Nascido a 5 de Abril de 1950, em Chibuto, província de Gaza, Mucavel mudou-se para a então cidade de Lourenço Marques.
“Vivia no bairro Xipamanine e eu queria tanto tocar guitarra. Fui para o Centro Associativo dos Negros de Moçambique. Mas para guitarra já não havia vaga. Disseram-me que só podia tocar trompete. Marcelo, trompetista dos ‘Monstros’, passou umas notas no caderno e fui alugar o instrumento no Tamele para aprender. Aliás, acabei por comprar o trompete”, conta Mucavel.
Segundo ele, os ensaios para aprendizagem foram intensos. “Ensaiava em cima da árvore das 7 às 11h00 e à noite. O resultado foi visível. Em um mês já tocava trompete porque já vinha com algumas noções de solfejo. Toquei no centro e fui ovacionado. Aliás, nessa época cheguei a ser considerado o melhor trompetista de Moçambique”, conta.
Mucavel passou a tocar no grupo “Os Escravos”, mas, por razões diversas, abandona o grupo e cria os “Psicadélicos” em 1969. “O grupo ‘Psicadélicos’ tocava soul music e cantávamos no Xipamanine e nos casamentos. Depois juntei-me ao ‘Djambu 70’. Depois saí e fui tocar com um grupo de jovens brancos chamado ‘Conceito’, onde desenvolvi outro tipo de conhecimento sobre o jazz e o blues. Ensaiávamos na então Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, hoje Presidência. Cresci bastante com esse grupo e, a partir daí, comecei a ser convocado para outros grupos. Também toquei para ‘Alta Tensão’, um dos melhores grupos que tivemos na altura”.
Mucavel foi perseguido pela PIDE. “Fui para Beira em 1973. O ‘Conceito’ fazia parte do grupo dirigido por Ivo Garrido –conjunto contra o sistema. Por causa da perseguição, abandonei o grupo e fui para Beira. Lá toquei por um ano com ‘Os outros’ e tinha como colega, entre outros, Ricardo Palma Pinto. O senhor da PIDE seguiu-me e de lá fugi para Quelimane, onde também toquei com Biriba, músico local. O mesmo gajo da PIDE foi atrás de mim”, explica.
A perseguição não parava. A PIDE foi até Quelimane e, mais uma vez, Mucavel apercebeu-se e fugiu para Chibuto. “Acabei saindo de Chibuto por temer que viesse à minha casa. Fui para Chókwè, onde encontrei Plácido e Paulo Zucula. Fundámos um grupo, mas puseram-me como professor da 4.ª classe para conseguir ter salário. Lá mesmo encontrei o Comissário Mahanjane, contei-lhe a história. Ele namorou-me e entreguei-me na Frelimo”.
Texto de FREDERICO JAMISSE