DESAMPARO E GLÓRIA - Da Cruz do Abandono à Glória Universal
Texto base: Salmo 22 (especialmente vv. 1, 6-8, 12-18, 21b, 27-31)
Introdução
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?”
Essas palavras não foram ditas primeiro por um homem comum em desespero. Foram gritadas pelo próprio Filho de Deus, pendurado na cruz, sob o céu escurecido (Mt 27.46). O Salmo 22, escrito por Davi séculos antes, não é apenas um lamento pessoal. É a profecia mais vívida da paixão de Cristo. Como observou Calvino, este salmo “nos conduz diretamente à cruz e à glória de Cristo”.
Hoje, à luz da cruz, vamos contemplar o Salvador que foi abandonado para que nunca fôssemos abandonados. Um sermão cristocêntrico, à moda puritana: direto à Palavra, sem rodeios, para que Cristo seja tudo em todos.
1. O clamor do abandono (vv. 1-2)
“Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste? Por que estás tão longe de minha salvação?”
Cristo não questionou a existência de Deus. Ele experimentou o que nenhum de nós jamais suportaria: o Pai desviando o rosto do Filho que carregava nossos pecados. O Justo foi tratado como ímpio. O Amado foi feito maldição por nós (Gl 3.13).
Ilustração: Imagine um filho perfeito, amado desde a eternidade, de repente carregando sobre si toda a ira que merecíamos. No Getsêmani Ele suou sangue. Na cruz, Ele clamou. Não era teatro. Era realidade substitutiva.
Lição para hoje: Quando você sentir que Deus está distante — na doença, na solidão, na luta contra o pecado —, lembre-se: Cristo já esteve no abandono total. Seu silêncio nunca significa rejeição definitiva para quem está em Cristo. Ele foi abandonado para que você fosse recebido.
2. A humilhação extrema do Servo (vv. 6-8, 12-18)
“Eu sou verme, e não homem; opróbrio dos homens e desprezado do povo.”
“Traspassaram minhas mãos e meus pés... Contam todos os meus ossos... Repartem entre si as minhas vestes e sobre a minha túnica lançam sortes.”
Aqui a profecia é tão precisa que parece um relatório da crucificação escrito com antecedência. Animais ferozes ao redor (touros de Basã, cães, leões) retratam os inimigos zombando: “Confie no Senhor! Que Ele o livre!” (v. 8). Exatamente o que os líderes disseram a Jesus na cruz.
Cristo foi despido, traspassado, exposto, ridicularizado. O Rei dos reis tornou-se o mais desprezado dos homens. Por quê? Porque o pecado nos tornara vermes espirituais. Ele desceu ao nosso nível para nos elevar ao Seu.
Lição relevante: Em uma cultura que foge da vergonha e busca autoestima a todo custo, a cruz nos ensina o caminho oposto: a humildade radical. Sua identidade não está no que os outros pensam de você, mas no que Cristo sofreu por você. Quando o mundo zombar da sua fé, lembre-se: eles zombaram primeiro dEle.
3. A confiança perseverante no meio da dor (vv. 3-5, 9-11)
Mesmo no clamor, Davi (e Cristo em cumprimento) recorda: “Tu és santo... Em ti confiaram nossos pais... Desde o ventre materno tu és o meu Deus.”
Cristo não duvidou da santidade do Pai. Ele confiou quando tudo gritava o contrário. Essa é a fé puritana: não a ausência de sentimento, mas a obediência apesar do sentimento.
Ilustração inteligente: Como um marinheiro que navega por tempestade confiando na bússola, não no céu claro, assim o crente navega pela dor olhando para a fidelidade passada de Deus — e, sobretudo, para a fidelidade suprema na cruz.
Lição para hoje: Sua confiança não depende de sentir a presença de Deus, mas de saber que Ele é fiel. Em tempos de ansiedade, depressão ou silêncio divino, repita as promessas. Cristo confiou até o fim. Você pode confiar nEle.
4. A virada divina e o louvor que explode (v. 21b e seguintes)
De repente, no versículo 21b: a oração é ouvida. O sofrimento não tem a última palavra. Do “por que me abandonaste?” surge o louvor: “Anunciarei o teu nome a meus irmãos” (v. 22).
O que parecia derrota tornou-se vitória. A cruz, instrumento de morte, tornou-se trono de graça. Da humilhação brotou a exaltação.
Agora o louvor se expande: primeiro na congregação (vv. 22-26), depois a todas as nações (vv. 27-31): “Todos os confins da terra se lembrarão e se converterão ao Senhor... Pois o reino é do Senhor.”
Cristo ressuscitou. O Evangelho saiu de Jerusalém para o mundo inteiro. Hoje, aqui no Brasil, em Cotia ou em qualquer lugar, você faz parte desse louvor universal.
Lição relevante: A dor nunca é o fim da história para o povo de Deus. Toda cruz verdadeira termina em ressurreição. Transforme seu lamento em testemunho. Anuncie Cristo aos seus irmãos. O sofrimento refinado produz louvor autêntico.
Conclusão
Irmãos, o Salmo 22 não termina no clamor do abandono. Termina na glória universal do Rei crucificado.
Cristo foi verme para que você fosse filho.
Foi traspassado para que você fosse curado.
Foi abandonado para que você fosse aceito para sempre.
Se você ainda não O conhece, venha à cruz hoje. Confesse seus pecados e confie no Salvador que clamou em seu lugar.
Se você já é dEle, persevere. Clame como Ele clamou. Confie como Ele confiou. E louve como Ele agora louva, à direita do Pai.
Um dia, todo joelho se dobrará. Mas hoje, a igreja já começa esse louvor eterno.
“Pois o reino é do Senhor, e Ele governa sobre as nações” (Sl 22.28).
Amém. Que Cristo seja magnificado em nossa dor, em nosso louvor e em nossa vida. Soli Deo Gloria.