EXEGESE DO SALMO 28
Em relação ao Salmo 29: Enquanto o Salmo 28 termina com um pedido pastoral ("apascenta-os e exalta-os para sempre"), o Salmo 29 abre com uma teofania da tempestade em que "a voz do Senhor" ecoa sete vezes. Assim, o silêncio temido no Salmo 28 é dramaticamente respondido pela voz trovejante de Yahweh no Salmo 29 — uma conexão canônica intencional.
Em relação ao Salmo 23: Barrick (2004) nota que os Salmos 23–28 são delimitados pela figura do Pastor divino: "O Senhor é o meu pastor" (Sl 23:1) e "apascenta-os" (Sl 28:9). Há uma progressão do individual para o comunitário na imagem pastoral.
O Salmo 28 emprega vários recursos da poesia hebraica:
Paralelismo sinonímico: "Ouve a voz das minhas súplicas / quando clamo a ti" (v. 2)
Paralelismo antitético: "Ele os derrubará / e não os edificará" (v. 5)
Metáforas teológicas: Rocha (צוּר, ṣûr), Escudo (מָגֵן, māgēn), Fortaleza (מָעוֹז, māʿôz)
Inclusio: O salmo começa dirigindo-se a Deus (v. 1) e termina dirigindo-se a Deus (v. 9)
Quiasmo: O versículo 1 apresenta uma estrutura quiástica notável (A: "A ti clamarei" / B: "não emudeças" / B': "se emudeceres" / A': "tornar-me-ei semelhante aos que descem à cova")
O contexto remoto do Salmo 28 abrange o panorama canônico mais amplo das Escrituras, nas relações intertextuais e teológicas que transcendem o cenário imediato de composição.
A imagem de Deus como Rocha (צוּר, ṣûr): Esta metáfora aparece pela primeira vez no Cântico de Moisés (Dt 32:4, 15, 18, 30, 31), onde Yahweh é contrastado com as falsas rochas dos deuses pagãos. A imagem evoca estabilidade, proteção e fidelidade inabalável. Conforme Ellicott (1884), o termo deriva de uma raiz que significa "atar juntamente", sugerindo solidez e coesão, não necessariamente altura. A cidade fenícia de Tsur (Tiro), construída sobre uma ampla plataforma rochosa, ilustra bem a metáfora: Deus é o fundamento firme sobre o qual o crente edifica sua esperança.
O silêncio divino na tradição profética e sapiencial: O temor do silêncio de Deus ecoa em Isaías (Is 64:12: "Conter-te-ás, Senhor, e nos afligirás?"), nos Salmos (Sl 35:22; 39:12; 83:1; 109:1) e em Lamentações (Lm 3:8: "Ainda que eu clame e grite, ele fecha os ouvidos à minha oração"). Essa tradição reconhece que o pior sofrimento não é a presença do inimigo, mas a aparente ausência de Deus.
O juízo divino sobre os ímpios: O princípio da retribuição conforme as obras (v. 4) reflete a teologia deuteronômica da justiça imanente e ecoa passagens como Provérbios 24:12 ("Não retribuirá ele a cada um segundo a sua obra?") e Jó 34:11. Contudo, o salmo vai além da mera retribuição mecânica: o castigo é fundamentado na rejeição deliberada das obras de Deus (v. 5), e não apenas nas más ações em si. Como aponta Kidner (1973, p. 123), "a raiz do pecado não é tanto o que fazem, mas o fato de não atentarem para os feitos do Senhor".
O pastoreio divino de Israel: O versículo 9 emprega o verbo רָעָה (rāʿâ), "pastorear/apascentar", que conecta diretamente ao Salmo 23 e à tradição do Êxodo (Sl 77:20; 78:52), além de antecipar a promessa messiânica de Ezequiel 34:23 ("Suscitarei sobre elas um só pastor, o meu servo Davi").
Cristo como Rocha: A metáfora da rocha, tão central neste salmo, é aplicada a Cristo no Novo Testamento (1Co 10:4: "a pedra era Cristo"; Mt 16:18; Rm 9:33; 1Pe 2:6-8). Isso confere uma dimensão cristológica ao Salmo 28: a Rocha que ouve o clamor do salmista encontra sua expressão máxima em Jesus, a Pedra Angular.
O silêncio de Deus e o clamor de Cristo: O temor do silêncio divino expresso no versículo 1 atinge seu ápice na cruz, quando Jesus clama: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mt 27:46; Sl 22:1). Diferentemente de Davi, cujo silêncio foi temporário, Cristo experimentou o abandono total para que o crente jamais experimentasse o silêncio definitivo de Deus (Hb 13:5).
A retribuição segundo as obras: O princípio do versículo 4 é reafirmado no NT: "Cada um receberá segundo o bem ou o mal que tiver feito por meio do corpo" (2Co 5:10; cf. Rm 2:6; Ap 22:12). Contudo, a justiça retributiva é temperada pela misericórdia em Cristo.
O Pastor e as ovelhas: A súplica final — "apascenta o teu povo" — ecoa em João 10, onde Jesus se apresenta como o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas e as conduz para sempre. Keener (2013), em sua exegese canônica, demonstra como a trajetória do motivo pastoral nos Salmos encontra seu cumprimento na cristologia joanina.
O povo como herança: A designação de Israel como "herança" (נַחֲלָה, naḥălâ) de Deus (v. 9) é transferida para a Igreja no NT: "as riquezas da glória da sua herança nos santos" (Ef 1:18; cf. 1Pe 5:3). O que era étnico e territorial no AT torna-se espiritual e universal em Cristo.
A tradução a seguir é baseada no Texto Massorético (BHS), com consulta às versões antigas (LXX, Vulgata) e aos léxicos HALOT e BDB:
Sobrescrito: De Davi.
1 A ti, Yahweh, eu clamo;
Rocha minha, não te faças surdo para mim!
Para que não suceda que, emudecendo-te para mim,
eu me torne semelhante aos que descem à cova.
2 Ouve a voz das minhas súplicas,
quando clamo a ti por socorro,
quando levanto as minhas mãos
em direção ao teu santo santuário.
3 Não me arrastes com os ímpios,
e com os que praticam a iniquidade;
aqueles que falam de paz com o seu próximo,
mas no seu coração abrigam a maldade.
4 Dá-lhes conforme as suas obras,
e conforme a maldade dos seus feitos;
conforme a obra das suas mãos, dá-lhes;
faze recair sobre eles a sua própria retribuição.
5 Porque não atentam para os feitos de Yahweh,
nem para a obra das suas mãos;
Ele os derrubará e não os edificará.
6 Bendito seja Yahweh,
porque ouviu a voz das minhas súplicas!
7 Yahweh é a minha força e o meu escudo;
nele confiou o meu coração, e fui socorrido.
Por isso, meu coração exulta de alegria,
e com o meu cântico eu o louvarei.
8 Yahweh é a força deles,
e a fortaleza salvadora do seu ungido.
9 Salva o teu povo e abençoa a tua herança;
apascenta-os e conduze-os para sempre!
"Rocha minha" (צוּרִי, ṣûrî — v. 1): O termo ṣûr denota uma formação rochosa maciça, servindo como fortaleza natural. A tradução "Rocha" preserva a metáfora teológica. Craigie (2004, p. 236) nota que o epíteto é frequente nos salmos davídicos (Sl 18:2; 19:14; 27:5; 31:2; 62:2).
"Não te faças surdo" (אַל־תֶּחֱרַשׁ, ʾal-teḥĕraš — v. 1): O verbo חָרַשׁ (ḥāraš) possui duplo sentido: "ser surdo" e "ser mudo/emudecer". A LXX traduz como μὴ παρασιωπήσῃς ("não te cales"), enquanto a Vulgata traz ne sileas a me ("não te cales para mim"). A tradução adotada busca capturar a metáfora completa: Deus que não ouve e, portanto, não responde.
"Cova" (בוֹר, bôr — v. 1): Designa uma cisterna ou poço profundo e, metaforicamente, o Sheol, o reino dos mortos (cf. Sl 30:3; 88:4; Is 14:15). A imagem é de descida ao mundo inferior, o oposto da exaltação divina.
"Santo santuário" (דְּבִיר קָדְשֶׁךָ, dĕbîr qodšĕkā — v. 2): Dĕbîr é o termo técnico para o Santo dos Santos no Templo de Salomão (1Rs 6:5; 8:6). Contudo, em contexto davídico, pode referir-se ao santuário celestial ou ao local sagrado onde a arca repousava em Sião.
"Arrastes" (תִּמְשְׁכֵנִי, timšĕkēnî — v. 3): O verbo מָשַׁךְ (māšak) significa "puxar, arrastar". A imagem evoca uma rede que apanha indiscriminadamente justos e ímpios. Não se trata de um juízo individualizado, mas de uma calamidade coletiva.
"Retribuição" (גְּמוּל, gĕmûl — v. 4): Literalmente "recompensa" ou "paga". O termo pode ter conotação positiva ou negativa. Aqui é usado no sentido forense de punição merecida.
"Exulta" (וַיַּעֲלֹז, wayyaʿălōz — v. 7): Verbo raro que denota alegria intensa e visível, frequentemente associada a celebrações de vitória (cf. Sl 149:5).
Versículo
ARA (Almeida Revista e Atualizada)
NVI (Nova Versão Internacional)
ARC (Almeida Revista e Corrigida)
BHS (Hebraico)
v. 1
"A ti clamarei, Senhor, rocha minha; não fiques surdo para comigo..."
"A ti eu clamo, Senhor, minha Rocha; não fiques indiferente para comigo..."
"A ti clamarei, ó Senhor, Rocha minha; não emudeças para comigo..."
אֵלֶיךָ יְהוָה אֶקְרָא צוּרִי אַל־תֶּחֱרַשׁ מִמֶּנִּי
v. 2
"...quando levanto as mãos para o teu santuário"
"...quando levanto as mãos para o teu Lugar Santíssimo"
"...quando levantar as minhas mãos para o teu santo oráculo"
בְּנָשְׂאִי יָדַי אֶל־דְּבִיר קָדְשֶׁךָ
v. 4
"Dá-lhes segundo as suas obras..."
"Retribui-lhes conforme os seus atos..."
"Dá-lhes segundo as suas obras..."
תֶּן־לָהֶם כְּפָעֳלָם וּכְרֹעַ מַעַלְלֵיהֶם
v. 7
"...o meu coração confia nele, e fui socorrido"
"...nele o meu coração confia, e dele recebo ajuda"
"...nele confiou o meu coração, e fui socorrido"
בִּי בָּטַח לִבִּי וְנֶעֱזָרְתִּי
v. 8
"O Senhor é a força do seu povo..." (ARA)
"O Senhor é a força do seu povo..." (NVI)
"O Senhor é a força deles..." (ARC)
יְהוָה עֹז־לָמוֹ
v. 9
"Salva o teu povo e abençoa a tua herança"
"Salva o teu povo e abençoa a tua herança"
"Salva o teu povo e abençoa a tua herança"
הוֹשִׁיעָה אֶת־עַמֶּךָ וּבָרֵךְ אֶת־נַחֲלָתֶךָ
Há uma variação significativa no versículo 8: a ARA e a NVI traduzem "do seu povo", interpretando o sufixo hebraico לָמוֹ (lāmô) como referindo-se coletivamente a Israel. Já a ARC mantém "deles", mais fiel ao hebraico. O Texto Massorético registra עֹז־לָמוֹ ("força para eles"). A LXX traz κραταίωμα τοῦ λαοῦ αὐτοῦ ("fortaleza do seu povo"), interpretando o sufixo arcaico lāmô como referência coletiva. Craigie (2004, p. 238) prefere a leitura massorética "deles", argumentando que lāmô funciona como sufixo pronominal arcaico da 3ª pessoa masculina plural.
No versículo 9, todas as versões concordam substancialmente. O verbo רְעֵם (rĕʿēm) é traduzido como "apascenta-os" (ARA), "pastoreia-os" (NVI) ou "alimenta-os" (ARC — seguindo a KJV feed them). A metáfora pastoral é mais bem preservada em "apascenta".
O Salmo 28 apresenta uma estrutura bipartida com transição abrupta, característica de vários salmos de lamento:
Seção
Versículos
Conteúdo
Direção do Discurso
I. LAMENTO E SÚPLICA
vv. 1-5
Clamor angustiado, petições e imprecação
Fala dirigida a Deus (2ª pessoa)
II. AÇÃO DE GRAÇAS E INTERCESSÃO
vv. 6-9
Louvor, testemunho e oração pelo povo
Fala sobre Deus (3ª pessoa) e a Deus (2ª pessoa)
I. LAMENTO E SÚPLICA (vv. 1-5)
A. Invocação inicial e petição de audiência (vv. 1-2)
v. 1 — Clamor e temor do silêncio divino
v. 2 — Petição por atenção e descrição do gesto de súplica
B. Petição de separação dos ímpios (v. 3)
Súplica negativa: "não me arrastes"
Caracterização dos ímpios: dissimulados
C. Petição de juízo sobre os ímpios (vv. 4-5)
v. 4 — Retribuição conforme as obras (quádrupla imprecação)
v. 5 — Fundamentação: rejeitam as obras de Deus
II. AÇÃO DE GRAÇAS E INTERCESSÃO (vv. 6-9)
D. Irrupção do louvor (vv. 6-7)
v. 6 — Bendito seja Yahweh (motivo: oração ouvida)
v. 7 — Testemunho pessoal de confiança e livramento
E. Expansão comunitária (vv. 8-9)
v. 8 — Yahweh, força do povo e do ungido
v. 9 — Súplica final pelo povo de Deus
Barrick (2004) e outros estudiosos identificam um quiasmo parcial no salmo:
A — Clamor por livramento da cova (v. 1)
B — Mãos levantadas ao santuário (v. 2)
C — Separação dos ímpios (v. 3)
D — Juízo conforme as obras (vv. 4-5)
C' — Distinção do salmista salvo (vv. 6-7)
B' — Fortaleza do ungido (v. 8)
A' — Oração por exaltação perpétua do povo (v. 9)
O quiasmo revela que o centro teológico do salmo é o juízo divino fundamentado na justiça retributiva, que, por sua vez, distingue definitivamente o justo do ímpio.
┌─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ ESTRUTURA DO SALMO 28 │
├─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┤
│ │
│ ┌──────────────────────────────────────────────────────────────┐ │
│ │ I. LAMENTO E SÚPLICA (vv. 1-5) │ │
│ │ Discurso em 2ª pessoa → Deus │ │
│ ├──────────────────────────────────────────────────────────────┤ │
│ │ │ │
│ │ ┌─────────────────────┐ ┌───────────────────────┐ │ │
│ │ │ A. PETIÇÃO DE │ │ v. 1 — Clamor inicial │ │ │
│ │ │ AUDIÊNCIA │───▶│ "Rocha minha, não te │ │ │
│ │ │ (vv. 1-2) │ │ faças surdo!" │ │ │
│ │ └─────────────────────┘ │ Tensão: silêncio = │ │ │
│ │ │ morte │ │ │
│ │ ├───────────────────────┤ │ │
│ │ │ v. 2 — Gesto de │ │ │
│ │ │ súplica: mãos │ │ │
│ │ │ levantadas ao │ │ │
│ │ │ santuário │ │ │
│ │ └───────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ ┌─────────────────────┐ ┌───────────────────────┐ │ │
│ │ │ B. PETIÇÃO DE │ │ v. 3 — "Não me │ │ │
│ │ │ SEPARAÇÃO │───▶│ arrastes com os │ │ │
│ │ │ (v. 3) │ │ ímpios" │ │ │
│ │ └─────────────────────┘ │ Hipócritas: falam │ │ │
│ │ │ paz, tramam mal │ │ │
│ │ └───────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ ┌─────────────────────┐ ┌───────────────────────┐ │ │
│ │ │ C. PETIÇÃO DE │ │ v. 4 — Retribuição │ │ │
│ │ │ JUÍZO │───▶│ quádrupla conforme │ │ │
│ │ │ (vv. 4-5) │ │ obras │ │ │
│ │ └─────────────────────┘ ├───────────────────────┤ │ │
│ │ │ v. 5 — FUNDAMENTO: │ │ │
│ │ │ "Não atentam para os │ │ │
│ │ │ feitos do Senhor" │ │ │
│ │ │ → Deus os derrubará │ │ │
│ │ └───────────────────────┘ │ │
│ └──────────────────────────────────────────────────────────────┘ │
│ │
│ ═══════ TRANSIÇÃO ABRUPTA ═══════ │
│ (Provável resposta oracular) │
│ │
│ ┌──────────────────────────────────────────────────────────────┐ │
│ │ II. AÇÃO DE GRAÇAS E INTERCESSÃO (vv. 6-9) │ │
│ │ Discurso em 3ª pessoa → sobre Deus │ │
│ ├──────────────────────────────────────────────────────────────┤ │
│ │ │ │
│ │ ┌─────────────────────┐ ┌───────────────────────┐ │ │
│ │ │ D. LOUVOR PESSOAL │ │ v. 6 — "Bendito seja │ │ │
│ │ │ (vv. 6-7) │───▶│ Yahweh, porque ouviu!" │ │ │
│ │ └─────────────────────┘ │ Silêncio → Resposta │ │ │
│ │ ├───────────────────────┤ │ │
│ │ │ v. 7 — Testemunho: │ │ │
│ │ │ "Força + Escudo" │ │ │
│ │ │ Confiança → Socorro │ │ │
│ │ │ → Louvor com cântico │ │ │
│ │ └───────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ ┌─────────────────────┐ ┌───────────────────────┐ │ │
│ │ │ E. BÊNÇÃO │ │ v. 8 — Força do povo │ │ │
│ │ │ COMUNITÁRIA │───▶│ e do ungido │ │ │
│ │ │ (vv. 8-9) │ ├───────────────────────┤ │ │
│ │ └─────────────────────┘ │ v. 9 — Quatro │ │ │
│ │ │ imperativos finais: │ │ │
│ │ │ SALVA → ABENÇOA → │ │ │
│ │ │ APASCENTA → EXALTA │ │ │
│ │ └───────────────────────┘ │ │
│ └──────────────────────────────────────────────────────────────┘ │
│ │
│ ┌──────────────────────────────────────────────────────────────┐ │
│ │ MOVIMENTO TEOLÓGICO DO SALMO │ │
│ │ │ │
│ │ SILÊNCIO → SÚPLICA → JUÍZO → RESPOSTA → LOUVOR → BÊNÇÃO │ │
│ │ (temor) (fé) (justiça) (graça) (alegria) (comunhão)│ │
│ │ │ │
│ │ INDIVIDUAL ────────────────────────────────▶ COMUNITÁRIO │ │
│ │ (Eu / Mim) (Teu povo) │ │
│ └──────────────────────────────────────────────────────────────┘ │
└─────────────────────────────────────────────────────────────────────────┘
A análise da estrutura clausal do Salmo 28 revela a organização sintática do poema hebraico, distinguindo orações principais, subordinadas e os diferentes tipos de cláusulas que compõem cada versículo.
Vers.
Cláusulas (Hebraico)
Tipo de Cláusula
Função
1a
אֵלֶיךָ יְהוָה אֶקְרָא
Principal (Qal imperf.)
Invocação declarativa
1b
צוּרִי אַל־תֶּחֱרַשׁ מִמֶּנִּי
Principal (neg. jussiva)
Petição negativa
1c
פֶּן־תֶּחֱשֶׁה מִמֶּנִּי
Subordinada (final)
Finalidade negativa
1d
וְנִמְשַׁלְתִּי עִם־יוֹרְדֵי בוֹר
Subordinada (consecutiva)
Consequência temida
2a
שְׁמַע קוֹל תַּחֲנוּנַי
Principal (imperativo)
Petição positiva
2b
בְּשַׁוְּעִי אֵלֶיךָ
Subordinada (temporal)
Circunstância
2c
בְּנָשְׂאִי יָדַי אֶל־דְּבִיר קָדְשֶׁךָ
Subordinada (temporal)
Circunstância
3a
אַל־תִּמְשְׁכֵנִי עִם־רְשָׁעִים
Principal (neg. jussiva)
Petição negativa
3b
וְעִם־פֹּעֲלֵי אָוֶן
Coordenada (elíptica)
Complemento da anterior
3c
דֹּבְרֵי שָׁלוֹם עִם־רֵעֵיהֶם
Relativa (particípio)
Descrição dos ímpios
3d
וְרָעָה בִּלְבָבָם
Coordenada adversativa
Contraste: fala vs. coração
4a
תֶּן־לָהֶם כְּפָעֳלָם
Principal (imperativo)
Petição imprecatória
4b
וּכְרֹעַ מַעַלְלֵיהֶם
Coordenada (elíptica)
Complemento
4c
כְּמַעֲשֵׂה יְדֵיהֶם תֵּן לָהֶם
Principal (imperativo, paralelo)
Petição imprecatória (paralela)
4d
הָשֵׁב גְּמוּלָם לָהֶם
Principal (imperativo)
Petição imprecatória final
5a
כִּי לֹא יָבִינוּ אֶל־פְּעֻלּוֹת יְהוָה
Subordinada (causal)
Fundamento do juízo
5b
יֶהֶרְסֵם וְלֹא יִבְנֵם
Principal (profecia de juízo)
Declaração profética
6
בָּרוּךְ יְהוָה כִּי־שָׁמַע קוֹל תַּחֲנוּנָי
Principal + sub. causal
Doxologia com motivo
7a
יְהוָה עֻזִּי וּמָגִנִּי
Nominal (frase nominal)
Confissão de fé
7b
בּוֹ בָטַח לִבִּי
Principal (Qal perf.)
Testemunho retrospectivo
7c
וְנֶעֱזָרְתִּי
Coordenada (consecutiva)
Resultado da confiança
7d
וַיַּעֲלֹז לִבִּי
Principal (consecutiva)
Efeito: alegria
7e
וּמִשִּׁירִי אֲהוֹדֶנּוּ
Coordenada
Expressão da alegria
8a
יְהוָה עֹז לָמוֹ
Nominal
Confissão comunitária
8b
וּמָעוֹז יְשׁוּעוֹת מְשִׁיחוֹ הוּא
Nominal (com pron. enfático)
Identificação de Deus
9a
הוֹשִׁיעָה אֶת־עַמֶּךָ
Principal (imperativo)
Petição comunitária
9b
וּבָרֵךְ אֶת־נַחֲלָתֶךָ
Coordenada (imperativo)
Petição comunitária
9c
וּרְעֵם
Coordenada (imperativo)
Petição comunitária
9d
וְנַשְּׂאֵם עַד־הָעוֹלָם
Coordenada (imperativo)
Petição escatológica
Forma Verbal
Ocorrências
Localização
Função
Imperativo (2ª p. sing.)
9
vv. 2(1), 4(3), 9(4)
Petições diretas a Deus
Jussivo negativo
3
vv. 1, 3
Súplicas negativas
Imperfeito (declarativo)
2
v. 1
Ações presentes/futuras
Perfeito (narrativo/testemunhal)
3
vv. 6(1), 7(2)
Fatos consumados
Consecutivo (wayyiqtol)
2
v. 7
Progressão narrativa
Imperfeito profético
1
v. 5
Anúncio de juízo
Particípio (atributivo)
1
v. 3
Descrição dos ímpios
Observação fundamental: A concentração de nove imperativos voltados a Deus (vv. 2, 4, 9) demonstra a intensidade da súplica. Já a presença de perfeitos e consecutivos nos versículos 6-7 sinaliza a certeza da resposta — o salmista fala da intervenção divina como fato já realizado.
┌────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┐
│ ESTRUTURA CLAUSAL DO SALMO 28 │
├────────────────────────────────────────────────────────────────────────────┤
│ │
│ ┌──────────────────────────────────────────────────────────────────────┐ │
│ │ SEÇÃO I: LAMENTO (vv. 1-5) — Modo volitivo │ │
│ │ Predomínio de IMPERATIVOS e JUSSIVOS │ │
│ ├──────────────────────────────────────────────────────────────────────┤ │
│ │ │ │
│ │ v. 1 ┌─────────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ אֶקְרָא (imperf. declar.) "eu clamo" │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │
│ │ │ אַל־תֶּחֱרַשׁ (juss. neg.) "não te faças surdo!" ──────┐ │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │ │
│ │ │ פֶּן־תֶּחֱשֶׁה (sub. final) "para que, emudecendo-te" │ │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │ │
│ │ │ וְנִמְשַׁלְתִּי (sub. consec.) "eu me torne... cova" │ │ │ │
│ │ └─────────────────────────────────────────────────────────┘ │ │ │
│ │ │ │
│ │ v. 2 ┌─────────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ שְׁמַע (imperat.) "ouve!" │ │ │
│ │ │ ├── בְּשַׁוְּעִי (temp.) "quando clamo" │ │ │
│ │ │ └── בְּנָשְׂאִי יָדַי (temp.) "quando levanto" │ │ │
│ │ └─────────────────────────────────────────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ v. 3 ┌─────────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ אַל־תִּמְשְׁכֵנִי (juss. neg.) "não me arrastes!" │ │ │
│ │ │ ├── עִם־רְשָׁעִים "com os ímpios" │ │ │
│ │ │ ├── עִם־פֹּעֲלֵי אָוֶן "com os que praticam" │ │ │
│ │ │ └── דֹּבְרֵי שָׁלוֹם... וְרָעָה בִּלְבָבָם │ │ │
│ │ │ (participial + advers.) "falam paz / maldade" │ │ │
│ │ └─────────────────────────────────────────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ vv. 4-5 ┌──────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ תֶּן (imperat. ×2) "dá-lhes!" ─── Retribuição │ │ │
│ │ │ הָשֵׁב (imperat.) "faze recair!" │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │
│ │ │ כִּי לֹא יָבִינוּ (causal) "porque não atentam" │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │
│ │ │ יֶהֶרְסֵם וְלֹא יִבְנֵם (profético) "derrubará" │ │ │
│ │ └──────────────────────────────────────────────────────┘ │ │
│ └──────────────────────────────────────────────────────────────────────┘ │
│ │
│ ════════ TRANSIÇÃO ════════ │
│ (Mudança de volitivo → indicativo) │
│ │
│ ┌──────────────────────────────────────────────────────────────────────┐ │
│ │ SEÇÃO II: AÇÃO DE GRAÇAS (vv. 6-9) — Modo indicativo │ │
│ │ Predomínio de PERFEITOS e FRASES NOMINAIS │ │
│ ├──────────────────────────────────────────────────────────────────────┤ │
│ │ │ │
│ │ vv. 6-7 ┌──────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ בָּרוּךְ (part. pass.) "Bendito seja!" │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │
│ │ │ כִּי־שָׁמַע (perf. + causal) "porque ouviu" │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │
│ │ │ עֻזִּי וּמָגִנִּי (nominal) "força + escudo" │ │ │
│ │ │ ↓ │ │ │
│ │ │ בָטַח לִבִּי (perf.) "confiou" → וְנֶעֱזָרְתִּי │ │ │
│ │ │ ↓ (perf.) "socorrido"│ │ │
│ │ │ וַיַּעֲלֹז לִבִּי (consec.) "exulta" → אֲהוֹדֶנּוּ │ │ │
│ │ └──────────────────────────────────────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ v. 8 ┌─────────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ עֹז לָמוֹ (frase nominal) "força deles" │ │ │
│ │ │ מָעוֹז... הוּא (frase nominal + pronome enfático) │ │ │
│ │ │ "fortaleza do seu ungido é Ele" │ │ │
│ │ └─────────────────────────────────────────────────────────┘ │ │
│ │ │ │
│ │ v. 9 ┌─────────────────────────────────────────────────────────┐ │ │
│ │ │ הוֹשִׁיעָה (imperat.) "salva!" │ │ │
│ │ │ וּבָרֵךְ (imperat.) "abençoa!" │ │ │
│ │ │ וּרְעֵם (imperat.) "apascenta!" │ │ │
│ │ │ וְנַשְּׂאֵם עַד־הָעוֹלָם (imperat.) "exalta para sempre"│ │ │
│ │ └─────────────────────────────────────────────────────────┘ │ │
│ └──────────────────────────────────────────────────────────────────────┘ │
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│ ┌──────────────────────────────────────────────────────────────────────┐ │
│ │ DISTRIBUIÇÃO DOS MODOS VERBAIS │ │
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│ │ SEÇÃO I: ████████████ VOLITIVO (súplica / desejo) 71% │ │
│ │ SEÇÃO II: ██████████ INDICATIVO (fato / certeza) 83% │ │
│ │ │ │
│ │ TOTAL DE IMPERATIVOS: 9 │ JUSSIVOS NEGATIVOS: 3 │ │
│ │ TOTAL DE PERFEITOS: 5 │ FRASES NOMINAIS: 3 │ │
│ └──────────────────────────────────────────────────────────────────────┘ │
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A delimitação do Salmo 28 como perícope independente é justificada por múltiplos critérios convergentes:
O sobrescrito לְדָוִד (lĕdāwid) no início do texto (v. 1a) e a marca de parágrafo fechado (סתומה, sĕtûmâ) ao final do Salmo 28 no texto massorético (após o v. 9) demarcam claramente os limites da unidade. Além disso, o Salmo 29 inicia com novo sobrescrito מִזְמוֹר לְדָוִד (mizmôr lĕdāwid), confirmando a fronteira entre as duas composições.
O Salmo 28 possui um tema unificado: a transição do silêncio divino para a resposta e o louvor. Esse tema perpassa todos os versículos e atinge seu clímax nos versículos 6-7. Embora haja uma mudança brusca de tom entre os versículos 5 e 6, trata-se de uma unidade coesa, não de dois salmos fusionados. Como argumenta Prinsloo (1998), a "polaridade é a estratégia textual dominante", e a tensão entre lamentação e louvor é justamente o que confere unidade retórica à composição. Craigie e Tate (2004, p. 237) corroboram: "Não há necessidade de dividir o salmo em duas composições separadas, pois a mudança repentina de humor é uma característica bem documentada dos lamentos individuais".
A estrutura bipartida do salmo com transição abrupta é uma unidade deliberada, não acidental. A repetição do vocabulário nas duas metades comprova a coesão:
קוֹל תַּחֲנוּנַי ("voz das minhas súplicas") — v. 2 e v. 6
יָדַי/יְדֵיהֶם/יָדָיו ("mãos") — vv. 2, 4, 5
צוּרִי ("minha Rocha") / מָעוֹז ("fortaleza") — v. 1 e v. 8
שָׁמַע ("ouvir") — v. 2 e v. 6 (formando inclusio temático)
A posição do Salmo 28 entre os Salmos 27 e 29 no Livro I do Saltério não é arbitrária. Como demonstra Labuschagne (2010), "o Salmo 28 compartilha com o Salmo 27 vários traços de forma e conteúdo. Ambos têm estrutura bipartida; em ambos, a direção do discurso define a estrutura estrófica; ambos têm como ideia diretriz Deus como fortaleza e salvador". Contudo, cada salmo mantém sua integridade própria: o Salmo 27 termina com uma exortação à espera paciente; o Salmo 28 avança até a certeza da resposta e a intercessão comunitária.
O Salmo 28 constitui um espécime completo do gênero "lamento individual com transição para ação de graças". Todos os elementos constitutivos do gênero estão presentes (invocação, petição, descrição dos inimigos, imprecação, voto de louvor, certeza de resposta), e nenhum elemento essencial está ausente.
Portanto, o Salmo 28 é uma perícope integral, delimitada formalmente pelos sobrescritos e marcas massoréticas, unificada tematicamente pela progressão silêncio→súplica→resposta→louvor, coesa estruturalmente pelo vocabulário compartilhado entre suas duas metades, e coerente com seu gênero literário.
O sobrescrito לְדָוִד (lĕdāwid) aparece em 73 salmos do saltério. A preposição lĕ pode indicar autoria ("de Davi"), dedicatória ("para Davi") ou pertencimento à coleção davídica. A tradição judaica e cristã majoritariamente a interpreta como indicativo de autoria. Calvino (1557, p. 476) afirma: "O título mostra que Davi foi o autor deste salmo; e não há razão para duvidar disso, pois o conteúdo está em perfeita consonância com o que sabemos sobre suas experiências".
אֵלֶיךָ יְהוָה אֶקְרָא / צוּרִי אַל־תֶּחֱרַשׁ מִמֶּנִּי "A ti, Yahweh, eu clamo; / Rocha minha, não te faças surdo para mim!"
O versículo inicia com o pronome de segunda pessoa em posição enfática: אֵלֶיךָ ("a ti"). Como observa Kidner (1973, p. 121), "o salmista não inicia descrevendo seu sofrimento, mas invocando diretamente o Deus de quem espera socorro. Esta é a essência da oração bíblica: não uma reflexão sobre Deus, mas um encontro com Ele".
A justaposição entre o clamor confiante ("eu clamo") e a petição angustiada ("não te faças surdo") revela a tensão central do salmo: a fé que insiste em clamar mesmo quando Deus parece ausente. Craigie (2004, p. 237) comenta: "O perigo para o salmista não é primariamente a ameaça dos inimigos, mas a ameaça de que Deus permaneça em silêncio".
A metáfora צוּרִי (ṣûrî, "minha Rocha") é um epíteto frequente nos salmos davídicos (Sl 18:2; 19:14; 27:5; 31:3; 62:2, 6-7; 71:3; 144:1). Conforme Ellicott (1884), o termo ṣûr deriva de uma raiz que significa "atar juntamente", sugerindo solidez, coesão e inabalabilidade. David Dickson (1653, p. 178) comenta: "Ele chama Deus de sua Rocha, significando que depositava nele toda a sua confiança, como um homem que, estando em perigo, se refugia em uma rocha elevada, onde se sente seguro".
A cláusula final פֶּן־תֶּחֱשֶׁה מִמֶּנִּי ("para que não suceda que, emudecendo-te para mim") introduz a consequência temida: וְנִמְשַׁלְתִּי עִם־יוֹרְדֵי בוֹר ("eu me torne semelhante aos que descem à cova"). O verbo māšal no Nifal significa "ser comparado, ser semelhante". O bôr ("cova, cisterna") é metáfora do Sheol, o reino dos mortos. Matthew Henry (1710, p. 412) capta a essência: "Se Deus se cala, o homem piedoso se vê reduzido à mesma condição dos ímpios que perecem. O que distingue o justo do ímpio não é a ausência de sofrimento, mas a presença da voz de Deus em meio ao sofrimento". A teologia aqui é profunda: o que separa o crente do mundo não é a imunidade à morte, mas a relação viva com Deus. O silêncio de Deus é, portanto, uma ameaça existencial maior do que a própria morte física.
שְׁמַע קוֹל תַּחֲנוּנַי בְּשַׁוְּעִי אֵלֶיךָ / בְּנָשְׂאִי יָדַי אֶל־דְּבִיר קָדְשֶׁךָ "Ouve a voz das minhas súplicas, quando clamo a ti por socorro, / quando levanto as minhas mãos em direção ao teu santo santuário"
O imperativo שְׁמַע (šĕmaʿ, "ouve!") ecoa o Shemaʿ Yiśrāʾēl (Dt 6:4) — o verbo que define a resposta de Israel a Deus é agora usado para implorar que Deus atente para Israel. Há uma inversão retórica poderosa: "Ouve, ó Israel" torna-se "Ouve-me, ó Deus de Israel".
O termo תַּחֲנוּנַי (taḥănûnay, "minhas súplicas") deriva da raiz ḥānan ("ser gracioso") e carrega a conotação de "pedidos de graça, rogos por favor imerecido". Dickson (1653, p. 179) observa: "Ele não pleiteia méritos, mas suplica por misericórdia, reconhecendo que tudo o que espera de Deus é fruto da graça".
O gesto de levantar as mãos (בְּנָשְׂאִי יָדַי) era a postura padrão de oração no Antigo Israel (Êx 9:29; 1Rs 8:22, 54; Sl 63:4; Lm 3:41). O Pulpit Commentary (1884) explica: "Originalmente, a ideia era que as mãos deveriam estar prontas para receber as bênçãos que Deus concederia. Mais tarde, passou a simbolizar a elevação do coração a Deus".
O destino do gesto é דְּבִיר קָדְשֶׁךָ (dĕbîr qodšĕkā), "teu santo santuário". Dĕbîr é o termo técnico para o Santo dos Santos, a câmara mais interior do Templo (1Rs 6:5, 16-23; 8:6), onde residia a presença gloriosa de Deus (a Shekinah). Wilson (2002, p. 502) argumenta que Davi se refere "ao santuário celestial, o verdadeiro trono de Deus (cf. Sl 11:4), do qual o tabernáculo terreno é apenas uma representação". Isso é corroborado por Calvino (1557, p. 477): "Sob a figura do santuário terreno, Davi eleva sua mente à morada celestial de Deus. Ele sabia que o tabernáculo era apenas um símbolo, e que a verdadeira presença de Deus está no céu".
אַל־תִּמְשְׁכֵנִי עִם־רְשָׁעִים וְעִם־פֹּעֲלֵי אָוֶן / דֹּבְרֵי שָׁלוֹם עִם־רֵעֵיהֶם וְרָעָה בִּלְבָבָם "Não me arrastes com os ímpios, e com os que praticam a iniquidade; / aqueles que falam de paz com o seu próximo, mas no seu coração abrigam a maldade"
O verbo תִּמְשְׁכֵנִי (timšĕkēnî, "não me arrastes") evoca a imagem de uma rede de arrasto que recolhe tudo indiscriminadamente, ou de prisioneiros sendo puxados para a execução. Craigie (2004, p. 238) comenta: "O salmista não está pedindo para evitar todo sofrimento, mas para não ser envolvido no juízo divino que cairá sobre os ímpios. É uma petição por discriminação judicial".
A caracterização dos ímpios em duas linhas paralelas é notável:
Linha 1 (ação): "praticam a iniquidade" (פֹּעֲלֵי אָוֶן, pōʿălê ʾāwen)
Linha 2 (palavra e coração): "falam paz / mas no coração abrigam maldade"
A descrição dos ímpios como aqueles que falam paz (שָׁלוֹם, šālôm) mas abrigam maldade (רָעָה, rāʿâ) no coração revela a natureza da impiedade no Salmo 28: não se trata de violência ostensiva, mas de hipocrisia dissimulada. Kidner (1973, p. 122) observa: "O perigo desses homens não está no que fazem abertamente, mas na discrepância entre suas palavras e seus corações. Eles são mestres da duplicidade". Esta caracterização ecoa a descrição de Aitofel, o conselheiro de Davi que o traiu durante a rebelião de Absalão (2Sm 15:31; 16:23).
O contraste entre "paz" (שָׁלוֹם) nos lábios e "maldade" (רָעָה) no coração é um tema recorrente na literatura sapiencial e profética (Pv 26:24-26; Jr 9:8). Maré (2010) destaca que "a raiz do pecado, conforme o Salmo 28, não está primariamente nas ações externas, mas na corrupção do coração — um tema que ecoa a antropologia bíblica desde o Gênesis (Gn 6:5) até o ensino de Jesus (Mc 7:21-23)".
תֶּן־לָהֶם כְּפָעֳלָם וּכְרֹעַ מַעַלְלֵיהֶם / כְּמַעֲשֵׂה יְדֵיהֶם תֵּן לָהֶם / הָשֵׁב גְּמוּלָם לָהֶם "Dá-lhes conforme as suas obras, e conforme a maldade dos seus feitos; / conforme a obra das suas mãos, dá-lhes; / faze recair sobre eles a sua própria retribuição"
Este versículo contém uma das mais intensas imprecações do Livro I dos Salmos. Quatro cláusulas paralelas, cada uma demandando retribuição:
Cláusula
Hebraico
Tradução
1
תֶּן־לָהֶם כְּפָעֳלָם
Dá-lhes conforme suas obras
2
וּכְרֹעַ מַעַלְלֵיהֶם
e conforme a maldade dos seus feitos
3
כְּמַעֲשֵׂה יְדֵיהֶם תֵּן לָהֶם
conforme a obra das suas mãos, dá-lhes
4
הָשֵׁב גְּמוּלָם לָהֶם
faze recair sobre eles a sua retribuição
O termo גְּמוּל (gĕmûl, "retribuição, recompensa") é crucial. Pode denotar tanto recompensa positiva (Sl 103:2) quanto negativa (Sl 137:8). Aqui, o contexto imprecatório determina o sentido negativo. A tradução "faze recair sobre eles" busca captar a força do imperativo hāšēḇ, literalmente "faze retornar".
Calvino (1557, p. 479), ao comentar este versículo, faz uma importante distinção: "Visto que Davi havia se submetido a Deus, ele não pronuncia uma maldição com espírito vingativo, mas, como profeta, declara o que Deus fará aos ímpios. Ele não deseja o mal deles por ódio pessoal, mas porque sabe que a justiça de Deus o exige". Matthew Henry (1710, p. 413) complementa: "Os pecadores serão julgados não apenas pelo mal que fizeram, mas também pelo mal que desejaram fazer e pelo que tentaram efetuar".
A justiça poética é evidente: os ímpios são julgados "conforme a obra das suas mãos" — as mesmas mãos que Davi levanta em súplica (v. 2) contrastam com as mãos que praticam a iniquidade (v. 4). A imprecação não é vingança pessoal, mas apelo à justiça divina.
כִּי לֹא יָבִינוּ אֶל־פְּעֻלּוֹת יְהוָה וְאֶל־מַעֲשֵׂה יָדָיו / יֶהֶרְסֵם וְלֹא יִבְנֵם "Porque não atentam para os feitos de Yahweh, nem para a obra das suas mãos; / Ele os derrubará e não os edificará"
A conjunção כִּי (kî, "porque") introduz a razão teológica do juízo: não é meramente o que fazem, mas a cegueira espiritual que os impede de reconhecer as obras de Deus. Kidner (1973, p. 122) observa perspicazmente: "A falha fundamental dos ímpios não é ética, mas teológica: eles não discernem (yābînû) o significado dos atos divinos na história e na criação. Sua maldade prática é sintoma de uma cegueira espiritual mais profunda".
O verbo יָבִינוּ (yābînû, "atentam, discernem") é da raiz bîn, que denota percepção inteligente, compreensão que leva à ação adequada. A falha não é de informação, mas de discernimento. Como afirma Prinsloo (1998), "a polaridade central do salmo não é entre bons e maus, mas entre os que discernem as obras de Yahweh e os que permanecem cegos a elas".
A segunda metade do versículo é uma declaração profética de juízo no imperfeito hebraico: יֶהֶרְסֵם וְלֹא יִבְנֵם (yehersēm wĕlōʾ yiḇnēm, "Ele os derrubará e não os edificará"). A imagem é de demolição total e permanente — o oposto da restauração prometida aos justos (cf. Sl 51:18; Jr 24:6; 31:4). A construção "derrubar e não edificar" forma um merismo que denota juízo completo e irreversível. Dickson (1653, p. 180) comenta: "Quando Deus destrói, ninguém pode reconstruir; e quando Ele decide não edificar, a ruína é perpétua".
בָּרוּךְ יְהוָה כִּי־שָׁמַע קוֹל תַּחֲנוּנָי "Bendito seja Yahweh, porque ouviu a voz das minhas súplicas!"
Este versículo marca a transição mais dramática do salmo. Sem qualquer explicação sobre como ou quando a resposta ocorreu, o salmista irrompe em bênção. A fórmula בָּרוּךְ יְהוָה (bārûḵ YHWH, "Bendito seja Yahweh") é uma doxologia clássica do saltério (cf. Sl 18:46; 31:21; 41:13; 66:20; 68:19).
O que provocou essa virada? Craigie (2004, p. 238) propõe a teoria da resposta oracular: "A transição abrupta do lamento para o louvor sugere que, durante a liturgia, o salmista recebeu um oráculo de salvação proferido por um sacerdote ou profeta cultual. Embora o oráculo não esteja registrado, ele está implícito na mudança de tom". Esta interpretação encontra suporte em outros salmos onde o oráculo é explicitamente registrado (Sl 12:5; 60:6-8; 91:14-16).
Wilson (2002, p. 504), contudo, oferece uma leitura alternativa: "A mudança pode refletir simplesmente a certeza interior da fé. O salmista, tendo derramado sua alma em oração, recebe a convicção de que foi ouvido — não por uma palavra audível, mas pela paz que excede o entendimento".
O verbo שָׁמַע (šāmāʿ, "ouviu") no perfeito hebraico expressa ação concluída: a resposta já é um fato consumado na percepção do salmista. A mesma "voz das súplicas" (קוֹל תַּחֲנוּנַי) do versículo 2 foi ouvida. O Deus que parecia surdo (v. 1) agora escutou.
יְהוָה עֻזִּי וּמָגִנִּי בּוֹ בָטַח לִבִּי וְנֶעֱזָרְתִּי / וַיַּעֲלֹז לִבִּי וּמִשִּׁירִי אֲהוֹדֶנּוּ "Yahweh é a minha força e o meu escudo; nele confiou o meu coração, e fui socorrido. / Por isso, meu coração exulta de alegria, e com o meu cântico eu o louvarei"
Este versículo é o coração teológico do salmo e um dos testemunhos mais densos de fé no saltério. Sua estrutura é notável:
Parte A — Confissão e Testemunho (7a-c):
עֻזִּי (ʿuzzî, "minha força"): Deus como fonte de vigor e capacidade
מָגִנִּי (māginnî, "meu escudo"): Deus como protetor que se interpõe entre o crente e o perigo (cf. Gn 15:1)
בּוֹ בָטַח לִבִּי (bô ḇāṭaḥ libbî, "nele confiou o meu coração"): A confiança é apresentada como ato consumado
וְנֶעֱזָרְתִּי (wĕneʿĕzārtî, "e fui socorrido"): O resultado certo da confiança
Parte B — Louvor e Celebração (7d-e):
וַיַּעֲלֹז לִבִּי (wayyaʿălōz libbî, "meu coração exulta"): O verbo ʿālaṣ denota alegria intensa e visível
אֲהוֹדֶנּוּ (ʾăhôdennû, "eu o louvarei"): O louvor expresso em cântico
A relação entre confiança e socorro é crucial. Calvino (1557, p. 481) comenta: "Davi não diz que foi socorrido porque orou muito ou porque era digno, mas porque confiou. A fé é o vaso vazio que recebe a plenitude da graça divina".
O termo וְנֶעֱזָרְתִּי (wĕneʿĕzārtî, "e fui socorrido") é derivado da raiz ʿāzar ("ajudar, socorrer"), da qual provém o nome "Ebenezer" (ʾeḇen hāʿēzer, "pedra de ajuda", 1Sm 7:12). Labuschagne (2010) destaca que o valor numérico das letras desta palavra (95) corresponde ao número total de palavras do salmo, sugerindo que "fui socorrido" é a palavra-chave teológica da composição.
O movimento do coração (lēḇ) é notável: confiou → exulta → louva. A progressão é do interior para o exterior, da fé silenciosa para o cântico público. Como afirma Dickson (1653, p. 181): "A fé no coração precede o louvor nos lábios; a confiança secreta produz a celebração manifesta".
יְהוָה עֹז לָמוֹ וּמָעוֹז יְשׁוּעוֹת מְשִׁיחוֹ הוּא "Yahweh é a força deles, e a fortaleza salvadora do seu ungido é Ele"
O versículo 8 realiza a transição do individual para o comunitário. O que era verdade para Davi ("minha força", v. 7a) agora é estendido a todo o povo ("força deles", עֹז לָמוֹ).
O sufixo arcaico לָמוֹ (lāmô) é ambíguo e tem gerado debate: pode referir-se ao povo (3ª pessoa plural) ou funcionar como singular enfático. A LXX interpreta como τοῦ λαοῦ αὐτοῦ ("do seu povo"). Craigie (2004, p. 238) defende a leitura plural: "O contexto pede uma referência ao povo de Deus, preparando o caminho para a oração do versículo 9".
O termo מְשִׁיחוֹ (mĕšîḥô, "seu ungido") é teologicamente carregado. Refere-se primariamente ao rei davídico, ungido como representante de Yahweh (1Sm 16:13; Sl 2:2; 18:50; 20:6). Contudo, carrega também conotações messiânicas que se cumprem em Cristo — o Ungido por excelência (Lc 4:18; At 4:26-27).
A expressão מָעוֹז יְשׁוּעוֹת (māʿôz yĕšûʿôt, "fortaleza de salvações" ou "fortaleza salvadora") combina dois conceitos: māʿôz ("lugar fortificado, refúgio seguro") e yĕšûʿâ ("salvação, livramento"). Maré (2010) observa que "a imagem é de uma cidadela inexpugnável que garante salvação completa e definitiva".
הוֹשִׁיעָה אֶת־עַמֶּךָ וּבָרֵךְ אֶת־נַחֲלָתֶךָ / וּרְעֵם וְנַשְּׂאֵם עַד־הָעוֹלָם "Salva o teu povo e abençoa a tua herança; / apascenta-os e conduze-os para sempre!"
O salmo conclui com quatro imperativos que condensam toda a teologia do cuidado divino:
Imperativo
Hebraico
Significado
Dimensão Teológica
1. הוֹשִׁיעָה
hôšîʿâ
Salva!
Libertação do perigo
2. וּבָרֵךְ
ûḇārēḵ
Abençoa!
Provisão das necessidades
3. וּרְעֵם
ûrĕʿēm
Apascenta!
Cuidado pastoral contínuo
4. וְנַשְּׂאֵם
wĕnaśśĕʾēm
Conduze/exalta!
Direção e glorificação
Os quatro imperativos formam um quiasmo temático:
Salva (livramento do mal)
Abençoa (provisão do bem)
Apascenta (cuidado no caminho)
Exalta (destino glorioso final)
A designação do povo como נַחֲלָה (naḥălâ, "herança, possessão") ecoa Deuteronômio 4:20 e 9:29. Deus não é apenas criador de Israel, mas seu proprietário pactual. Kidner (1973, p. 124) comenta: "A palavra 'herança' relembra que Israel pertence a Deus não por mérito, mas por escolha soberana e amor eletivo".
O verbo רְעֵם (rĕʿēm, "apascenta-os") conecta o final do salmo com o Salmo 23, formando uma inclusio canônica dentro do Livro I. Barrick (2004) observa: "Os Salmos 23–28 são delimitados pela figura do Pastor: 'O Senhor é o meu pastor' (23:1) e 'apascenta-os' (28:9). O pastorado divino, que começa com a experiência pessoal de Davi, expande-se para abranger todo o Israel".
O advérbio עַד־הָעוֹלָם (ʿad-hāʿôlām, "para sempre") confere uma dimensão escatológica à súplica. Não se trata apenas de livramento temporal, mas de salvação eterna. Matthew Henry (1710, p. 415) encerra seu comentário com estas palavras: "Somente aqueles a quem Deus apascenta e governa serão salvos, abençoados e exaltados para sempre. Aquele que é o Bom Pastor conduzirá suas ovelhas à bem-aventurança eterna".
Para os contemporâneos de Davi — a corte real, os soldados, os sacerdotes, o povo de Israel que frequentava o santuário — o Salmo 28 comunicava várias verdades fundamentais:
Em uma cultura religiosa que frequentemente associava sofrimento a pecado, o Salmo 28 validava a experiência do justo que sofre sem causa aparente. Davi, o rei ungido, modelo de piedade, também experimentou o silêncio de Deus. Isso ensinava ao israelita comum que a angústia diante do aparente silêncio divino não é sinal de incredulidade, mas pode coexistir com fé genuína. Como afirma Craigie (2004, p. 240), "o salmo fornecia um modelo de como trazer a Deus as emoções mais dolorosas sem sacrificar a reverência ou a confiança".
O gesto de levantar as mãos "em direção ao teu santo santuário" (v. 2) ensinava que o santuário era o lugar designado por Deus para o encontro e a resposta. Seja no tabernáculo em Sião ou no Templo posterior, era ali que o israelita deveria dirigir seu clamor. Isso reforçava a centralidade do culto e da liturgia na vida do povo da aliança.
Para um povo cercado por nações poderosas e frequentemente oprimido, a doutrina da retribuição divina era fonte de consolo, não de constrangimento. A certeza de que Deus "dá a cada um segundo as suas obras" (v. 4) significava que a injustiça não teria a última palavra. Os ímpios dissimulados — como os conselheiros traiçoeiros, os aliados falsos, os inimigos que falavam paz enquanto tramavam o mal — não escapariam do juízo divino.
Os versículos 8-9 ensinavam que o rei não era apenas governante político, mas intercessor espiritual. Davi, o ungido (v. 8), orava pelo povo (v. 9). Essa função sacerdotal-real apontava para o ofício mediador do rei davídico e preparava o caminho para a compreensão messiânica do reinado.
A transição abrupta do lamento para o louvor (vv. 5-6) ensinava que Deus responde à oração. O israelita que ouvisse este salmo no culto aprendia que o silêncio de Deus não é permanente e que a fé pode antecipar o louvor antes mesmo de ver o livramento.
O Salmo 28 transcende seu contexto original e fala poderosamente aos crentes de todas as épocas, incluindo a nossa.
A experiência do silêncio de Deus não é estranha ao crente contemporâneo. Momentos de depressão, doença, perda, traição ou crise espiritual frequentemente são acompanhados pela sensação de que Deus se tornou surdo. O Salmo 28 ensina que não há pecado em clamar, em insistir, em suplicar com veemência. A fé bíblica não é estoica; ela dá voz à angústia e a transforma em oração. Como escreve Wilson (2002, p. 507): "O lamento bíblico não é o oposto da fé, mas uma de suas expressões mais autênticas. É a fé que se recusa a deixar Deus em paz até que Ele responda".
Para o cristão, a metáfora da Rocha (v. 1) encontra seu cumprimento em Cristo (1Co 10:4). O temor do salmista — que Deus permaneça em silêncio e o equipare aos que descem à cova — foi experimentado por Jesus na cruz: "Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?" (Mt 27:46). Contudo, a diferença é crucial: Cristo suportou o silêncio definitivo de Deus para que o crente jamais o experimentasse. Sua ressurreição é a resposta final do Pai ao clamor do Filho, e nela todos os crentes têm a garantia de que seu clamor também será ouvido.
A descrição dos ímpios como aqueles "que falam de paz com o seu próximo, mas no coração abrigam a maldade" (v. 3) é atemporal. John Owen (1656), em sua obra Of the Mortification of Sin in Believers (Sobre a Mortificação do Pecado nos Crentes), adverte que o pecado da hipocrisia — a discrepância entre palavras e coração — é uma ameaça constante até mesmo para os crentes. Owen (1656, p. 45) escreve: "Esteja sempre matando o pecado, ou ele estará matando você. A duplicidade do coração é a raiz da qual brotam todos os outros pecados". O Salmo 28 nos conclama ao autoexame: nossas palavras de paz são acompanhadas de genuíno amor no coração?
Thomas Watson (1692), em seu Body of Divinity (Corpo de Divindade), articula a doutrina da providência como "o olho que tudo vê e a mão que move todas as rodas do universo". O Salmo 28 é uma aplicação prática dessa doutrina: Deus não apenas governa o cosmos, mas atenta ao clamor individual de cada crente. Como Watson (1692, p. 187) afirma: "A providência de Deus não é uma doutrina abstrata, mas o fundamento da oração. Orar é reconhecer que Deus ordena todas as coisas segundo o conselho da sua vontade, e que Ele se agrada em responder às petições dos seus filhos".
Jonathan Edwards (1765), em sua obra The End for Which God Created the World (O Fim para o Qual Deus Criou o Mundo), argumenta que o propósito supremo de Deus em todas as suas obras é a manifestação da sua própria glória. O Salmo 28 ilustra essa verdade: tanto o juízo sobre os ímpios (v. 5) quanto a salvação do justo (v. 7) convergem para o louvor da glória divina. O versículo 7 declara: "com o meu cântico eu o louvarei". O fim da oração respondida não é meramente o alívio humano, mas a exaltação do nome de Deus.
O movimento do salmo — do "eu" para o "teu povo" — ensina que a experiência pessoal da graça deve desaguar em intercessão pela comunidade. Quem foi consolado por Deus torna-se intercessor pelos outros (2Co 1:3-4). O crente contemporâneo é chamado a não se fechar em seu devocionalismo privado, mas a expandir seu coração em oração pela Igreja, o povo da nova aliança.
O silêncio de Deus é um tema que percorre toda a narrativa bíblica. Dos 400 anos de silêncio no Egito (Êx 2:23-25) ao período intertestamentário, passando pelos exílios de Israel e Judá, o aparente silêncio divino é frequentemente o prelúdio de uma intervenção redentora. O Salmo 28 insere-se nessa trajetória, antecipando o clamor de Jesus na cruz (Sl 22:1; Mt 27:46) e o silêncio do sábado santo. A teologia bíblica ensina que o silêncio de Deus não é ausência, mas preparação; não é abandono, mas gestação de um novo ato redentor.
O princípio retributivo do Salmo 28:4 ("dá-lhes conforme as suas obras") percorre um desenvolvimento no cânon. No AT, é afirmado com vigor (Dt 7:10; Sl 62:12; Pv 24:12; Jó 34:11). No entanto, livros como Jó e Eclesiastes problematizam a retribuição mecânica e imediata. No NT, a retribuição é reafirmada (Rm 2:6; 2Co 5:10; Ap 22:12), mas subordinada à doutrina da graça e situada no horizonte escatológico do juízo final. O Salmo 28 representa um estágio inicial dessa trajetória, em que a retribuição é afirmada com confiança, mas ainda no contexto da aliança e da misericórdia divina (cf. v. 9).
O "ungido" (מָשִׁיחַ, māšîaḥ) do versículo 8 insere-se na teologia messiânica do AT. Originalmente referindo-se ao rei davídico, o título adquire progressivamente conotações escatológicas (Sl 2:2; 18:50; 20:6; 84:9; 132:10, 17) até alcançar seu pleno significado em Jesus, o Cristo (Χριστός, Christos = Ungido). Keener (2013) demonstra como a exegese canônica revela que "o Salmo 8 e o Salmo 28 convergem na figura do Ungido: aquele que, sendo humano, recebe glória e honra (Sl 8) e aquele que, sendo rei, torna-se fortaleza para o povo (Sl 28). Em Cristo, ambas as trajetórias se encontram".
A imagem de Deus como Pastor percorre as Escrituras de ponta a ponta: de Jacó (Gn 48:15) a Davi (Sl 23), dos profetas (Is 40:11; Ez 34) a Jesus (Jo 10; Hb 13:20; 1Pe 5:4; Ap 7:17). O Salmo 28:9 contribui para essa teologia ao unir pastoreio e exaltação eterna: o Pastor não apenas guia, mas conduz a um destino glorioso e permanente.
O Salmo 28 afirma múltiplos atributos divinos:
Onipotência: Deus como Rocha, Força, Escudo e Fortaleza (vv. 1, 7, 8)
Onisciência: Deus que ouve as súplicas e conhece os corações (vv. 2, 6)
Justiça: Deus que retribui conforme as obras (vv. 4-5)
Misericórdia: Deus que atende ao clamor e abençoa (vv. 6, 9)
Imutabilidade: A Rocha que permanece fiel através das gerações (v. 1)
Transcendência e Imanência: Deus entronizado no santuário (v. 2), mas atento ao clamor individual (v. 6)
O Salmo 28 é um tratado prático sobre a providência divina. Como observa Thomas Watson (1692, p. 191), "a providência é a rainha e governanta do mundo; é o olho que vê e a mão que move todas as engrenagens do universo". O salmo demonstra três aspectos da providência:
Providência sustentadora: Deus como Rocha que mantém o crente firme (v. 1)
Providência diretiva: Deus que ouve e responde à oração (vv. 6-7)
Providência judicial: Deus que julga os ímpios conforme suas obras (vv. 4-5)
O pecado é caracterizado no salmo de três maneiras:
Como ação: "praticam a iniquidade" (v. 3)
Como palavra: "falam de paz... mas no coração abrigam a maldade" (v. 3)
Como cegueira espiritual: "não atentam para os feitos de Yahweh" (v. 5)
Esta tríplice caracterização revela que o pecado envolve a totalidade da pessoa: ações, palavras, pensamentos e percepção espiritual. A raiz última do pecado, segundo o salmo, é teológica: a recusa em reconhecer Deus e suas obras. Como afirma Maré (2010), "a falha fundamental dos ímpios não é primariamente ética, mas noética — uma cegueira que afeta sua capacidade de discernir a realidade divina".
O salmo apresenta a salvação como:
Iniciativa divina: É Deus quem ouve, socorre, salva e abençoa
Resposta à fé: "nele confiou o meu coração, e fui socorrido" (v. 7)
Livramento da morte: "não me arrastes... aos que descem à cova" (vv. 1, 3)
Bênção comunitária: A salvação do indivíduo estende-se ao povo (vv. 8-9)
Dimensão escatológica: "conduze-os para sempre!" (v. 9)
O Salmo 28 é rico em ensinamentos sobre a oração:
A oração como clamor: não mera recitação, mas brado intenso da alma (vv. 1-2)
A oração como petição imprecatória: entrega dos inimigos ao juízo divino (v. 4)
A oração como gesto corporal: mãos levantadas, corpo envolvido (v. 2)
A oração respondida como base do louvor: "Bendito seja Yahweh, porque ouviu" (v. 6)
O Salmo 28 ensina que a vida devocional autêntica inclui espaço para o lamento e a angústia. O crente não precisa apresentar-se diante de Deus com uma fé inabalável e emoções sempre positivas. Pode clamar, insistir, suplicar. A oração não é um exercício de negação da realidade, mas de entrega dela a Deus.
John Owen (1656, p. 62) oferece uma aplicação prática importante: "Assim como o salmista clamou a Deus para não ser arrastado com os ímpios (v. 3), o crente deve orar diariamente para que Deus o preserve de ser levado pela correnteza do pecado que opera no mundo. A mortificação do pecado começa com a oração que reconhece o perigo da contaminação".
O salmo provavelmente era usado na liturgia do templo. Isso ensina que o culto público deve incluir lamento e intercessão, não apenas louvor e ação de graças. Uma igreja que só canta vitórias exclui os que estão sofrendo. O Salmo 28 dá voz aos quebrantados na assembleia.
Para o pastor ou conselheiro, o Salmo 28 oferece um modelo de como ajudar pessoas em crise:
Validar a dor: "Deus parece surdo? Você teme ser equiparado aos mortos? Davi também sentiu isso"
Redirecionar o clamor: "Levante suas mãos para o santuário — há um lugar onde Deus prometeu ouvir"
Ensinar a esperar com expectativa: "A transição do versículo 5 para o 6 pode ser abrupta, mas Deus responde no tempo certo"
Expandir o foco: "Sua experiência de livramento pode se tornar intercessão por outros (vv. 8-9)"
O movimento do individual para o comunitário (vv. 7-9) ensina que a experiência pessoal da graça deve transbordar em bênção para a comunidade. A igreja que experimenta o socorro de Deus é chamada a interceder pela salvação, bênção, pastoreio e exaltação do povo de Deus em todo o mundo.
A petição "não me arrastes com os ímpios" (v. 3) ecoa a necessidade de separação ética sem isolamento físico. O crente vive no mundo, cercado por pessoas que "falam paz mas abrigam maldade". O desafio do discipulado é manter-se íntegro sem se contaminar com a hipocrisia ambiente. David Dickson (1653, p. 179) aplica: "O crente deve orar não apenas para ser livrado do castigo dos ímpios, mas também para ser preservado de sua contaminação moral. A maior desgraça não é sofrer com eles, mas tornar-se como eles".
Texto Base: Salmo 28:1-9
"Há momentos na vida em que oramos e o céu parece de bronze. O silêncio de Deus é uma das experiências mais angustiantes que um crente pode enfrentar. O que fazer quando Deus parece surdo? O Salmo 28 é a resposta de Davi a essa pergunta — uma jornada que vai do desespero à certeza, da súplica ao louvor, do temor individual à bênção comunitária."
A. Um clamor fundamentado na identidade de Deus (v. 1a)
"A ti, Yahweh, eu clamo" — O clamor não é ao vazio, mas ao Deus da aliança
Ele é "Rocha minha" — o fundamento que permanece mesmo quando os sentimentos vacilam
B. O temor do silêncio divino (v. 1b)
"Não te faças surdo para mim" — O pior sofrimento não é a presença do inimigo, mas a ausência da voz de Deus
Silêncio = morte: "tornar-me-ei semelhante aos que descem à cova"
Aplicação: O que distingue o crente do ímpio não é a ausência de sofrimento, mas a presença da voz de Deus
C. A súplica que não desiste (v. 2)
"Ouve a voz das minhas súplicas" — Oração insistente, perseverante
Mãos levantadas ao santuário — O gesto da fé que se dirige ao lugar da presença divina
Aplicação: Em Cristo, temos acesso ao verdadeiro Santuário (Hb 10:19-22)
A. A súplica por discriminação judicial
"Não me arrastes com os ímpios" — Não é pedido para evitar sofrimento, mas para não sofrer o juízo destinado aos ímpios
B. O retrato do ímpio: a hipocrisia do coração
Palavras de paz (shalom), coração de maldade (ra‘ah)
Aplicação: A santidade não está apenas nas ações, mas na congruência entre lábios e coração
Ilustração: John Owen — "Esteja matando o pecado, ou ele estará matando você"
A. A lei da retribuição (v. 4)
"Dá-lhes conforme as suas obras" (4x reiterado)
Não é vingança pessoal, mas confiança na justiça divina
Aplicação: Podemos entregar a justiça a Deus porque Ele é o Justo Juiz (Rm 12:19)
B. A raiz do pecado: cegueira teológica (v. 5a)
"Porque não atentam para os feitos de Yahweh"
O problema não é apenas o que fazem, mas o que não veem
Aplicação: O discernimento espiritual é antídoto contra a impiedade
C. A sentença: demolição irreversível (v. 5b)
"Derrubará e não edificará" — Juízo completo e definitivo
Contraste: Para os justos, Deus edifica e restaura (Jr 24:6)
A. A irrupção da certeza (v. 6)
"Bendito seja Yahweh, porque ouviu!"
A transição mais dramática do saltério: do desespero ao louvor sem explicação intermediária
Aplicação: Há momentos em que a fé antecipa o louvor antes de ver o livramento
B. O testemunho da fé comprovada (v. 7)
Yahweh é: Força (recursos) + Escudo (proteção)
A sequência da fé: Confiou → Foi socorrido → Exulta → Louva
Aplicação: O coração que confia é o vaso vazio que recebe a plenitude da graça
A. O Deus do rei é o Deus do povo (v. 8)
"Yahweh é a força deles" — O que Davi experimentou, o povo também experimenta
"Fortaleza do seu Ungido" — Aponta para Cristo, nosso Rei e Mediador
B. Quatro petições para o povo de Deus (v. 9)
Salva — Libertação do mal
Abençoa — Provisão do bem
Apascenta — Cuidado pastoral contínuo (do Salmo 23 ao Salmo 28)
Exalta para sempre — Destino glorioso e eterno
Aplicação: A experiência pessoal da graça deve transbordar em intercessão pela Igreja
"O Salmo 28 nos ensina que o silêncio de Deus não é o fim da história. Entre o clamor do versículo 1 e o louvor do versículo 6, há um Deus que ouve, responde e transforma o lamento em cântico. Em Cristo, a Rocha Eterna, temos a certeza de que nenhum clamor sincero fica sem resposta. Ele experimentou o silêncio na cruz para que jamais experimentássemos o silêncio eterno. Portanto, clame. Confie. Espere. E quando a resposta vier — ou mesmo antes — louve. Pois bendito seja o Senhor, que ouviu a voz das nossas súplicas!"
O Salmo 28 é uma obra-prima de teologia experiencial. Nele, Davi não especula sobre Deus, mas encontra-se com Ele no meio da angústia. O salmo percorre um arco que vai da beira do desespero — onde o silêncio divino ameaça equiparar o crente aos mortos — até a explosão de louvor que transborda em bênção para todo o povo de Deus.
A análise realizada nesta exegese revelou a coesão literária e a profundidade teológica desta composição. Estruturalmente, o salmo é uma unidade bipartida coesa, cuja transição abrupta (v. 6) não indica fusão artificial de dois poemas, mas a experiência real da fé que, na oração, passa da angústia à certeza. A polaridade entre silêncio e resposta, juízo e salvação, indivíduo e comunidade constitui a estratégia textual dominante identificada por Prinsloo (1998).
Teologicamente, o Salmo 28 articula doutrinas centrais da fé bíblica: a soberania de Deus (Rocha, Força, Escudo, Fortaleza), sua justiça retributiva (que distingue justos e ímpios), sua misericórdia responsiva (que ouve e atende ao clamor) e seu cuidado pastoral (que se estende do indivíduo à comunidade e alcança a eternidade). Como demonstrou Maré (2010), mesmo sem ser explicitamente criacional, o salmo fundamenta a ética e a esperança humanas na realidade da soberania divina sobre a história.
Para a teologia prática, o salmo oferece um modelo de oração autêntica que inclui lamento, imprecação, confiança e louvor. Ensina que o crente pode — e deve — clamar quando Deus parece surdo; que a justiça pode ser entregue a Deus sem espírito de vingança pessoal; e que a experiência do socorro divino deve transbordar em intercessão pela comunidade.
Canonicamente, o Salmo 28 insere-se na grande narrativa da redenção. Sua imagem de Deus como Rocha que ouve encontra cumprimento em Cristo (1Co 10:4). Seu temor do silêncio divino ecoa no clamor da cruz (Mt 27:46) e é definitivamente respondido na ressurreição. Seu "ungido" (v. 8) aponta para Jesus, o Messias. Seu pastor que "conduz para sempre" (v. 9) é o Bom Pastor que dá a vida pelas ovelhas e as guarda eternamente (Jo 10:27-29).
Como sintetiza Jonathan Edwards (1765), o fim último de Deus em todas as suas obras é a manifestação da sua glória. O Salmo 28 cumpre esse propósito ao nos conduzir do silêncio temido ao louvor rendido — para que "com o meu cântico eu o louvarei" (v. 7) e para que seu povo seja "exaltado para sempre" (v. 9). Soli Deo Gloria.
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