Introdução
Estudo Contextual
2.1 Contexto Histórico da Passagem
2.2 Contexto Literário da Passagem
2.3 Contexto Remoto
Estudo Textual
3.1 Tradução do Texto
3.2 Estrutura do Texto
3.3 Estrutura Clausal (visão geral)
3.4 Justificativa da Perícope
Comentário Exegético
Mensagem para a Época da Escrita
Mensagem para Todas as Épocas
Teologia do Texto
7.1 Implicações para a Teologia Bíblica
7.2 Implicações para a Teologia Sistemática
7.3 Implicações para a Teologia Prática
Esboço de Sermão
Conclusão
Bibliografia
O Salmo 15 é um salmo breve, porém teologicamente profundo, que responde a uma das questões mais fundamentais da fé bíblica: quem pode habitar na presença de Deus?. Diferente de salmos de lamento, louvor ou ação de graças, este é um salmo didático-litúrgico, estruturado como uma pergunta seguida de uma resposta ética.
João Calvino observa que Davi “ensina que a verdadeira adoração a Deus não consiste em cerimônias externas, mas numa vida santa e íntegra” (Comentário aos Salmos). Assim, o salmo desloca o centro da religião do rito para o caráter, da formalidade para a transformação moral.
O Salmo 15 serve como um espelho espiritual, confrontando o adorador com os padrões divinos de comunhão. Ele não descreve os meios de salvação, mas o caráter daqueles que vivem em comunhão com Deus, refletindo uma espiritualidade pactual.
Tradicionalmente atribuído a Davi (cf. título do salmo), o Salmo 15 provavelmente está situado no contexto do culto israelita em Jerusalém, possivelmente relacionado à instalação da arca ou à liturgia do templo.
Craigie e Tate (WBC) sugerem que este salmo pode ter sido usado como uma liturgia de entrada, onde o adorador era questionado acerca de sua aptidão espiritual para se aproximar do santuário. Isso ecoa práticas antigas do Oriente Próximo, onde perguntas rituais precediam o acesso a locais sagrados.
Calvino reforça que o salmo “corrige a falsa persuasão dos homens, que pensam agradar a Deus apenas por sacrifícios e cerimônias externas”.
O Salmo 15 pertence ao primeiro livro do Saltério (Sl 1–41), marcado por temas de justiça, fidelidade pactual e confiança no Senhor. Ele se relaciona fortemente com:
Salmo 1: Bem-aventurança do justo.
Salmo 24:3–6: Pergunta paralela — “Quem subirá ao monte do Senhor?”
Salmo 101: Compromisso ético de Davi como rei.
Wilson (NIVAC) observa que estes salmos formam uma tradição sapiencial e litúrgica que define o perfil do verdadeiro povo de Deus.
Teologicamente, o Salmo 15 se ancora:
Na Lei mosaica, especialmente nos mandamentos éticos (Êx 20; Lv 19).
Nos profetas, que enfatizam a ética sobre o ritual (Is 1; Am 5; Mq 6:6–8).
Na tradição sapiencial (Pv 2–4), que associa sabedoria à integridade moral.
Keener, ao aplicar estruturas canônicas do Salmo 8 ao 15, observa que ambos refletem a vocação humana de refletir a glória de Deus por meio da obediência.
v.1
SENHOR, quem habitará no teu tabernáculo?
Quem morará no teu santo monte?
v.2
Aquele que anda em integridade, pratica justiça
e fala a verdade no coração.
v.3
Que não difama com a língua,
não faz mal ao seu próximo
nem lança injúria contra o seu vizinho.
v.4
Aquele cujos olhos desprezam o réprobo,
mas honra os que temem ao SENHOR;
que jura com dano próprio e não se retrata.
v.5
Não empresta o seu dinheiro com usura,
nem aceita suborno contra o inocente.
Quem faz estas coisas jamais será abalado.
O salmo possui uma estrutura dialógica e sapiencial:
Pergunta litúrgica (v.1)
Resposta ética (vv.2–5)
Promessa escatológica implícita (v.5b)
Prinsloo identifica a estratégia dominante como polaridade: justo/ímpio, verdade/falsidade, integridade/corrupção.
Cláusula interrogativa: “Quem habitará...?”
Cláusulas relativas qualificadoras: “Aquele que...”
Cláusulas negativas: “Não difama... não faz... não aceita...”
Cláusula conclusiva: “Jamais será abalado.”
O Salmo 15 forma uma unidade literária completa, com início interrogativo e fechamento conclusivo, não sendo dependente de salmos adjacentes. Sua função litúrgica, temática e estrutural justifica sua delimitação como uma perícope independente.
“Quem habitará no teu tabernáculo? Quem morará no teu santo monte?”
Davi não pergunta quem pode entrar, mas quem pode habitar (גּוּר – gur) e permanecer (שָׁכַן – shakan). A questão não é ocasional, mas relacional e contínua.
Calvino observa que “não se trata de acesso externo, mas de comunhão real com Deus”.
“Anda em integridade, pratica justiça, e fala a verdade no coração.”
Aqui vemos três dimensões:
Conduta (andar em integridade – תָּמִים, tamim)
Ação (praticar justiça – צֶדֶק, tsedeq)
Interioridade (verdade no coração – אֱמֶת, emet)
Kidner nota que a integridade não é perfeição sem pecado, mas inteireza, ausência de duplicidade.
“Não difama... não faz mal... não lança injúria...”
Três pecados da língua e da convivência social são condenados:
Difamação (רָגַל – ragal): andar espalhando calúnia.
Dano ativo ao próximo.
Injúria pública.
Os puritanos viam aqui a importância da santificação da língua como evidência da graça.
“Despreza o réprobo, mas honra os que temem ao Senhor; jura com dano próprio e não se retrata.”
Não se trata de desprezar pessoas, mas rejeitar o caminho da impiedade (Sl 1). Honrar os piedosos reflete alinhamento com os valores do Reino.
A fidelidade ao juramento, mesmo quando custa, revela temor do Senhor, como observa Jonathan Edwards: “A verdadeira piedade se prova na perda, não no ganho”.
“Não empresta com usura, nem aceita suborno contra o inocente. Quem faz estas coisas jamais será abalado.”
Dois pecados estruturais:
Exploração econômica
Corrupção judicial
Craigie e Tate destacam que essas práticas violavam diretamente a Lei (Êx 22:25; Dt 16:19).
A promessa final — “jamais será abalado” — ecoa linguagem escatológica: estabilidade espiritual, perseverança, firmeza diante do juízo.
Para Israel, o Salmo 15 ensinava que a verdadeira aproximação de Deus exigia vida santa, justiça social e integridade moral, não apenas sacrifícios. Ele confrontava o formalismo religioso e reafirmava a ética pactual como expressão do culto verdadeiro.
O salmo ensina que:
Deus não habita em templos apenas, mas em vidas santificadas.
A comunhão com Deus exige transformação ética.
A fé genuína se manifesta em justiça, verdade e misericórdia.
Para a igreja, o texto aponta para Cristo como o único que cumpriu perfeitamente estas exigências e, nele, os crentes são chamados a viver essa justiça por meio da graça.
O Salmo 15 contribui para o tema bíblico da habitação de Deus com seu povo, culminando em Apocalipse 21:3 — “O tabernáculo de Deus está com os homens”.
Ele também integra a tradição bíblica que une justificação e santificação, sem confundi-las.
Doutrina de Deus: Deus é santo e exige santidade.
Antropologia: O ser humano é chamado à integridade, mas é incapaz de cumpri-la perfeitamente sem a graça.
Soteriologia: O texto não ensina salvação pelas obras, mas evidencia a ética daqueles que foram alcançados pela graça.
Escatologia: A promessa de estabilidade aponta para a perseverança dos santos.
A vida cristã deve refletir integridade pessoal, ética social e fidelidade espiritual.
A igreja deve avaliar sua membresia não apenas por confissão, mas por fruto.
O culto verdadeiro inclui justiça, misericórdia e fidelidade (Mt 23:23).
Título: Quem Pode Habitar com Deus?
Texto: Salmo 15
Introdução:
Todos desejam a bênção de Deus, mas poucos consideram o caminho de Deus.
I. A Pergunta Sagrada (v.1)
— Quem pode permanecer na presença de Deus?
II. O Caminho da Integridade (v.2)
— Vida íntegra, justa e verdadeira.
III. O Teste da Língua e dos Relacionamentos (v.3)
— A fé se prova na fala e na convivência.
IV. O Temor do Senhor na Lealdade (v.4)
— Honrar os piedosos e manter a palavra.
V. A Justiça nas Estruturas da Vida (v.5a)
— Economia e justiça como expressão da fé.
Conclusão:
— Cristo é o único que cumpriu perfeitamente este salmo.
— Nele, somos capacitados a viver como cidadãos do monte santo.
O Salmo 15 confronta o coração humano com a santidade de Deus e, ao mesmo tempo, aponta para a graça necessária para viver em sua presença. Ele não descreve um ideal inatingível, mas um chamado que encontra seu cumprimento em Cristo e sua aplicação na vida do crente regenerado.
Como afirmaram os escoceses reformados, “a santidade não é a raiz da salvação, mas é seu fruto inevitável”.
CALVINO, João. Comentário aos Salmos. Ed. Fiel/Bíblia Plus.
CRAIGIE, P. C.; TATE, M. E. Psalms 1–50. Word Biblical Commentary, 2004.
KIDNER, Derek. Salmos 1–72. Série Cultura Bíblica, InterVarsity, 1981.
WILSON, Gerald H. Psalms, Volume 1. NIV Application Commentary, 2002.
BIBLEHUB. Psalm 15 Interlinear.
BIBLEHUB. Matthew Henry Commentary on Psalm 15.
MARÉ, L. P. Psalm 15: God’s Glory and Humanity’s Reflected Glory.
PRINSLOO, G. T. M. Polarity as dominant textual strategy in Psalm 15.
KEENER, H. J. A Canonical Exegesis of the Eighth Psalm (aplicação estrutural ao Sl 15).
EDWARDS, Jonathan. Works.
Escritos dos Puritanos e Teólogos Escoceses Reformados.