Exegese completa de 1 Tessalonicenses 5.23.
Introdução
Estudo Contextual
2.1 Contexto Histórico da Passagem
2.2 Contexto Literário da Passagem
2.3 Contexto Remoto
Estudo Textual
3.1 Tradução do Texto
3.2 Estrutura do Texto
3.3 Estrutura Clausal (visão geral)
3.4 Justificativa da Perícope
Comentário Exegético
Mensagem para a Época da Escrita
Mensagem para Todas as Épocas
Teologia do Texto
7.1 Implicações para a Teologia Bíblica
7.2 Implicações para a Teologia Sistemática
7.3 Implicações para a Teologia Prática
Esboço de Sermão
Conclusão
Bibliografia
1 Tessalonicenses 5.23 é uma das mais ricas bênçãos apostólicas do Novo Testamento. O apóstolo Paulo ora para que Deus realize uma obra completa de santificação nos crentes, preservando-os íntegros até a vinda de Cristo. O versículo tem sido central em debates sobre a natureza humana, especialmente a tricotomia (corpo, alma e espírito), mas sua intenção primária é pastoral e escatológica, não antropológica.
Os comentaristas modernos (Wanamaker, Green, Bruce, Mell, Kim & Bruce, Marshall) convergem que Paulo não está propondo uma teoria da constituição do ser humano, mas expressando, por meio de uma linguagem intensiva e abrangente, a totalidade da obra santificadora de Deus.
A carta foi escrita por Paulo, Silvano e Timóteo a uma comunidade jovem, formada em meio à perseguição (At 17). Esses cristãos enfrentavam pressões sociais e religiosas e aguardavam com ansiedade a parousia de Cristo. O tom pastoral da carta busca encorajá-los à perseverança, à santidade e à esperança.
Segundo Bruce e Green, o versículo 5.23 se insere na conclusão epistolar como uma oração pastoral, reforçando que a perseverança dos crentes depende fundamentalmente da fidelidade de Deus, não apenas de seus esforços.
1 Tessalonicenses 5.12–22 contém uma série de exortações éticas concisas: respeito às lideranças, paz, paciência, vigilância, oração constante, gratidão e rejeição do mal. O versículo 23 funciona como uma transição dessas exortações para a seção final da carta (5.23–28), em que Paulo recorre à intercessão e à bênção.
Como observa Wanamaker, Paulo move-se da exortação humana à ação divina: aquilo que ele ordena nos vv. 12–22, ele agora confia ao Deus que santifica.
No Antigo Testamento, Deus é frequentemente apresentado como aquele que santifica seu povo (Lv 20.8; Ez 37.28). A esperança escatológica da preservação íntegra até o “dia do Senhor” também está firmemente enraizada na literatura profética e apocalíptica judaica.
No Novo Testamento, essa santificação é mediada em Cristo e pelo Espírito (Rm 15.16; 1Co 1.30; Hb 13.20–21). Assim, 1Ts 5.23 ecoa uma tradição bíblica ampla: Deus é o autor, o meio e o fim da santificação.
Texto grego (NA28):
Αὐτὸς δὲ ὁ θεὸς τῆς εἰρήνης ἁγιάσαι ὑμᾶς ὁλοτελεῖς, καὶ ὁλόκληρον ὑμῶν τὸ πνεῦμα καὶ ἡ ψυχὴ καὶ τὸ σῶμα ἀμέμπτως ἐν τῇ παρουσίᾳ τοῦ κυρίου ἡμῶν Ἰησοῦ Χριστοῦ τηρηθείη.
Tradução literal:
“E o próprio Deus da paz vos santifique completamente; e que o vosso espírito, alma e corpo sejam preservados íntegros, irrepreensíveis, na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo.”
O versículo apresenta duas petições paralelas:
Santificação total: “que o próprio Deus da paz vos santifique completamente”.
Preservação integral: “que o vosso espírito, alma e corpo sejam preservados íntegros e irrepreensíveis”.
Ambas culminam na referência escatológica: “na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”.
Sujeito: “o próprio Deus da paz”
Verbo principal: “santifique” (ἁγιάσαι)
Objeto: “a vós”
Modificador: “completamente” (ὁλοτελεῖς)
Verbo secundário: “seja preservado” (τηρηθείη)
Objeto triplo: “espírito, alma e corpo”
Modificadores: “integros”, “irrepreensíveis”
Circunstância final: “na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo”
Embora faça parte da seção final da carta, 5.23 constitui uma unidade literária e teológica completa: uma oração autônoma com tema próprio (santificação e preservação escatológica). Por isso, é legítimo tratá-la como perícope isolada.
“O próprio Deus da paz” – O sujeito da ação é Deus, enfatizado por αὐτὸς (“o próprio”). Segundo Green e Bruce, isso sublinha que a santificação não depende, em última instância, do esforço humano, mas da iniciativa divina. O título “Deus da paz” ecoa a reconciliação obtida em Cristo (cf. Rm 5.1).
“Vos santifique completamente” (ὁλοτελεῖς) – O advérbio não descreve intensidade, mas abrangência. Wanamaker observa que o termo sugere santificação em todas as áreas da vida, não perfeição absoluta sem pecado, mas integridade diante de Deus.
“Espírito, alma e corpo” – Aqui está o ponto mais debatido. A maioria dos comentaristas contemporâneos (Green, Mell, Kim & Bruce, Marshall) rejeita que Paulo esteja ensinando uma ontologia tricotômica. Em vez disso, ele emprega uma tríade retórica para expressar a totalidade da pessoa humana, de modo semelhante à fórmula “coração, alma, entendimento e forças” (Mc 12.30).
Calvino, comentando este versículo, afirma que Paulo não pretende dividir o ser humano em partes substanciais distintas, mas “designar o homem inteiro sob diferentes aspectos”, a fim de mostrar que nenhuma parte da vida fica fora da santificação divina.
“Sejam preservados íntegros, irrepreensíveis” – A linguagem jurídica e moral indica uma condição aceitável diante de Deus, não impecabilidade absoluta, mas fidelidade perseverante até o fim (Bruce; Marshall).
“Na vinda de nosso Senhor Jesus Cristo” – O horizonte é escatológico. A santificação não é apenas um processo presente, mas uma preparação para o encontro final com Cristo.
Para os tessalonicenses, este versículo oferecia:
Consolo: Deus mesmo garantiria sua preservação.
Esperança: A santidade presente estava orientada para o futuro glorioso.
Equilíbrio pastoral: Exortações à obediência são ancoradas na graça divina.
Num contexto de perseguição e ansiedade escatológica, Paulo assegura que Deus é fiel para completar sua obra (cf. 5.24).
O versículo ensina que:
A santificação é obra de Deus, não mera autoajuda espiritual.
Ela é integral, envolvendo toda a vida.
Ela é escatológica, orientada para o encontro final com Cristo.
Assim, o texto combate tanto o moralismo (confiança excessiva no esforço humano) quanto o antinomianismo (indiferença ética).
O texto reforça o padrão bíblico segundo o qual Deus é:
O autor da santificação (Lv 20.8; Hb 13.20–21).
O guardião da perseverança (Sl 121; Jd 24).
O juiz escatológico diante de quem o crente deve estar irrepreensível (Fp 1.10).
A tríade “espírito, alma e corpo” deve ser lida à luz da antropologia hebraica integral, que concebe o ser humano como uma unidade relacional diante de Deus.
A questão da tricotomia
Definição:
A tricotomia afirma que o ser humano é composto de três partes distintas: corpo, alma e espírito, cada uma com funções e naturezas próprias.
Presença no texto:
1Ts 5.23 não ensina formalmente a tricotomia. A maioria dos comentaristas (Green, Mell, Kim & Bruce, Marshall) entende a tríade como uma enumeração retórica, não como definição ontológica.
Visão dos Reformadores:
Calvino rejeita explicitamente a tricotomia, afirmando que Paulo não está ensinando três substâncias, mas expressando a totalidade da pessoa humana.
Lutero também enfatiza a unidade do ser humano, embora ocasionalmente use linguagem tripartida de modo pastoral, não dogmático.
A tradição reformada consolidou a visão dicotômica (corpo e alma/espírito), entendendo “alma” e “espírito” como termos funcionalmente distintos, mas ontologicamente equivalentes.
Equívocos comuns da tricotomia:
Supor hierarquia ontológica rígida (espírito > alma > corpo).
Associar espiritualidade verdadeira apenas ao “espírito”.
Reduzir o corpo a mero invólucro descartável.
Implicações doutrinárias:
Pode favorecer dualismos gnósticos ou desprezo pelo corpo.
Pode distorcer a doutrina da santificação, como se apenas uma parte do homem fosse alvo da graça.
Posição reformada resumida:
O ser humano é uma unidade integral, composta de corpo e alma (ou espírito), e toda a pessoa é objeto da redenção e da santificação.
Santificação integral: vida espiritual, emocional, social e corporal pertencem igualmente ao senhorio de Cristo.
Esperança perseverante: Deus é fiel para completar sua obra.
Cuidado pastoral: não se pode espiritualizar a fé de modo que negligencie o corpo, as emoções ou as responsabilidades sociais.
Tema: Deus nos santifica completamente até a vinda de Cristo.
Texto: 1 Tessalonicenses 5.23
Introdução: A necessidade de uma fé que alcance toda a vida.
Divisão:
O Autor da santificação – “O próprio Deus da paz”.
A Extensão da santificação – “Completamente… espírito, alma e corpo”.
O Objetivo da santificação – “Irrepreensíveis na vinda de Cristo”.
Conclusão: A santidade cristã é obra da graça divina, vivida no presente e orientada para a glória futura.
1 Tessalonicenses 5.23 não é um tratado antropológico, mas uma oração pastoral e escatológica. Seu tema central é a santificação completa e a preservação íntegra do crente até a parousia.
A menção a “espírito, alma e corpo” não estabelece a doutrina da tricotomia, mas expressa, de forma intensiva e abrangente, a totalidade da pessoa humana. A tradição reformada, seguindo Calvino, rejeita a tricotomia ontológica e afirma a unidade do ser humano diante de Deus.
Assim, o versículo nos chama a confiar plenamente no Deus da paz, que santifica, preserva e glorifica o seu povo em Cristo.
BRUCE, F. F. 1 e 2 Tessalonicenses. WBC. Thomas Nelson, 1982.
GREEN, Gene L. As Cartas aos Tessalonicenses. PNTC. Eerdmans, 2002.
KIM, Seyoon; BRUCE, F. F. 1 e 2 Tessalonicenses (2ª ed.). WBC. Zondervan Academic, 2023.
MELL, Ulrich. O Evangelho como Carta: Um Comentário sobre 1 Tessalonicenses. Fortress Press, 2025.
MARSHALL, Molly T. 1 e 2 Tessalonicenses. Crença. Westminster John Knox, 2022.
WANAMAKER, Charles A. As Epístolas aos Tessalonicenses. NIGTC. Eerdmans, 1990.
CALVINO, João. Comentário sobre 1 Tessalonicenses 5.23. Disponível em: https://biblehub.com/commentaries/calvin/1_thessalonians/5.htm
ESTRUTURA CLAUSAL
ESTRUTURA DO CONTEXTO