Florbela d'Alma da Conceição Espanca foi uma poetisa portuguesa de enorme importância na literatura nacional. Nasceu a 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa.
Filha ilegítima de João Maria Espanca foi apenas reconhecida pelo seu pai, homem burguês, após a sua morte. Inicialmente casado com Maria do Carmo Toscano que, por não poder ter filhos, autorizou o marido a ter relações extraconjugais com Antónia da Conceição Lobo - a mãe de Florbela Espanca.
Com sete anos, começou a escrever os seus primeiros textos, no qual se refletem os sintomas iniciais de uma doença nervosa. Publicou o seu primeiro livro com 25 anos, "Livro de Mágoas". Estudou em Évora, onde concluiu o curso liceal, ingressando posteriormente na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. Florbela sempre se manteve afastada da vida política, tendo vivido durante as Revoluções Republicanas. Contudo, isto não a impediu de ter o papel de representante do feminismo. Enquanto estudante universitária destaca-se por expressar a sua rebelião feminista na sua indumentária, tipicamente associada ao género masculino. Muitos poemas seus fazem alusões à mulher, à paixão e sensualismo feminino e dificuldades que ela experiencia num mundo patriarcal, com carácter confessional.
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!
Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!
"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!
E, olhos postos em ti, digo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!..."
Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que Alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver
E que nunca na vida me encontrou!
Subi ao alto, à minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E pus-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: “Que fantasia,
Criança doida e crente! Nós também
Tivemos ilusões, como ninguém,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...”
Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Céu!...
Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguém cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no céu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho... E não sou nada!...
Página editada por:
Henrique Rei