Texto base: Salmo 28
Há momentos em que o silêncio de Deus dói mais que a própria luta.
Você ora. Você clama. Você levanta as mãos para o santuário. E nada parece acontecer.
Os inimigos avançam. Os poderosos se reúnem. A reunião está marcada. A pauta está pronta. O processo já tem número de protocolo. E você ali, de joelhos, perguntando: "Deus, onde estás?"
Este é o Salmo 28. Mas não é só o Salmo 28. É o nosso salmo. É o salmo desta igreja. É o salmo de um conselho cercado. É o salmo de um povo que já foi declarado nulo pelo sistema, mas que se recusa a soltar a corda da oração.
Davi escreveu este salmo em fuga. Perseguido. Caluniado. Com homens poderosos tramando sua queda nos tribunais de Israel. Ele sabia o que era ter a razão e ainda assim ser tratado como réu. Ele sabia o que era ver o concílio se levantar contra o ungido de Deus.
Nós também sabemos.
"A ti clamarei, ó Senhor, Rocha minha; não emudeças para comigo; não suceda que, calando-te para comigo, eu me torne semelhante aos que descem à cova. Ouve a voz das minhas súplicas, quando a ti clamar, quando levantar as minhas mãos para o teu santo santuário."
Quatro frases bastam.
A ti clamarei. Não emudeças. Ouve a voz. Levanto as mãos.
Davi está no fundo do poço. Mas vejam: ele não diz "a ti reclamarei". Ele diz "a ti clamarei". A diferença é a fé. Reclamar é olhar para a circunstância. Clamar é olhar para o trono.
E ele chama Deus de Rocha. Não é um detalhe poético. É teologia de trincheira. Quando tudo treme — o presbitério treme, o sínodo treme, o supremo concílio treme — você precisa de algo firme. Alguém firme. A Rocha não se move.
Notem o que Davi teme. Ele não diz: "tenho medo dos meus inimigos". Ele diz: "tenho medo de que tu te cales". O maior terror do crente não é a sentença do tribunal humano. É o silêncio do tribunal divino.
Ilustração: Um farol na tempestade não precisa falar. Ele só precisa brilhar. O problema é quando o farol se apaga. Davi está dizendo: "Senhor, não apagues tua luz agora. Estou no meio da tormenta. Preciso ver. Preciso saber que me vês."
E então o gesto: "levanto as minhas mãos para o teu santo santuário". Naquela reunião onde todos levantam a mão contra você, Davi levanta as mãos para o alto. Ele sabe que há um tribunal acima de todos os tribunais. Um concílio acima do Supremo Concílio.
Lição para hoje: A igreja que ora com as mãos levantadas não será derrubada pelos que levantam a mão para acusá-la.
"Não me arremesses com os ímpios e com os que praticam a iniquidade; que falam de paz com o seu próximo, mas têm mal no seu coração. Dá-lhes segundo as suas obras e segundo a malícia dos seus atos; dá-lhes conforme a obra das suas mãos; retribui-lhes o que eles merecem. Porquanto não atentam para as obras do Senhor, nem para o que as suas mãos têm feito, ele os derrubará e não os reedificará."
Agora Davi desce ao detalhe. Ele não está lidando com inimigos declarados. Está lidando com hipócritas religiosos. Gente que "fala de paz com o próximo, mas tem mal no coração".
É a linguagem dos concílios. É o vocabulário eclesiástico usado como arma. "Paz do Senhor, irmão" — e na pasta, o processo. "Graça e paz" — e na pauta, a denúncia. Davi conhecia esse tipo. Jesus também conheceu. Foram os religiosos que o entregaram.
Ilustração: Há uma figura na arquitetura medieval chamada gárgula. Por fora, uma escultura bela na fachada da catedral. Por dentro, um cano de esgoto. Davi está descrevendo exatamente isso: homens que parecem colunas da igreja, mas por dentro canalizam o esgoto da malícia.
E aqui vem a parte mais difícil do salmo. A imprecação. "Dá-lhes segundo as suas obras... retribui-lhes o que merecem." Muitos pregadores modernos pularão esses versículos. Acham que Davi está sendo vingativo. Mas não é vingança. É justiça. É a oração de quem confia que Deus é juiz e que o trono branco um dia endireitará todas as coisas tortas.
Puritano nenhum tem medo de imprecação. John Trapp dizia que as imprecações de Davi não são maldições pessoais, mas profecias do juízo divino. Ele não está pedindo: "Deus, me vinga." Ele está dizendo: "Deus, sê quem és: Juiz de toda a terra."
E notem o critério do juízo: "Porquanto não atentam para as obras do Senhor." Estes homens são peritos em leis eclesiásticas. Conhecem o artigo 83. Dominam o artigo 104. Sabem de cor o Código de Disciplina. Mas não reconhecem a obra de Deus. Não veem o que Deus está fazendo. Não discernem o corpo de Cristo.
E então a sentença divina: "Ele os derrubará e não os reedificará."
O que homens edificam com política, Deus derruba com um sopro.
Lição para hoje: Não tema a reunião extraordinária. Tema estar entre os que atentam para os artigos da constituição eclesiástica, mas não atentam para as obras do Senhor. O sistema pode moer a igreja local. Mas o sistema não deterá o juízo de Deus sobre quem usa o sistema para fins perversos.
"Bendito seja o Senhor, porque ouviu a voz das minhas súplicas. O Senhor é a minha força e o meu escudo; nele confiou o meu coração, e fui socorrido; pelo que o meu coração salta de prazer, e com o meu cântico o louvarei."
Agora acontece algo extraordinário. Entre o versículo 5 e o versículo 6, há uma virada. Nenhuma circunstância mudou. Nenhum inimigo caiu. Nenhuma sentença foi revogada. Mas Davi já está louvando.
Como?
A resposta está numa só palavra hebraica: shamá — "ouviu". Davi recebeu a certeza interior de que Deus ouviu. Não de que Deus resolveu. De que Deus ouviu. E isso já basta.
Ilustração: É como uma criança no escuro que grita: "Pai!" O pai responde: "Estou aqui." O quarto continua escuro. O medo não passou completamente. Mas a voz do pai mudou tudo. Davi ouviu a voz de Deus no escuro do seu quarto. E aquilo já era livramento.
Esta é a teologia puritana da certeza interior. O Espírito Santo testifica com o nosso espírito. Antes de qualquer papel assinado, antes de qualquer liminar deferida, antes de qualquer decisão favorável do tribunal, há um "bendito seja o Senhor" que brota da alma porque Deus já respondeu no secreto.
E então três declarações:
"O Senhor é a minha força" — não o parecer jurídico, não a documentação, não a estratégia. O Senhor.
"O Senhor é o meu escudo" — não a liminar, não a ata, não o boletim de ocorrência. O Senhor.
"Nele confiou o meu coração, e fui socorrido" — a confiança vem antes do socorro. O louvor vem antes do livramento.
Lição para hoje: A igreja do Tijuco Preto precisa decidir se louvará depois da decisão favorável ou se louvará antes. A fé bíblica, puritana, reformada, louva antes. Louva na vigília da noite. Louva quando a reunião está marcada. Louva quando o protocolo está pendente. Louva porque Deus já ouviu. E se Deus já ouviu, a resposta já está a caminho — ainda que o relógio da terra não a veja chegar.
"O Senhor é a força do seu povo; também é a força salvadora do seu ungido. Salva o teu povo, e abençoa a tua herança; apascenta-os e exalta-os para sempre."
Agora Davi amplia o foco. Ele começou no singular: "A ti clamarei, Rocha minha." Mas agora ele termina no plural: "O Senhor é a força do seu povo... salva o teu povo."
Por quê? Porque o que está em jogo não é a pele de um pastor. Não é o destino de um conselho. É o rebanho. As ovelhas. A herança de Deus.
Vejam a última palavra do salmo: "para sempre" (le'olam). O Salmo 28 termina com eternidade. Os inimigos caem, os concílios passam, as atas amarelam, os protocolos viram pó. Mas o povo de Deus é apascentado e exaltado para sempre.
E aqui está o coração cristocêntrico do salmo. O versículo 8 fala do "ungido" (mashiach). No contexto imediato, é Davi. Mas os olhos da fé veem mais longe. Veem o Filho de Davi. Veem Jesus. Ele é o Ungido definitivo.
Jesus também foi julgado por um concílio religioso. Jesus também foi acusado por homens que falavam de paz mas tinham mal no coração. Jesus também foi declarado culpado por um tribunal que não reconhecia as obras do Senhor. Jesus também experimentou o silêncio de Deus: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?"
E o que aconteceu? O Pai o ressuscitou. O Pai o exaltou. O Pai lhe deu um nome que está acima de todo nome — acima de presbitérios, acima de sínodos, acima de supremos concílios.
O destino do corpo segue o destino da cabeça. Se Cristo, o Ungido, foi salvo e exaltado, o seu povo também será.
Irmãos da Igreja Presbiteriana do Tijuco Preto, ouçam com atenção.
Vocês estão diante do Salmo 28. Mas o Salmo 28 não é uma peça de museu. É uma janela. E através desta janela, vocês veem o seu próprio reflexo.
Davi foi perseguido por Saulo — o ungido enlouquecido pelo poder. Vocês são perseguidos por um sistema que já se esqueceu do que significa ser igreja.
Davi foi traído por conselheiros que falavam de paz e tramavam a guerra. Vocês conhecem essa linguagem. Já a ouviram em atas. Já a leram em protocolos.
Davi clamou e o céu pareceu mudo. Vocês clamaram e o Supremo Concílio ainda não respondeu.
Mas Davi descobriu algo. E vocês também descobrirão. Talvez já estejam descobrindo agora, neste momento, enquanto estas palavras são proferidas.
O silêncio de Deus nunca é o fim da história.
Deus não está em silêncio porque é indiferente. Está em silêncio porque está ouvindo. E quando Ele rompe o silêncio, o barulho da sua resposta faz tremer todos os tribunais da terra.
Se Cristo é a Rocha, a igreja está firme. Podem tirar-lhe o templo? Podem. Podem destituir-lhe o conselho? É possível. Podem arrastar-lhe o nome na lama dos concílios? Já o fizeram com o Senhor da igreja. Mas nada — absolutamente nada — pode separar o rebanho do seu Pastor.
"Salva o teu povo, e abençoa a tua herança; apascenta-os e exalta-os para sempre."
Esta é a oração final do salmista. Que seja também a nossa.
O Deus que ouviu Davi ouviu vocês. O Deus que derrubou os ímpios saberá o tempo de derrubar estes. O Deus que exaltou o Ungido exaltará esta igreja.
Não hoje, talvez. Não amanhã, quem sabe. Mas para sempre.
Bendito seja o Senhor, porque ouviu a voz das nossas súplicas.
Amém.