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Espiritismo



ESPIRITISMO

 

I

O Espiritismo é uma doutrina espalhada pelo mundo inteiro. Conta milhões de adeptos e simpatizantes.

Esta doutrina mergulha nas origens misteriosas da humanidade.

Mais religião do que filosofia, mais crença do que ciência, o Espiritismo é uma aventura fantástica que vai beber nas irrupções infinitas da imaginação.

A abordagem espírita dá testemunho das maiores angústias da espécie humana:

- Os lancinantes desgostos provocados pelo desaparecimento das pessoas amadas;

- Os terrores que a morte inspira.

Dá também o testemunho da... esperança.

 

O Espiritismo em Traços Gerais

O Espiritismo é uma doutrina de origens primitivas. Assenta na crença arcaica do dualismo do corpo e da alma. Para além desta, admite ainda a existência de um terceiro princípio a que os antigos egípcios chamavam "ká", os teósofos chamam "corpo astral" e os espíritas modernos "perispírito".

Segundo esta concepção, o corpo é um composto material enquanto a alma possui uma essência imaterial superior, divina. Quanto ao perispírito, é constituído por um "fluido" transformável; trata-se de uma espécie de invólucro com propriedades electromagnéticas que, durante a vida corporal, mantém a alma no corpo. Este invólucro não se aniquila com a morte; antes obriga a alma a permanecer no nosso planeta e a errar nele ainda durante algum tempo. As formas, visuais ou não, designadas fantasmas e espectros são, na realidade, "espíritos", isto é, almas ainda prisioneiras do seu perispírito e que aguardam uma nova reencarnação ou o retorno definitivo a Deus. Estes espíritos têm a faculdade de se manifestar e até de se "materializar" em certas condições.

Para além das suas crenças e rituais, os espíritas defendem posições a nível moral e social. Eles apresentam-se como defensores de um "espiritualismo" e de um "socialismo" hostis, muitas vezes ferozmente, às teorias materialistas.

Os espíritas procuram penetrar num mundo imaterial pelas vias do sobrenatural, mundo esse em que o racionalismo científico não aceita embrenhar-se. No entanto, a psicologia, a fisiologia e a biologia modernas, ao rejeitarem os postulados espíritas, não negam a existência de forças ainda misteriosas que parecem escapar às leis que normalmente regem os fenómenos físicos.

 

O que é um Espírito?

O espiritismo, seja moderno ou antigo, não reúne consensos satisfatórios, nem mesmo entre as diferentes escolas por onde se espalham milhões de indivíduos. A doutrina é combatida por forças tão diferentes como a Igreja Católica e os movimentos de inspiração materialista e discutida, senão repelida, sobretudo na sua teoria "kardecista", pela maior parte dos metapsiquistas e dos psicanalistas ocidentais.

O espiritismo moderno, fundado por Allan Kardec, para fortalecer e comprovar as suas teses doutrinárias, recorre muito aos textos bíblicos, principalmente ao Novo Testamento.

Em que é que a Bíblia nos poderá ajudar sobre esta temática? Não está toda ela estruturada no Espírito e nos espíritos? Ali se afirma que "Deus é Espírito".

Como devemos entender a palavra "espírito"?

Os Evangelhos apresentam um relato em que nos é possível atingir, quase na totalidade, a solução do problema colocado pelos "espíritos", desde que saibamos enquadrar o nosso raciocínio na correcta perspectiva de análise. Os textos em estudo são extraídos do Evangelho Unificado, dado que só através deste livro é que possuímos a necessária visão de conjunto do que foi a vida terrena de Jesus o Cristo.

Então, leia-se atentamente o extracto seguinte:

«Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus;

E, falando eles destas coisas, o mesmo Jesus se apresentou,

E pôs-se no meio deles, e disse-lhes: "Paz seja convosco".

E eles, espantados e atemorizados, pensavam que viam algum espírito.

E ele lhes disse: "Porque estais perturbados? e porque sobem tais pensamentos aos vossos corações?

Vede as minhas mãos e os meus pés, que sou eu mesmo; apalpai-me e vede; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vedes que eu tenho".

E, dizendo isto, mostrou-lhes as suas mãos, e os pés, e o lado.

E não crendo eles ainda, por causa da alegria, e estando maravilhados, disse-lhes: "Tendes aqui alguma coisa de comer"?

Então eles apresentaram-lhe parte de um peixe assado e um favo de mel.

O que ele tomou e comeu diante deles

(Lucas 24: 36 a 43. João 20: 19, 20).

O acontecimento teve lugar depois da crucificação e sepultura de Jesus, mais exactamente no dia em que ele ressuscitou, um Domingo. O Sol já se tinha posto e a Lua-Cheia subia no céu estrelado a Oriente de Jerusalém, na direcção do nascente, sobre o Monte das Oliveiras. Neste local, os discípulos encontravam-se reunidos numa casa com as portas trancadas. Jesus chegou ali e, depois, se apresentou no meio deles.

Por onde entrou Jesus? Atravessou as portas fechadas ou as paredes da casa? Para um espírito, supostamente imaterial, seria fácil. Por isso, os discípulos ficaram espantados e atemorizados, pensando que viam algum espírito. E é aqui que começa o quebra-cabeças.

Jesus apressa-se a tranquilizá-los, afirmando que não é um espírito mas sim ele mesmo e convida-os a apalparem-no para sentirem a sua pessoa, pois um espírito não tem carne nem ossos. Como nem assim acreditavam, pede-lhes comida e come diante deles, pois os espíritos também não comem.

O quebra-cabeças está sem solução: como é que Jesus entrou naquela casa se não era um espírito, mas ele próprio em pessoa, com carne e ossos, palpável? Será que o texto evangélico é irrealista e, por isso, mentiroso? Estamos tentados a pôr de parte este assunto, dada a sua extravagância. Todavia, não queremos arrumar o assunto desta maneira tão fácil e cómoda. Portanto, seguimos em frente.

Entrou pelo telhado? Se foi por aqui que entrou, já teremos um começo de solução apesar de surgirem outras dificuldades. Habitualmente, as casas situadas no campo palestino possuíam acesso ao telhado, quer por intermédio de uma escada colocada no exterior como no interior. Neste último caso, havia uma abertura para subir ao telhado e dele descer. Porém, a escada de acesso exterior devia ter sido retirada a fim de evitar a eventual escalada dos judeus que perseguiam os discípulos. Estes estavam espantados porque não só o seu Mestre ressuscitado subiu ao telhado pelo lado exterior como até desceu pelo interior, colocando-se no meio deles, de onde a escada devia ter sido igualmente retirada. Jesus, literalmente voou! (levitou?). Assim eles estavam na incerteza e ficaram atemorizados. Se aceitarmos esta cena como um facto e conseguirmos descobrir a explicação plausível de tão estranha fenomenologia, suspeitamos que as teses espíritas ficarão em má situação e com elas todo o espiritismo tal como é vulgarmente entendido.

A nossa perplexidade no entendimento desta narrativa decorre das seguintes premissas:

- Jesus morreu e ressuscitou em carne e ossos, não em espírito ou ser imaterial;

- A sua presença pessoal e material não invalida a conjectura que o pudesse ter feito de forma espiritual.

Sendo assim, é forçoso reconhecer que existe um flagrante equívoco por parte do espiritismo acerca da concepção do "espírito" e da interpretação deste termo nas escrituras sagradas. Aliás, a palavra "espírito" parece ser a que está mais carregada de equívocos, mesmo nos textos bíblicos.

Várias formações religiosas cristãs têm procurado oferecer fórmulas para identificarmos os espíritos. Uma dessas fórmulas é no mínimo curiosa, sendo fornecida pela Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, mais conhecida por Mormonismo.

Admitamos que Joseph Smith não foi um inventor da religião que fundou. Para os seus seguidores, é uma pura questão de fé e de crença exercidas nos mesmos arquétipos das outras religiões. Será possível uma atitude científica face aos mesmos fenómenos que nos esclareça se a Joseph Smith aconteceu algo que ele transformou em religião mas não sabemos bem o quê? A comunidade científica também não aceita o mormonismo, classificando o seu fundador de hábil mentiroso. Mas esta é, igualmente, uma atitude demasiado simplista e cómoda que não conduz ao esclarecimento de certos enigmas que envolvem o aparecimento de tão desconcertante religião.

Colocamos à vossa consideração um excerto da doutrina de Joseph Smith, contida num livro intitulado "Doutrina e Convénios" e que se baseia nas suas pretensas visões e revelações (pág. 279 na edição portuguesa):

«1. Nos céus existem duas espécies de seres, a saber: Anjos, que são pessoas ressuscitadas, tendo corpos de carne e ossos —

2. Por exemplo, Jesus disse: Apalpai-me e vêde; pois um espírito não tem carne nem ossos, como vêdes que eu tenho.

3. Segundo: Os espíritos de homens justos aperfeiçoados, os quais não são ressuscitados, mas que herdam a mesma glória.

4. Quando um mensageiro aparecer dizendo trazer uma mensagem de Deus, oferece-lhe a tua mão e pede que aperte a tua.

5. Se for um anjo, ele o fará e tu sentirás a sua mão.

6. Se for o espírito de um homem justo aperfeiçoado, ele virá em sua glória; pois esse é o único meio em que pode aparecer -

7. Pede que te dê a mão, e ele não se moverá, porque é contrário à ordem dos céus que um homem justo engane; mas ele ainda te dará a sua mensagem.

8. Se for o diabo, fazendo-se de anjo de luz, quando pedires que te dê a mão, ele a dará, e tu não sentirás coisa alguma; poderás então discerni-lo.

9. Estas são as três grandes chaves pelas quais poderás saber se uma administração provém de Deus.»

Parece ser uma óptima receita para distinguir os anjos dos espíritos e estes e aqueles do diabo! Mas se, num acto de boa vontade, continuarmos a dar crédito a Joseph Smith, quais foram as experiências por que passou e que ele interpretou desta maneira? Por muito estranho que pareça, existe aqui algo de muito semelhante ao que se relata em certos casos de Ufologia. Algumas testemunhas tentaram agarrar seres brilhantes com aspecto humano mas... encontraram o vazio nas suas mãos. Tal experiência causou-lhes imenso terror: esses seres não possuíam matéria!

Decididamente, não acreditamos em milagres mas acreditamos em tecnologias mesmo que estas estejam fora do alcance da nossa compreensão e sejam utilizadas por "alguém" que não se identifica. Ou talvez sim!

A ciência tecnológica humana já consegue projectar imagens em relevo, os hologramas, recorrendo à tecnologia dos raios "laser". É um trabalho de laboratório altamente sofisticado, ainda em fase de investigação e experiência. Prevê-se que no futuro seja possível utilizar a holografia de um modo prático e torná-la acessível à bolsa do comprador, tal como é agora a televisão a cores em ecrã panorâmico e som estereofónico. Então, ver-se-á a projecção de imagens, num espaço restrito, de objectos e seres de uma forma tão realista que parecerá poder-se tocar mas que não terão matéria tangível. Vê-se mas não se agarra! São imagens compostas por energia pura.

A tecnologia hologramica poderá fazer da palavra "espírito" um sinónimo de "energia". Neste caso, energia luminosa criando efeitos ópticos. De repente, certos enigmas das religiões, das lendas e dos mitos, que emergem da conotação com o mundo dos "espíritos", se tornam compreensíveis.

Estaremos a querer explicar um absurdo por meio de outro absurdo?

Quem envia (transmite) os "espíritos" não pode deixar de ser "alguém" de "carne e ossos", possuidor de tecnologias científicas que a nossa ciência humana ainda não domina nem entende. Os cientistas, como é óbvio, não podem aceitar o que não compreendem por não estar em conformidade com os postulados das suas teorias científicas no presente estágio, tal como não estavam, há cem anos atrás, os da televisão actual que praticamente todos temos em casa, onde recebemos a todo o momento, dentro de caixas, os "espíritos" de pessoas vivas que se encontram nos estúdios da TV (transmissão em directo) ou de pessoas já falecidas (transmissões em diferido, registos magnéticos e cinema).

A Ciência não se constrói com postulados de fé e de crenças ao nível da virtualidade da mente, mas sim com o recuo da ignorância rechaçada pelo avanço das investigações científicas. No entanto, parece que temos de salvaguardar a possibilidade de ter existido uma Super Ciência detida pelos nossos primeiros antepassados superiores que chegaram à Terra e que apenas sobrevive nas nossas memórias atávicas. Ciência que a humanidade começa, agora, a redescobrir.

Mas, para os ignorantes (referência não pejorativa) que se vêem confrontados com fenómenos deste tipo, provocados por entidades superiores que ainda existem nos Céus (Espaço) e ainda intervêm na Terra, só resta um caminho a seguir: o da religião vulgar a qual é uma forma um tanto irracional de viver aquilo que não se compreende mas que é, sem dúvida para o crente religioso, proveniente de uma ciência imensamente superior, transcendente e de natureza divina. É o domínio dos "espíritos", dos "deuses", ou de Deus se quisermos reduzir toda esta complexidade espiritual a um conceito abstracto mas passível de um culto prático, qualquer que ele seja.

Se as atitudes religiosas são muitas vezes incompatíveis com os postulados científicos e vice-versa, resta-nos ainda uma terceira via: a filosofia como forma de pensamento racional que permite reunir e compreender tudo o que se nos afigura incompatível entre Religião e Ciência. A filosofia humana, porém, constrói-se à medida que se obtém ciência ou saber e se faz recuar, no nosso pensamento, esse grande mal que nos aflige: a ignorância. O que implica muito esforço cerebral numa procura tenaz da causa primeira e última que se encontra por detrás da fenomenologia espírita.

 

II

A Primeira Visão de Joseph Smith

Parecer-vos-á incrível, mas o mormonismo talvez tenha trazido a chave que poderá explicar o espiritismo.

Analisemos a primeira visão, tal como está descrita no livro "Nosso Legado" (pág. 3):

«Numa bela manhã em meados de 1820, sozinho num bosque perto de sua casa, Joseph ajoelhou-se e abriu o coração a Deus, pedindo-lhe que o orientasse. Ele descreve o que aconteceu então da seguinte forma:

» "(...) Apenas fizera isto, quando fui subitamente subjugado por uma força que me dominou inteiramente, e seu poder sobre mim era tão assombroso que me travou a língua de modo que eu não pude falar. Intensa escuridão envolveu-me e pareceu-me por algum tempo que estivesse destinado a uma destruição repentina". (JS 2: 15).

»O adversário de toda a rectidão sabia que Joseph tinha um grande trabalho a fazer e tentou destruí-lo. Joseph, porém, empregando todas as suas forças, clamou a Deus e foi imediatamente salvo.

» "(...) justamente nesse momento de grande alarme, vi uma coluna de luz acima da minha cabeça, de um brilho superior ao do sol, que gradualmente descia até cair sobre mim.

Logo após esse aparecimento, senti-me livre do inimigo que me havia sujeitado. Quando a luz repousou sobre mim, vi dois Personagens cujo resplendor e glória desafiam qualquer descrição, em pé, acima de mim, no ar. Um Deles falou-me, chamando-me pelo nome, e disse, apontando paro o outro: Este é o Meu Filho Amado. Ouve-o!" (JS 2: 16, 17).

»Tão logo voltou a si, perguntou ao Senhor qual das seitas religiosas estava certa e a qual deveria filiar-se. O Senhor respondeu que "não [se] unisse a nenhuma delas, porque todas estavam erradas" e que "todos os seus credos eram uma abominação à Sua vista". Disse que tinham "religiosidade aparente", mas negavam "o Meu poder". (JS 2: 19). Disse muitas outras coisas a Joseph.

»Ao término da visão, Joseph percebeu estar deitado de costas, olhando ainda para o céu. Aos poucos, foi recobrando as forças e volteou para casa.»

Joseph Smith tinha 14 anos de idade quando recebeu esta visão.

Sabendo o que já sabemos sobre a fenomenologia ufológica actual, afigura-se-nos difícil aceitar que aquele adolescente tenha inventado tal visão. O paralelismo com os fenómenos ocorridos em Fátima em 1917, quase um século depois, são surpreendentes; também aqui, os três pastorinhos, apenas crianças, não os podiam ter inventado.

Voltando à visão do jovem Joseph, consideremos os seguintes pontos importantes:

1. A visão inicia-se quando o Sol, radioso, está próximo do meio-dia. Simultâneamente, ele sente-se paralisado por uma força estranha no seu corpo e uma escuridão a envolvê-lo. No bosque em que se encontrava, as árvores são altas e as copas não deixam ver o que está acima delas, no céu, interposto entre o Sol e o vidente. Tanto a força paralisante como a escuridão são sentidas como uma tentativa do diabo para o destruir. Actualmente, diríamos que eram as consequências directas da presença de um UFO: forças ou energias antigravíticas provenientes de um objecto a tapar o Sol naquele lugar.

2. Neste cenário de paralisação e escuridão, o vidente observa a descida de uma "coluna de luz", por entre os troncos das árvores, que se detém sobre a sua cabeça. Essa coluna (teleportador?) transporta duas personagens que se apresentam como sendo uma o próprio Deus em pessoa, no dizer de Joseph, e a outro o seu Filho Jesus Cristo. Seriam seres de "carne e ossos" ou "espíritos"? Joseph não esclarece, mas é lógico supor, dada a sua extrema luminosidade, que fossem projecções holográficas (espíritos) de seres reais situados noutro lugar.

Esta visão de Joseph Smith propõe questões teológicas aberrantes. Deus aparece antropomorficamente, à maneira das antigas mitologias, o que é inaceitável, quer para judeus, quer para cristãos católicos. O Criador do Universo jamais apareceria assim a um simples mortal, só porque este o solicitou numa prece. Ora, o mormonismo sustenta que o Deus Criador do Universo, juntamente com o seu Filho Jesus Cristo, apareceu ao seu profeta, no que os mórmones acreditam profundamente.

Vale ainda a pena observar as circunstâncias em que ocorreu a visão. O jovem Joseph encontrava-se perante um dilema causado pelas dissensões entre os vários grupos religiosos cristãos cujos líderes pregavam nos Estados Unidos da América.

O fenómeno das dissensões cristãs começou logo no início da organização da chamada Igreja dos Gentios. O grande organizador desta Igreja foi o Apóstolo Paulo, inicialmente perseguidor dos cristãos e que depois teve uma visão: «E indo ele a caminho, aconteceu que, chegando perto de Damasco, subitamente o cercou um resplendor de luz do céu. E, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: "Saulo, Saulo, por que me persegues? E ele disse: "Quem és, Senhor?" E disse o Senhor: "Eu sou Jesus, a quem tu persegues. (...) (Actos 9: 3 a 5). Depois desta visão, Paulo converteu-se ao cristianismo, tendo-se especializado no Evangelho proclamado por Jesus.

Quando a Igreja de Corinto já estava implantada, Paulo teve conhecimento de que haviam ali graves dissensões dado que se estavam a formar partidos em torno do próprio Paulo, de Apolos, de Pedro e de Cristo. Os partidários respectivos rejeitavam qualquer intermediário e as contendas giravam à volta da interpretação do Evangelho, ao sabor do estilo de cada evangelizador, pelo que Paulo teve de definir a doutrina do Mestre por meio de intensa pregação e das suas Epístolas. Numa dessas epístolas, ele escreve: «Gálatas 1: 6 Maravilhando-me de que, tão depressa, passásseis daquele que vos chamou à graça de Cristo, para outro evangelho; 7 O qual não é outro, mas há alguns que vos inquietam e querem transformar o evangelho de Cristo. 8 Mas ainda que nós mesmos, ou um anjo do céu, vos anuncie outro evangelho, além do que já vos tenho anunciado, seja anátema.»

Será que algum anjo do céu anunciou outro evangelho a Joseph Smith?

Depois da primeira visão, Joseph recebeu visitas dum anjo chamado Moróni. Foi este anjo do céu que instruiu e anunciou outro evangelho que o mormonismo pretende ser paralelo ou complementar à Bíblia, o que estará em contradição com o que a igreja primitiva do Cristo ensinou a Paulo?

Que entidades tentadoras estarão por detrás da manipulação religiosa? Neste caso, manipulação espírita, porque o mormonismo fundamenta-se no espiritismo clássico, tal como se pode ler num folheto intitulado "O Progresso Eterno - Guia de Estudo 4":

«(...) Ao morrer, o espírito se separa do corpo terreno, mas o espírito continua vivendo e vai ao mundo dos espíritos. Ali esperamos a ressurreição e o julgamento. (...) No mundo dos espíritos, o evangelho será ensinado a todos que morreram sem terem tido a oportunidade de aceitar Jesus Cristo e seu evangelho.»

 

Allan Kardec e o Espiritismo Moderno

Allan Kardec foi contemporâneo de Joseph Smith. O primeiro nasceu em 1804, viveu na Europa e morreu em 1869; o segundo nasceu em 1805, viveu na América e foi assassinado em 1844. Logo a seguir à morte de Joseph, parece que a América foi varrida por uma onda de espiritismo.

O caso mais marcante aconteceu numa noite de 1847, cerca da uma hora da manhã, em Hydesville, perto de Nova Iorque. O casal Weckman acordou sobressaltado com um urro de terror vindo do quarto contíguo onde dormia a filha. Enquanto a mãe paralisou de angústia, o pai levantou-se com um salto e correu para o quarto da filha. Quando abriu a porta, sentiu no rosto uma grande lufada de ar frio. Tomou a filha nos braços e levou-a para uma cama do casal. A menina gemia um pouco. Aparentemente não tinha nada mas parecia estar sob o efeito de um choque emocional intenso. O seu olhar revelava um grande terror. Pouco a pouco, retomou os sentidos e contou o que se tinha passado.

Ela tinha sido acordada por barulhos que se pareciam com "estalidos de ramos secos". Apavorada, ergueu-se na cama, mas um animal enorme tinha subido para cima dela e deslizou até ao pescoço. Uma coisa mole e gelada rastejou pela sua cara. Quando tentou afastar essa coisa, sentiu que se tratava de uma mão, com dedos que mexiam. Gritou muito alto, louca de terror e, depois, perdeu os sentidos.

A família Weckman ficou tranquila: tinha sido um pesadelo. Mas a filha estava embrutecida. Chamado um médico, este não lhe encontrou nada de sério e, também ele, atribuiu este medo a um mau sonho.

Algumas semanas mais tarde, o incidente quase tinha sido esquecido. A menina tinha acalmado e recuperado a vivacidade habitual. Porém, numa outra noite, foram acordados por barulhos surdos e irregulares; parecia que alguém tentava deitar abaixo uma parede com uma maça. A menina começou a gritar. Depois, não se ouviu mais nada. Todos esperavam, ofegantes. Voltou o silêncio da noite.

A família Weckman acabou por abandonar a casa, pois convenceram-se de que estava assombrada. Mas foi nesta casa que os vivos aprenderam a comunicar com os mortos! Nela foi concebido o espiritismo moderno que acabou por nascer em França onde Allan Kardec se tornou o seu profeta.

 

A Família Fox

A casa abandonada pela família Weckman teria ficado desabitada se um fervoroso metodista chamado John Fox não se tivesse decidido a ir habitá-la com a mulher e duas filhas, Margaret de 14 anos e Kate de 12. O casal Fox tinha fortes convicções religiosas e eram muito considerados na igreja episcopal onde gozavam de uma certa autoridade. John chegara mesmo a fazer, em determinadas ocasiões, prédicas o que, posteriormente, fez dizer a algumas pessoas que ele era pastor.

Mal os Fox tinham acabado de arrumar a mobília, começaram a dar-se fenómenos estranhos. Quase todas as noites, sempre entre a uma e as duas horas da manhã, os habitantes eram acordados por pancadas nas paredes. Ouvia-se alguém caminhar com um andar pesado. As fechaduras rangiam. As madeiras dos móveis e do soalho estalavam. Tinha-se a impressão de que os objectos rachavam e quebravam. O ar vibrava, como que "sacudido por uma descarga eléctrica". Os Fox teriam jurado que estavam "electrizados".

John Fox avisou os vizinhos e pediu a intervenção das autoridades religiosas. Isto causou perturbação em Hydesville; a população decidiu, de comum acordo, montar guarda durante algum tempo, a fim de apanhar o autor destas graças e de o punir.

Organizou-se, portanto, uma vigilância nocturna. Quatro homens ficaram no jardim, observando toas as paredes da casa. No interior, outros quatro ficaram de alerta na grande sala de jantar, diante da chaminé.

Para acalmar as raparigas, uma lâmpada devia ficar acesa no seu quarto cuja porta ficava aberta. Margaret e Kate, amedrontadas nos primeiros dias, acabaram por se habituar aos fenómenos e familiarizaram-se mesmo com eles.

Certa noite, foram acordadas por pancadas muito perto delas. Eram pancadas secas. Pareciam estalidos de dedos. As moças sentaram-se na cama, esperando ver um fantasma. Começaram a falar e a rir. Na frente delas, continuavam-se a dar estalidos com os dedos.

Kate disse para a irmã:

- Vamos fazer o mesmo barulho para ver se responde.

- És louca! - objectou Margaret - como queres que responda?

Mas Kate estalou os dedos três vezes seguidas, como na escola para chamar a atenção da professora. Para grande surpresa delas, fizeram-se ouvir três estalidos de dedos, como um eco, precisamente na sua frente, a um metro.

Margaret, muito impressionada, meteu a cabeça dentro dos lençóis. A irmã prosseguiu o jogo. Era-lhe respondido ao mesmo ritmo. Ela foi acordar os pais. Diante da mãe, Kate fez estalar os dedos. O eco respondeu. A senhora Fox ficou perturbada, e depois, sem acreditar nisso, ordenou:

- Conta até dez!

Ouviu-se então uma mão invisível bater com os dedos dez vezes seguidas.

- Agora, diz-me a idade de Kate! - insistiu a senhora Fox.

Os dedos fizeram entender doze vezes o mesmo barulho.

A senhora Fox sentiu uma viva angústia. apertou Kate, que começava a ter medo, nos braços. Quanto a Margaret, tinha ficado escondida nos lençóis.

A senhora Fox perguntou:

- É um fantasma? Nesse caso, peço-lhe, não nos deixe inquietas. Se é um espírito, faça ouvir duas pancadas.

Os dedos invisíveis estalaram duas vezes.

O coração da senhora Fox batia com grande rapidez. E nessa noite, esgotada, ela não teve mais força para prosseguir o diálogo.

Era preciso tomar providências. Mas quais? Se falassem deste caso, tudo haveria a recear. Decidiram guardar segredo...

Na noite seguinte, a família juntou-se no quarto das filhas. Acenderam várias lâmpadas e aguardaram.

Cerca da uma hora da manhã, ouviram-se estalidos de madeira; sentiu-se como que um sopro gelado. A luz das lâmpadas vacilou, pareceu extinguir-se e, depois, tornou-se anormalmente brilhante. Nessa altura, o fantasma manifestou a sua presença. Durante cerca de uma hora foi travada com ele uma conversa confusa. Punham-se perguntas. Ele deveria dar uma pancada em caso afirmativo e duas em caso negativo.

A senhora Fox perguntou:

- Se mandarmos vir os vizinhos poderá continuar a responder às perguntas?

Fez-se ouvir uma pancada.

Decidiu-se, pois, alertar as autoridades. Evidentemente, Hydesville em peso ficou perturbada. A maioria das pessoas perguntava-se se os Fox não estariam loucos. Algumas pessoas acusaram a senhora Fox de bruxaria e pretenderam que as filhas estavam possessas do memónio. Todavia, um pastor, um juiz e um médico decidiram passar a noite seguinte na casa assombrada, com as quatro pessoas que constituíam o turno de guarda. Além disso, uma parte da aldeia ficou de guarda à casa até de manhã.

Uma mulher viu um cavalo branco voar no céu. O marido pegou-lhe no braço e teve de a afastar. Foi o único incidente.

No interior da casa, as coisas passaram-se de uma maneira inteiramente diferente. Os três notáveis instalaram-se no primeiro andar, com os Fox, no quarto das moças, bem iluminado. O juiz estava munido de uma espingarda.

Cerca de uma hora da manhã, ouviram-se três pancadas de maça nas paredes, depois estalidos de madeira. O juiz julgou distinguir o galope de um cavalo. Tudo voltou a cair no silêncio. De repente a lâmpada apagou-se. Sentiu-se um vento frio, como se a janela se tivesse aberto. O médico levantou-se para a fechar, mas estava bem fechada.

O pastor gritou:

- Se és um espírito responde com uma pancada!

Na parede foi dada uma grande pancada. Nessa altura, entabulou-se um diálogo sobre o qual diferem os testemunhos.

Este caso teve uma enorme repercussão.

No decorrer das noites seguintes, pessoas diferentes vieram com a intenção de discutir com o fantasma. A casa assombrada transformou-se numa espécie de teatro; vieram pessoas de Nova Iorque e de toda a região.

Para acabar com aquilo que considerava um escândalo, a igreja metodista expulsou os Fox e proibiu que os fieis se dessem com indivíduos "relacionados com o diabo".

No entanto, um quaker chamado Isaac Port teve a ideia de compor um alfabeto correspondente a um número preciso de pancadas e de o propor ao fantasma. Este aceitou a conversa e conseguiu, através deste processo, dar a conhecer a sua identidade e contar a sua história. Declarou ser o espírito de um tal Charles Ryan, bufarinheiro de profissão, que tinha sido assassinado em 1832, com 31 anos. O Seu cadáver tinha sido transportado para esta casa e enterrado na cave. Recusou-se a indicar o nome do seu assassino porque "pertencia doravante a um mundo donde estava excluída toda a vingança". O tal Charles Ryan tinha efectivamente desaparecido em 1832. Remexeu-se o chão da cave e descobriram-se ossadas humanas cuja presença não se conseguia explicar.

A população de Hydesville ficou muito dividida. Muitas pessoas acreditaram na sinceridade dos Fox, mas as outras, a maioria, manifestaram, por vezes grosseiramente, a sua hostilidade. Os mais exaltados, aterrados com "a presença do demónio", falavam em incendiar a casa depois de matarem os seus habitantes. Os menos expeditos punham apenas a hipótese de deitar fogo à casa, deixando os Fox entregues à graça de Deus.

Avisados destas más intenções, os Fox tiveram como única preocupação fugir o mais rapidamente possível de Hydesville e do seu fantasma. Em Abril de 1848, refugiaram-se em Rochester, em casa da filha mais velha, a senhora Fish, que era professora de música.

Eles julgavam que o seu infortúnio tinha terminado. Mas... meu Deus! a casa da senhora Fish tornou-se, por sua vez, teatro de acontecimentos fantásticos. Era muito pior do que em Hydesville. À noite, luzes estranhas iluminavam intermitentemente as janelas. Dentro, os móveis rangiam, mexiam sozinhos. Viu-se mesmo caçarolas deslocarem-se no espaço, como que transportadas por seres invisíveis.

Uma vez conhecidos da população estes factos, as pessoas começaram a desfilar em casa da senhora Fish. Em Junho, distinguiu-se uma forma branca que rastejou, se elevou e desapareceu. Uma mão humana, isolada, passeou-se pelo ar, como uma ave, e roçou, ao passar, pelas faces dos assistentes gelados de terror. Estes fenómenos e muitos outros do mesmo género foram contados e comentados em toda a América e, depois, na Europa.

Uma testemunha, Capron, no seu livro Modern Spiritualism, its Facts and Fanaticism (Boston, 1855), escreveu: «A desordem tornou-se tão grande que a senhora Fish não conseguiu continuar a dar lições de música e tornou-se impossível ocupar-se, em casa, das lides domésticas.»

Foi então que o incrível se deu. Ainda segundo Capron, e também segundo uma das irmãs Fox, Lea Underhill, no seu livro The Missing Link in Modern Spiritualism (Nova Iorque, 1885), os espíritos, intimados a não importunarem mais os vivos, fizeram saber que toda a sua barafunda tinha um único objectivo: era chegada a hora de "dar a conhecer a verdade ao mundo inteiro".

Os espíritos em vão afirmaram "que eram parentes e amigos"; os Fox combinaram não dar seguimento às suas reivindicações. A senhora Lea Underhill explicou-se, a esse propósito, nestes termos:

«Gostaria de pôr em evidência que os sentimentos de toda a nossa família, de todos nós, eram hostis a essas coisas bizarras e incongruentes; nós encarávamo-las como uma desgraça, como uma espécie de praga que caía sobre nós, não se sabe de onde nem porquê! De acordo com as opiniões que nos chegaram de fora, as nossas próprias tendências e as ideias que nos tinham sido inculcadas na infância levavam-nos a atribuir esses acontecimentos ao "espírito maligno"; eles tornavam-nos perplexos e atormentavam-nos; além disso, eles lançavam sobre nós um certo descrédito na região. Nós tínhamos resistido a esta obsessão e lutado contra ela fazendo orações fervorosas pela nossa salvação e, no entanto, estávamos como que fascinados por essas maravilhosas manifestações que, contra nossa vontade, nos faziam sofrer forças e agentes invisíveis aos quais nos sentíamos impotentes para resistir, que não podíamos dominar nem compreender. Se a nossa vontade, os nossos desejos mais sinceros e as nossas orações tivessem conseguido triunfar, todas essas coisas teriam acabado nessa altura e ninguém, para além da nossa vizinhança mais próxima, jamais teria ouvido falar dos "espíritos batedores" de Rochester nem da infeliz família Fox. Mas não estava em nosso poder acabar ou dominar os acontecimentos.»

Em Novembro de 1848, os "espíritos" informaram a família de que já não podiam lutar contra a resistência que lhes era oposta e que, na sequência da insubmissão dos médiuns ao pedido dos espíritos, estes seriam obrigados a abandoná-los. Os médiuns responderam que não tinham qualquer objecção a opor a isso, "que nada lhes podia ser mais agradável e que eles apenas exigiam a partida dos espíritos".

Aksakof, conselheiro de Estado do Czar da Rússia, no seu livro Animism et Spiritism, publicado nas edições Leymarie (Paris, 1906), traduzido por Berthold Sandow, escrevueu:

«As manifestações acabaram efectivamente; durante doze dias, não se ouviu bater uma única pancada. Mas, entretanto, deu-se uma mudança brusca nas ideias dos membros da família; eles sentiram um profundo desgosto por terem sacrificado às considerações mundanas um dever que lhes tinha sido imposto em nome da verdade e quando, a pedido de um amigo, as pancadas se fizeram ouvir novamente, foram saudadas com alegria. "Parecia que recebíamos velhos amigos, escreveu Lea Underhill, amigos a que antes não tínhamos sabido dar o devido valor". No entanto, como anteriormente, as pancadas não cessavam de repetir imperiosamente: "Tendes um dever a cumprir; queremos que torneis públicas as coisas de que sois testemunhas". Os interlocutores invisíveis traçaram eles mesmos o plano de operações que nós devíamos adoptar, com os mais minuciosos pormenores; era preciso alugar o grande salão público Corinthia Hall: os médiuns deviam subir ao estrado na companhia de alguns amigos; as pessoas designadas para ler a conferência eram G. Willes e C. W. Capron, devendo este último fazer os historial das manifestações; um comité composto por cinco pessoas designadas pela assistência devia fazer investigações nesta matéria e redigir um relatório que seria lido na reunião seguinte. Os espíritos prometiam manifestar-se de modo a serem ouvidos em todo o salão. Esta proposta foi categoricamente rejeitada.

Não tínhamos, de modo nenhum, vontade — afirma Capron — de nos expormos ao riso público e não procurávamos criar para nós uma celebridade deste género (...). Mas garantiram-nos que era a melhor maneira de silenciar as calúnias e de dar direito à verdade, e que prepararíamos assim o terreno para o desenvolvimento das comunicações espirituais num futuro próximo.»

O receio de enfrentar a opinião pública continuava a impedir os Fox de executarem as instruções dos espíritos. Estes propuseram-se então fazer "reuniões espiritualistas" em salões de casas privadas. Eles manifestar-se-iam e fariam ouvir as suas mensagens destinadas a acalmar os vivos sobre os mistérios do Além e a mostrar-lhes as vias terrenas da paz e da felicidade. Nunca os espíritos ameaçaram os Fox; eles revelaram-se, pelo contrário, dóceis e amáveis, mostraram-se mesmo por vezes suplicantes. Eles pediam desculpa pela desordem e pelos medos que provocavam nos vivos através de manifestações físicas que não podiam impedir. Não havia que ter medo deles; não eram de modo algum maléficos. Garantiam que se comportavam como anjos da guarda, afastando dos seres que lhes eram queridos as ciladas que os vivos não têm nem a faculdade de discernir nem o poder de evitar.

De guerra aborrecida, decidiu-se aceder aos desejos dos espíritos e decidiu-se fazer reuniões secretas em casas de pessoas amigas e discretas. Essas reuniões tiveram lugar como estava previsto e constituíram os primeiros ajuntamentos espíritas da História.

Essas manifestações multiplicaram-se com bastante rapidez e contou-se bem depressa com uma centena de adeptos convencidos da autenticidade dos fenómenos e da sua origem espírita.

O entusiasmo foi tal que o pequeno grupo de iniciados decidiu obedecer aos espíritos organizando uma grande reunião pública. Esta foi levada a cabo em 14 de Novembro de 1849, perante centenas de pessoas, no Corinthian Hall de Manchester. Temos de recordar esta data: ela marca o ponto de partida oficial do movimento espiritualista e espírita. Foi considerável o sucesso deste movimento. Basta apenas imaginar que havia, um ano mais tarde, nos diversos "círculos", só na cidade de Nova Iorque, cerca de dez mil espíritas. O movimento espiritualista e espírita é, portanto, de origem americana.

Expusemos de um modo exaustivo, reconhecidamente enfadonho, as peripécias do nascimento do espiritismo na América para que os irmãos esquadrinhadores tenham a oportunidade de reter certos pormenores decisivos e fazer a desmontagem da intriga que deu origem ao movimento. Esses pormenores, enquadrados noutros estudos no âmbito da Especulatividade, imprimirão forte avanço na obtenção do conhecimento sobre o real motor da paranormalidade espírita.

 

III 

Mormonismo e Espiritismo

O Espiritismo foi concebido em Manchester, EUA. Ao que parece, na mesma localidade onde Joseph Smith recebeu, em 21 de Setembro de 1823, a visita nocturna de um Anjo chamado Moróni e onde o mormonismo começou a dar os primeiros passos.

É uma coincidência extraordinária, quer em termos geográficos, quer temporais. Dir-se-ia que ambos os movimentos estão no seguimento um do outro e parece terem origem na mesma entidade.

Que entidade será esta?

Joseph Smith revelou que nos céus existem seres de carne e ossos. É necessário retroceder muito no tempo até encontrarmos na Bíblia relatos que apoiem esta afirmação.

O primeiro relato, talvez o mais famoso, diz respeito ao velho patriarca Henoch:

«Génesis 5: 22 E andou Enoch com Deus, depois que gerou Metusalém, trezentos anos; e gerou filhos e filhas. 23 E foram todos os dias de Henoch trezentos e sessenta e cinco anos. 24 E andou Enoch com Deus; e não se viu mais; porquanto Deus para si o tomou.»

Henoch foi levado vivo para os Céus! O mesmo aconteceu com o profeta Elias. Este andava também com Deus, pois chegou a entrar numa caverna do monte Horeb, o monte de Deus, onde Moisés viu a "sarça ardente" e onde foram proferidos os Dez Mandamentos. A fenomenologia presente na visão da "sarça ardente" é semelhante à que acompanhou as visões de Joseph Smith. Por outro lado, a fenomenologia que acompanhou o Êxodo tem muitas coisas semelhantes com o que aconteceu no início do Espiritismo. Parece que as tecnologias espíritas (diga-se energéticas, diga-se ainda, manipulação do espaço à distância) provêm da mesma entidade.

Vejamos o que aconteceu com Elias:

«Livro II dos Reis 2: 1 Sucedeu, pois, que, havendo o Senhor de elevar a Elias num redemoinho do céu, Elias partiu com Eliseu, de Gilgal. (...) 11 E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro: e Elias subiu ao céu num redemoinho.»

Substitua-se "carro de fogo" por Glória (nave espacial luminosa) e "redemoinho" por Coluna (teleportador) e teremos resolvido o mistério da subida de Elias para o Céu.

Quanto a Moisés, também é duvidoso que tenha morrido, dado que nunca foi encontrada a sua sepultura:

«Deuteronómio 34: 5 Assim morreu ali Moisés, servo do Senhor, na terra de Moab, conforme ao dito do Senhor. 6 E o sepultou num vale, na terra de Moab, defronte de Beth-peor; e ninguém tem sabido até hoje a sua sepultura.»

Moisés terá sido distinguido com o que se chama "morte gloriosa", ou seja, desapareceu (morreu) da Terra e foi (renasceu) para os Céus. Foi "sepultado vivo" na Glória, nos Céus.

Moisés e Elias reapareceram na chamada cena da transfiguração de Jesus, sendo vistos por Pedro, Tiago e João. (ver Mateus 17: 2; Marcos 9: 2; Lucas 9: 29). Talvez até Pedro, Tiago e João tenham sido distinguidos com a "morte gloriosa", porque estes apareceram também a Joseph Smith.

Por fim, temos o relato da própria ascensão de Jesus aos Céus (Evangelho Unificado):

«Ora o Senhor, depois de lhes ter falado isto,

Levou-os fora, até Betânia; e, levantando as suas mãos, os abençoou.

E aconteceu que, abençoando-os ele, se separou deles,

E, vendo-o eles, foi elevado às alturas,

E uma nuvem no céu o recebeu, ocultando-o aos seus olhos,

E assentou-se à direita de Deus.

E, estando com os olhos fitos no céu, eis que junto deles se puseram dois varões, vestidos de branco.

Os quais lhes disseram: "Varões galileus, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus, que de entre vós foi recebido em cima, no céu, há-de vir, assim, como para o céu o vistes ir".»

(Marcos 16: 19; Lucas 24: 50, 51; Actos 1: 9, 10)

Segundo o testemunho das próprias escrituras, pelo menos Henoch, Elias e Jesus foram levados para os Céus em "carne e ossos". Não eram espíritos!

Desconhecemos quantos seres pensantes aperfeiçoados foram levados para os Céus (Espaço) nas mesmas condições. Uma coisa é lógica: se tudo isto for verdade (e não temos maneira de o provar), eles passaram a pertencer a uma hierarquia não humana mas sim angélica ou mesmo divina. Continuaram a ter necessidades fisiológicas, tais como comer, beber, respirar... Viverão num ecossistema artificial?

O mundo espiritual celeste é absolutamente secreto para os humanos. Imaginá-lo é apenas o que está ao nosso alcance. Eu imagino que os "espíritos" são fabricados e manipulados pelos seres de "carne e ossos", por meio de tecnologias que nem sequer podemos imaginar. Serão, portanto, esses "espíritos" que chegam até nós? Para nos confundir ou para nos seleccionar?

 

Allan Kardec, o Profeta do Espiritismo Moderno

O espiritismo moderno foi concebido na América mas nasceu na Europa, mais exactamente em França. O grande "parteiro" deste movimento foi Allan Kardec. Foi contemporâneo de Joseph Smith mas, presumo, nunca chegou a saber da existência deste.

Ainda em fase de gestação, o espiritismo extravasou da América para o mundo.

Constituíram-se rapidamente outros círculos espíritas nos países de tradição cristã. Fizeram-se inúmeras sessões, sem protocolo bem estabelecido. Assim, no decurso das "experiências", confundiu-se muitas vezes magnetismo e espiritismo e assistiu-se a extravagâncias de toda a espécie.

O alfabeto de Issac Port foi geralmente abandonado. Como alguns espíritos batiam com mesas, perguntou-se-lhes se eles aceitavam esse modo de comunicação. A partir da sua resposta afirmativa, começou-se um pouco por toda a parte a "fazer girar as mesas" para os interrogar sobre "o presente, o passado e o futuro"...

Os espíritos, sem dúvida inquietos com os excessos que imprudentemente tinham provocado, não cumpriram todas as promessas. Alguns deles entregaram-se a facécias lamentáveis que lançaram o público na confusão.

As primeiras vítimas foram os seus intermediários, os famosos médiuns. Alguns deles foram injuriados, insultados e ameaçados. Os espíritos entregaram-se a farsas de mau gosto, deitando-os da cama abaixo, dando-lhes pontapés, arrancando-lhes a roupa, atirando-lhes com terrinas de água à cara, metendo-lhes na camisa pêlos que provocavam comichão. Alguns círculos foram objecto de verdadeiras perseguições, não hesitando os espíritos, uma vez chamados, em partir os móveis e, se necessário, em bater com violência nos desgraçados espíritas.

Vários autores da época, entre eles Capron, relatam histórias aborrecidas. Por exemplo, a família do reverendo doutor Eliakim Phelps, entre 1850 e 1851, sofreu deploráveis "perseguições". Na casa deste reverendo, embora todas as portas estivessem cuidadosamente fechadas à chave, desapareciam os objectos mais preciosos. As cadeiras saltavam até ao tecto e, depois, voltaram a cair com um barulho ensurdecedor. Este era tão forte que a habitação e as casas vizinhas ficavam abaladas com isso. Uma noite, um espírito arrancou um archote de bronze da chaminé onde estava chumbado e, perante os assistentes aterrados, atirou-o violentamente contra o soalho até se partir em pedaços. O filho do reverendo, Harry, de onze anos, foi, diante dos pais, raptado por mãos invisíveis e atirado a um poço. Conseguiram salvá-lo mas o espírito, alguns dias mais tarde, apanhou-o, amarrou-o e atou-o a um tronco de árvore. Passado algum tempo, o doutor Phelps, que, com Harry, circulava de carro numa estrada do campo, foi atacado por um espírito que lhe atirou exactamente dezasseis pedras. Phelps juntou essas pedras e levou-as para casa.

Aksakof conta a espantosa aventura que se deu na Rússia com um tal Schtchapov, proprietário de terras no distrito de Ouralsk e que o jornal LeMessager de l'Oural referiu na altura.

Um dia, sem que nada os fizesse prever, deram-se fenómenos extraordinários em casa desse russo. Os objectos da casa começaram a cair para o chão como que por encantamento. O que é mais curioso ainda, "os corpos moles caíam com um barulho semelhante ao produzido por um corpo duro, enquanto os objectos sólidos não davam lugar a qualquer choque"!

A senhora Schtchapov foi perseguida por um espírito maligno que partia madeira à medida que ela avançava. A pobre senhora começou a definhar. Consultado um médico, este foi de opinião que os fenómenos deviam provir da electricidade e do magnetismo" contido no solo e aconselhou o quinteiro a partir de férias com a mulher.

Schtchapov e a família foram para uma cidade vizinha onde tinham uma casa. Pior ainda. Os objectos eram agora projectados em todas as direcções e corriam o risco de ferir as pessoas. Uma faca lançada com violência foi cravar-se numa porta. O infeliz quinteiro pôs em lugar seguro todos os objectos que apresentassem qualquer perigo, como por exemplo facas e garfos, mas uma mão invisível ia buscá-los ao lugar onde eles estavam escondidos e atirava-os com força contra as paredes.

Schtchapov, muito inquieto, dirigiu-se ao comandante dos cossacos de Orenburgo, encarregado pelo governo do estudo de fenómenos meteorológicos. O exército mandou para o local o engenheiro Akoutine, que se fez acompanhar de um homem de letras chamado Savtch e de um médico. Os peritos, apesar do emprego de diferentes aparelhos de detecção, não conseguiram dar qualquer explicação válida para os fenómenos de que, por sua vez, foram testemunhas.

Por fim, as observações demonstraram que só a mulher, e só ela, era visada. Schtchapov declarou:

«Certa noite em que Akoutine estava de guarda junto da minha mulher, ele chamou-nos docemente com uma voz inquieta e contou-nos que tendo ouvido repetir-se várias vezes um estranho roçar na almofada e na coberta da minha mulher, teve a ideia de raspar com a unha a almofada e os lençóis, e que, para espanto dele, esse barulho se repetiu no mesmo sítio. Ele pediu para nos certificarmos disso, porque já não queria fiar-se em si próprio. Nós ouvimos, com efeito, sempre que ele arranhava com a sua unha na coberta, que esse barulho se repetia imediatamente no mesmo sítio. Ele passava o dedo duas vezes sobre a fronha do travesseiro, e o som reproduzia-se duas vezes. Acontecia exactamente o mesmo quando ele fazia variações; por exemplo, quando dava duas pancadas fortes e a terceira fraca. Fosse qual fosse o número de pancadas, algumas vezes pouco perceptíveis, dadas quer na almofada, quer na coberta, quer na madeira da cama ou numa cadeira, mesmo num local afastado, elas repetiam-se o mesmo número de vezes, com a mesma força e no mesmo sítio, enquanto a minha mulher dormia todo o tempo, imóvel. Akoutine teve a ideia de perguntar: "Qual de nós é que bateu?" e nomeava em seguida as pessoas presentes. Os sons repetiam-se sempre precisamente no momento de proferir o nome daquele que os tinha produzido. Durante todo o tempo, vigiávamos de perto a minha mulher que dormia sem fazer o menor movimento; a sua cabeça estava virada para a parede, de modo que não podia ver-nos, no caso de ter os olhos entreabertos, o que, aliás, não nos teria escapado, dado que o quarto estava suficientemente iluminado.

Akoutine não queria acreditar.»

Um médico francês, chamado Allan Kardec, iria, numa hipótese ousada, propor uma solução para todos estes enigmas...

Em 1854, o doutor Rivail (Hippolyte-Léon-Denizard Rivail), conhecido pelas suas obras de pedagogia, encontrou um amigo de longa data, chamado Carlotti, que lhe falou de fenómenos misteriosos de que tinha sido testemunha.

«O Sr. Carlotti era corso», escreverá mais tarde Rivail, «de uma natureza ardente e enérgica; eu sempre apreciara nele as qualidades que distinguem uma alma grande e bela, mas desconfiava da sua exaltação.»

Carlotti falou-lhe da intervenção dos espíritos com um tal fervor que Rivail se sentiu tomado por uma intensa emoção, dado que o amigo lhe revelou que esses espíritos lhe reservavam uma missão importante.

No entanto, nada parecia dispor Hippolyte-Léon-Denizard Rivail a interessar-se pelas "ciências ocultas". Ele tinha nessa altura ultrapassado os cinquenta anos e toda a sua vida se tinha desenrolado fora das vias do romantismo.

Aquele que René Guénon iria qualificar, com desprezo, como "professor socialista", era um intelectual categorizado, nascido em Lyon a 3 de Outubro de 1804, numa família de juristas. Alguns dos seus antepassados tinham-se distinguido na magistratura ou na advocacia. Ele próprio fez estudos brilhantes, completados depois na Suíça, com o célebre professor Pestalozzi, iniciador da pedagogia moderna, de quem foi discípulo e amigo. Por diversas vezes, Rivail substituiu, à cabeça do Instituto de Ensino de Iverdun, o seu mestre Pestalozzi, chamado como consultor por governos estrangeiros.

Depois de ter concluído o curso dos liceus em letras e em ciências, Rivail fez os seus estudos de medicina, mas não exerceu. Atraído pela pedagogia, acumulou os diplomas mais diversos de ciências e de filosofia. Aprendeu línguas estrangeiras e falava três tão bem como a sua língua materna.

Rivail, espírito racional e metódico, cumpria todas as tarefas com a maior das seriedades. Era um trabalhador intelectual infatigável que só repousava de uma actividade para passar a outra.

Por volta de 1830, instalou-se em Paris onde fundou, na rua de Sèvres, com um sócio, um instituto científico no qual professou o ensino moderno segundo os métodos de Pestalozzi. Dois anos depois, casou com Amélie-Gabrielle Boudet, professora que, nessa altura, trabalhava por gosto, porque era filha de um rico notário da província. Amélie era dez anos mais velha do que o marido, o que, segundo parece, não se notava.

O Instituto da rua de Sèvres ia bem, mas o sócio contraiu importantes dívidas no jogo. O próprio Rivail não entendia grande coisa da gestão financeira de uma empresa e, por isso, o Instituto foi vendido.

Com um certa importância, Rivail entregou todo o dinheiro que arranjou a um amigo, negociante aventureiro, que estava à beira da falência. Esse empréstimo não permitiu ao comerciante salvar-se da falência e Rivail perdeu todos os seus haveres. Não se desencorajou. Outros amigos arranjaram-lhe trabalho. Foi por isso que o vimos fazer a contabilidade de vários comerciantes o que, para um médico, era de certo modo original.

Na realidade, Rivail só se entregava a este trabalho para garantir, como se diz, as despesas do dia-a-dia. Ele prosseguiu obstinadamente o mesmo fim: consagrar-se à pedagogia. Passava as noites a escrever manuais de gramática e de matemática, a traduzir textos, a preparar aulas. Foi ele que redigiu a maior parte das lições do célebre Lévy-Alvarez. Publicou cursos de direito e de medicina. Chegou mesmo a dar gratuitamente aulas de aritmética.

Seria fastidioso apresentar todos os títulos dos livros escolares ou universitários que publicou. Muitos deles foram galardoados pelas academias e foram tornados obrigatórios nas escolas, em particular a sua Grammaire française classique e o seu Cours pratique et theórique d'atithmétique.

Em 1849, aceitou ensinar física e química num liceu, mas continuou a escrever obras de toda a ordem.

Graças à sua notoriedade, à fortuna da mulher e ao desafogo que lhe davam as suas obras literárias, Rivail tinha conseguido uma situação social apreciável. Virado para os outros, tinha inúmeras relações em França e em vários países. Conhecia-se-lhe apenas uma distracção que, aliás, tinha a ver com as suas pesquisas de física e de química: o magnetismo.

Por ocasião da sua "conversa fatídica" com Carlotti, em 1854, Rivail não entendia nada de espíritos, mas estava muito familiarizado com os segredos do magnetismo, como partidário convicto das teorias de Mesmer e do magnetismo animal. Teve a sensação de que se podiam ligar estas teorias à existência dos espíritos. Todavia, opôs-se a uma maneira de ver as coisas que não correspondia às suas concepções racionalistas. «A ideia de uma mesa que fala — escreveu ele — ainda me não entrava na cabeça.»

Um acontecimento fortuito iria, no entanto, conduzir Rivail ao espiritismo.

«Passado algum tempo — escreveu ele — por alturas de Maio de 1855, encontrei-me em casa de uma sonâmbula, a Sra. Roger, com o Sr. Fortier, seu magnetizador; encontrei lá o Sr. Pâtier e a Sra. Plainemaison, que me falaram desses fenómenos da mesma maneira que o Sr. Carlotti, mas num tom completamente diferente. O Sr. Pâtier era funcionário público, de certa idade, homem muito culto, de carácter grave, frio e calmo; a sua linguagem reflectida, isenta de qualquer entusiasmo, causou em mim uma viva impressão e quando ele me convidou para assistir às experiências que se realizavam em casa da Sra. Plainemaison, na rua Grange-Batelière, N.º 18, aceitei solícito. Marcámos encontro. (...)

»Foi lá que, pela primeira vez, fui testemunha do fenómeno das mesas giratórias, falantes e corredoras, e isso em condições tais que não era possível a dúvida.

»Vi lá também algumas tentativas muito imperfeitas de escrita medianímica numa ardósia com a ajuda de uma corbelha. As minhas ideias estavam longe de ser ideias feitas, mas havia aí um facto que devia ter uma causa. Entrevi, sob essas futilidades aparentes e sob a espécie de jogo que se fazia desses fenómenos, algo de sério e como que a revelação de uma nova lei que me propus aprofundar.

»Surgiu pouco depois a ocasião de observar mais atentamente do que alguma vez tinha conseguido fazê-lo. Num dos serões da Sra. Plainemaison, travei conhecimento com a família Baudin, que nessa altura vivia na rua Rochechouart. O Sr. Baudin convidou-me a assitir às sessões semanais que se realizavam em sua casa, e a que eu fui, a partir desse momento, muito assíduo.

»Foi lá que fiz os meus primeiros estudos sérios de espiritismo, menos ainda por revelações do que por observações. Apliquei a esta nova ciência, como tinha feito até então, o método da experimentação; nunca elaborei teorias preconcebidas: eu observava atentamente, comparava, deduzia as consequências: dos efeitos procurava ir às causas por dedução, por encadeamento lógico dos factos, só admitindo como válida uma explicação quando ela pudesse resolver todas as dificuldades da questão. Foi assim que sempre procedi nos meus trabalhos anteriores desde os quinze, dezasseis anos. Comecei por compreender a gravidade da exploração que ia empreender; entrevi nesses fenómenos a chave do problema tão obscuro e tão controverso do passado e do futuro da humanidade, a solução daquilo que tinha procurado durante toda a minha vida: numa palavra, era toda uma revolução nas ideias e nas crenças; era necessário, pois, actuar com circunspecção, e não levianamente, ser positivista e não idealista, para não embarcar em ilusões.

»Um dos primeiros resultados das minhas observações foi que os espíritos, que não eram senão as almas dos homens, não tinham nem a sabedoria soberana nem a ciência soberana; que o seu saber se limitava ao grau do seu avanço, e que a sua opinião tinha apenas o valor de uma opinião pessoal. Esta verdade, reconhecida desde o princípio, preservou-me do grave escolho de acreditar na sua infalibilidade, e impediu-me de formular teorias prematuras a partir do testemunho de um só ou de alguns.

»O simples facto da comunicação com os espíritos, o que quer que eles possam dizer, provava a existência de um mundo invisível ambiente; era já um ponto capital, um campo imenso aberto às nossas explorações, a chave de uma multidão de fenómenos inexplicados; o segundo ponto, não menos importante, era conhecer o estado desse mundo, os seus costumes, se assim nos podemos exprimir; vi pouco depois que cada espírito, devido à sua posição pessoal e aos seus conhecimentos, me revelava uma fase disso, tal como se consegue conhecer o estado de um país interrogando os habitantes de todas as classes e de todas as condições, podendo cada um deles ensinar-nos alguma coisa, e não podendo nenhum, individualmente, ensinar-nos tudo; cabe ao observador formar o conjunto servindo-se dos documentos recolhidos em diferentes lados, cotejados, coordenados e controlados uns pelos outros. Agi pois com os espíritos, tal como teria feito com homens; eles foram para mim, desde o mais pequeno ao maior, meios de me informar e não reveladores predestinados.»

A partir daí, Rivail nunca mais voltaria a separar magnetismo e espiritismo.

«O magnetismo - escreveu ele - preparou as vias do espiritismo, e os rápidos progressos desta última doutrina devem-se incontestavelmente à vulgarização das ideias sobre a primeira. Dos fenómenos do magnetismo, do sonambulismo e do êxtase às manifestações espíritas, vai apenas um passo; a sua conexão é tal que é por assim dizer impossível falar de um sem falar do outro. Se tivéssemos de ficar fora da ciência magnética, o nosso quadro seria incompleto, e poderíamos comparar-nos a um professor de física que se abstivesse de falar da luz. Todavia, como o magnetismo tem já entre nós órgãos especiais justamente acreditados, seria supérfluo dedicarmo-nos a um assunto tratado com a superioridade do talento e da experiência; falaremos disso apenas acessoriamente, mas o suficiente para mostrarmos as relações íntimas das duas ciências que, na realidade, constituem apenas uma.»

A bem dizer, Rivail tinha até então considerado o magnetismo como uma diversão de físico e estava nessa disposição quando começou a participar em experiências com os "espiritualistas".

A sua curiosidade levou-o um dia a aceitar uma tarefa que devia obrigá-lo a formular uma opinião pessoal. O seu amigo Carlotti, o escritor Victorien Sardou, René Taillandier, membro da Academia das Ciências, o editor Didier e alguns outros tinham-se encarregado desde há cinco anos de consignar as suas experiências em cadernos em número de cerca de cinquenta. Eles tinham também reunido uma documentação vinda de todo o mundo, em particular dos Estados Unidos. No grupo, ninguém se sentia com aptidão para tirar desse amontoado as ideias gerais necessárias. Ora, Rivail gozava nos meios universitários da reputação de ser um dos raros homens da época que podia fazer sínteses válidas.

Rivail aceitou a oferta dos amigos, mas faltava-lhe a fé. Quando se achou diante desse montão de pormenores, de obscuridades e de absurdos evidentes, julgou que estava a perder tempo. Anunciou o seu abandono aos amigos que na altura ficaram muito decepcionados. Mas não querendo causar embaraços a pessoas que estimava, comprometeu-se a retomar o seu trabalho quando tivesse tempo. Durante uma sessão de magnetismo, uma "sonâmbula" revelou-lhe que ele tinha sido, numa vida anterior, um druida celta com o nome de Allan Cardec e que os espíritos iam ajudá-lo a dar a conhecer ao mundo uma nova doutrina. Este anúncio impressionou-o e contribuiu para reforçar os sentimentos de simpatia que ele tinha. À medida que avançava, sentia, afirma ele, a luz despontar nele: ficava "inspirado".

«Qualquer pessoa - escreveu ele - que, quer em estado normal, quer em estado de êxtase, recebe, através do pensamento, comunicações estranhas às suas ideias preconcebidas, pode estar a fazer parte da categoria dos médiuns inspirados; é, como se vê, uma variedade de mediunidade intuitiva com a diferença de que, aí, a intervenção de uma força oculta é ainda muito menos sensível, porque, no inspirado, é ainda mais difícil distinguir o pensamento próprio do sugerido. (...)

»Os homens de génio de qualquer género - artistas, sábios, literatos - são sem dúvida espíritos avançados, capazes por si mesmos de compreenderem e conceberem grandes coisas; ora, é precisamente porque são considerados capazes que os espíritos, que querem a realização de certos trabalhos, lhes sugerem as ideias necessárias e é por isso que eles são, o mais das vezes, mediuns sem saberem. Eles têm, no entanto, uma vaga intuição de uma assistência estranha, porque aquele que faz apelo à inspiração mais não faz que uma evocação.»

Metodicamente, Rivail retomou então a sua obra de reclassificação, síntese e reflexão pessoal.

Pouco a pouco, afirmou-se a sua convicção. Os espíritos existiam! Ele converteu-se não só ao espiritualismo, como também deu a esta teoria os fundamentos de uma filosofia, até mesmo de um dogma religioso. Trabalhou febrilmente na redacção de uma grande obra que intitulou Le Livre des Esprits.

A 25 de Março de 1856, quando redigia um capítulo do seu livro, no seu novo apartamento na rua des Martyres, n.º 8, ouviu pancadas repetidas na parede do seu gabinete de trabalho. Levantou-se e perguntou à mulher o que se passava. Esta pensou que as pancadas vinham da secretária do marido. Não se conseguiu arranjar nenhuma explicação racional para o fenómeno.

No dia seguinte, como havia uma sessão de magnetismo com uma sonâmbula, Rivail, intrigado, foi lá para interrogar os espíritos. Ele conta assim este episódio que exerceu nele uma influência muito grande:

«Pergunta: você ouviu o facto que acabei de citar, poderá dizer-me a causa dessas pancadas, que se fizeram ouvir com tanta persistência?

»Resposta: Era o teu espírito familiar.

»P: Porque é que ele vinha bater assim?

»R: Ele queria comunicar-se a ti.

»P: Poderá dizer-me quem é ele e o que me queria?

»R: Pode perguntar-lhe a ele mesmo, porque ele está aqui.

»P: Meu espírito familiar, quem quer que seja, agradeço que tenha vindo visitar-me; quer dizer-me quem é?

»R: Para ti, chamar-me-ei A VERDADE e, todos os meses, estarei aqui à sua disposição durante um quarto de hora.

»P: Ontem, quando bateu enquanto eu trabalhava, tinha algo de particular a dizer-me?

»R: O que tinha a dizer-te era sobre o trabalho que estavas a fazer; aquilo que estavas a escrever desagradava-me e eu queria fazer-te acabar.

»(Observação: O que eu estava a escrever referia-se precisamente aos estudos que estava a fazer sobre os espíritos e suas manifestações).

»P: A sua desaprovação incidia sobre o capítulo que eu estava a escrever ou sobre o conjunto do trabalho?

»R: Sobre o capítulo de ontem; pensa nisso; relê-o esta noite, reconhecerás os teus erros e corrigi-los-ás.

»P: Eu próprio não estava muito satisfeito com esse capítulo, e refi-lo hoje. Está melhor?

»R: Está melhor, mas ainda não é o suficiente. Lê da terceira à trigésima linha e encontrarás um erro grave.

»P: Rasguei aquilo que fiz ontem!

»R: O facto de o teres rasgado não impede que o erro subsista; relê e verás.

»P: O seu nome - Verdade - é uma alusão à verdade que eu procuro?

»R: Talvez, ou pelo menos é um guia que te protegerá e te ajudará.

»P: Posso evocá-lo em minha casa?

»R: Sim, para te assistir pelo pensamento; mas para respostas escritas em tua casa, não poderás obtê-las durante muito tempo.

»P: Poderá vir mais do que uma vez por mês?

»R: Sim, mas não prometo senão uma vez por mês, até nova ordem.

»P: Animou algum personagem conhecido na terra?

»R: Eu disse-te que, para ti, eu era a Verdade; este nome, para ti, queria dizer discrição; não te direi mais.»

De volta a casa, Rivail apressou-se a reler o que tinha escrito e verificou que tinha efectivamente cometido um erro grave que se apressou a rectificar. Ficou muito abalado com este incidente, porque a sonâmbula tinha apenas uma instrução rudimentar.

Mas, para todos os espíritas do mundo, a data da "Revelação" foi 30 de Abril de 1856, em casa de um tal Roustan, com uma jovem Jafeth, sonâmbula. Nesse dia, o espírito Verdade revelou que Rivail tinha sido escolhido entre todos para cumprir uma "missão" destinada a trazer a salvação ao mundo. Esta revelação foi confirmada a 12 de Junho através da médium Aline C. e depois a 12 de Abril de 1860 através do médium Crozet.

A sessão de 12 de Junho de 1856 foi assim relatada:

«Pergunta: Quais são as causas que me poderiam levar a errar? Seria a insuficiência das minhas capacidades?

»Resposta: Não, mas a missão dos reformadores está repleta de escolhos e de perigos; a tua é rude, previno-te disso, porque se trata de agitar e de transformar todo o mundo. Não penses que te basta publicar um livro, dois livros, dez livros, e ficar tranquilamente em casa; não! Terás de pagar com a tua pessoa: levantarás contra ti ódios terríveis, inimigos figadais irão conjurar a tua perda; estarás exposto à calúnia, à traição mesmo daqueles que te vão parecer os mais devotados; as tuas melhores instruções serão ignoradas e deformadas; mais de uma vez sucumbirás sob o peso da fadiga: numa palavra, terás de travar uma luta quase constante e farás o sacrifício do teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde, e até da tua vida, porque não viverás muito tempo. Pois bem, alguns recuam quando, em vez de uma estrada florida, encontram debaixo dos pés silvas, pedras agudas e serpentes!

»Para essas missões, a inteligência não basta. Para agradar a Deus é preciso, antes de tudo, humildade, modéstia, desprendimento, pois Ele despreza os orgulhosos, os presunçosos. Para lutar contra os homens é preciso coragem, perseverança e uma firmeza inabalável; é também necessária prudência e tacto para levar as coisas a bom termo e não deixar comprometer o sucesso por causa de medidas ou de palavras intempestivas; é preciso, enfim, dedicação, abnegação, e estar disposto a todos os sacrifícios.

»Podes, assim, ver que a tua missão está subordinada a condições que dependem de ti.

Espírito de Verdade»

Rivail virá a escrever, em 1867, a propósito desta comunicação:

«(...) Dez anos e meio após esta comunicação me ter sido entregue, eu constato que ela se realizou em todos os seus pontos, pois experimentei todas as vicissitudes que nela me eram anunciadas. Fui alvo de ódio de inimigos encarniçados, da injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme; publicaram-se libelos infames contra mim; os meus melhores esclarecimentos foram deturpados; fui traído por aqueles em quem tinha depositado a minha confiança, aqueles a quem fiz favores pagaram-me com a ingratidão. A Sociedade de Paris foi continuamente um centro de intrigas, urdidas por aqueles que se diziam do meu lado e que, mostrando-me boa cara pela frente, por trás difamavam-me. Disse-se que os que tomavam o meu partido eram pagos por mim com o dinheiro que eu obtinha do espiritismo. Nunca tive descanso; por mais de uma vez sucumbi perante o excesso de trabalho, transtornei a minha saúde e comprometi a minha vida.

»No entanto, e graças à protecção e ao amparo dos bons espíritos que, sem cessar, me deram manifestas provas da sua solicitude, sinto-me feliz em reconhecer que não senti um só instante desfalecimento nem desencorajamento e que prossegui constantemente a minha tarefa com o mesmo ardor, sem me preocupar com a malevolência de que era objecto. Segundo a comunicação do espírito Verdade, eu devia esperar tudo isso e tudo se verificou.»

A 18 de Abril de 1857, foi publicado o seu livro fundamental "Livre des Esprits". Rivail deu à nova doutrina o nome de Espiritismo, para evitar qualquer equívoco com a palavra "espiritualismo" que se aplica a teorias muito diferentes.

Pela primeira vez, usou o pseudónimo com o qual iria tornar-se célebre em todo o mundo: Allan Cardec.

 

IV 

O Desenvolvimento do Espiritismo Kardecista

Livre des Esprits, antes mesmo das obras do americano Jackson Davis, esteve na base do movimento espírita internacional. Desde a sua publicação, obteve um êxito considerável. Foi traduzido em todas as principais línguas. A segunda edição apareceu em 1858. Foi necessário publicar a seguir três novas edições em menos de um ano. O acolhimento que encontrou em todo o mundo foi tão favorável que Allan Kardec (daqui para a frente chamar-lhe-emos assim) ficou transfigurado com isso. Mais do que nunca, ele acreditou na sua missão e passou a consagrar-se-lhe com ardor, paixão e obstinação.

A 1 de Janeiro de 1858, Allan Kardec criou a Revue Spirite. A 1 de Abril do mesmo ano, a pedido dos amigos, fundou a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas. Para instalar a Sociedade num local particular, era necessário a autorização do governo, o que podia ser difícil de obter. Mas o pai da jovem utilizada habitualmente como médium era amigo pessoal do prefeito de polícia, o que facilitou as coisas. Além disso, o Ministro do Interior era também ele espírita, e o caso resolveu-se facilmente.

A nova Sociedade instalou-se no Palais-Royal, sucessivamente galeria de Valois e galeria Montpensier. Finalmente, em 1860, ela adquiriu um local no N.º 59, travessa de Sainte-Anne.

Superada esta etapa, Allan Kardec pediu a demissão de presidente provisório mas, por pressão dos amigos, aceitou os resultados de uma votação secreta que o levou à presidência efectiva da Sociedade.

Além dos seus artigos na Revue Spirite, Allan Kardec publicou diversas obras que tiveram numerosas edições e se continuam a vender em todo o mundo. Não se limitou a redigir livros e artigos; viajou por toda a França, indo de cidade em cidade, para propagar as suas ideias e encorajar a organização de círculos espíritas.

Em 1861, Allan Kardec foi atingido por um acontecimento que o afectou profundamente. Havia nesse tempo, em Barcelona, uma livraria com o nome de Maurice Lachâtre que, tendo lido os seus escritos, desejava assegurar a sua difusão em Espanha. Ele pediu, pois, a Kardec que lhe enviasse um certo número de obras espíritas para as vender nesse país.

A título de experiência, Allan Kardec enviou a Lachâtre trezentos livros. Uma vez chegadas a Espanha as suas encomendas, foram abertas e controladas pela alfândega que recebeu os direitos previstos pelos regulamentos. Parecendo esses livros suspeitos do ponto de vista religioso, a alfândega enviou ao bispo de Barcelona dois exemplares, solicitando a sua opinião. A autoridade religiosa abespinhou-se com estas publicações. O bispo pediu ao Santo Ofício que apreendesse todas as obras e que lhas entregasse para que fossem destruídas.

Allan Kardec, avisado por Lachâtre reclamou a devolução das suas encomendas para França e a restituição dos direitos alfandegários. Esta reclamação foi indeferida. O bispo de Barcelona justificou a apreensão numa nota onde se dizia «A Igreja Católica é universal e, sendo estes livros contrários à fé católica, o governo não pode consentir que eles vão perverter a moral e a religião dos outros países.»

A Sociedade de Estudos espíritas pensou dirigir-se aos amigos que tinha nas esferas governamentais francesas a fim de instaurar, pela via diplomática, um processo de restituição. Allan Kardec assegurou que o espírito Verdade o dissuadia de o fazer: segundo ele, a intolerância do bispo acabaria por provocar uma reacção em Espanha, o que iria fazer nascer nesse país um imenso interesse pelo espiritismo.

O Santo Ofício, por requerimento do bispo de Barcelona, mandou confiscar as encomendas na alfândega e levou a cabo um processo inquisitorial de auto-de-fé. Fez-se uma fogueira e, no decurso de uma cerimónia à qual assistiam centenas de curiosos, depois do rufar dos tambores revestidos de crepe, o algoz da Catalunha queimou todos os livros.

As cinzas foram espalhadas simbólicamente por um padre que, em seguida, abençoou o local para o purificar. Da multidão saíram algazarras. Gritou-se: «Abaixo a Inquisição!» Numerosas pessoas acotovelaram-se para recolher as cinzas e fazerem com elas talismãs. Tal como Allan Kardec tinha previsto, senão o espírito Verdade, a Espanha não ia tardar a tornar-se um dos focos mais activos do espiritismo mundial.

Durante os anos que se seguiram a este acontecimento espectacular, o movimento espírita teve, em França e no mundo, um desenvolvimento que ninguém podia esperar. Esse sucesso trouxe-lhe, por tabela, inúmeras e fortes inimizades. Os espíritas tiveram de enfrentar não só a hostilidade dos mais diversos meios - a Igreja, a Ciência oficial, os partidos e os círculos materialistas, etc. - mas também um desenvolvimento do charlatanismo mágico: a multiplicação dos videntes, dos faquires, dos espíritas de feira, dos ilusionistas, causou o risco de lançar o descrédito num movimento que pretendia manter-se sério. Allan Kardec empenhou-se, ajudado por alguns discípulos, em lutar em todas as frentes. Fê-lo sem parar até morrer. Esgotado devido a um excesso de trabalho constante, além disso cardíaco, morreu subitamente, sem sofrimento, aos 65 anos, a 31 de Março de 1869, às doze e trinta...

 

A Doutrina Kardecista

Quais foram, pois, as ideias essenciais que fizeram o sucesso do kardecismo? Não se pode pretender resumir em meia dúzia de páginas a obra abundante, múltipla e multiforme, ora simples, ora hermética, de Allan Kardec. Limitar-nos-emos, pois, aqui a indicar aquilo que o profano dela pode reter, indo buscar ao próprio autor a argumentação que ele utiliza para apoiar a sua tese.

A atenção dos observadores foi atraída por fenómenos supranormais que a filosofia e a física materialistas não foram capazes de explicar. Quando muito, essa filosofia e essa física sentiram um grande alívio quando souberam que existiam casos de fraude. Assim, elas ocultaram o seu falhanço pretendendo que todas essas patranhas eram apenas da alçada dos cronistas e dos psiquiatras.

Em contrapartida, alguns filósofos, pensadores, escritores, investigadores e sábios não foram de modo nenhum desencorajados pelos mistificadores que denunciaram sempre que podiam, nem pelos detractores cujos ataques pura e simplesmente desprezaram. Procuraram a verdade com tanta obstinação quanta paciência e conseguiram estabelecer que esses fenómenos, se por vezes eram provocados voluntariamente, por interesse ou por graça, eram o mais das vezes inegáveis. Eles demonstraram que esses fenómenos não se davam em qualquer parte e de qualquer maneira, mas que obedeciam a uma "causa inteligente" que estava simultaneamente fora do objecto e fora da pessoa intermédia entre esse objecto e a causa desconhecida.

«Qual era? - escreveu Allan Kardec - Foi ela mesma que respondeu; declarou pertencer à ordem dos seres incorpóreos designados pelo nome de espíritos. A ideia dos espíritos não preexistiu portanto, nem sequer foi consecutiva; numa palavra, não saiu da cabeça, foi dada pelos próprios espíritos.»

Esses espíritos conseguiram fazer-se entender com os homens por meios que se aperfeiçoaram no decorrer dos anos. Eles comunicam com os vivos através de pancadas, respondendo sim ou não ou indicando as letras que devem formar as palavras. As pancadas podem obter-se através do baloiçar de um objecto, de uma mesa, por exemplo, que bate com o pé. Evidentemente, o espírito não está na mesa, está ao lado, serve-se desse instrumento sem o habitar.

Os espíritos só se manifestam em certas condições; geralmente, só podem fazê-lo por intermédio de pessoas que tenham o dom de servir de veículo para a comunicação entre eles e os vivos. Há vários tipos de médiuns que teremos ocasião de examinar mais à frente.

A mediunidade não é um estado definitivo, mas essencialmente provisório. «A sua causa física está na assimilação mais ou menos fácil dos fluidos perispiritais do incarnado e do espírito desincarnado.» Esta linguagem é bastante difícil de compreender. Segundo esta tese, o homem é formado por três princípios que coexistem durante a vida, mas que se separam com a morte. Em primeiro lugar o corpo material, fabricado com compostos de carbono. Além do corpo, há um princípio não mortal chamado alma, que participa da natureza divina e, devido ao livre arbítrio, deve dar conta a Deus dos actos realizados durante as sucessivas vidas. O corpo é para a alma apenas uma morada provisória, que lhe serve para se aperfeiçoar à medida das suas reincarnações.

«No momento da morte - frisa Allan Kardec - a alma sofre uma grande perturbação. Só gradualmente se separa do corpo. Esta separação, pode ser bastante rápida ou levar anos. Mas a alma não está ainda totalmente desprendida da matéria pelo facto de estar desincarnada. Ela está prisioneira de um terceiro princípio, o perispírito. Designa-se com esta palavra um invólucro, uma espécie de corpo fluídico, vaporoso, diáfano, invisível no estado normal, mas que, em certos casos, e através de uma espécie de condensação ou de disposição molecular, pode tornar-se visível e até tangível e, desde então, fica explicado o fenómeno das aparições e dos toques. Este invólucro existe durante a vida do corpo: é o elo entre o espírito e a matéria; com a morte do corpo, a alma ou o espírito, o que é o mesmo, despoja-se apenas do invólucro grosseiro, conserva a segunda, como quando tiramos uma peça de roupa que está por cima para ficarmos apenas com a que está por baixo, tal como o germe de um fruto se despoja do invólucro cortical e conserva apenas o perisperma. É este invólucro semi-material do espírito o agente dos diferentes fenómenos através dos quais ele manifesta a sua presença.»

Na terra, o homem dispõe do seu livre-arbítrio. Não está de modo nenhum submetido à fatalidade, senão não teria qualquer responsabilidade moral. Ora, as sucessivas reincarnações têm como objectivo permitir às almas alcançarem a perfeição moral.

«A alma é criada por Deus simples e ignorante, isto é, nem boa nem má, mas susceptível, devido ao seu livre-arbítrio, de tomar o caminho ou do bem ou do mal; por outras palavras, de observar ou de infringir as leis de Deus. O homem nasce bom ou mau consoante a incarnação de um espírito avançado ou de um espírito atrasado.

»... A terra pode ser considerada ao mesmo tempo como um mundo de educação para espíritos pouco avançados e de expiação para espíritos culpados.»

Allan Kardecd definiu assim a sorte do homem na vida futura:

«A fixação irrevogável da sorte do homem depois da morte seria a negação absoluta da justiça e da bondade de Deus, porque há muitos dos quais não dependeu esclarecerem-se o suficiente, para não falar já dos idiotas, dos cretinos e dos selvagens, e das inúmeras crianças que morrem antes de terem entrevisto a vida. Mesmo entre as pessoas esclarecidas, há muitas que podem julgar-se bastante perfeitas para serem dispensadas de fazer mais alguma coisa, e não é uma prova manifesta que Deus dá da sua bondade permitir ao homem fazer amanhã o que não conseguiu fazer hoje? Se a sorte está irrevogavelmente fixada, por que é que os homens morrem em idades tão diferentes e por que é que Deus, na sua justiça, não dá a todos tempo para fazerem a maior quantidade de bem possível ou para repararem o mal que fizeram? Quem sabe se o culpado que morre aos trinta anos não se teria arrependido e não se teria tornado um homem de bem se tivesse vivido até aos sessenta? Por que é que Deus lhe tira o meio enquanto o dá a outros? O simples facto da diversidade da duração da vida e do estado moral da grande maioria dos homens prova a impossibilidade, se se admitir a justiça de Deus, de que a sorte da alma está irrevogavelmente fixada depois da morte.»

Em que é que se funda, pois, a justiça de Deus?

As regras de conduta dos homens não explicitamente definidas por Allan Kardec nas suas obras. Para ele, há apenas uma obrigação: observar a lei cristã. Mas a moral kardecista está por vezes arredada da moral pregada pelas Igrejas, em particular pela Igreja Católica. Ela está na linha traçada por Jesus nos seus ensinamentos e no seu exemplo. Essa linha foi, segundo Kardec, seguida pela seita dos primeiros cristãos, mas «deformada pelos padres da Igreja» no concílio de Niceia, quando o cristianismo se confundiu com o Império Romano e pretendeu associar os interesses de César aos interesses de Deus...

O concílio de Niceia, em 325 EC, o primeiro de todos os concílios, foi encarregado de estabelecer um credo e um conjunto de dogmas destinados a reprimir os excessos de certas seitas.

 

O Espiritismo Perante a Ciência Actual

O espiritismo moderno não encontra enquadramento possível na Biologia, onde as mais avançadas técnicas de Engenharia Genética ganham terreno a uma velocidade imparável. Para estas ciências, o ser vivo ou indivíduo, constitui uma unidade inseparável formada por matéria e energia organizadas segundo um plano genético elaborado pela espécie a que pertence, no contexto da Evolução, e perpetuado através da reprodução. As células reprodutivas constituem a base de dados de todos os códigos genéticos necessários à emergência de um novo indivíduo, imediatamente após a fecundação. Tudo isto integrado num ecossistema planetário, também este um Ser Vivo ou Alma Global. Não há, portanto, necessidade ao recurso de um suposto espírito ou ser imaterial, consciente e inteligente, que vai evoluindo servindo-se sucessivamente de um determinado número de reencarnações ou corpos materiais. Excepto se considerarmos este arranjo como uma metáfora, o que nos remete invariavelmente para o simbólico.

Afigura-se cada vez mais difícil conciliar a investigação biológica, nomeadamente a biologia humana, com as doutrinas espíritas, pelo que a sobrevivência destas depende inteiramente da crença e da fé depositada nos testemunhos de pessoas que afirmam terem sido alvo de experiências por parte dos espíritos. Mas que tipo de experiências? E que entidade desconhecida é que se encontra por detrás de tais experiências?

O espiritismo, desde épocas remotíssimas, vive essencialmente de um grande pavor sentido pela mente humana que é imaginar a possibilidade da perda da sua consciência individual no momento da morte. Todavia, só o conhecimento científico da fenomenologia complexa que é a Vida (Alma) poderá resolver este mistério.

Em termos filosóficos, há uma estranha confusão entre Alma e Espírito. Um ser vivo capaz de se movimentar no meio em que vive é uma "alma", de "anima", significando "animação", "movimento". Daí o conceito de Reino Animal no qual a Biologia colocou também a Humanidade.

Mas há, verdadeiramente, o Reino Espiritual. Infelizmente, aqui, é enorme o nosso desconhecimento (a Ciência Oficial incluída). Chegaremos até esse Reino através da Luz Oculta, essa Sabedoria tão difícil de desvelar bem no centro do Esoterismo, pois a este domínio pertencem e nele somente poderão entrar os Eleitos.

Não é suficiente crer, mas é urgente saber!

 

J. Curado

http://pt.wikipedia.org/wiki/Espiritismo
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Colaboração Livre