Comunicação apresentada à FAEL - Faculdade Educacional da Lapa, em junho de 2021
Boa tarde a todos/as os/as presentes,
Quero começar por agradecer o amável convite que me foi endereçado pela FAEL, entidade que muito prezo, através dos professores Uipirangi Câmara e Veridiana Almeida. Para além de serem amigos, a quem não se diz que não em circunstância alguma, propuseram-me algo que não poderia, em circunstância alguma, recusar. Terão oportunidade de saber porquê.
Foi-me dada alguma liberdade para abordar o tema – o papel da investigação.
Pensei, de início, em começar com a importância da investigação na academia e para a academia.
Como provavelmente saberão, hoje em dia, a palavra de ordem na Academia é “publicar ou morrer!”
Somos avaliados pelas publicações, pelas revistas onde surgem, assim como as universidades são avaliadas pelo conjunto da produção científica. Departamentos, cursos e carreiras mantêm-se ou extinguem-se consoante o que conseguem mostrar que produzem. Falamos de accountability, qualidade académica (ou o que se entende como tal), métricas e indicadores de impacte.
Alguns de vocês lá chegarão, por certo. Um dia, alguns/mas de vocês orgulhar-se-ão do percurso académico e investigativo, com um currículo mencionando os vários artigos e publicações.
Em Portugal, dizia-se, quando eu era miúdo, que só nos poderíamos considerar homens caso fizéssemos um filho, escrevêssemos um livro e plantássemos uma árvore (não me perguntem o que permitiria a afirmação como mulher, pois tratava-se de uma sociedade muito patriarcal, na altura). Pois bem, os meus pais terão morrido orgulhosos, desse ponto de vista. Fiz os 3. E, sozinho, já escrevi o suficiente para que, a ser tudo impresso, várias árvores fossem abaixo. Fale-se de contradições……
Um dia, acontecer-vos-á o mesmo e espero que com muito mais qualidade e impacte. Só não terão contribuído para o derrube de árvores, uma vez que os formatos são crescentemente digitais.
Esta dimensão académica da investigação tem, contudo, tanto de aliciante como de angustiante. E até gera uma certa sensação de frustração. Ocorre-me sempre aquele velho dilema da relação entre a quantidade e a qualidade:
O quantificável não é necessariamente importante e o que é importante nem sempre é quantificável.
Enferma, também, de um problema de verdade. Nem sempre se publica o mais fundamentado e útil. Em muitos casos (mais do que seria desejável), privilegia-se o mais mediático, sendo que, em certas áreas, como o caso das Ciências Sociais e Humanas (com especial destaque para a Educação) há poucas replicações. Ou seja, parece privilegiar-se a novidade em detrimento da evidência científica.
Complementarmente, os critérios editoriais sofrem também das modas e das conjunturas. Ou, se quiserem, das lógicas de dominação intelectuais e paradigmáticas. Há, hoje em dia, temas e assuntos tabu e bullying na investigação de determinados temas, com ameaças, despedimentos e destruições de carreiras. Estas situações na Academia, pouco agradáveis, são como em muitas outras dimensões na vida, fruto de relações de poder entre vencedores e derrotados. Não se consegue pôr fim a lógicas de poder nos corredores da Academia. Apenas mudam os opressores e os oprimidos.
Não resulte daqui que o panorama é negro. De todo, não! Apenas refiro estes aspetos para contextualizar as minhas opções nesta conversa convosco. Como disse, podia enveredar, nesta nossa conversa, pela Academia, a importância da investigação e o contributo para o conhecimento comum, apontando todas as regras e cuidados característicos de um/a investigador/a.
Mas não me pareceu que fosse o mais relevante. Disso saberão em devido tempo e terão os vossos professores, bem qualificados e disponíveis, para vos ajudar a conhecer as fases do percurso investigativo, as regras das citações, as estruturas dos artigos, os cuidados na linguagem, as técnicas de leitura, as estratégias de recolha de dados, as análises de conteúdo e estatísticas, a formulação de conclusões, as pesquisas quanto às revistas mais úteis, e por aí fora.
Esta, sendo de enorme importância, é a dimensão técnica da investigação. De enorme importância, repito.
A palavra inglesa ajuda melhor a entender aquilo a que me refiro. Na língua portuguesa, falamos de investigação. Os anglo-saxónicos de research. Já pararam para pensar na expressão? RE – SEARCH! Procurar de novo.
Portanto, ir ao Google ver umas coisitas não é investigação. É procurar coisas. Assim como copiar e colar afirmações de outros não é investigação. Se a cópia de documentos contribuísse para a carreira académica, os colaboradores das reprografias seriam doutorados honoris causa.
Investigação significa produzir algo de novo, sobre o conhecimento existente, ou ver de forma diferente aquilo que já se sabe. Implica o nosso dedo, a nossa impressão digital no que se produz.
Claro que a maior parte de nós não será aquele investigador com o estatuto da rock star. O que descobre a cura para o cancro. O que acaba com as maleitas ambientais. O que põe fim à fome no mundo. O que extermina a imbecilidade que por aí grassa (objetivo bem importante, note-se, e infelizmente inatingível).
A maior parte de nós será, em bom rigor, mais um/a investigador/a, com esta particular característica de, ao dedicar-se à sua área do saber, conseguir ser útil aos outros. Quantos de nós podem afirmar isso - ser útil aos outros?
Foi esta linha de raciocínio que me animou para esta nossa conversa - ser útil aos outros.
Mas, e julgo que concordarão, para podermos ser úteis aos outros, temos de começar por ser úteis a nós próprios. E é por aí que vou começar.
Achei, portanto, que seria importante começar pela dimensão pessoal e/ou individual. Por isso, e para um segundo título, socorri-me de Carl Rogers, um psicólogo famoso que escreveu um livro denominado “Tornar-se Pessoa”. Título fantástico! Pois investigar pode ajudar-nos a sermos melhor enquanto pessoas.
Vejamos, para começar, o que nós somos como pessoas enquanto entes cognitivos: SOMOS DEFICIENTES COGNITIVOS. Por favor, não se zanguem comigo.
Temos uma perceção da realidade que é tudo menos objetiva. Costuma dizer-se que vemos ver para crer. Pois o ser humano crê para ver.
Há enviesamentos na cognição humana bem estudados e conhecidos:
• preconceitos pessoais: são opiniões acerca de grupos de pessoas (raça, religião, género, etc.) que podem afetar a forma como os vemos;
• erro de semelhança: a existência de pontos em comum com a pessoa que observamos ou com quem interagimos (o mesmo clube de futebol ou partido político), pode originar uma grande identificação nossa com o observado, fazendo-nos crer que uma má apreciação quase implica uma autoapreciação negativa;
• erro de primeira impressão: ocorre quando a primeira ideia que fazemos de uma pessoa permanece imutável, mesmo depois de fatos e alterações mais ou menos profundas;
• efeito dos acontecimentos recentes: tendemos a basear a observação/avaliação nas impressões colhidas das ações, comportamentos e desempenhos mais recentes do observado;
• enviesamentos culturais: sabe-se que cada cultura valoriza determinados aspetos em detrimento de outros. Por exemplo, na cultura ocidental, a idade avançada é, normalmente, um fator considerado negativo na aptidão para trabalhar. O conceito de autoridade (diferente caso estejamos em comunidades conservadoras ou progressistas)
Para além destes, há outros enviesamentos da cognição humana que influem na apreciação do mundo que nos rodeia e, também na forma como construímos a nossa auto-imagem.
1. Consideramo-nos acima da média
A pessoa comum tende a acreditar em coisas extremamente lisonjeiras a seu respeito. Por exemplo, tendemos a acreditar que possuímos uma série de características socialmente desejáveis, e que estamos livres da maioria das socialmente indesejáveis. Por exemplo, a grande maioria das pessoas acha que é mais inteligente, mais justa, menos preconceituosa, mais competente ao volante de um automóvel do que a pessoa média. Esse fenómeno é tão comum que passou a ser conhecido como o "efeito Lake Wobegon”. No mundo do ensino superior e em contextos de investigação, podem crer que este enviesamento tende a ser corrigido.
2. Os sucessos resultam das nossas competências; os fracassos decorrem de circunstâncias externas
Também tendemos a realizar avaliações egoístas quando se trata de repartir a responsabilidade por sucessos e falhas. Não raro, as pessoas atribuem os sucessos a si mesmas e as suas falhas às circunstâncias externas. Por exemplo, os atletas tendem a atribuir as vitórias a si mesmos, mas as suas perdas à má sorte e ao infortúnio. Os alunos que obtêm bons resultados em exames geralmente tendem a atribuir isso ao seu conhecimento; em contrapartida, aqueles que falham tendem a considerar o exame como arbitrário e injusto. Por sua vez, os professores tendem a atribuir o sucesso de um estudante à qualidade de instrução que recebeu, mas consideram que o fracasso de um estudante resulta da sua falta de capacidade ou de esforço. Os académicos cujas tentativas de publicação foram rejeitadas muitas vezes atribuem a sua má sorte a fatores além de seu controle, como uma escolha infeliz de revisores; Aqueles que têm os seus artigos publicados, em contrapartida, raramente reconhecem qualquer influência da sorte na seleção de revisores.
3. Tendemos a reduzir a quantidade e o efeito das opiniões divergentes
As redes sociais e a forma como aí selecionamos as nossas fontes de informação e os “amigos” constituem um bom exemplo na natural tendência para reduzirmos a possibilidade de opiniões divergentes e, portanto, de riqueza no confronto de opiniões. Num mundo de crescimento exponencial de informação, corremos o risco, afinal, de ficarmos confinados às visões do mundo que mais se coadunam com o que pensamos e a desconhecer/evitar tudo aquilo com que discordamos. Num mundo complexo, somos cada vez mais simplistas na análise. Investigar é exatamente alargar o espectro, ganhar grande angular, ir deliberadamente à procura do contraditório.
4. Estabelecemos relações “politicamente corretas”
Seria expectável que a maioria de nossos equívocos e erros fosse corrigida pelos comentários e feedback dos outros. Seria, mesmo, de esperar que as pessoas nos dissessem quando as nossas crenças e convicções são desadequadas ou infundadas. E até certo ponto esta expectativa faz sentido, uma vez que muitas das nossas convicções mais estranhas e erradas não sobrevivem às nossas interações e discussões com os outros. No entanto, esse feedback corretivo não é tão comum como se poderia pensar. Em certa medida, isto deve-se ao facto – atrás mencionado – de nos associarmos principalmente a quem compartilha as nossas crenças, valores e hábitos. E mesmo quando nos cruzamos com pessoas cujas crenças e atitudes estão em conflito com as nossas, raramente somos desafiados, pois as pessoas são, geralmente, relutantes em questionar abertamente as crenças dos outros. O mesmo é válido no sentido contrário: expressar o nosso desacordo é assumir o risco de, aos olhos dos outros, sermos considerados desagradáveis. Daí que, por vezes, tentemos proteger-nos da possibilidade de sermos considerados antipáticos e desagradáveis, argumentando que nos limitamos a funcionar como o “advogado do diabo” ou que estamos, simplesmente, transmitindo as opiniões de outra pessoa. Ora, para quem investiga, a revisão de artigos e, quando acontecem, as replicações dos estudos que contestam as nossas conclusões constituem excelentes terapias para este enviesamento cognitivo.
5. Recorremos à auto-incapacitação
Preocupamo-nos com a forma como os outros nos percebem e, portanto, queremos controlar as apreciações que eles fazem do nosso desempenho. Por isso, podemos chamar a atenção para aqueles elementos que nos inibem o desempenho, pois essa auto-incapacitação ajuda a que a outra pessoa desvalorize uma falha nossa. “Sob tais circunstâncias difíceis, qualquer um teria falhado”, pensamos nós. E, obviamente, mais brilhamos quanto temos sucesso: a outra pessoa melhora as suas impressões a respeito das nossas capacidades, uma vez que qualquer pessoa capaz de superar aqueles obstáculos deve ser realmente dotada. Não temos tempo, a nossa vida está sobrecarregada, as fontes não estavam disponíveis, o computador avariou, ……..
Os sucessos, por outras palavras, são geralmente vistos como confirmações das nossas estratégias e formas de atuar, enquanto que os falhanços tendem apenas a ser encarados como falhanços no resultado e não da estratégia.
Para além disso, as nossas convicções e estratégias tendem a fazer com que prestemos mais atenção aos sucessos do que aos fracassos. Isso justifica que mantenhamos estratégias e convicções mesmo quando objetivamente não funcionam. É o caso daquelas pessoas que não deixam ninguém falar e que, quando confrontadas com isso, dizem que as pessoas não estão incomodadas. Como, por etiqueta e polidez, ninguém as critica, tendem a considerar que a estratégia é adequada.
Ora, um artigo recusado pelos pares ….. é um artigo recusado. Como se costuma dizer aqui em Portugal, temos pena! Aprendamos com os erros e sejamos melhores na próxima.
6. O enviesamento de confirmação (confirmation bias)
Falamos da tendência que as pessoas têm para procurar e dar mais atenção à informação que confirma as suas opiniões e crenças, ao mesmo tempo que desvalorizam e ignoram tudo o que as contradiga. Este efeito determina, muitas vezes, que os investigadores possam manter as suas convicções e crenças mesmo quando a informação que obtêm as contradizem.
Como Heisenberg afirmava, “o que observamos da natureza não é a natureza propriamente dita, mas antes a natureza filtrada pelo nosso método de questionamento”. Como já atrás referimos, cremos para ver, ainda que se acredite que vemos para crer. Um ato investigativo, quando bem orientado e revisto/avaliado, é um excelente momento para esta tomada de consciência
7. A importância da informação em “primeira mão”
A informação que recolhemos, em muitos casos, é mais remota do que aparenta. O que é descrito como em segunda mão é frequentemente em terceira mão, o que é passado como terceira mão é muitas vezes ainda mais distante, e assim sucessivamente. Portanto, devemos ser céticos sobre evidências apresentadas em segunda mão e questionarmo-nos quanto à origem da informação e à distorção - deliberada ou não – que provavelmente foi introduzida ao longo do caminho. Ir às fontes primárias é sempre avisado. A pensar seriamente nisto, rapidamente concluiremos que deveremos ser seletivos e céticos quanto à maioria (senão mesmo a totalidade) das informações diárias que nos chegam, designadamente através das redes sociais, dos media e das pessoas com quem interagimos. Este é, precisamente, um aspeto interessante a ter em conta em processos de investigação, onde consultamos fontes primárias e secundárias. Ou seja e em síntese, sempre que possível, vale a pena socorrermo-nos de fontes primárias.
8. Valorizamos a coerência e a ordem
É isto que ajuda a perceber que identifiquemos padrões e estruturas mesmo onde estas não existem. As constelações no céu são um exemplo. E uma vez identificado um padrão aleatório como um fenómeno "real", ele não mais existirá, para essa pessoa, como um fato desconcertante e isolado. Em vez disso, é rapidamente explicado e prontamente integrado nas teorias e crenças pré-existentes da pessoa. É também a explicação para as pessoas aderirem tenazmente às suas crenças mesmo diante de evidências hostis. Essas teorias e crenças pré-existentes servem para prejudicar a avaliação que as pessoas fazem de novas informações, ao ponto de as utilizarem, por hostis que sejam, de forma a solidificar a crença inicial. Uma vez mais, não vemos para crer – cremos para ver”. Ou seja, as nossas expectativas, os preconceitos e as crenças prévias influenciam a nossa interpretação de novas informações. Mesmo perante evidências e factos relevantes, as pessoas tendem a ver o que esperam ver e concluir o que esperam concluir. A informação que é consistente com nossas crenças pré-existentes geralmente é aceita pelo valor nominal (face value), sem necessidade de grandes esforços de confirmação; em contrapartida, a evidência que as contradiz é cuidadosamente examinada e descontada.
9. A persistência nas crenças erradas
Uma vez que uma crença imprecisa/errada tenha sido formada, é incrivelmente difícil de erradicar. Mesmo depois de recebemos correções claras e credíveis, a desinformação contínua influencia o nosso raciocínio. A título de exemplo, recorde-se a utilização diária e sistemática que Donald Trump fazia do Twitter e os efeitos que isso gerava nos seus seguidores. Na psicologia cognitiva, isso é conhecido como o efeito de influência contínua da desinformação e pode ter consequências bem graves. A crença na desinformação pode afetar negativamente a tomada de decisão, e o efeito de influência continuado tem implicações do mundo real em áreas tão diversas como educação, saúde e economia. Atente-se no caso recente das fake news e na forma como são facilmente aceites (as vacinas causam autismo, o aquecimento global é uma mentira, …), ou ainda no facto de, após 130 anos de investigação a contradizê-lo, ainda um número significativo acreditar na perceção extrassensorial, nos OVNI, na astrologia e em pseudociências.
Ao que parece, as pessoas preferem modelos de explicação inexatos a incompletos, o que pode levar a confiança em informações desacreditadas mesmo depois de estas terem sido corrigidas e apresentados factos e evidências credíveis e explícitas.
Também aqui é fácil de ver as vantagens que resultam da disciplina investigativa.
10. O raciocínio motivado
Se tiver uma forte crença e esta for fundamental para a minha identidade, mesmo a fonte mais credível pode não ser capaz de a alterar. A ideologia de uma pessoa geralmente influencia como a informação é procurada e avaliada, e se a nova informação contraria crenças anteriores, é provável que seja ignorada ou avaliada de forma crítica. Este fenómeno é conhecido como raciocínio motivado (em inglês, motivated reasoning).
Acontece ainda, para agravar o fenómeno, que se alguém tentar remover informações erradas que eu tenha e que sejam de enorme importância na minha visão de mundo, isso pode, ironicamente, fortalecer ainda mais a convicção. Isso foi demonstrado em esforços que visavam corrigir a desinformação em torno de questões polémicas como as mudanças climáticas ou a segurança das vacinas.
Para além das importantes implicações de tal consciência para qualquer um de nós, seja ou não investigador, isto determina cautelas adicionais na forma de comunicarmos resultados e conclusões.
11. Sofremos de imunidade ideológica
Um cientista social, Jay Stuart Snelson, concluiu que pessoas educadas, inteligentes e bem sucedidas raramente alteram os seus pressupostos fundamentais. Quanto mais conhecimento acumulam, mais as suas teorias se tornam fundamentadas e, portanto, mais confiança nelas depositam. O problema com isto é que podem acabar por desenvolver imunidade contra novas ideias, em particular as que não corroboram as suas. Isto ajuda a perceber por que razão alguns professores universitários e personalidades que nos habituamos a respeitar defendem ideias extraordinárias. De resto, são vários os estudos que afirmam que pessoas com elevado QI têm mais resistência a ideias que os contradizem e, cereja no topo do bolo, dispõem de capacidades argumentativas acima da média que os ajudam a fazer vingar as suas convicções. Ou seja, e a título de exemplo, ser excelente e uma referência em biologia não significa que deva ser respeitado e ouvido, sem mais, a propósito da sua crença no espiritismo. Não nos devemos, portanto, admirar que colegas que aprendemos a admirar por uma qualquer razão específica defendam algumas bizarrias. A inteligência específica (o domínio de uma determinada área do saber) não pode ser confundida com inteligência geral. Por isso, por excelentes investigadores que sejamos, uma coisa é uma coisa e outra coisa……
Deste conjunto de considerações, resulta, em síntese, a necessidade de ceticismo, devidamente temperado, característica absolutamente decisiva da ciência. O cientista (o investigador) é, por natureza, um cético (não radical), pois tem como função, entre outras, a rutura com o senso comum.
O ceticismo, se bem ponderado, pode reduzir os efeitos da desinformação, pois faz com que mais recursos cognitivos sejam mobilizados para ponderar a veracidade da desinformação e da correção. Devemos, no entanto, evitar o fenómeno de raciocínio motivado atrás explicado; ou seja, sermos céticos apenas com informações que contrariem as nossas visões e conceções, sob pena de não ser afinal mais do que.
O espírito humano tem a idade dos seus preconceitos e objetivos como a OBJETIVIDADE e a VERDADE podem tornar-se miragens de utilidade duvidosa caso não consigamos um diálogo frutuoso com a subjetividade, gerindo-a e utilizando-a ao serviço da construção do conhecimento. Afinal, o que também se espera com processos investigativos.
A acrescer às inequívocas vantagens da atitude investigativa enquanto pessoas, cognitivamente enviesadas por natureza, há, também, benefícios no respeitante à participação social e à cidadania ativa, como agora é costume dizer-se.
É um facto que houve, nos dois últimos séculos, evoluções políticas e sociais inegáveis. As democracias são maioritárias, as sociedades em que vivemos são mais livres (Brasil como Portugal conheceram ditaduras), mais informadas (elevação de níveis de escolaridade em todo o mundo) e mais responsáveis.
No entanto, vivemos épocas interessantes exatamente porque nos leva a questionar, em primeiro lugar, se há um rumo na História e, logo de seguida, se esse rumo é evolutivo (cada geração melhor ou superior à anterior).
Ora, aquilo a que assistimos, inclusivamente em países que aprendemos a considerar como de Primeiro Mundo, leva-nos a pensar que, afinal, as conquistas da liberdade, que tomámos como inalienáveis e irreversíveis, podem ser provisórias e efémeras. Há um número crescente de democracias iliberais ou de liberalismos antidemocráticos.
Não sendo este o momento para abordarmos tais fenómenos com o detalhe e profundidade que merecem, julgo poder afirmar que, de entre os vários fatores em jogo, se encontra o populismo (de esquerda como de direita), geralmente acompanhado do ressurgimento de crenças e das pseudociências. Ou seja, e em suma, uma generalizada e alarmante recusa da ciência e dos valores do Iluminismo (o temperado).
Ora, ao longo da vida, aprendi que a ciência, apesar de falível, era indiscutivelmente o que de melhor tínhamos para organizar a vida. A evolução da humanidade assim o comprovava.
Um processo que assenta em experimentação controlada, procedimentos estruturados, regras consensualizadas e revisão de pares, com vista à produção de evidências sistematicamente escrutinadas, pensava eu, ajuda a fugir a dogmas e liberta-nos da arbitrariedade das convicções de quem manda, só porque está em posição de mandar e, portanto, dos absurdos das ditaduras (inclusive e sobretudo as de pensamento).
Aprendi, também, a valorizar os fundamentos da lógica, porque uma importante ajuda para disciplinar o pensamento e facilitar o diálogo.
Pois os tempos que correm levam-me, por vezes, a duvidar. Como se diz em Portugal, a lógica, afinal, é a da batata. E a ciência mais não é do que uma opinião, entre muitas outras.
Identificar falácias argumentativas é, pelo visto, falacioso. E, claro, pode condicionar as pessoas e as suas opiniões. “O tipo é mesmo académico. Anda lá metido nos livros e não conhece a realidade da vida.”
Pedir que se expliquem as premissas para as conclusões a que se chega é snobismo intelectual. “Lá está ele com a mania das análises e do pensamento lógico. Qual é a parte da inteligência emocional que ele ainda não conhece?”
Valorizar análises cuidadas, percebendo cada ponto antes de se perceber as relações, é ser reducionista e esquecer a complexidade. “Tudo se relaciona com tudo. As melhores abordagens são as holísticas.”
Reclamar por evidências é redutor, porque há-as para todo o gosto. “Então nunca ouviu falar das verdades e dos factos alternativos? As pessoas têm direito às suas opiniões, sem terem obrigatoriamente de as basear em evidências.”
Depositar confiança na ciência é ingenuidade e merece o rótulo de cientismo. “Olha-me este e o cientismo. Não sabe que é tudo uma cabala para nos fazer acreditar em certas coisas e um instrumento de poder e de domínio que permite manter sob controle os oprimidos.”
Em suma, e portanto, ter direito à opinião passou a ser uma forma autoritária de recusar a autoridade de qualquer visão contrária, por fundamentada que seja. Isso ajuda a perceber o proliferar de crenças e fraudes por esse mundo fora. São conhecidos os exemplos:
Em vários países onde grassam conflitos religiosos e étnicos, cada vez mais pessoas se socorrem de adivinhos e clarividentes (alguns a operar com licenças concedidas pelos governos).
Altos quadros franceses, nos quais se incluía um ex-presidente de França, promoveram o investimento de milhões de dólares num embuste (o escândalo Elf-Aquitaine), que consistiu em encontrar novas reservas petrolíferas a partir do ar.
Na Alemanha, houve alarme social com raios terrestres cancerígenos, indetetáveis pela ciência e apenas identificados por experientes radiestesistas munidos de varas bifurcadas.
Cirurgia psíquica floresce nas Filipinas.
Os fantasmas constituem obsessão nacional em Inglaterra.
O Japão vê surgir, há décadas, inúmeras religiões centradas no sobrenatural e dispõe de mais de 100 mil adivinhos que se aproveitam da crença e ingenuidade de jovens mulheres.
Circulam fake news (notícias falsas) a dar conta de que as vacinas causam autismo.
Nos EUA, há congressos com milhares de pessoas a defender a ideia de que a Terra é plana e que a NASA faz parte de uma conspiração internacional.
O aquecimento global é tido como uma enorme mentira que interessa às multinacionais.
Seitas religiosas vendem a ideia de água milagrosa que cura doenças e de que a oração fervorosa resolve problemas financeiros.
Empresas vendem, por preços astronómicos, água engarrafada, retirada de rios a alguns quilómetros das margens, alegadamente por ser natural e não ter produtos químicos.
Os líderes da doutrina da Meditação Transcendental prometem, a preços módicos, a capacidade de atravessar paredes, ficar invisível ou mesmo voar (a Multinacional TM que promove estes “produtos” tem um valor estimado de 3.000 milhões de dólares).
Os rinocerontes asiáticos estão à beira da extinção porque o pó feito a partir dos seus cornos previne e impede a impotência.
Em Portugal, vendem-se vassouras por 1000 euros para livrar as casas de mau-olhado.
Pelo mundo fora, personagens famosas sugerem pulseiras eletromagnéticas para melhorar o sono, prevenir o stress, aumentar a fertilidade, retardar o envelhecimento, melhorar a circulação, entre muitos outros benefícios.
A imaginação para conspirações não tem limites e, potenciados pela amplificação que as redes sociais permitem, surgem argumentos como os seguintes:
Os tradicionais órgãos de comunicação não são de confiança, pois vendem-se a quem mais paga. Jornalismo de investigação não existe (se alguma vez existiu) e os fact-check são mistificações e manipulações.
A História é escrita pelos vencedores. Os documentos históricos são como romances, porque dependentes da criatividade e subjetividade de quem escreve. Toda a verdade histórica é relativa e está dependente de forças políticas em confronto. A mais forte ganha.
A astrologia, os mapas astrais e essas práticas esotéricas New Age são perspetivas tão válidas como quaisquer outras. É o positivismo reinante que as considera heresias. Não devemos negar ciências que não conhecemos. Todas as grandes verdades começaram por ser grandes heresias.
A ciência é uma construção ocidental que oprime as restantes culturas e formas de pensar, viver e sentir. O facto de ser ocidental já constitui, em si mesmo, uma falha que importa corrigir.
As alterações climáticas são uma enorme mentira, alimentada por poderosos lobbies ambientais.
Os medicamentos que devemos ou não tomar e que estão disponíveis no mercado não resultam de investigações científicas submetidas a regras e controlos, mas antes da avidez das farmacêuticas. É tudo um jogo de poderes e de maximização de lucros.
A medicina ocidental (como se a localização geográfica jogasse algum papel) não é superior a alternativas como homeopatia, acupunctura, aromaterapia, medicina antroposófica, dietas alternativas, infusões de plantas de Bach, Feng Shui, terapia com cristais, medicina naturalista, cupping, terapia magnética, medicina ortomolecular, reflexologia, reiki, shiatsu, cura espiritual, medicina tradicional chinesa, …….. É tudo uma questão de negócio, onde as grandes farmacêuticas mandam.
O autoritarismo das farmacêuticas e da medicina convencional não gera apenas lucros pornográficos. É danoso para a saúde, como o comprova o facto de as vacinas causarem autismo, verdade que tem vindo a ser escondida.
As vacinas para o COVID, altamente perigosas, são uma manobra das farmacêuticas ganharem dinheiro.
As vacinas são, também, uma forma de nos introduzirem chips, tal como Bill Gates pretende, para mais facilmente nos controlarem.
Nesta pandemia, as máscaras não só não servem para nada, como são causadoras de doenças. Há muitas empresas a ganhar com isto.
A OMS não se baseia em critérios científicos. É apenas uma arena onde se jogam exclusivamente interesses geopolíticos.
As soluções para a pandemia mais não são do que uma forma de os poderosos exercerem o seu poder e nos manterem como carneiros.
Há uma Nova Ordem Mundial e o Deep State, com os poderosos a manobrarem os cordelinhos para sermos controlados e manipulados.
A Terra é plana e o Homem nunca foi à lua. Trata-se de uma gigantesca conspiração orquestrada, entre outros, pela NASA.
Está provado que somos regularmente visitados por extraterrestres e que há OVNI, havendo uma cabala para silenciar episódios como o de Roswell.
Há uma conspiração internacional, orquestrada pela esquerda, com redes pedófilas, e da qual fazem parte muitas personalidades famosas como o Papa, a rainha de Inglaterra, Tom Cruise, Obama, Hillary Clinton, …..
Estes e outros poderosos mandam raptar e torturar crianças, de forma a recolherem adrenalina, destinada a fabricar adrenochrome, um fármaco que faz rejuvenescer.
Há um conjunto de forças demoníacas a atuar no mundo (como algumas aqui referidas), sob a dependência de Satã, sendo Trump o Messias enviado para nos salvar.
Vivemos num jogo de computador, concebido por alguém, e só alguns de nós despertaram e conseguiram sair da Matrix.
- ………
O inalienável direito à opinião quase nos obriga, portanto, a ouvir e ler enormidades e silenciar. Por muita vontade e segurança que tenhamos para rapidamente descartar absurdos com um simples “isso nem sequer é mentira”, estamos impedidos de o fazer, sob pena de sermos considerados arrogantes, autoritários, absolutistas, fascistas ou, nas versões mais gentis, “adormecidos” e “carneiros”.
Como entender este tipo de opiniões, sobretudo sabendo que o mundo nunca conheceu, como agora, tão elevados níveis educacionais?
Os últimos 150 anos de progresso deveriam fazer-nos confiar na ciência e na razão. A imunização erradicou infeções letais. Doenças anteriormente fatais para milhões de pessoas, como diabetes, apendicite e muitas outras, são agora tratáveis. A mortalidade infantil é, atualmente, substancialmente inferior ao que era. A dor pode ser, na maioria dos casos, efetivamente controlada. E, à escala planetária, vivemos mais e com melhor qualidade de vida. Tudo isso graças à aplicação de pensamento científico racional.
Só isto que afirmo bastaria que a investigação fosse colocada num pedestal e canonizada, ainda em vida. Por isso, caros/as amigosas, precisamos, desesperadamente, de mais soldados a engrossar as fileiras da ciência, das evidências, dos factos, da lógica, do raciocínio, da transparência, da lucidez, do confronto de ideias realizado por mentes céticas e da valorização da verdade, por contingente que seja.
Precisamos, portanto e desesperadamente, de pessoas com as competências que a investigação exige, desenvolve e consolida. De entre outras possíveis, pareceu-me relevante salientar estas, procurando explicitar, para cada uma, os respetivos indicadores de desempenho.
Resiliência
Recuperação rápida, adaptabilidade e facilidade para trabalhar em cenários de elevada pressão, turbulência e/ou dificuldades físicas, psicológicas ou logísticas.
Know-how técnico
• Dominar os conhecimentos inerentes ao desempenho da atividade.
• Adequar os conhecimentos às exigências da atividade.
• Revelar preocupações de permanente atualização, para melhorar o desempenho
• Ter motivação e curiosidade intelectual
(Re)Aprender
Desaprender, desde logo. Ou seja, questionar um conjunto de ideias tidas como certas, estar aberto às ideias dos outros e, sobretudo, ir bem para além das aproximações típicas ou convencionais para os problemas. Usamos os resultados da nossa experiência como uma oportunidade de crescimento.
• Refletir sobre as nossas experiências
• Procurar feedback sobre a qualidade do nosso desempenho
• Retirar lições dos nossos erros.
Planeamento
Saber estabelecer, de forma efetiva, objetivos e prioridades, definir os prazos, ações e recursos necessários à concretização de determinados objetivos. Capacidade para firmar acordos bem definidos e viáveis e assegurar que os mesmos são cumpridos nas respetivas datas.
• Definir objetivos de curto e longo prazo e criar condições para o seu alcance
• Estabelece objetivos claros e concretos e resultados a atingir
• Desenvolver planos com base nesses objetivos
• Definir no tempo as ações e recursos necessários para alcançar os resultados
Análise e resolução de problemas
O que significa saber decompor, partir em pedaços, situações, decisões, métodos, procedimentos, resultados, perceber relações de causa-efeito, estabelecer prioridades de atuação, formular ideias e formas alternativas de atuação. Isto porque nos obriga a
• procurar a informação necessária para uma decisão bem fundamentada.
• apresentar soluções e alternativas em situações problemáticas e difíceis
• antecipar possíveis obstáculos e antever soluções
E tudo isso ajuda a tomar decisões de qualidade com impacte significativo nos resultados do que nos encontramos a fazer.
Criatividade/inovação
Encontrar soluções novas para problemas ou dificuldades inesperadas que se lhe deparam.
• Perguntar sistematicamente “E se…?”
• Querer e saber identificar oportunidades (mesmo a partir de ameaças)
• Ser recetivo/as a novas ideias e dar-lhes o benefício da dúvida.
• Estabelecer relações que outros não identificam ou reconhecem
• Com os mesmos recursos disponíveis, conseguir reconfigurá-los de uma nova forma, acrescentando valor, poupando tempo, melhorando eficiência e eficácia
Eficácia comunicacional
Saber transmitir ideias de forma clara, precisa e objetiva, adequando-as às características do recetor.
O que significa:
• Saber colocar-se no lugar do outro.
• Controlar as suas emoções de forma a não prejudicar a comunicação.
• Os 5 C da comunicação: ser claro, coerente, conciso, correto e cortês.
Ética e valores
Comportamentos baseados em condutas moral, deontológica e socialmente aceites.
• Demonstrar consideração pelos direitos dos outros, agindo de forma clara e honesta – por exemplo, respeitando direitos de propriedade intelectual.
• Manter uma postura ética no que diz respeito a informações confidenciais.
• Assumir a responsabilidade dos seus atos e das suas opiniões.
• Assumir as tarefas e responsabilidades que nos foram delegadas.
• Respeitar as condições acordadas quanto à qualidade do trabalho.
• Estabelecer interações numa perspetiva multicultural, intercultural e plurissocial (evitar preconceitos e enviesamentos)
• O que significa sermos contrários/as a qualquer forma de preconceito ou discriminação sexual, étnica ou social.
• Reconhecer erros cometidos.
• Aceitar a crítica, quando fundamentada.
Orientação para a qualidade
Procurar ajustar os resultados do nosso trabalho com os parâmetros de qualidade definidos.
• Reavaliar constantemente o trabalho e os resultados.
• Ter preocupações de melhoria contínua.
• Apresenta trabalho de acordo com as normas de qualidade vigentes.
• Verifica a exatidão da informação, de forma a executar um trabalho de excelência.
• Supervisiona cuidadosamente os detalhes e a qualidade do trabalho efetuado
Pensamento crítico
Capacidade de questionamento constante, de sistemática correção de erros, no que diz respeito ao modo como raciocinamos e, portanto, como agimos.
• Expressar as ideias de modo claro (não ambíguo ou equívoco), permitindo que se possa determinar se são certas e relevantes.
• Valorizar a exatidão (certeza, verdade, capacidade de verificação) das informações e das ideias expressas.
• Sermos preciso no modo como nos expressamos, fornecendo os detalhes essenciais à avaliação do que dizemos.
• Expressar e valorizar ideias pertinentes (as que têm a ver com o tema em questão).
• Valorizar os raciocínios e as ideias lógicas (as que se depreendem umas das outras e se apoiam umas às outras – não se contradizem).
• Quando confrontados com problemas complexos, valoriza a profundidade da análise, em detrimento da superficialidade facilitadora.
• Analisar as questões de forma ampla, encarando as várias perspetivas ou pontos de vista possíveis.
Por isso, e em jeito de remate, para além de me sentir enormemente honrado pelo convite, julgo que vos será agora claro por que razão eu não podia perder uma oportunidade de partilhar estas minhas impressões, opiniões e preocupações com uma importante audiência de potenciais investigadores. Isto faz parte integrante de quem sou, das curiosidades intelectuais que me animam e da forma como julgo que vale a pena estar na vida.
Permito-me terminar com uma ideia de Fran Lebowitz, uma escritora estadunidense conhecida pela sua ironia, pois encerra um excelente alerta para duas das muitas preocupações que devem ter como investigadores.
Ela sugeria Think Before you Speak. Completava dizendo Read before you think.
Não custa muito, em boa verdade. Ter de ler muito e ainda ser pago por isso? Há, seguramente, atividades bem piores.
Cabe-me voltar a agradecer a confiança que o Prof. Uipirangi e a Profª Veridiana em mim depositaram. Espero, sinceramente, não os ter desapontado.
João Gouveia
junho de 2021