Pergunta: Está permitida a poligamia no judaísmo? Se é assim por que não o contrário, a poliandria? Por que está proibida a seu marido a esposa que o trair, mas o marido pode trair sua esposa e não estar proibido para ela?
Resposta: O matrimônio e sua estabilidade é a base da vida judaica e a pedra angular, o fundamento sobre o qual repousa toda a Torá. Qualquer dano cometido contra o casamento e o núcleo familiar, seja ele emocional, econômico, na educação das crianças ou de qualquer outra espécie arrisca causar danos irreversíveis na estabilidade da família e da sociedade como um todo. Comecemos por salientar de que um marido não pode trair sua esposa 'has veShalom, nem enganá-la, como poderíamos inferir da pergunta.
De fato, a Torá cita apenas "אשה סוטה", uma mulher que "mudou de caminho/direção" e não homem, e fala apenas do "איש מקנא", homem zeloso, e não de uma mulher ciumenta, mesmo se a priori os casos de traição são mais comuns da parte dos esposos que o contrário.
Note que a Torá tem regras básicas de interpretação como aquelas compiladas na beraïta de Rabi Yshmael. A leitura superficial não basta para apreender todo o contexto. Ao trair seu esposo, a mulher deve fazê-lo com alguém, e este alguém é tão responsável quanto ela pelo ato, e seu castigo equivalente. Ele seria condenado a morte.
Note que neste caso um marido não pode trair sua esposa com uma mulher casada, mas poderia de acordo com a Torá casar-se com uma segunda mulher. No momento do Matan Torá não havia proibição de um homem casar-se com mais de uma mulher. Como não existe proibição como esta, o homem que enganou sua esposa com uma mulher solteira não é passível de pena de morte e poderia, caso sua esposa o perdoasse (por mais difícil que fosse) permanecer casada com ele. Note que isto não significa que ele seria merecedor de um prêmio nobel!
Na Torá, tivemos patriarcas casados com várias mulheres, como Avraham e Yaakov, e Its'hak casado com uma só. Alguns reis tiveram muitas esposas, como David e Shlomó. Note no entanto que cada um tinha um alma gêmea e tomaram suas demais esposas por circunstâncias da vida - Avraham tomou Agar por conselho de Sara, Yaakov foi enganado antes de Tomar a Lea, e suas demais esposas lhe foram oferecidas por Ra'hel e Léa. A alma gêmea de David era Bat-Sheva e o filho de outra esposa, Abshalom, tentou matá-lo. Shlomó tentou trazer a gueulá para o mundo associando-se a todos os monarcas da época mediante suas filhas que trariam a mensagem da Torá a todas as nações e terminou tendo Avodá Zará em seu palácio.
Não cabe aqui entrar no âmbito do midrash segundo o qual o homem (ou a mulher) tem muitos níveis de "Zivug", primeiro, segundo, etc., que podem perder-se de acordo com as condições de vida, nem da Mitsvá de casar-se com a viúva de um irmão falecido (Ibum) de quem os filhos serão o retorno das almas que deveriam vir ao mundo da progenitura do irmão falecido e não dele próprio.
Mantendo-se entretanto no sentido simples da Torá, a poligamia na Torá não parece ser uma condição a manter-se a todo momento mas uma solução para determinadas situações de vida, e o "Din", justiça estrita aqui representada pelo patriarca Its'hak, seria Ist'hak e Rivká, um para cada. Lembremos ainda que D.eus é um, e que o homem foi criado à semelhança de D.eus. Como o homem são duas metades, então um homem e uma mulher juntos formam um, como D.eus, não dois ou três. Como o mais importante que D.eus neste mundo é o homem, neste momento sublime o homem e a mulher tornando-se um, fazem-se semelhantes a D.eus.
Convém notar que em contextos de casamentos com mais de uma mulher no passado, cada esposa tinha sua moradia (ou sua tenda) com seus filhos e individualidade e o marido passava seu tempo em uma ou outra - Yaakov, de acordo com a shechiná - assim relata o midrash.
A parte disto, passados alguns séculos em nosso exílio amargo e considerando a degenerescência das últimas gerações, o homem fez-se menor e menos capaz do que aqueles das antigas gerações. Nossa geração é comparável a um anão sentado às espaldas de um gigante. "Nanás al gabei Anak", ou seja é verdade que vemos mais longe e que nossas vidas são substancialmente mais cômodas que a de nossos antepassados, mas unicamente por que tivemos estes últimos que construíram e pavimentaram os caminhos pelos quais evoluímos, em condições infinitamente mais duras que as nossas. O homem de hoje provavelmente já não tem a capacidade de administrar desinteressadamente mais de um matrimônio. Esta é a razão pela qual o 'herem de Rabenu Guershom ainda no século XI, o qual proscreve casamentos com mais de uma mulher foi quase universalmente adotado em todas as comunidades judaicas com o passar do tempo.
Note que isto não foi sem consequências. No passado, praticamente não haviam mulheres solteiras ou sem filhos. Ser solteiro e sem filhos aos 45 anos é um problema eminentemente feminino de hoje, salvo algumas exceções. Se por um lado os progressos da ciência permitem a qualquer casal ter filhos sem necessitar casar-se novamente depois de 10 anos em caso da mulher não poder conceber, por outro há quem diga que o retorno das leis da Torá a sua essência poderia resolver a questão da solidão e do celibato prolongado.
Neste momento da história em todo caso, isto não está em pauta. O 'herem segue firme e forte e nenhum rabino importante trabalha ativamente para revertê-lo, não que se saiba em todo caso. Considere um último ponto que ouvi do nosso Rav, ao contar de como nos perturba ou perturba a sociedade a ideia de que um homem possa casar-se com mais de uma mulher oficialmente, ou ainda que seja prática comum entre os muçulmanos - mas como extra oficialmente, ou antes do casamento poderá ter quantas quiser....