Profissão de quem trabalha com música. A etimologia de “profissão” é compartilhada com a de “professor”, ambos os termos significando aquele/a que professa em público determinado saber, e é reconhecido/a no ofício correspondente. O sentido econômico é o de que, exercendo aquele ofício, a pessoa obtém seus meios de vida — ou a parte principal dos ganhos necessários ao seu sustento (Houaiss et al., 2001. Bartz, 2018).
Profissionais da música são pessoas cuja formação não depende estritamente de certificação por ensino formal, e que, iniciando a aprendizagem por modos diversos, seguem construindo habilidades, saberes e produtos, numa trajetória de trabalhos. “Músico” e “musicista” são termos genéricos usados para designar quem trabalha nesse campo, mais especificamente as pessoas que lidam diretamente com os materiais sonoros, elaborando-os em formas reconhecidas como “música”, com graus e modos variados de reprodução e criação.
1.Variedade e contextualização
A profissão de músico se constitui por uma ou mais formas de atuação ou “frentes de trabalho” (Salgado, 2020), podendo envolver, entre outras atividades, performance, composição, arranjo, regência, ensino — para mencionar algumas das mais tradicionais. Outras frentes, sempre sujeitas à mudança tecnológica e à divisão técnica do trabalho, incluem a gravação, a editoração, e a chamada “produção musical”, representada na pessoa que dirige as ações de uma gravação, um show, uma turnê ou a própria carreira de um/a artista. Embora o termo tenha uso consolidado, pode-se considerar que todas as pessoas engajadas em determinado processo de trabalho musical realizam tarefas complementares e necessárias para se “produzir música”, conforme sugerem os conceitos de “mundo da arte” (Becker, 2010) e “musicar” (Small, 1997).
As práticas de trabalho musical são desenvolvidas por indivíduos e grupos que criam, interpretam e apresentam peças e repertórios, vinculando-se em maior ou menor grau às convenções de um gênero musical ou de uma formação instrumental, por exemplo — sendo a versatilidade, no entanto, uma qualidade considerada para o aproveitamento maior de oportunidades de trabalho (Salgado, 2005. Rêgo, 2022). No cotidiano da profissão, percebe-se que cada ato musical se faz com variadas medidas de preparação, com limites, com apoios, e está condicionado por fatores econômicos, escolhas ou necessidades subjetivas, intervenções de coprodutores, de contratantes etc. Do ponto de vista sociológico, importa observar que musicistas e seus conjuntos atuam com diferentes graus de autonomia e partem de diferentes condições socioeconômicas ao experimentar e buscar sustentar alternativas técnicas, estéticas e de organização do trabalho (v. Salgado et al., 2020).
Estudar e refletir sobre práticas do ofício musical requer atenção para a história de como se estruturam os meios de produção e as relações sociais de trabalho (v. Harnecker, 1971). A comercialização de partituras, a organização de concertos com ingresso pago, os meios de gravação e de reprodução sonora, assim como os recursos audiovisuais (do analógico ao digital), por exemplo, são fatores associados a mudanças do fazer musical em determinadas sociedades e períodos. Entre outros conceitos disponíveis na literatura, tem-se aproveitado o de “indústria cultural”, que Theodor Adorno adotou para teorizar sobre os usos capitalistas da música como mercadoria, com a produção de fonogramas para o consumo em larga escala. Fazendo parte de um modelo de produção industrial, o “músico de estúdio” (session musician, em inglês) chegou a ser um tipo de profissional característico do setor fonográfico (v. Aune, 2018), arregimentado para gravar peças que não conhecia previamente e das quais frequentemente se desvinculava após as horas de gravação. Ao mesmo tempo, como símbolo de complexidade na profissão, esse músico tipicamente manejava um conjunto de habilidades técnicas e convenções estéticas para interpretar material recém-apresentado, em tempo restrito — podendo-se apreciar nesse tipo de performance qualidades artísticas e artesanais.
Mais adiante, no modelo chamado pós-industrial, os investimentos de capital em tarefas produtivas realizadas por músicos e coprodutores (compor, arranjar, interpretar, gravar, mixar, masterizar) se reduzem, passando a se concentrar na distribuição de fonogramas e vídeos, via plataformas digitais etc. Em pesquisas sobre a profissão, portanto, existe sempre uma contextualização a ser delineada nas relações entre a música que se faz e os diferentes produtos, esquemas de trabalho, tipos de contrato e de remuneração praticados.
2. Mais notas para pesquisa
A profissionalização de musicistas — e sua diferenciação de outros modos (rituais, festivos, comunitários, íntimos) de se fazer música — tem sido tematizada em estudos de abordagem histórica, sociológica e/ou etnográfica (v. Rohr, 2001. Elias, 1995. Peres, 2011. Lacombe, 2014). Pesquisas com essa temática seguem metodologias variadas, e aproveitam dados e fontes biográficos e os diversos discursos sobre música, muitas vezes produzidos por musicistas. Claude Debussy (1862-1918), com o pseudônimo de Monsieur Croche, escreve crônicas jornalísticas sobre o meio musical francês. Hector Berlioz (1803-1869) registra em seu diário as muitas tarefas (“extramusicais”) e dificuldades que um compositor enfrenta para trabalhar no séc. XIX. Charles Mingus (1922-1979), em autobiografia, narra dificuldades e recompensas de se tornar músico, partindo de posição social desfavorável (a gíria “underdog” está no título). Documentários e entrevistas acessados via internet trazem descrições, imagens, sonoridades e outras informações para um conhecimento das condições concretas da profissão musical até o momento presente.
Para os interesses de pesquisa, formação universitária ou ação artístico-cultural, cabe ressaltar que, no campo da comunicação social e do entretenimento, prevalece a tendência de se dar maior “visibilidade” aos/às artistas e aos gêneros musicais mais comercializados ou com maior prestígio junto a setores dominantes. Os processos de trabalho vivenciados (mesmo com pouca “repercussão”) pela maioria de musicistas — desde estágios iniciais de formação, em diferentes frentes de trabalho, e em diferentes condições sociais e regiões do país (v. Rêgo, 2022. Costa, 2020. Erthal, 2017. Meneses, 2021) — permanecem assim como objeto de estudo relevante para se conhecer e compreender problemas gerais do trabalho em sociedade, e especificamente da profissão musical.
3. Sobre autonomia, arte e outras categorias
Do ponto de vista histórico e se referindo, principalmente, à música ocidental, Becker aponta que o artista, “tal como é hoje em dia considerado, deixou de ser alguém que trabalha para outra pessoa” (Becker, 2010, p.236). Menger (2005, p. 17) aponta a difusão das formas de trabalho em tempo parcial e intermitente, destacando que os artistas são frequentemente “pluriativos”. O mesmo autor diz que em um mercado de trabalho (conceito da área econômica que busca dar conta do trabalho em geral) caracterizado pela incerteza, os eixos de “flexibilidade” e “precariedade” mostram-se em termos de desemprego, subemprego e o aumento de trabalhadores temporários nos vários setores. Nesse sentido, multiplicar e diversificar atividades seria uma maneira de gerir a incerteza, de modo que um “mundo da arte” (Becker, 2010), na área da música, teria como formas dominantes o emprego “autônomo”, o “freelancing” e outras formas “atípicas” (por comparação com outras áreas) de trabalho.
Cabe considerar que nem toda situação de trabalho musical está associada à noção de “arte” — e no vocabulário coloquial de musicistas é significativa a relativa ausência das palavras “arte” e “artista” para referir ao que fazem e à própria identidade (Salgado, 2023, cap.2), como que indicando uma consciência de que muitos trabalhos que realizam têm relação mais evidente com prestação de serviços e entretenimento (v. Meneses, 2021).
O trabalho com música pode apresentar retornos de valor simbólico e afetivo, como espécie de recompensa ou reconhecimento de sentido naquilo que se faz. Critérios “não-econômicos” podem ser pessoalmente relevantes para a escolha de trabalhos, por exemplo: a identificação com certos repertórios; o sentido de autonomia criativa ao tomar decisões sobre materiais, expressão e forma na interpretação, no arranjo etc.; a busca e superação de desafios técnicos; a oportunidade de tocar com determinados/as colegas em determinado projeto. Em contradição com dilemas recorrentes de remuneração (com muitas formas de irregularidade) e status social, estas seriam gratificações de outra ordem. Num exemplo adicional, Waterman (1990) apontou que os músicos nigerianos com quem conviveu em trabalho de campo valorizavam as viagens associadas à profissão por um sentido de “aventura”, como experiências para além da rotina e do ambiente conhecido.
Assim como ocorre em outras profissões, a área da música é também afetada pelas desigualdades sociais, quando levamos em conta marcadores de raça, gênero, classe, entre outros. No caso da desigualdade de gênero, onde a literatura aponta que há uma predominância masculina e diferenças salariais (IBGE, 2020), um dos problemas é identificado como divisão sexual do trabalho, que “é uma base fundamental sobre a qual se assentam hierarquias de gênero nas sociedades contemporâneas, ativando restrições e desvantagens que modulam as trajetórias de mulheres” (Biroli, 2018, p.23). Nessa direção, Pichoneri (2010) relata que as mulheres encontram mais dificuldades do que os homens para conciliar a carreira musical e os cuidados com a família, por exemplo.
A continuidade de estudos sobre processos de trabalho e profissionalização em música, com abordagens complementares — de etnografia, biografia, análise sociológica, econômica etc. — virá incrementar a compreensão dos aspectos destacados acima e outros mais. Nas pesquisas realizadas, a interlocução com musicistas tem se mostrado relevante para reportar e para provocar reflexão sobre problemas, tendências e alternativas de organização do trabalho musical em sociedade.
José Alberto Salgado
Tânia Maria Silva Rêgo
Referências
Aune, Pedro. O ofício de contrabaixista de 1960-2018: Uma análise das transformações do lugar do contrabaixista no mercado fonográfico brasileiro. 2018. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Bartz, Guilherme Furtado. Vivendo de Música: Trabalho, Profissão e Identidade- uma etnografia da orquestra de câmara Theatro São Pedro, de Porto Alegre. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social, Porto Alegre, 2018.
Becker, Howard S. Mundos da arte. Edição comemorativa do 25º aniversário. Revista e ampliada. Trad. Luís San Payo. Livros Horizonte. Lisboa, 2010.
Biroli, Flávia. Gênero e desigualdades: os limites da democracia no Brasil. 1. ed. São Paulo, Boitempo, 2018.
Costa, Rodrigo Heringer. A música como arte de viver em Salvador. Tese de Doutorado Universidade Federal da Bahia. Escola de Música- Salvador, 2020.
Elias, Norbert. Mozart — sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1995.
Erthal, Júlio César Silva. Trabalho com Música: um estudo etnográfico sobre as formas de organização e sustentação de grupos que atuam em Londrina. Tese de (Doutorado) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-Graduação em Música, 2017.
Harnecker, Marta, Conceitos elementais do materialismo histórico. Ed. Cortez e Morais, 1971.
Houaiss, Antônio et al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001.
Lacombe, Fabiano Thomaz. O Cordão do Boi-Tatá: Relação com as noções de indústria cultural, profissionalismo, tradição e mudança. 2014. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Meneses, João Luís. Cachê Sangrento: uma etnografia do trabalho musical em Aracaju. 2021. Dissertação (Mestrado em Música), Programa de Pós-Graduação em Música - Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Menger, Pierre-Michel. Retrato do artista enquanto trabalhador – metamorfoses do capitalismo. Lisboa, Roma Editora, 2005
Peres, Leonardo Rugero. Com Respeito aos Oito Baixos: um estudo etnomusicológico do estilo nordestino da Sanfona de Oito Baixos. 2011. Dissertação (Mestrado em Música) - Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Pichoneri, Dilma F. Marão. Músicos de orquestra: considerações sobre trabalho e gênero. III Seminário Nacional de Trabalho e gênero, associativismo, profissão e políticas públicas, Goiânia, 2010.
Rêgo, Tânia Maria Silva. As instrumentistas, suas trajetórias, práticas e expectativas: uma etnografia com viés feminista e interseccional sobre o trabalho com música, na atualidade, em São Luís do Maranhão. 2022. Tese (Doutorado em Música) Programa de Pós Graduação em Música - UNIRIO) - Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro.
Rohr, Deborah. The careers of British musicians, 1750-1850 – a profession of artisans. Cambridge: Cambridge University Press, 2001.
Salgado, José Alberto. Construindo a profissão musical – uma etnografia entre estudantes universitários de música. Tese (Doutorado em Música) – Programa de Pós-Graduação em Música, Centro de Letras e Artes, Universidade do Rio de Janeiro. 2005.
Salgado, José Alberto. A composição como trabalho semi-oculto e sua revelação em pesquisas acadêmicas. In: Hidden archives, hidden practices: debates about music-making.1ª ed. Aveiro: Universidade de Aveiro Editora, 2020, p. 70-79.
Salgado, J. A.; Neves, K. A.; Silva, L. O.. Conjuntos musicais e sua sustentação — um levantamento sobre o trabalho autônomo em grupos de música na cidade do Rio de Janeiro (2016-2020). In: Anais do 6º Nas Nuvens... Congresso de Música, 2020.
Salgado, José Alberto. Estudando práticas de Música — cinco escritos sobre pesquisa e formação. Rio de Janeiro: Riobooks, 2023.
Waterman, Christopher Alan. Jùjú – A social history and ethnography of an African popular music. Chicago, Chicago University Press, 1990.
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