EM JEITO DE RECONHECIMENTO
Caros/as companheiros/as,
Quanto mais as notícias me expõem às vossas mundividências, mais uma ideia me vai ocupando o cérebro: vocês são, indiscutivelmente, os eleitos para a glória ainda em vida.
O vosso impulso para as virtudes do passado, de par com o conhecimento exaustivo (e muito hermenêutico) da Bíblia, da história do cristianismo e dos exemplos de fervor religioso de santos abrem-vos hipóteses únicas de repetir, no presente e de forma fiel, uma vida integralmente dedicada ao espírito, podendo até culminar em beatificação ou canonização.
Por que não pensam, por exemplo, em ressuscitar a vida dos Padres do Deserto? De entre eles, recordem-se dos anacoretas, exemplos incontestados de mártires que se humilhavam, desprezavam, depreciavam e morriam vivos.
Orígenes, por exemplo, cortou os testículos. Eis uma sugestão para começarem, caso pretendam a canonização direta. Pensem nas vantagens. Com um só gesto, revelam a entrega incondicional a Deus, livram-se dos pecados e da tentação da carne e, não menos importante, contribuem, a prazo, para uma Humanidade melhor.
Entendo perfeitamente que nem todos pretendam começar com mutilações físicas. Para esses, a sugestão de reproduzir o exemplo de Santo Antão, que se fechou num sepulcro vários meses, apenas o abandonando para se dirigir ao deserto, estabelecendo domicílio para uma vida frugal numa ruína infestada de serpentes. Atribuía-se apenas o luxo de uma refeição de pão de dois em dois dias e privava-se de sono - não mais do que duas a três horas por dia, no chão. Assim privados de sono e alimentação, podem mesmo ter visões, corolário justo e lógico para quem, como vós, pensa, age, sente e vive com alucinações e agradece a Deus ser dirigido por um comprovado alucinado.
Há muitos outros exemplos modelizadores. Para todos os gostos, diria até.
Santo Isidoro vestia de farrapos, bebia águas das lavagens e simulava a loucura por humildade. Santo Efrém só comia ervas e raízes, pastando como um animal. David e Adolas viviam dentro de árvores, estilo que São Marão aprimorou, escolhendo troncos com grandes espinhos. David de Tessalónica vivia imóvel dentro de um tronco. São Tiago habitava em túmulos, na companhia de mortos ressequidos ou feitos em pó. São João, o Pequeno, regou durante anos um pau seco no deserto e ia buscar água a três quilómetros de distância. Santo Arsénio, o Romano, comia de gatas o pão que lhe atiravam para o chão, bebia água estagnada e comia duas ameixas e um figo por dia, ... desde que estivessem podres. São Shenute, depois de anos a viver num poço, tinha por hábito subir para cima de um tijolo para rezar, até se desfazer em suor e lágrimas. São Simão, o Estilita, instalou-se durante anos no topo de uma coluna de 25 metros de altura.
Caso sejam mais dados a agrupamentos, têm sempre a hipótese do cenobitismo. Juntem-se em comunidades que primam pelo jejum e pelas mortificações, tanto melhores quanto mais excessivas e penosas, muito trabalho, sono sentado, roupas iguais para todos, obediência canina ao líder (têm Trump e Bolsonaro como excelentes possibilidades), regras de clausura, separação entre monges e monjas, punições regulares, autoflagelo, humilhações, escarros, provas, recusas, etc.
Não faltam modelos, portanto. Como atrás prometia, a quantidade de oportunidades de fazer regressar o passado, nesse fervor religioso informado e iluminado que vos caracteriza, é infindável.
Sendo formador, disponibilizo-me já para, a título gracioso, orientar formações em contexto (à distância, como mandam as regras do confinamento), para que possam, de forma organizada e sistematizada, elevar o espírito castigando o corpo. Prometo como certo o objetivo da punição da carne. Já a questão do espírito terá de merecer, no vosso caso, uma aturada avaliação-diagnóstico.
Sugiro, ainda, que organizem um movimento internacional, começando com os vossos companheiros do Brasil. É, no mínimo, justo que, tal como vós, tenham prioridade na fruição deste tipo de oportunidades.
Estarão a perguntar-se, neste momento, como poderão realizar este sonho, tendo em conta que, contrariamente aos carniceiros que assassinaram Cristo - os judeus - não têm ao vosso alcance uma Terra Prometida.
Julgo ter uma solução. Usem as vossas proverbiais capacidades de lobbying para pressionar a atual administração republicana a ceder-vos um espaço suficientemente amplo no deserto do Arizona.
Sabemos que não gostam muito de misturas com infiéis, pelo que tudo faremos para o rodear de um muro, como tanto apreciam. Não me admiraria que Trump fizesse questão que fossem vocês a construí-lo.
Da minha parte, não pouparei esforços para vos apoiar nesta glorificação do passado religioso, infelizmente tão ignorado pelos incautos. Lembrei-me, até, de revitalizar uma prática que foi abandonada em meados do século XIX: os processos contra animais. O último processo deste tipo foi em 1846, na Eslovénia, sendo o acusado um porco. Ora, segundo Roger Waters (não, não é um santo), há, aí para os lados do vosso continente, dois porcos que se têm entretido a diabolizar os seus concidadãos. Um é loiro e diz-se empresário, o outro nem sei bem e reclama ser militar. Claramente, um sinal de Deus. Contem comigo.
Saudações evangélicas.
Vila do Conde, 4 de junho de 2020
Fonte: DECADÊNCIA - o declínio do Ocidente (Michel Onfray)