OS JUSTOS E OS PERVERSOS
Texto-base: “Bem-aventurado o homem que não anda segundo o conselho dos ímpios...” (Sl 1.1a)
APRESENTAÇÃO
DIVISÃO
O Saltério é dividido em cinco livros, espelhando os cinco livros do Pentateuco:
Salmos 1–41
Salmos 42–72
Salmos 73–89
Salmos 90–106
Salmos 107–150
Cada seção termina com uma doxologia, culminando no Salmo 150, um hino de louvor.
Calvino via essa divisão como um reflexo da Lei, mostrando que assim como Deus instrui pelo Pentateuco, também guia o seu povo pela oração e louvor no Saltério.
CRONOLOGIA
Os Salmos foram compostos em um período de aproximadamente 1.000 anos, do tempo de Moisés (Salmo 90) até o período pós-exílio babilônico (Salmos 126, 137).
Abrange desde a formação de Israel até sua restauração.
A compilação final provavelmente ocorreu no período de Esdras.
Os puritanos enxergavam o Saltério como um diário da história da redenção, atravessando gerações.
NATUREZA
Para Calvino, os Salmos são "uma anatomia de todas as partes da alma".
Eles expressam:
Lamento
Louvor
Arrependimento
Súplica
Gratidão
Confiança
Misturam doutrina, experiência pessoal e comunitária.
Os puritanos valorizavam o Saltério como guia prático para a vida devocional, oração e meditação.
ESTILO
Estilo poético, altamente emocional, mas teologicamente denso.
Combina:
Oração pessoal
Liturgia congregacional
Profecia messiânica
Usa paralelismos, metáforas, imagens pastorais e bélicas.
Calvino e os puritanos entendiam que o estilo dos Salmos é didático e devocional, moldando o coração para a piedade.
POESIA HEBRAICA
Baseia-se no paralelismo, não na rima.
Sinônimo: reforça uma ideia.
"Os céus proclamam a glória de Deus; o firmamento anuncia a obra das suas mãos." (Sl 19.1)
Antitético: contrasta ideias.
"Porque o Senhor conhece o caminho dos justos, mas o caminho dos ímpios perecerá." (Sl 1.6)
Sintético: complementa a primeira linha.
"Oferecei sacrifícios de justiça e confiai no Senhor." (Sl 4.5)
Uso frequente de:
Metáforas: Deus como pastor, rocha, escudo.
Hipérboles: expressões de angústia ou alegria extrema.
Imagens da natureza: montanhas, rios, animais.
Os puritanos ensinavam seus filhos a entender esse estilo para enriquecer a vida de oração.
PROPÓSITO
Levar o crente a:
Adorar verdadeiramente
Confessar pecados
Depender da providência
Esperar no Messias
Educar na fé por meio da oração cantada.
Calvino dizia que os Salmos são "a escola de oração dos santos".
Como músicas para o culto, Agostinho disse:
"Nada se pode cantar mais digno de Deus do que o que d'Ele mesmo recebemos para cantar."
— Agostinho, Enarrationes in Psalmos (Exposições sobre os Salmos)
Ele também disse: "O livro dos Salmos é o espelho de nossa alma."
"Tenho o costume de chamar este livro uma anatomia de todas as partes da alma."
— João Calvino, Prefácio ao Comentário sobre os Salmos
Essa frase ecoa a ideia de Agostinho de que os Salmos refletem toda a alma humana diante de Deus. Calvino também afirmou:
"Não há emoção da qual alguém possa estar consciente que não esteja representada aqui como num espelho."
Além disso, Calvino considerava os Salmos os melhores cânticos para o culto:
"Quando cantamos os Salmos, temos certeza de que estamos usando as palavras que o Espírito Santo nos deu."
Ele desenvolve essa ideia em seu prefácio ao Saltério de Genebra (1543), onde escreve: "Ora, o que diz Santo Agostinho é verdade: ninguém pode cantar coisas dignas de Deus a menos que as tenha recebido dEle. Portanto, quando tivermos procurado por toda parte e vasculhado em todos os lugares, não encontraremos cânticos nem melhores para esse fim do que os Salmos de Davi, que o Espírito Santo falou e entregue por meio dele."
Calvino trabalhou para produzir o Saltério de Genebra.
O primeiro culto protestante no Brasil cantou o Salmo 5, com os calvinistas franceses (10/03/1557).
A Confissão de Fé de Westminster, no Capítulo XXI, seção V diz:
“o cantar salmos com graças no coração,” como elementos de culto.
CURIOSIDADES
O livro mais citado no Novo Testamento.
Contém o capítulo mais longo da Bíblia (Salmo 119) e o mais curto (Salmo 117).
O Salmo mais antigo é de Moisés (Sl 90).
Salmos acrósticos: ex. Salmo 119, onde cada grupo de 8 versículos começa com uma letra do alfabeto hebraico.
Os Puritanos chegaram a utilizar apenas os Salmos como hinário na adoração pública, prática chamada de Salmodia Exclusiva.
AUTORIAS
Autores variados:
Davi: cerca de 73 salmos.
Filhos de Corá: 11 salmos.
Asafe: 12 salmos.
Salomão: 2 salmos (72 e 127).
Moisés: 1 salmo (90).
Etã e Hemã: 1 cada (88 e 89).
Anônimos: vários (incluindo Salmos 1, 2, 10, 33, etc.).
Calvino via Davi como o principal exemplo de homem segundo o coração de Deus por sua vida de oração nos Salmos.
TEMAS
Soberania de Deus
Providência
Arrependimento e perdão
Confiança no Senhor
Justiça divina contra os ímpios
Esperança escatológica
Adoração e louvor
O Messias e o Reino de Deus
Os Puritanos usavam os Salmos para ensinar que a vida cristã é uma jornada de peregrinação, luta espiritual e esperança.
CRISTO NOS SALMOS
Os reformadores viam os Salmos como profundamente cristocêntricos:
Salmos Messiânicos diretos:
➝ Salmo 2 (O Filho ungido)
➝ Salmo 22 (O sofrimento na cruz)
➝ Salmo 110 (O sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque)
➝ Salmo 118 (A pedra rejeitada)
Cristo como Rei, Sacerdote, Profeta, Refúgio e Salvador.
Segundo Calvino, Cristo é visto não só nas profecias diretas, mas também nas experiências dos fiéis representadas nos Salmos.
Os Puritanos viam nos Salmos a revelação do coração de Cristo e do coração do crente unido a Ele.
TEMAS POR LIVROS: 1 AO 5
Livro
Salmos
Tema predominante
Livro I
Salmos 1–41
Deus como refúgio e ajuda pessoal. Salmos mais pessoais e individuais, muitos de Davi.
Livro II
Salmos 42–72
Ênfase na comunidade, no Reino e no reinado de Deus.
Livro III
Salmos 73–89
Crise, angústia nacional, questionamento sobre o pacto e a aparente ausência de Deus.
Livro IV
Salmos 90–106
Consolação no reinado soberano de Deus, reafirmação da sua eternidade e domínio.
Livro V
Salmos 107–150
Louvor, ação de graças, restauração e celebração da fidelidade de Deus. Culmina com uma série de aleluias.
INTRODUÇÃO
O Salmo 1 é um prefácio que nos coloca diante de uma escolha fundamental. De um lado, a bem-aventurança do homem que vive sob a luz da Lei de Deus. Do outro, a miséria do ímpio, por mais que pareça prosperar.
O mundo ao nosso redor clama por felicidade. A ciência apóstata nos oferece felicidade em uma visão de mundo sem Deus. A filosofia incrédula, sistemas de pensamento que mudam com a visão do filósofo. As redes sociais a prometem em curtidas e aplausos. E a sociedade, a cada nova geração, redefine o que é "bom" e "justo". O que era pecado ontem, é virtude hoje. O que era loucura, é sabedoria. Mas, irmãos, toda essa felicidade é como a areia movediça.
O Salmo 1, pela pena do Espírito, nos oferece uma felicidade de natureza completamente diferente: uma felicidade perene, plantada por Deus e nutrida por Sua Palavra. Hoje, vamos contrastar essa felicidade bíblica e inabalável com a mutabilidade da felicidade humana.
O salmista começa descrevendo o homem feliz por meio daquilo que ele não faz. Como nos ensina o texto, a bem-aventurança começa com uma separação clara.
1. Contexto e Advertência Inicial
Estamos num mundo cheio de corrupção mortal; muitas vezes invisível, mas presente.
O salmista inicia com um alerta: não andar com os ímpios, pois a contaminação espiritual começa no pensamento e no ambiente.
Deus só é favorável àqueles que se dedicam zelosamente ao estudo da verdade divina.
· Observe que a corrupção sempre prevaleceu no mundo, de maneira que o caráter geral da vida dos homens nada mais é do que o contínuo afastamento da Lei de Deus.
· Por essa razão, o salmista admoesta os estudantes da Lei Divina a terem cuidado para não serem levados pela impiedade da multidão ao seu redor, antes de afirmar a bem-aventurança dos estudantes dessa Lei.
· É impossível dedicar a mente a meditar na Lei de Deus, antes de se separar da companhia dos ímpios.
· São muitos os que se lançam nas armadilhas de satanás, ou pelo menos os que se precaveêm contra as tentações do pecado.
· Para que estejamos plenamente cientes de nosso perigo, é necessário lembrar que o mundo está repleto de corrupção mortal, e o primeiro passo para viver bem é renunciar a companhia dos ímpios.
· Caso contrário, certamente os ímpios nos infectará com a sua própria corrupção.
· Assim como o salmista ordena os verdadeiros crentes a que tenham cuidado com as tentações do mau, devemos seguir a mesma ordem.
· O Salmo afirma que é bem-aventurado quem não tem comunhão com os ímpios, mas o mundo reprova essa posição. Há tantos argumentos ardilosos para impor a corrupção dos crentes e reprovar a falta de comunhão do cristão com os ímpios, como por exemplo: impor que devemos respeitar a todos, significando apoiar o errado; mas o juiz respeita o justo, condenando o injusto, a sociedade respeita a verdade condenando a mentira; o pai respeita o filho obediente corrigindo o desobediente; o marido respeita a fidelidade condenando o adultério; a polícia respeita o cidadão de bem, prendendo o criminoso; o médico respeita o saudável condenando o doente através da cura.
· Embora todos os homens desejem e busquem a felicidade, podem se entregar naturalmente aos seus pecados. Tanto que, aqueles que mais se afastaram da justiça de Deus e se entregaram aos seus pecados, são considerados felizes, porque obtiveram os desejos de seus corações.
· Já o salmo afirma que todos os que não se afastam de seus pecados são miseráveis; que são aqueles que não se dedicam a meditar diariamente e ininterruptamente na Lei de Deus.
· Mas, como não é fácil nos afastar completamente dos ímpios, neste mundo, o salmista emprega três expressões, para dar maior ênfase à sua admoestação: primeiro, não devemos andar no conselho deles, segundo, parar/deter nos caminhos deles, e terceiro, de sentar-se com eles, ou onde eles se sentam.
· Os justos devem se esforçar para abominar a vida dos homens ímpios. E devemos saber que satanás seduz os homens para desviarem do caminho certo. E o declínio dos justos não começa com um desprezo orgulhoso por Deus, mas um passo a passo na sedução de satanás, dando ouvidos aos maus conselhos, sendo levados cada vez para mais longe de Deus, até que se precipitem de cabeça na transgressão aberta.
· É por isso, que o salmista começa prevenindo sobre a maldade que ainda não se manifesta abertamente. Em seguida, ele fala do caminho que deve ser entendido como a maneira costumeira de viver. E destaca o assento, como metáfora de uma vida pecaminosa. Da mesma forma, devem ser entendidas as três frases: andar, parar em pé (caminhar) e sentar.
· Quando alguém caminha voluntariamente em busca da satisfação de seus desejos corruptos, a prática do pecado o enfeitiça de tal forma, que, esquecido de si mesmo, ele se endurece na maldade. Resultando em se atrapalhar com os pecadores. Por fim, vem a obstinação desesperada, que é se sentar com os pecadores.
· Escarnecedores são aqueles que, tendo abandonado todo temor a Deus cometem pecado sem restrição, na esperança de escapar impunes. E sem remorsos ou medo, divertem-se com o julgamento de Deus como se nunca fossem prestar contas a Ele.
· O caminho dos pecadores significa o hábito perverso.
· A intenção do salmista é advertir aos verdadeiros adoradores de Deus a se afastarem do caminho dos perversos, afim de estruturar as suas vidas corretamente. Quanto mais, no tempo presente, quando o mundo se tornou mais corrupto, para que possamos ser mantidos imaculados de suas impurezas.
· Devemos nos manter afastados dos ímpios para não sermos infectados por eles, e não nos corrompermos, nem nos abandonarmos à impiedade.
Porém, o homem pode não ter contraído contaminação por maus exemplos, e ainda assim, vir a assemelhar-se aos ímpios ao imitar, espontaneamente seus costumes corruptos.
Precisão da advertência:
Primeiro, andar com os ímpios (v. 1a): aceitar o conselho deles;
Depois, caminhar no caminho deles (v. 1b): viver segundo seus padrões;
Finalmente, sentar-se entre eles (v. 1c): compartilhar do seu estilo de vida.
2. O Perigo da Sociedade e Suas Defesas Enganosas
O mundo não aprova a distinção espiritual, chamando-a de intolerância.
As acusações: “Respeitar implica aceitar tudo”; mas o verdadeiro respeito condena o pecado, não o pecador.
O juiz respeita o justo e condena o injusto;
O pai corrige o filho desobediente;
O médico trata a enfermidade, amando o paciente.
Porém, os ímpios vivem como se fossem felizes – satisfazendo seus desejos – mas rejeitam a única fonte de bênção (v. 1–2).
3. O Contraste Espiritual entre o Justo e o Ímpio
Justos
Não se associam à corrupção.
Colocam sua alegria e meditação na Lei do Senhor, dia e noite (v. 2).
São como árvores plantadas junto a cursos d'água, firmes, produtivas, abençoadas (v. 3).
Ímpios
Não resistem ao juízo; são como palha levada pelo vento (v. 4).
Permanecem fixos no caminho da ruína até o juízo final (v. 5–6).
4. O Caminho da Sedução e a Gravidade da Contaminação
O diabo não opera por violência, mas por sedução sutil e progressiva.
O declínio espiritual não começa com blasfêmia, mas com:
“Só uma olhadinha” (andar) → curiosidade → “por que não viver assim também?”
“Apenas experimentar” (caminhar) → hábito → “cada vez mais longe”.
“Eu pertenço a esse grupo” (sentar) → obstinação, fechamento ao chamado de Deus.
O salmista evita o mal antes que ele se manifeste — e é isso que Cristo chama de “vigiar e orar”.
5. Aplicação Prática: Escolha Seu Caminho
Ser fiel ao salmo significa:
Evitar conselhos sedutores (mídia, influências, filosofias);
Cultivar o prazer na Palavra (oração, estudo, meditação diária);
Viver uma vida enraizada em Cristo, não oscilante.
A imunidade espiritual vem de evitarmos contaminação (hábitos do pecado) e imitação (seguir costumes do mundo).
Reconhecer que felicidade verdadeira é fruto da comunhão com Cristo, não do conformismo com o mundo.
6. Conclusão e Aplicações Práticas
Conclusão:
O caminho do justo e o do ímpio não se cruzam eternamente. O justo escolhe a rocha firme (Cristo), o ímpio segue a lama turbulenta. A diferença determina o fim de cada um.
Aplicações concludentes:
Reveja quem está moldando seus pensamentos e sentimentos.
Examine seus hábitos e vícios: estão fazendo você afastar-se de Cristo ou fortalecendo a raiz espiritual na Palavra?
Desenvolva momentos de devoção diária: medite na Palavra de Deus, não apenas passe por ela; permita que ela molde seu coração.
Evite relacionamentos e ambientes tóxicos que empurrem você para longe de Cristo.
Cultive comunhão com a igreja: a comunidade de fé é apoio para fortalecer os passos andando na justiça.
Oração final
“Senhor, ajuda-me a não andar segundo os conselhos dos ímpios, mas a desfrutar plenamente da alegria da Tua Lei. Plantado em Tuas águas, guarda-me firme, para que minha vida frutifique para a Tua glória, e eu me mantenha imaculado da corrupção deste mundo. Em nome de Jesus, amém.”