“Entretanto há polêmica e polêmica. Há uma ante a qual jamais recuaremos _ é a discussão séria dos princípios que professamos.” (Allan Kardec / Revista Espírita de Novembro de 1858)
A quem interessa fugir das polêmicas?
Antes, é importante ressaltar que em matéria de Espiritismo a análise, a pesquisa e a crítica séria caminham juntas, portanto haverá sempre assuntos para tratar, dúvidas para esclarecer, respostas para obter, que gerarão entendimentos divergentes, afinal o Espiritismo não tem só o lado moral, como pensam alguns, mas também o científico e o filosófico, que continuarão existindo sempre pois o Espiritismo é uma Doutrina progressista. Desse raciocínio devemos concluir que polêmicas sempre existirão e resolvê-las ou tentar resolvê-las é de extrema importância. Pelas declarações de Kardec e por seus apontamentos fica bastante evidente que tudo isso ocorria durante o período em que esteve envolvido com a preparação de suas Obras Espíritas. Por isso mesmo ele recomenda a todos que tenhamos tato para saber como tratá-las, paciência para aguardar o momento oportuno, e educação e respeito para não faltarmos com a caridade com o próximo, seja ele espírita ou não.
Obras apócrifas não são geradoras de equívocos e de polêmicas? Será que elas não existem atualmente? Será que estamos colaborando com a falta de critério na análise das obras contraditórias à Doutrina Espírita? Não disseram os Espíritos que a omissão é um erro que atrasa o nosso progresso, bem como a covardia ou a simples acomodação?
No Livro dos Médiuns, Cap. XXXI, Mensagens apócrifas, Kardec observa sobre um grupo que aceitou mensagens apócrifas de Jesus:
..."Entretanto, nesse círculo, aliás consciencioso, se bem que um tanto crédulo demais, não se faziam evocações, nem perguntas; tudo se esperava das comunicações espontâneas, o que, como se vê, não constitui certamente uma garantia de identidade. Com algumas perguntas um pouco insistentes e forradas de lógica, teriam facilmente reposto esse Espírito no seu lugar. Ele, porém, sabia que nada tinha a temer, porquanto nada lhe perguntavam e aceitavam sem verificação e de olhos fechados tudo o que ele dizia"...
Sem a análise das obras e das mensagens recebidas estaremos como esse grupo acima aceitando tudo: certo e errado, verdade e mentira, o que é possível e o que é utopia.
Diante de tantos conselhos de Kardec, por que, então, o "movimento espírita brasileiro" aconselha evitarmos as polêmicas? Seria para atender, equivocadamente, ao espírito que se denominou de André Luiz e recomendou aos seus seguidores: "Não critique, auxilie." ? Seria para que as obras contraditadas não fossem deixadas de lado, perdendo seus editores a parcela da renda que lhes cabem? Não nos cabe afirmar, deixando as reflexões e conclusões para o leitor.
O certo é que, com relação aos espíritos, podemos afirmar que se são superiores e sérios não se incomodam com os exames de suas mensagens. Vejamos os conselhos de São Luís:
O Livro dos Médiuns, Cap. XXIV
266. Em se submetendo todas as comunicações a um exame escrupuloso, em se lhes perscrutando e analisando o pensamento e as expressões, como é de uso fazer-se quando se trata de julgar uma obra literária, rejeitando-se, sem hesitação, tudo o que peque contra a lógica e o bom-senso, tudo o que desminta o caráter do Espírito que se supõe ser o que se está manifestando, leva-se o desânimo aos Espíritos mentirosos, que acabam por se retirar, uma vez fiquem bem convencidos de que não lograrão iludir. Repetimos: este meio é único, mas é infalível, porque não há comunicação má que resista a uma crítica rigorosa. Os bons espíritos nunca se ofendem com esta, pois que eles próprios a aconselham e porque nada têm que temer do exame. Apenas os maus se formalizam e procuram evitá-lo, porque tudo têm a perder. Só com isso provam o que são.
Eis aqui outro conselho que a tal respeito nos deu São Luís:
"Qualquer que seja a confiança legítima que vos inspirem os Espíritos que presidem aos vossos trabalhos, uma recomendação há que nunca será demais repetir e que deveríeis ter presente sempre na vossa lembrança, quando vos entregais aos vossos estudos: é a de pesar e meditar, é a de submeter ao cadinho da razão mais severa todas as comunicações que receberdes; é a de não deixardes de pedir as explicações necessárias a formardes opinião segura, desde que um ponto vos pareça suspeito, duvidoso ou obscuro."
José Herculano Pires no Livro "O Verbo e a Carne", na parte final do capítulo XIII nos alerta:
..."Por tudo isso – e pelas suas conseqüências desmoralizadoras – é necessário que os espíritas sinceros não se calem. É preciso dizer, alto e bom som, nas palestras e conferências, nos artigos e nos livros, a verdade sobre a obra de Roustaing. A análise que acabamos de fazer tinha a pretensão de ser apenas análise – e acabou nos levando obrigatoriamente ao terreno da acusação. Porque não é possível calar diante da astúcia dos mistificadores e da fascinação dos que a aceitam e aplaudem. É dever dos espíritas sinceros combater a mistificação roustainguista neste alvorecer da Era Espírita no Brasil. Ou arrancamos o joio da seara ou seremos coniventes na deturpação doutrinária que continua maliciosamente a ser feita. O Cristo agênere é a ridicularização do Espiritismo, que se transforma num processo de deturpação mitológica do Cristianismo. A doutrina do futuro nega-se a si mesma e mergulha nas trevas mentais do passado. O homem-espírita, vanguardeiro e esclarecido, converte-se no homem da era ante-cristã, no crente simplório das velhas mitologias."...
"Para o triunfo do mal basta que os bons não façam nada." (Edmund Burke)
O Livro dos Espíritos, 642. Basta não fazer o mal para ser agradável a Deus e assegurar um futuro melhor?
– Não. É preciso fazer o bem no limite de suas forças, porque cada um responderá por todo o mal que resulte do bem que não tiver feito.
Diante de tantas obras apócrifas e com erros doutrinários gritantes, atualmente editadas, podemos concluir que são poucos os que seguem os importantíssimos conselhos de São Luís.
E podemos concluir também que como Kardec, também devemos dizer:
Entretanto há polêmica e polêmica. Há uma ante a qual jamais recuaremos _ é a discussão séria dos princípios que Allan Kardec professou.
Aires Santos da Costa
( Leiam o artigo: "De duas uma" )