Jorge Martins Bettencourt
Janeiro 2026
A guinada brusca da política externa dos Estados Unidos inaugurou um novo tempo, o da "Doutrina Donroe". Pela sua lógica, aliados tornam-se adversários e a cooperação cede à pressão. Assim, o tradicional papel de Portugal como mediador entre Washington e a Europa tornou-se inviável. No novo cenário, Portugal tem de abraçar definitivamente a autonomia europeia. O tempo da ambiguidade acabou e é a hora das escolhas nítidas, determinadas por aquela doutrina.
A "Doutrina Donroe" não é apenas uma mudança de rota. Representa a reescrita das regras do jogo global. Formalizada na Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025 (NSS), ela é o corolário de Trump à Doutrina Monroe. Converte a Europa, de parceira, em rival estratégica e encerra abruptamente o consenso transatlântico do pós-guerra.
A NSS é uma declaração de guerra política contra a União Europeia. O texto critica as políticas regulatórias europeias e acusa-as de prejudicar a liberdade política. Procura incentivar a resistência nos países europeus, apoiando movimentos populistas e "patrióticos". A mensagem é directa: uma Europa unida já não interessa a Washington. Para os EUA, a Europa passou a ser um rival a ser enfraquecido por dentro.
Dividir a Europa tornou-se o objetivo declarado dos EUA, como ficou claro na intervenção militar na Venezuela. Paris e a liderança da União Europeia condenaram a ação, alegando que ela violava o direito internacional. Já o governo italiano de Giorgia Meloni optou por um apoio indireto, tentando preservar laços com Washington. Os americanos exploram essas fissuras. Premeiam quem colabora e punem economicamente quem defende a autonomia da UE, como França e Alemanha. A tática de "dividir para reinar" paralisa a capacidade de ação conjunta da Europa.
Portugal sente diretamente essa divisão estratégica. Durante anos, a diplomacia portuguesa ancorou-se na ideia da "ponte atlântica". Agora, a "Doutrina Donroe" obriga Lisboa a escolher entre lealdades históricas. Os Estados Unidos são o maior parceiro comercial do país fora da UE, absorvendo quase 5 mil milhões de euros em exportações anuais. Por isso, o dilema é complexo.
A Base das Lajes, nos Açores, simbolizou a aliança entre Portugal e os Estados Unidos. Com a “Doutrina Donroe”, a base pode ser vista como uma forma de cumplicidade. Em 2025, a atividade aumentou, sobretudo com aviões de reabastecimento americanos. No futuro, permitir o uso para operações rejeitadas na Europa, África e América do Sul pode afastar aliados. Recusar pode acarretar retaliações dos EUA.
A pressão dos Estados Unidos é clara e forte. O ex-embaixador americano George Glass exigiu que Portugal se posicionasse "entre os seus amigos e aliados e a China". O tema envolvia o 5G e investimentos em infraestruturas, como o Porto de Sines, e já mostrava o que estava por vir. Com a “Doutrina Donroe”, a exigência de alinhamento total tornar-se-á ainda mais rigorosa. Washington pode cortar a partilha de informações de segurança e a cooperação na NATO caso Lisboa não obedeça.
O regime tarifário imposto pelos EUA em 2025 atingiu os sectores exportadores nacionais e evidenciou a vulnerabilidade da economia do país. Com as novas taxas aduaneiras americanas, o imposto sobre o calçado português nos EUA pode chegar a 30% ou 40%. Sectores como o calçado e o têxtil já alertaram para os riscos elevados de perda de empregos, especialmente no Norte. O sector dos vinhos também depende amplamente do mercado americano. Para competir, os produtores nacionais reduzem as suas margens, o que ameaça muitos negócios. Em contraste, a cortiça ficou isenta de impostos por ser essencial para os vinhos americanos. Isso mostra o lado prático da “Doutrina Donroe”: as concessões só ocorrem quando beneficiam diretamente os interesses dos EUA.
Portugal tem diante de si uma escolha inadiável: abandonar definitivamente as velhas ilusões atlânticas e assumir o desafio de ajudar a construir uma Europa mais autónoma. Qualquer tentativa de agradar a todos é um risco real de desaparecer na irrelevância da História. É o momento de agir com determinação.
A velha aliança atlântica, fundada em valores comuns, acabou. Os EUA agora adotam uma política de força e intervêm diretamente nos assuntos europeus. Combinam pressão externa, como tarifas e coerção, com apoio a movimentos que corroem a Europa por dentro. Washington apoia abertamente forças iliberais, como o Chega em Portugal. O objetivo é transparente: enfraquecer a União Europeia.
Confiar nos EUA, quando estes atacam economicamente a Europa, é uma contradição insustentável. O fracasso do acordo UE-Mercosul escancara essa realidade. O tratado naufragou tanto pela hesitação europeia, marcada pelo proteccionismo agrícola francês, como pela pressão directa de Washington para barrá-lo. Portugal e a Europa perderam a oportunidade de diversificar os mercados. O episódio revela a urgência de uma política externa e económica europeia mais coesa e ativa.
Paradoxalmente, a instabilidade americana aumentou o investimento dos EUA em Portugal, visto como um "porto seguro". No entanto, é preciso distinguir o fluxo de capital do alinhamento político. Washington semeia instabilidade geopolítica, enquanto o capital americano se aproveita da estabilidade de países como Portugal. O que dificulta uma resposta política unificada à pressão dos EUA.
O dilema de Portugal é claro: escolher entre submeter-se a uma hegemonia volátil, que trata o país como descartável, ou assumir um papel activo na construção de um futuro europeu soberano. A sobrevivência e a dignidade nacionais exigem coragem para que Portugal supere as suas fragilidades e se torne, com determinação, um pilar sólido de uma Europa unida.