De acordo com o Dicionário Houaiss, o feminismo é uma “doutrina que preconiza o aprimoramento e a ampliação do papel e dos direitos das mulheres na sociedade”. O termo feminismo, nos últimos anos, vem sendo amplamente utilizado nos debates relacionados à participação das mulheres na sociedade, assim como nas discussões referentes às lutas por direitos, à superação das desigualdades e ao combate à violência.
O feminismo nasce como militância e teoria advinda principalmente das áreas das Humanidades, Teoria Literária e Psicanálise. No Brasil, a luta feminista iniciou pelo direito ao voto, tendo como liderança a bióloga e cientista Bertha Lutz na década de 1910. Outras agendas de lutas foram sendo organizadas, e ao longo das décadas o movimento foi se fortalecendo até o golpe militar de 1964, que suspendeu direitos civis e cerceou os movimentos populares, incluso o feminista. A partir da redemocratização, o feminismo no Brasil ganha novo fôlego e intensifica a luta pelos direitos das mulheres de maneira ampla, debatendo desde temas relacionados à vida privada, como a violência doméstica e o direito reprodutivo, até a vida pública, como o direito ao trabalho (Pinto, 2010).
O feminismo como perspectiva e teoria na área de música tem seu início mais especificamente no campo da Musicologia, com a publicação do livro da musicóloga Susan McClary, Feminine Endings: Music, Gender and Sexuality em 1991. A publicação apresentava como tema principal o entendimento da música a partir do contexto histórico, político, social, cultural e econômico que está inserida, ou seja, a música não era compreendida como uma prática autônoma e objetiva, e deste modo sua análise e teorias também assim deveriam ser. A proposta de McClary era apresentar modelos alternativos de análise musical e a desconstrução de paradigmas naturalizados na estrutura social, como o papel do homem e da mulher. Em artigo publicado em 1993, McClary apresenta um panorama histórico de pesquisas na Europa e EUA sobre mulheres e sobre música, a partir de uma crítica feminista. A musicóloga é uma das primeiras pesquisadoras a ter um discurso abertamente feminista e a propor uma análise musical a partir de uma abordagem que questionava a valoração de estruturas tradicionais e seus representantes, tais como compositores, teóricos, intérpretes e musicólogos — assim como possibilitou o interesse em músicas que eram excluídas do repertório tradicional e geralmente desconsideradas da análise musicológica tradicional.
Ainda na área da Musicologia e com uma perspectiva feminista, encontramos o trabalho de Susanne Cusick que reforça a discussão das relações de poder dentro da música. Para ela, a Musicologia Feminista desbravada por McClary não chegou a promover uma emancipação feminina na música, no que concerne à teoria musical e outros instrumentos de análise. Pois o empréstimo das teorias feministas advindas de outras áreas não tinham sido suficientes para uma atitude empoderadora em relação ao gênero (Cusick, 2001). Neste rol de musicólogas feministas que publicaram trabalhos relevantes para a área, apresentamos a pesquisadora Marcia Citron e seu livro Gender and Music Canon (Citron, 2000). Nesta publicação, a autora apresenta mulheres compositoras e suas obras, e de que forma as estruturas canônicas da música erudita ocidental afetavam as atividades das mesmas a partir de noções de criatividade, profissionalismo e recepção. As análises de Citron apresentam uma abordagem fundada no feminismo e em teorias interdisciplinares para analisar a complexidade da temática, para além das estruturas musicais.
E para encerrar as referências a autoras anglo-americanas feministas, apresentamos a etnomusicóloga Ellen Koskoff e sua obra representativa A Feminist Ethnomusicology: Writing on Music and Gender (2014). Nesta publicação, Koskoff apresenta um panorama sobre os estudos de gênero e música a partir de sua trajetória acadêmica com dados levantados nas suas investigações de campo — para a autora, as interações “face to face” com as pessoas nos diversos momentos da vida social seriam mais diretas e eficazes para a compreensão de suas músicas (Koskoff, 2014). Diferente da abordagem de McClary, Cusick e Citron, Koskoff não se deteve em fontes documentais e bibliográficas, não realizando uma revisão da literatura sobre gênero e música e sobre a participação histórica de mulheres no mundo da música. A etnomusicóloga privilegiou o método etnográfico. Apesar de esta obra contar como importante para a área do feminismo na música, ainda apresentou algumas limitações, como aponta Rodrigo Gomes (2016) em sua resenha sobre a obra de Koskoff: “Embora preocupada com a crescente multivocalidade e a pluralidade epistemológica no interior da etnomusicologia, Koskoff dialoga timidamente com as etnomusicologias produzidas em diferentes regiões do mundo, algumas das quais vêm ganhando mais espaço e legitimidade nos últimos anos no cenário internacional. ” (Gomes, 2016, p. 674)
Com a obra de Koskoff, podemos contemplar as obras mais significativas de produção anglo-americana sobre feminismo e música e que tiveram reverberações nas pesquisas realizadas no Brasil, onde serão acrescentadas outras perspectivas com bases teóricas no feminismo negro, estudos de gênero e teorias decoloniais.
No Brasil, as pesquisas em música com bases interdisciplinares têm como ponto inicial o artigo de Rita Segato intitulado Okarilé: uma toada icônica para Iemanjá (1999). Nesse texto, a antropóloga apresenta os repertórios musicais no culto do Xangô no Recife, no intuito de apresentar “... a relação de espelho existente entre o campo da música e a construção cultural” (Segato, 1999, p. 238). E para ilustrar, faz a análise de uma toada representativa chamada Okarilé, que é entoada para o orixá Iemanjá com objetivo de estabelecer uma relação entre as ideias musicais e não-musicais, neste caso as ideias religiosas e o comportamento individual do/as seguidore/as do culto, por meio das ferramentas da antropologia interpretativa e a etnomusicologia. Desta maneira, apresenta os diversos aspectos da personalidade deste orixá feminino e do/as seu/suas “filho/as” conforme as visões dos membros do culto. Mesmo não se utilizando das teorias feministas ou estudos de gênero, Segato realiza uma abordagem que discute as performances de gênero apresentada nas falas dos membros do culto e na composição musical da toada.
Após a publicação do artigo de Segato, o início do século XXI vai ser marcado por uma ampliação de pesquisas e estudos sobre música, feminismos e relações de gênero sobre as práticas musicais no Brasil, em diversos contextos. Diferente das pesquisas no âmbito anglo-americano, por aqui elas vão se caracterizar por um ativismo político e engajamento nas lutas pelos direitos das mulheres brasileiras por meio de suas práticas artístico-musicais. E inaugurando as produções de música e feminismo neste início de século, encontramos a dissertação de Helena Lopes da Silva, cujo título Música no espaço escolar e a construção da identidade de gênero: um estudo de caso (2000) trouxe a temática para o campo da educação musical. Em sua pesquisa, Silva apresentou reflexões sobre sua trajetória na vida musical, desde a adolescência até a escolha de seu tema de pesquisa, que foi analisar as relações de gênero no cotidiano das aulas de música de uma turma de 8ª série do ensino fundamental. Ela trouxe para a discussão o conceito de gênero apresentado pela historiadora Joan Scott (1990) como categoria histórica e social.
Na área da Etnomusicologia, temos duas pesquisas importantes baseadas nas teorias feministas, ambas defendidas em 2005. A tese da etnomusicóloga Maria Ignez Cruz Mello, Iamarikuma: música, mito e ritual entre os Wauja do Alto Xingu, que discutiu as relações de gênero na execução dos cantos rituais das mulheres; e a dissertação intitulada Epahei Iansã: Música e resistência na Nação Xambá: uma história de mulheres, da etnomusicóloga, compositora e rabequista Laila Rosa, cuja pesquisa foi a análise do repertório dedicado ao orixá feminino Iansã como representação de um elemento importante na construção de gênero, resistências, identidades e histórias na Casa de Nação Xambá em Olinda (PE). Na sequência, Laila Rosa defende em 2009 a tese As juremeiras da Nação Xambá (Olinda, PE): músicas, performances, representações de feminino e relações de gênero na jurema sagrada. A pesquisa foi realizada no terreiro Ilê Axé Oyá Meguê, com a análise do repertório musical das entidades espirituais femininas da prática religiosa da jurema. A pesquisa também discute as relações de gênero operadas no culto e nas casas lideradas por mulheres chamadas de juremeiras. Um exemplo desta análise é o gráfico apresentado por Rosa, contendo as entidades da jurema considerando as categorias de gênero, raça/etnia, classe, geração e sexualidade. “1. Pretas velhas e caboclas, velhas e infantis, assexuadas, africanas e indígenas, pobre e ‘simples’; tais representações nas performances se utilizarão de vocabulários específicos (indígena e africano afro-brasileiro), vocalizações e corporalidades específicas...” (Rosa, 2009, p. 249). Esta tese traz uma importante contribuição ao campo da Etnomusicologia, com abordagem feminista, ao propor uma análise musical a partir de perspectivas de raça, gênero, etnicidade, sexualidade, geração e classe como categorias analíticas.
A partir destas primeiras pesquisas, outras foram desenvolvidas ao longo da década, trazendo para os estudos na área da Música e feminismo uma articulação com feminismos negros, pós-coloniais, teoria queer, que vão caracterizar a produção acadêmica no Brasil nas mais diversas práticas musicais e contextos, não esquecendo do ativismo político que caracteriza o próprio feminismo. E para mostrar essa riqueza e força dos debates feministas na área da música, a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música publicou o livro Estudo de Gênero, Corpo e Música: abordagens metodológicas na série Pesquisa em Música no Brasil (vol. 3), organizado pelas pesquisadoras Isabel Nogueira e Susan Campos (2013). Esta publicação é uma obra coletiva e a primeira que trata da temática, demonstrando a relevância e o interesse cada vez maior nesta discussão.
O feminismo — como perspectiva teórica, abordagem e ativismo político — tem se apresentado em algumas pesquisas nos programas de pós-graduação em música no Brasil, em diversos contextos e práticas musicais, ainda com uma produção tímida, mas que vem ganhando espaço, na medida que o debate sobre a luta pelos direitos das mulheres e o combate ao sexismo, ao feminícidio e às desigualdades raciais e de classe são temas a serem debatidos também no campo da pesquisa em música.
Jorgete Lago
Referências
Citron, Marcia. Gender and Musical Canon. Champaign. University of Illinois Press, 2000.
Cusick, Susanne. Gender, Musicology and Feminism In: Cook, Nicholas; Everist, Mark (ed.). Rethinking music. Gender, Musicology and Feminism. Oxford University Press, 2001. p. 471-499.
Gomes, Rodrigo Savelli Cantos. Os percursos da etnomusicologia feminista nas últimas quatro décadas: uma visão de dentro por Ellen Koskoff. Revista Estudos Feministas. Florianópolis. 24 (2): 292, p. 673-676, 2016.
Mcclary, Susan. Reshaping a discipline: Musicology and Feminism in the 1990s. Feminist Studies.v. 19. p. 329-423, 1993.
Mcclary, Susan. Feminine Endings: Music, Gender and Sexuality. Minneapolis: University of Minnesota Press, 1991; 2nd Ed. 2002.
Mello, Maria Ignez Cruz. Iamurikuma: música, mito e ritual entre os Wauja do Alto Xingu. Tese (Doutorado em Antropologia Social). Programa de Pós-graduação em Antropologia Social. Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2005.
Nogueira, Isabel Porto & Fonseca, Susan Campos (org.). Estudos de gênero, corpo e música: abordagens metodológicas. ANPPOM, Goiânia/Porto Alegre, 2013.
Pinto, Celi Regina Jardim. Feminismos, História e Poder. Revista de Sociologia e Política. Curitiba. v. 18. n. 36. p. 15-23. 2010.
Rosa, Laila Andressa Cavalcante. Epahei Iansã! Música e resistência na Nação Xambá: uma história de mulheres. Dissertação (Mestrado em Música). Programa de Pós-graduação em Música. Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2005.
Rosa, Laila Andressa Cavalcante. As juremeiras da Nação Xambá (Olinda, PE): músicas, performances, representações de feminino e relações de gênero na jurema sagrada. Tese (Doutorado em Música). Programa de Pós-graduação em Música. Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2009.
Segato, Rita. Okarilé, uma toada icônica de Iemanjá. Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Rio de Janeiro, n. 28, p. 236-253, 1999.
Silva, Helena Lopes da. Música no espaço escolar e a construção da identidade de gênero: um estudo de caso. Dissertação (Mestrado em Música). Instituto de Artes. Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2000.
Scott, Joan W. Gênero como uma categoria útil de análise histórica. Educação & Realidade. v.15, n. 2, p. 71-99, 1990.
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