"Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, para que entre o Rei da Glória. Quem é este Rei da Glória? O SENHOR dos Exércitos — ele é o Rei da Glória." — Salmo 24.9–10
Há uma pergunta que todo ser humano já fez.
Não em voz alta, necessariamente. Mas no silêncio da consciência, no peso de uma cama às três da manhã, no corredor de um hospital, diante de um caixão.
A pergunta é esta: "Sou aceito?"
1) Somos aceitos pelos nossos? 2) Somos aceitos por Deus?
O mundo moderno tentou matar essa pergunta. Disse: "Aceite-se a si mesmo." Mas ninguém morre em paz apenas por ter se aceitado. A consciência cobra mais do que o espelho pode responder.
O Salmo 24 levanta essa pergunta com brutalidade santa. Ou seja:
Não elogia ninguém.
Não presume que todos podem.
Expõe a inadequação humana sem cerimônia.
"Quem subirá ao monte do SENHOR? Quem permanecerá no seu santo lugar?" (v. 3)
E antes de responder quem pode subir, o Salmo responde quem é o Deus do monte.
Porque, só quando você sabe quem é Deus, é que você entende o peso de quem pode estar com Ele.
O tema de hoje é: O Rei da Glória.
Três movimentos. Três revelações. Uma transformação.
"Do SENHOR é a terra e tudo o que a enche; o mundo e os que nele habitam. Porque ele a fundou sobre os mares e a estabeleceu sobre os rios." — vv. 1–2
O Salmo não começa com um pedido.
O Samo começa com uma declaração de propriedade.
"Do SENHOR é a terra."
Não disse: "do SENHOR são as igrejas." Disse: a terra. Tudo.
Essa afirmação funciona como pedra fundamental de toda a teologia do culto: o Deus a quem você adora não está limitado ao seu templo, à sua denominação, ao seu vocabulário religioso. Ele é dono do solo embaixo dos seus pés. Do ar nos seus pulmões. Da matéria nos seus ossos.
E por quê Ele é dono?
Porque Ele fundou. Porque Ele estabeleceu.
Um homem constrói uma casa com as próprias mãos. Corta a madeira, assenta a pedra, planta o jardim. Um dia, alguém bate à porta e diz: "Eu moro aqui agora."
O homem responde: "Não. Eu a construí. É minha."
É assim que Deus fala para toda a criação.
"Eu a fundei. É minha."
Nós vivemos como se o mundo fosse nosso e Deus fosse visita. O Salmo inverte: o mundo é de Deus, e nós é que somos hóspedes.
Isso muda tudo.
Muda como você usa o seu dinheiro — não é seu, é administração.
Muda como você usa o seu corpo — não é seu, foi comprado por preço (1Co 6.20).
Muda como você usa o seu tempo — não é seu, é mordomia.
O cristão não pergunta: "O que posso fazer com o que é meu?"
O cristão pergunta: "O que o dono quer que eu faça com o que é dele?"
"Quem subirá ao monte do SENHOR? E quem permanecerá no seu santo lugar? O limpo de mãos e puro de coração, que não eleva sua alma à vaidade nem jura com engano." — vv. 3–4
Agora o Salmo cria uma crise.
Ele descreve um Deus infinitamente santo. E depois pergunta: quem pode se aproximar?
É como abrir uma porta que leva ao sol. Bela. Mas mortal para quem não estiver vestido adequadamente.
Note os quatro critérios do v. 4:
"Limpo de mãos" — as ações. O que você faz.
"Puro de coração" — as intenções. O que você deseja.
"Não eleva sua alma à vaidade" — os objetos do afeto. O que você adora.
"Não jura com engano" — a linguagem. O que você promete.
A Escritura é clara em sua exigência:
"Deus não recebe apenas o exterior. Ele é espírito e requer adoradores que o adorem em espírito e em verdade. As mãos podem estar limpas e o coração podre."
Mãos limpas: exame externo.
Coração puro: exame interno.
Não à vaidade: exame espiritual.
Não ao engano: exame verbal.
Esses quatro juntos constroem uma pergunta inescapável:
Quem, então, pode subir?
Imagine um médico que antes de uma cirurgia limpa as mãos por vinte minutos. Protocolo estrito. Esterilização completa. Mas quando entra na sala cirúrgica, coloca as mãos limpas em instrumentos contaminados.
A limpeza exterior não basta se o interior está infectado.
O fariseu do tempo de Jesus tinha as mãos mais limpas da Palestina. E Jesus disse que seu coração era sepulcro caiado. (Mt 23.27)
"Ele receberá bênção do SENHOR e justiça do Deus da sua salvação." — v. 5
Veja bem.
A bênção vem de Deus, não do esforço humano.
A "justiça" não é conquistada — ela é recebida do Deus da salvação.
A expressão "Deus da salvação" não é acidental. É o coração da promessa. Quem sobe ao monte não vai apenas buscar aprovação moral; vai encontrar o Deus que salva.
Isso é Evangelho no Antigo Testamento.
A pergunta "quem pode subir?" não tem resposta humana satisfatória. Todo ser humano olha para os critérios do v. 4 e encontra sua própria falência. Mãos manchadas de ambição. Coração poluído de vaidade. Afetos mal direcionados. Língua que prometeu e não cumpriu.
Ele e somente Ele tem mãos limpas — mãos que nunca tocaram o pecado.
Ele e somente Ele tem coração puro — sem mácula, sem desvio, sem engano.
Ele e somente Ele nunca elevou sua alma à vaidade — toda adoração foi direcionada ao Pai.
Ele e somente Ele nunca jurou com engano — todo "amém" foi perfeito.
Jesus Cristo é o único ser humano que passou pelos critérios do v. 4.
E o que Ele fez com essa qualificação única?
Ele a compartilhou.
"Não tendo pecado, tornou-se pecado por nós, para que nele nos tornássemos justiça de Deus." (2Co 5.21)
Ele desceu do monte para que você pudesse subir.
A pergunta do v. 3 não deve paralisar o pecador arrependido. Deve expulsá-lo do próprio esforço e arremessá-lo nos braços de Cristo.
O cristão não mortifica o pecado pelo esforço isolado da vontade. Mas pela operação do Espírito Santo, que aplica a obra de Cristo ao coração crente.
Você não sobe ao monte com as próprias pernas.
Você sobe vestido com a justiça do Rei que já subiu.
"Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, para que entre o Rei da Glória. Quem é este Rei da Glória? O SENHOR forte e poderoso, o SENHOR poderoso nas batalhas." — vv. 7–8
Aqui o Salmo explode.
A cena muda completamente. Saímos do monte e estamos diante de portas.
Um cortejo se aproxima.
Há uma voz que ordena: "Levantai as cabeças!"
Há outra voz, dentro, que pergunta: "Quem é o Rei da Glória?"
E a resposta vem como trovão:
"O SENHOR forte e poderoso. O SENHOR poderoso nas batalhas." (v. 8)
Mas as portas não bastaram. O clímax se repete. A pergunta soa de novo, mais intensa:
"Quem é ele, este Rei da Glória?" (v. 10)
E agora vem o título definitivo:
"O SENHOR dos Exércitos — ele é o Rei da Glória." (v. 10)
Não apenas guerreiro.
Senhor dos Exércitos.
Comandante de hostes que não têm número.
Rei que não precisa de permissão para entrar.
As portas são chamadas a se levantar — não arrombadas. O Rei espera ser recebido.
Isso não é fraqueza. É condescendência majestática.
O mesmo Deus que disse "a terra é minha" bate nas portas do coração humano. Não para pedir permissão como se dependesse de nós, mas para oferecer comunhão ao que não merece.
A repetição da pergunta e resposta nos vv. 7–10 não é redundância literária. É ênfase litúrgica. A Igreja é chamada a perguntar repetidamente: "Quem é Ele?" — e a resposta nunca envelhece.
Um general vitorioso retorna da guerra. Toda a cidade sai para recebê-lo. As portas da cidade se abrem. O povo grita o seu nome. Não porque ele precise da aprovação do povo — ele venceu sem eles. Mas porque é direito do povo celebrar o Rei que os livrou.
O culto cristão não é o homem subindo para avaliar Deus.
É o povo aberto para receber o Rei que já venceu.
Quem é o "Rei da Glória" que entra?
O Novo Testamento responde em múltiplas dimensões:
Encarnação: "O Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos a sua glória." (Jo 1.14)
O Rei da Glória entrou por portas humanas. Nasceu em Belém. As "entradas eternas" se abriram em um ventre de mulher.
Ressurreição e Ascensão: Os pais da Igreja leram o Salmo 24 como profecia da ascensão de Cristo. O Rei vencedor das batalhas — da crucificação, da morte, do Hades — sobe e entra no lugar santíssimo celestial. (Hb 4.14; Hb 9.24)
Sua vinda ao coração: "Eis que estou à porta e bato." (Ap 3.20) O mesmo Rei que entrou na glória bate agora nas portas da consciência do pecador.
Sua vinda final: As portas do cosmo se abrirão para o retorno do Rei. (Ap 19.11–16)
O Salmo 24 não é apenas história de Israel.
É liturgia viva da Igreja em todo século.
Toda vez que nos reunimos, as perguntas do Salmo soam:
"Quem é o Rei da Glória?"
Se você não sabe responder, você não encontrou o Evangelho.
Se você sabe responder mas vive fechado a Ele, você conhece a teologia e perdeu a vida.
Se você sabe responder e abre as portas, você encontrou o que toda alma humana procura.
Voltamos à pergunta do início.
"Sou aceito?"
O Salmo 24 responde em três movimentos:
Primeiro: Deus tem direito sobre tudo. Você não é o centro. (vv. 1–2)
Segundo: Nenhum pecador pode subir ao monte pelo próprio mérito. Mas existe um que subiu — Cristo, o único puro de coração e limpo de mãos. E Ele compartilhou Sua qualificação com todos que se unem a Ele pela fé. (vv. 3–6)
Terceiro: O Rei da Glória entrou pela porta da humanidade, venceu a batalha do pecado e da morte, subiu ao alto, e agora bate às portas dos corações. (vv. 7–10)
Nenhum homem pode aparecer diante de Deus com plena confiança senão aquele que é revestido da justiça de Cristo — o único que verdadeiramente tem mãos limpas e coração puro.
Ouça a pergunta do Rei:
"Quem é este Rei da Glória?"
Não é pergunta de ignorância.
É convite de reconhecimento.
Ele quer que você diga com a boca e com a vida:
"Tu és o SENHOR dos Exércitos. Tu és o Rei da Glória. Tu és meu."
E quando você disser isso — as portas se abrem.
Significa que você deu boas-vindas, porque foi feito filho de Deus, recebeu a nova natureza em Cristo, fé e arrependimento. Agora, você o ama, porque Deus te amou primeiro.
"Bem-aventurado o povo que sabe o que é aclamação festiva; eles andam, ó SENHOR, à luz do teu rosto." — Salmo 89.15
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Os Salmos 22, 23 e 24 formam uma trilogia cristológica inseparável — três quadros de um único retrato do Messias. O Salmo 22 abre com o grito do abandono: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" — é o Rei sofredor, humilhado, crucificado, cujas mãos e pés são traspassados diante dos seus algozes. O Salmo 23 responde ao sofrimento com cuidado pastoral: é o Rei ressurreto que, como Bom Pastor, conduz por pastos verdejantes, águas tranquilas, os seus pelo vale da sombra da morte, prepara-lhes uma mesa e os leva à casa do Senhor. O Salmo 24, então, é o coroamento: é o Rei glorificado que sobe ao alto, e diante de quem as portas eternas se levantam. Em outras palavras — o Salmo 22 é a cruz, o Salmo 23 é o cayado, e o Salmo 24 é a coroa. Quem ignora esse movimento ignora o coração do Evangelho: o mesmo Rei que desceu ao mais profundo do sofrimento é o único digno de entrar no mais alto da glória.
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Que o Senhor aplique esta Palavra. Amém.
"Ao Rei eterno, imortal, invisível, ao único Deus sábio, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amém." — 1 Timóteo 1.17