acurada da natureza, pouco se importando se mulheres são bruxas ou não, marcando, assim, o declínio das caçadas. O crescimento do pensamento científico fez com que o ceticismo também fosse mais amplamente difundido, demandando explicações lógicas e hipóteses precisas, assim como a necessidade de evidências para apoiá-las ou refutá-las. Descartes e Thomas afirmaram que o conceito Cartesiano dita que a matéria da qual “os espíritos são compostos está puramente no mundo mental”, ou seja, não existem no mundo material. Então não é possível que o diabo interfira no nosso mundo, portanto, não há sentido na existência da bruxaria!
Além do desenvolvimento científico pronunciado na matemática, astronomia, e ciências naturais, a medicina e a psicologia também começaram a despontar com a formação das academias de ciências. Bem no início do século 16, alguns médicos como Johan Weyer, por exemplo, já eram céticos às possessões demoníacas. Weyer publicou o livro De Praestigiis Daemonum (“On the Deception of Devils” ou, numa tradução livre, Da percepção dos Demônios), sumariamente rejeitando a ideia dos caçadores de bruxas. Afirmava também que as ditas evidências demonstradas pelas bruxas de verdade, como as contorções, o aumento expressivo e momentaneo da força e a perda da visão e da fala eram, na verdade, problemas mentais e psicológicos resultantes, provavelmente, da tortura física e psicológica a qual essas mulheres eram submetidas. Infelizmente, esse tratado de Weyer só ficou mais famoso e difundido praticamente um século depois, quando parteiras e doulas passaram a ser treinadas e a profissão regulamentada, ao invés de simplesmente serem acusadas de infanticídio e bruxaria quando ocorria algum problema.
Embora a mudança de ideias dos intelectuais e cientistas da época não possa ser vista como a causa direta do declínio da caça às bruxas, a mudança de opinião em relação aos tribunais, ao uso da tortura, à acusação de mulheres por motivos triviais, juntamente com a consolidação de sistemas de leis foram importantes para que essa mudança acontecesse. Principalmente, os julgamentos baseados nas evidências obtidas sob tortura começaram a ser desacreditados. A Dinamarca, por exemplo, foi um país que, apesar de possuir uma crença inerente no pacto demoníaco, aprovou leis em 1547 que proibiam o uso do testemunho de "condenação por feitiçaria" e da tortura como instrumento de interrogação, reduzindo drasticamente o número de execuções. As acusações fraudulentas de envolvimento de pessoas ricas e influentes com feitiçaria também foram responsáveis para que esses julgamentos diminuíssem. Por exemplo, o conde de Bothwell, que era escocês, foi acusado de bruxaria e forçado a fugir, porque era um rival político de James I. Essas alegações “estratégicas” reduziram a credibilidade dos julgamentos e possibilitaram a punição daqueles que faziam essas falsas alegações. Enquanto o conde Bothwell só teve que fugir, com as mulheres a situação continuou complicada, se vocês querem mais um exemplo, dessa vez com uma mulher rica e influente, leiam a história de Ann Boleyn.
Mas mesmo assim, nas vilas mais afastadas, a lei demorou para chegar e os “julgamentos” continuavam sendo utilizados como uma forma de achar um culpado para os problemas que os governos não resolviam. Acusações completamente infundadas como a de que uma senhora viúva fez bruxaria para não chovesse e então a vila (e aquela senhora também) passaram por uma escassez de alimentos. Por outro lado, também havia acusações de bruxaria por uma diminuição do preço dos alimentos... Eu diria que o problema tem outro nome (começa com c e termina com apitalismo). Por esses motivos, vários historiadores afirmam que a urbanização também foi um fator importante para a melhoria na comunicação, diminuindo gradativamente o isolamento entre vilas, garantindo, assim, o melhor cumprimento das leis e, consequentemente, diminuindo essas práticas. O aumento da qualidade de vida das pessoas também teve um impacto importante para que os povos deixassem de sempre “procurar alguém pra culpar”, segundo Atreya et al (2021), a pobreza, a inequidade de gênero e leis fracas do Estado (ou o descumprimento dessas leis) fornecem um contexto ideal para que o instrumento de repressão da “bruxaria” persista até os dias de hoje.
Mas qual é a imagem que temos da pessoa que faz ciência hoje em dia? Um dos métodos mais comuns para se avaliar o imaginário popular acerca do fazer científico consiste no chamado Teste de Desenhar um Cientista (DAST), proposto em 1983 por David Chambers. Ele requer apenas que a pessoa entrevistada, em geral, uma criança ou adolescente em fase escolar, desenhe uma figura que, em seu imaginário, corresponda a de ume cientista. Em seu estudo original, que durou 11 anos, de 1966 a 1977, Chambers coletou 4087 desenhos feitos por crianças entre 5 e 11 anos, em escolas do Canadá e Estados Unidos. A imagem prevalente era de um homem branco com barba, frequentemente usando óculos e trajando um jaleco, enquanto trabalhava em um ambiente interno e cercado por equipamentos de laboratório. Desses quase 5000 desenhos, apenas 28, ou seja, 0,6% da amostra, correspondiam a uma mulher. Vale ressaltar, que todas essas mulheres foram desenhadas por meninas. Esse resultado deixa absolutamente claro o forte estereótipo de gênero que reina na ciência, associando-a a uma atividade quase que exclusivamente masculina.
Ao longo dessas 5 décadas que se passaram desde o trabalho original de Chambers, pelo menos 78 estudos repetiram esse experimento, envolvendo cerca de 20 mil estudantes de todas as faixas etárias. Em um artigo publicado no final de 2018, Miller e colaboradories fizeram uma meta-análise de todos esses experimentos, descobrindo que, apesar de mais mulheres aparecerem nos desenhos em estudos mais recentes, correspondendo a cerca de 28%, elas ainda continuam severamente subrepresentadas. Em particular, essa subrepresentação fica mais pronunciada conforme as crianças envelhecem. De fato, crianças no jardim da infância tendem a desenhar aproximadamente o mesmo número de cientistas homens e mulheres, ao passo que, no ensino médio, homens aparecem cerca de quatro vezes mais.
Essa mudança na percepção da figura do cientista está nitidamente correlacionada com o aumento da representatividade feminina na academia, que aos poucos começa a dirimir o impacto de séculos de demonização e inferiorização da mulher. O movimento feminista teve um papel central na desconcostrução da posição de incapacidade social da mulher, emancipando-a e permitindo o seu acesso à educação formal. Posteriormente, a luta por equidade teve que abarcar outras experiências femininas como as das mulheres negras (feminismo negro) e das mulheres trans e travestis (transfeminismo) que diferiam, em diversos aspectos, da vivência cis branca. Dados da National Science Foundation corroboram essa tese, mostrando que de 1993 a 2015 houve um aumento da representação feminina nas ciências sociais, passando de 50,7% para 59,8%, nas ciências biológicas, de 34% para 47,9%, nas ciências exatas, de 21,3% para 27,8% e nas engenharias, de 8,6% para 14,5%, enquanto houve uma diminuição da representação feminina na matemática e computação, passando de 30,8% para 26,4%.
De acordo com a UNESCO, menos de 30% dos cientistas são mulheres. Para investigar melhor a disparidade de gênero nas exatas, o Conselho Internacional de Ciências financiou, de 2017 a 2019, um projeto envolvendo 11 organizações científicas. Esse estudo contou com a resposta de mais de 32 mil cientistas, igualmente distribuídos entre homens e mulheres, a um questionário, bem como a análise de milhões de artigos científicos desde 1970.
Os resultados confirmaram que a experiência de mulheres no ambiente acadêmico é significativamente pior do que a de homens. Mais do que um quarto das respondentes relataram terem sofrido alguma forma de assédio sexual. Estima-se que mulheres são cerca de 14 vezes mais propensas a sofrerem alguma forma de assédio do que homens. Mulheres também têm seus estudos interrompidos cerca de 1,6 vezes mais do que homens e reportam um relacionamento significativamente pior com seus orientadores de doutorado. Isso sem considerar o impacto muito mais pronunciado da parentalidade na carreira de mulheres. A despeito de tudo isso, a proporção de mulheres como autoras de artigos científicos nas exatas tem consistentemente aumentado. Contudo, a proporção de mulheres como autoras de artigos em revistas de alto impacto permaneceu estagnada na casa dos 10% na matemática e na física teórica e aumentou levemente, chegando a 20%, na astronomia e na química.
No Brasil, a situação não é muito diferente. Muito embora, exista uma nítida tendência de crescimento na participação de mulheres no corpo discente das instituições federais de ensino superior, alcançando 54,6% dos estudantes regularmente matriculados em 2018, um aumento de 3,2% com respeito aos dados de 1996 e cerca de 3,5% acima da composição feminina da população brasileira, elas representam somente cerca de 45,5% dos docentes da educação superior. Essa proporção é ainda menor nas áreas de exatas, representando 29% dos docentes de Física no ensino superior, de acordo com dados da Sociedade Brasileira de Física.
A falta de representatividade feminina na ciência, juntamente com os estereótipos ainda prevalentes que atrelam a figura do cientista a de um homem podam severamente o interesse de meninas em atividades e carreiras científicas. Reforçando, assim, que certas atividades não seriam adequadas para elas, mas apenas para os garotos. Afinal, quando as garotas não enxergam mulheres como cientistas, elas dificilmente conseguem se imaginar fazendo ciência. Além disso, e de uma forma ainda mais cruel, as crianças podem aprender que outras características comumente atribuídas a cientistas, como competitividade e independência, são vistas, em nossa sociedade, como tipicamente masculinas, corroborando ainda mais a visão de que a ciência não é para mulheres. Seu lugar seria somente em carreiras em que pudessem exibir a sua responsabilidade e cuidado para com o outro, atributos tipicamente ditos femininos. Assim, enfatizando e reproduzindo ainda mais os estereótipos e as expectativas de gênero.
E para não dizer que não falamos de uma das premiações mais importantes da ciência, concedida apenas àqueles que, no ano anterior, tivessem proporcionado um grande benefício à humanidade nas áreas de física, química, fisiologia ou medicina, literatura e química, o Nobel, vamos brevemente nos debruçar sobre algumas de suas estatísticas. Essa premiação reflete de uma das maneiras mais atrozes a disparidade de gênero na ciência. Desde o seu estabelecimento em 1901, apenas 56 des 854 laureades foram mulheres, correspondendo a menos de 7% das pessoas premiadas.
A situação é ainda mais desoladora, quando olhamos especificamente para a área de exatas. Dos 218 laureades em física, apenas 4 eram mulheres, menos do que 2% do total. Dos 187 laureades em química, apenas 7 eram mulheres, menos do que 4% do total. Vale notar que Marie Curie, uma das 4 pessoas que receberam 2 prêmios Nobel, é uma dessas mulheres a receber tanto o prêmio em física quanto em química, piorando ainda mais as estatísticas quanto à diversidade. Proporcionalmente, o Nobel da paz é aquele que mais premiou mulheres, 18 des 109 laureades, correspondendo a pouco mais de 16% e confirmando mais uma vez os famigerados estereótipos de gênero quanto às atividades que são esperadas das mulheres.
E para terminar nossa pistolagem, fizemos uma lista de 5 mulheres que DEVERIAM ter ganhado o Nobel:
Emmy Noether: pelo teorema mais importante da Física
Chien-Shiung Wu: pela descoberta da violação da paridade
Rosalind Franklin: pela descoberta da estrutura do DNA
Lisa Meitner: pelo estudo da fusão nuclear
Rachel Carson: pelo pioneirismo na discussão sobre pesticidas, agricultura e preservação ambiental ao escrever o livro Primavera Silenciosa.
Você tem mais nomes? Nos escreva com a sua pistolagem sobre o Nobel!
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No Nobel Prizes in Science Went to Women This Year, Widening the Awards' Gender Gap
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https://gender-gap-in-science.org/
Pra aprender: Podcast Projeto Humanos do Ivan Mizanzuk, em especial a quarta temporada: Caso Evandro. Link: https://www.projetohumanos.com.br/temporada/o-caso-evandro/
Pra descontrair: primeira temporada de Lore, do Amazon Prime, que explica vários mitos de terror com uma narração muito legal!
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