Texto-base: Salmo 29:10-11
"O SENHOR está entronizado sobre o dilúvio; o SENHOR reina para sempre. O SENHOR dará força ao seu povo; o SENHOR abençoará o seu povo com paz."
Leitura complementar: João 12:27-32; Apocalipse 1:12-18; 10:1-7
Há vozes que gritam. Há vozes que acusam. Há vozes que tramam em corredores, redigem denúncias em atas, planejam deposições em reuniões extraordinárias. Há vozes que falam de paz enquanto forjam espadas.
Mas há uma Voz acima de todas as vozes.
Uma Voz que não se ouve nos protocolos de presbitérios. Uma Voz que não se cala diante de supremos concílios. Uma Voz que não responde a requerimentos — porque ela mesma é a resposta.
O Salmo 29 nos leva da terra ao céu, do céu ao deserto, do deserto ao templo, e do templo ao trono. E no centro de tudo, há uma Voz. Sete vezes ela troveja. Sete vezes ela quebra. Sete vezes ela cria.
E esta Voz — ouvimos hoje — é a Voz de Cristo.
O Verbo que estava no princípio. O Verbo que se fez carne. O Verbo que troveja sobre o dilúvio. O Verbo que abençoa o Seu povo com paz.
Três verdades governam este sermão:
Primeiro: A Voz que troveava no Salmo 29 é a Voz do Verbo encarnado. Segundo: A Voz que quebra cedros é a Voz que quebra o poder da morte. Terceiro: A Voz entronizada sobre o dilúvio é Cristo ressurreto, que dá força e paz à Sua Igreja.
"A voz do SENHOR está sobre as águas; o Deus da glória troveja; o SENHOR está sobre as muitas águas. A voz do SENHOR é poderosa; a voz do SENHOR é cheia de majestade."
Ouve, ó igreja, o que Davi canta: a voz de Yahweh está sobre as águas.
As "muitas águas" no hebraico são o mayim rabbîm — as águas do caos primordial, o abismo que ameaçava tragar a criação antes mesmo de começar. E sobre elas — sobre elas, não dentro delas, não submerso nelas, não lutando com elas — está a voz de Yahweh.
Agora ouça João. No princípio era o Verbo. O Verbo estava com Deus. O Verbo era Deus. Todas as coisas foram feitas por ele.
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que falou no princípio: "Haja luz."
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que, no Monte Sinai, fez o povo tremer e pedir que Moisés, e não Deus, falasse com eles.
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que, no Jordão, se fez ouvir sobre as águas do batismo: "Este é o meu Filho amado, em quem me comprazo."
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que, no Tabor, disse: "Este é o meu Filho amado; a ele ouvi."
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que, no Calvário, bradou: "Está consumado!"
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que, no túmulo vazio, despertou os mortos.
A voz que troveava no Salmo 29 é a mesma voz que João ouviu em Patmos: "A sua voz era como o som de muitas águas" (Ap 1:15).
Ouçam, irmãos: o Deus que troveja sobre as muitas águas não é um Deus distante. Ele se fez carne. Ele habitou entre nós. Ele entrou no nosso dilúvio para que nós pudéssemos entrar no Seu shalom.
Ilustração: Uma criança dorme no quarto enquanto a tempestade ruge lá fora. O trovão não a acorda. Sabe por quê? Porque o pai está acordado. A voz do trovão não assusta quando se conhece a Voz que governa o trovão.
Cristo é esta Voz. E se você está nEle, a tempestade não o assusta — porque Aquele que governa a tempestade é seu Pai.
"A voz do SENHOR quebra os cedros; sim, o SENHOR quebra os cedros do Líbano. Ele os faz saltar como um bezerro, o Líbano e o Siriom, como um filhote de boi selvagem. A voz do SENHOR lavra labaredas de fogo."
Os cedros do Líbano eram, para o israelita antigo, o símbolo máximo do que é grande, antigo, inamovível. Madeira nobre. Troncos centenários. Raízes profundas.
A voz de Deus os quebra.
E não apenas os quebra — os faz saltar como bezerros. O Líbano e o Siriom — montanhas de quase três mil metros — saltitam como filhotes assustados.
O que são os cedros do Líbano para nós?
São as estruturas que parecem eternas. São os poderes que parecem inamovíveis. São os sistemas que parecem imbatíveis. São os inimigos que parecem invencíveis.
Mas a voz de Cristo os quebra.
A voz de Cristo quebrou o cedro do pecado — quando, no Calvário, Ele foi feito pecado por nós.
A voz de Cristo quebrou o cedro da morte — quando, no túmulo vazio, Ele disse: "Onde está, ó morte, a tua vitória?"
A voz de Cristo quebrou o cedro da lei condenatória — quando rasgou o escrito de dívida que era contra nós.
A voz de Cristo quebrou o cedro do poder das trevas — quando, na cruz, despojou os principados e potestades e publicamente os expôs ao desprezo.
A voz de Cristo quebrou o cedro de toda tirania humana que se levanta contra o Seu povo — porque nenhum trono terreno resiste ao trono do Cordeiro.
Lição para hoje: Irmãos, há cedros que precisam ser quebrados em nossas vidas. Há estruturas de medo que precisam cair. Há poderes eclesiásticos que se erguem como montanhas contra a justiça de Deus. Há conselhos que se pensam eternos. Há sistemas que se pensam inabaláveis.
Mas a voz de Cristo os quebra.
Não confie em cedros. Confie no Verbo.
Ilustração: John Bunyan, preso por pregar o Evangelho, ouviu de um magistrado: "Se você parar de pregar, sai da cadeia hoje." Bunyan respondeu: "Se eu parar de pregar hoje, jamais sairei da cadeia — porque estarei preso para sempre à minha própria covardia." O magistrado era um cedro. Bunyan era um salgueiro. Mas a voz de Cristo quebra cedros. E Bunyan, do fundo da prisão, escreveu O Peregrino — um livro que, quatrocentos anos depois, ainda fala.
"A voz do SENHOR faz estremecer o deserto; o SENHOR faz estremecer o deserto de Cades. A voz do SENHOR faz as cervas parirem e desnuda as florestas."
A tormenta, que começou no Mediterrâneo e varreu as montanhas do norte, agora alcança o extremo sul — o deserto de Cades.
Cades era o lugar esquecido. O lugar remoto. O lugar onde ninguém ia. O lugar onde o povo de Israel, após quarenta anos, ainda estava preso por incredulidade.
E a voz de Yahweh estremece Cades.
O que é Cades para nós?
É o lugar onde você se sente esquecido. É o lugar onde você acha que Deus não vê. É o lugar onde o processo demora, a resposta não chega, o recurso não é apreciado. É o lugar onde a igreja se sente sozinha, sitiada, incompreendida.
Mas a voz de Cristo estremece Cades.
A voz de Cristo estremeceu o deserto quando Ele jejuou quarenta dias e foi tentado — para que, quando você estiver no deserto, Ele já tivesse vencido por você.
A voz de Cristo estremeceu o deserto quando, na cruz, Ele bradou: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" — para que você nunca, jamais, seja desamparado.
A voz de Cristo estremeceu o deserto quando, da cruz, Ele disse ao ladrão: "Hoje estarás comigo no paraíso" — para que, no deserto mais escuro da sua vida, haja uma palavra de graça.
E há algo mais neste versículo. A voz de Deus faz as cervas parirem. O mesmo trovão que desnuda florestas também faz nascer vida. O mesmo juízo que derruba cedros também traz à luz o que estava escondido. O mesmo poder que abate também gera.
Lição para hoje: Irmãos, há um deserto em nossas vidas. Há um Cades eclesiástico onde a resposta demora, onde o recurso pende, onde a justiça parece tardar. Mas a voz de Cristo estremece Cades. E o mesmo poder que desnuda florestas — que expõe o que está oculto, que revela o que é falso, que traz à luz as trevas — é o mesmo poder que faz parir vida nova.
O sofrimento da perseguição produz vida. A prova da fidelidade gera filhos. O deserto da espera prepara a bênção.
Ilustração: Uma cervo assustada pelo trovão entra em trabalho de parto. O que parecia destruição é, na verdade, geração. O que parecia ruína é, na verdade, nascimento. Assim é com a Igreja perseguida: o que o inimigo pensa ser destruição, Deus usa como parto de nova vida.
"O SENHOR está entronizado sobre o dilúvio; o SENHOR reina para sempre."
Chegamos ao clímax.
O termo hebraico é mabbûl — o dilúvio. O mesmo termo de Gênesis 6–11. O dilúvio que afogou o mundo. O caos que ameaçou destruir tudo.
E sobre ele — sobre ele — Yahweh está entronizado.
O verbo hebraico é yāšaḇ, "sentar-se, estar entronizado". No perfeito. Indica um estado permanente. Ele se assentou. Ele continua assentado. Ele permanecerá assentado.
Quem é este que está entronizado sobre o dilúvio?
É Cristo.
Cristo, que desceu ao dilúvio da ira de Deus para que nós não fôssemos afogados.
Cristo, que foi sepultado nas águas da morte para que nós pudéssemos ressurgir nas águas da vida.
Cristo, que foi entronizado à destra do Pai — acima de todo principado, poder, domínio e autoridade.
Cristo, de quem Paulo diz: "Ele, subsistindo em forma de Deus, não julgou como usurpação o ser igual a Deus; antes, a si mesmo se esvaziou, assumindo a forma de servo... Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome" (Fp 2:6-9).
Cristo, de quem João diz: "Ao que está sentado no trono e ao Cordeiro, seja o louvor, e a honra, e a glória, e o domínio pelos séculos dos séculos" (Ap 5:13).
Cristo, de quem o autor de Hebreus diz: "Tendo feito, por si mesmo, a purificação dos pecados, assentou-se à destra da Majestade, nas alturas" (Hb 1:3).
Ouçam, irmãos: o trono está ocupado. Não está vago. Não está em disputa. Não está sendo contestado. Está ocupado. E quem o ocupa é o Cordeiro que foi morto — e que, por ter sido morto, é digno de receber o poder, e a riqueza, e a sabedoria, e a força, e a honra, e a glória, e o louvor.
Ilustração: Quando Oliver Cromwell, o Lorde Protetor da Inglaterra, morreu em 1658, seu corpo foi exumado e enforcado simbolicamente. Sua estátua foi derrubada. Seu nome foi amaldiçoado. Mas o trono da Inglaterra permaneceu. Os tronos humanos caem. Os protetores passam. Os concílios se dissolvem. Os presbitérios se reformam. Mas o trono de Cristo permanece. E sobre ele, o Cordeiro reina. Para sempre.
Lição para hoje: O dilúvio tem nome. O dilúvio tem data. O dilúvio tem ata. Mas o trono está ocupado. E o Rei que o ocupa não foi eleito por concílio. Não foi confirmado por sínodo. Não foi instalado por supremo concílio. Ele foi entronizado pelo Pai, selado pelo Espírito, e declarado Filho de Deus com poder pela ressurreição dos mortos (Rm 1:4).
"O SENHOR dará força ao seu povo; o SENHOR abençoará o seu povo com paz."
O salmo não termina com o trovão. Termina com a bênção.
Não termina com cedros quebrados. Termina com cervas que parem.
Não termina com o dilúvio. Termina com o trono.
Não termina com a tormenta. Termina com força e paz.
Dois dons. Dois rios. Duas bênçãos.
Força ('ōz) — para resistir sem amargura. Para litigar sem ódio. Para permanecer sem desistir. Para confessar sem se desculpar pelo que não fez. Para defender a verdade sem se tornar mentiroso.
Paz (šālôm) — não a paz do mundo, que é ausência de conflito. Mas a paz de Cristo, que é presença no meio do conflito. Não a paz que vem de uma decisão favorável do concílio. Mas a paz que vem do trono do Cordeiro.
A força sem paz é tirania. A paz sem força é impotência. Mas Cristo dá ambas.
Ele dá força para a batalha. Ele dá paz para o descanso.
Ele dá força para o deserto. Ele dá paz para o templo.
Ele dá força para a denúncia. Ele dá paz para a defesa.
Ele dá força para a reunião extraordinária. Ele dá paz para a espera do Supremo.
Lição para hoje: Irmãos, o que a Igreja precisa hoje não é de vitória judicial. Não é de decisão favorável. Não é de absolvição em ata. O que a Igreja precisa é de força e paz. E estes dois dons não vêm de presbitérios. Não vêm de sínodos. Não vêm de supremos concílios. Vêm de Cristo.
Thomas Watson dizia: "A paz que Deus concede não é um tratado com o mundo, mas a certeza de que, estando reconciliados com Ele, estamos seguros independentemente das hostilidades humanas."
John Owen, no leito de morte, ouviu que sua obra estava sendo atacada. Ele respondeu: "Não estou preocupado com o que dizem de mim. Estou ocupado contemplando Aquele que está entronizado sobre o dilúvio — e o dilúvio não O incomoda."
David Dickson, o puritano escocês, escreveu: "A força que Deus dá ao Seu povo é a certeza de que Aquele que governa o mundo governa também suas vidas. A paz com que os abençoa não é a ausência de tormentas, mas a presença do Rei no meio da tormenta."
Há cristãos que vivem como se o trono estivesse vago. Há cristãos que vivem como se o dilúvio fosse maior que o trono. Há cristãos que vivem como se a ata do presbitério fosse mais poderosa que a voz de Cristo.
Arrependam-se.
O trono está ocupado. O Rei está no controle. A voz de Cristo é a última palavra.
Para a igreja perseguida. Para a igreja sitiada. Para a igreja que aguarda uma reunião extraordinária com denúncia na pauta. Para a igreja que tem um recurso pendente há meses sem resposta. Para a igreja que sente que está em Cades — no deserto mais remoto do mapa eclesiástico.
Ouçam a palavra do Rei:
Eu estou entronizado sobre o seu dilúvio. Eu darei força ao meu povo. Eu abençoarei o meu povo com paz.
Não é o presbitério que decide o seu destino. Sou Eu. Não é o sínodo que define a sua sorte. Sou Eu. Não é o supremo concílio que determina a sua bênção. Sou Eu.
Igreja, não confie em cedros. Igreja, não tema o trovão dos poderosos. Igreja, não murmure no deserto. Igreja, não duvide do trono. Igreja, não esqueça a bênção.
Atribuí a Yahweh glória e força. Atribuí a Yahweh a glória do seu nome. Prostai-vos diante de Yahweh no esplendor da santidade.
Irmãos, o Salmo 29 não termina com o trovão.
Termina com uma palavra hebraica de quatro letras.
שָׁלוֹם — Shalom.
Paz.
Não a paz que o mundo dá. Não a paz que vem de uma decisão favorável. Não a paz que depende de um concílio benevolente. Não a paz que é fruto de circunstâncias favoráveis.
Mas a paz que vem do trono. A paz que vem do Cordeiro. A paz que vem da Voz que troveja sobre o dilúvio.
Esta paz, irmãos, é a paz de Cristo.
A paz que Ele comprou com Seu sangue. A paz que Ele guarda com Sua mão. A paz que Ele concede com Sua voz.
E esta paz — ouçam bem — não é para o futuro. É para hoje.
É para a reunião de 24 de julho. É para a denúncia que está na pauta. É para o recurso que está pendente. É para a espera que parece longa. É para o deserto que parece sem fim.
Porque o trono está ocupado. Porque o Rei está no controle. Porque a Voz é de Cristo. Porque a força é de Cristo. Porque a paz é de Cristo.
E quando a tempestade passar — e ela passará — a igreja que confiou no Verbo não será confundida.
A igreja que atribuiu a glória a Deus não será envergonhada. A igreja que se prostrou no esplendor da santidade não cairá. A igreja que ouviu a Voz sobre as muitas águas não será afogada. A igreja que viu os cedros caírem saberá que o Verbo é mais forte. A igreja que esteve em Cades saberá que a Voz de Cristo a alcançou. A igreja que viu o trono ocupado saberá que o Rei não a abandonou. A igreja que recebeu força e paz saberá que Cristo é tudo em todos.
Levantem-se, irmãos.
Atribuí a Yahweh glória e força.
Porque o SENHOR está entronizado sobre o dilúvio.
E o SENHOR abençoará o seu povo com paz.
Amém.
"E em todo tempo, louve, confie e espere nele. Porque a Rocha fala — e nunca deixa seu povo na cova."