TEORIAS DO CÁRCERE II: AS GRADES DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA
TEORIAS DO CÁRCERE II: AS GRADES DA DEPENDÊNCIA QUÍMICA
“Pra aqueles que querem fugir da realidade
Cuidado com aquilo que te faz voar
Mas depois tira o seu céu
E o que sobra
É só o inferno”
Canção: Ilusão (cracolândia)
ALOK & MC HARIEL
Esse texto não tem como objetivo ditar regras muito menos desconstruir algo, ele chama atenção para uma face da ruptura com a dependência de suma importância porém sem muitos olhares atentos até o presente momento. Este texto não é aberto a todos, ele é destinado aos que dele necessitam, talvez não incluindo muitos dependentes. Para além das fronteiras informativas, trás em seu seio questionamentos acerca da libertação da dependência promovida pelos meios comuns de tratamento, questionamentos e reflexões que necessitam de leitura lenta e acompanhamento reflexivo de igual forma.
O caso Jhonny
Jhonny Lopes Silva foi mais um jovem que entrou por uma porta cuja a qual não soube sair e em meio as indas e vindas na tentativa desesperada de uma família que sofria no encontro com pessoas despreparadas, o pior aconteceu. Numa tentativa de internação compulsória o jovem acabou tendo a traqueia rompida vindo a óbito. A internação compulsória trata-se de método aplicado em caso em que entende-se que o paciente oferece ameça a si e o próprio meio familiar sendo este internado independente de sua vontade ou aprovação. Jhonny era jovem de vinte e seis anos que acumulava dentre desintoxicações e reincidências das internações alcançou sua décima sétima tentativa de internação para cuidar de um problema que muitas famílias passam nesse exato momento. Esse texto não tem como objetivo de julgar o caso de Jhonny e nenhum outro no entanto esse caso que veio a público e amplamente divulgado pela imprensa permite confirmar informações que todos sabem que acontece porém estas mesmas informações passam despercebidas em quase todas as manchetes dessa natureza.
Dignidade é o mínimo que se espera. Sabe-se que aquele que adentra aos caminhos da droga assim o faz com suas próprias pernas na busca de satisfazer um impulso que clama por prazer imediato. O custo do imediatismo sempre será a perda de tudo até da dignidade, todos aqueles que escolhem esse caminho tem essa consciência? Não se possui instrumentos que nos mostrem isso mas, a estranheza é que muitos perdem a dignidade com a ajuda da mão do estado, com a ajuda das casas e clínicas e também das famílias, todos aqueles que se dizem sãos e dignos, de alguma forma contribuem para ajudar empurrar uma realidade desgraçada para ainda mais desgraça. E sim, há aqueles que não conseguem apalpar nenhuma forma de prazer com as coisas simples da vida, muito menos observar e ter algum tipo de prazer com atividades a longo prazo escolhendo assim o caminho pior.
A começar poderíamos questionar as internações. Jhonny colecionava mais que uma dúzia delas nada diferente de outros jovens com o mesmo problema, colecionam igualmente uma variedade de experiências que a cada passagem sendo compulsórias ou não apontam para um tempo onde numa espécie de cárcere conhecem outros em mesma situação e vão fazendo crescer um leque de experiencias ruins, dor e sofrimento, assim como sua própria história. Estar emergido no submundo das drogas é uma realidade obscura onde o pensamento sobre as consequências das coisas não faz parte da cabeça do dependente. Quando envoltos nessa realidade muitas vezes o dizer que tem consciência do seu próprio problema é a expressão de palavras repetidas em alguma cartilha, é uma espécie de: “sei que estou na merda porque li isso nessa cartilha e aproveitando sua capa dura, bora fazer um canudo e cheirar mais” . Em meio a essa névoa casas e clínicas o esperam sempre de portas abertas.
A natureza dos espaços medicinais de tratamento
As casas e clínicas de recuperação tem crescido nos últimos anos e não somente a custa de uma sociedade que se droga a cada dia mais e não sabe lidar com a porta de saída mas também por uma questão de mercado, é muito fácil tirar dinheiro de gente desesperada. Por outro lado, que dependente que não se torna um problema e ameça ao seu núcleo familiar? Uma família que tenha um ou mais dependentes sofre igualmente aquele que necessita de ajuda e não só pelo sentimento de incerteza que se estabelece vinte e quatro horas no dia, mas por infinitas realidades perturbadoras que fazem parte da vida do dependente.
É necessário coragem para afirmar e sabedoria para entender que casas e clínicas não curam dependentes químicos, o ato da intervenção médica em muitos casos dá conta de um período que desdobra-se em uma desintoxicação e não na resolução do problema. Se tratamentos clínicos fossem uma cura não teria um paciente tantas reincidências acumulando um histórico de inúmeras internações como no caso do jovem aqui citado. Mesmo tomadas por profundo sentimento de incapacidade as famílias necessitam ter pensamentos claros acerca dessa situação, pois os crescentes casos de dependência, politicas públicas escassas, e empresas afins de vender seus serviços as clínicas tem virado um depósito de gente indesejada e problemática. As pessoas responsáveis tem enxergado nas clínicas como um espaço de investimento onde podem depositar seus entes problemáticos e se verem livre pelos menos por um tempo do problema sem ao menos entender qual a função desses estabelecimentos. De maneira alguma afirma-se ser este o caso do jovem trazido a luz do texto, seu caso aqui serve para ilustrar uma situação real, a verdade da maioria desses estabelecimentos desconhecerem sua função e acreditarem que promovem uma cura, uma ideia equivocada certamente.
Há uma lacuna que de maneira positiva possibilita-se acreditar em dias melhores para a reversão desses quadros de dependência, mesmo a maioria acreditando que promovem cura, sem exceção também praticam uma crença que a dependência não possui um tratamento único e específico, o que além de ser ótimo por não fechar as possibilidades dessas pessoas dentro das fronteiras de seu próprio negócio, de igual forma reconhecem que existe algo nessa situação que foge as barreiras medicinais e terapêuticas. É necessário afirmar, clínicas e casas não são dispensáveis, são peças extremamente importantes sobretudo quando o assunto é desintoxicação ainda mais com quadros de dependências que se desdobram em patologias de ordem mental. Um outro cuidado que se necessita ter a respeito da crença que a modificação da realidade dos dependentes se encontram para além dos conhecimentos médicos e terapêuticos é o de acreditar que qualquer outro viés da cultura possa dar solução ao problema o que também não é verdade. A porta de saída dessa situação está sim, muito atrelada há um contexto comportamental/cultural o que será abordado após expor mais algumas questões importantes.
Crenças negativas no combate a dependência e verdades desconhecidas
Dependência química é um problema permanente. Aqui se estabelece mais um capítulo da história onde a afirmativa mais tem a ver com um apelo ao terror do que com a realidade. Será mesmo que o problema de dependência é um problema que exige uma atenção contínua permanente? Porque motivos aquele que se inclina aos caminhos obscuros do vício acompanhado muitas vezes de uma depressão e outras mazelas se motivaria em cuidar do seu problema sabendo que nunca poderá lograr o status de pessoa curada? Nenhum grupo que pratique essa crença deverá ser levado a sério, essa é uma afirmativa que jamais os familiares deverão acreditar e impossibilitar que o paciente que busque uma vida normal também assim acredite. Um quadro patológico causado pelo abuso de drogas pode ser permanente, lesões físicas causadas pela exposição excessiva a essas substâncias ou de violências sofridas em locais de uso de drogas podem ser permanente de igual forma, mas a condição de dependente químico nunca. A dependência é um estado não permanente, a doença pode ser situações causadas pela droga mas não o hábito. É um açoite a dignidade humana o mesmo que reconhece que um único tratamento não ser suficiente afirmar que este problema é para sempre.
A consistência da dinâmica desse universo de tratamento com pessoas em situação de dependência química é repleto de crenças que mais limitam e impendem o evoluir daqueles necessitam de ajuda do que os ajudam realmente. A lacuna deixada por um consenso de que mais de um tratamento é necessário para a reabilitação do paciente é de longe a demonstração e reconhecimento que aquilo que se pratica é insuficiente, que há um espaço onde se clama com urgência pela atuação de um profissional que ainda não está pronto ou ainda não exista. A exemplo disso essa lacuna ora é preenchida por uma figura religiosa que em alguns casos acerta a direção, porém, mais perde que acerta. É plausível o entendimento de que as pessoas atribuam a uma esfera religiosa tudo aquilo que não conseguem explicar não enxergando que a porta de saída da dependência nem sempre será religiosa. Cabendo a pergunta: por que a religião reabilita algumas vezes?
A porta de saída da dependência é feita única e exclusivamente pelo dependente, nenhuma outra pessoa poderá fazer essa travessia por ele e a lacuna a ser preenchida está assentada ao contrário do que muitos imaginam em um viés cultural quando findados os processos de intervenção da medicina. Quando um dependente sai de uma casa ou clínica após um período de internação ele está desintoxicado o seu retorno ao submundo das drogas não se dá por uma necessidade física como disseminam muitas pessoas e os médicos sabem muito bem disso, seu retorno encontra-se única e exclusivamente pela submissão a força do hábito, eis a razão pela qual a religião funciona para alguns por inserir essa pessoa em um novo contexto social que possibilita o desligamento do hábito. A religião não é nem de longe a solução ela só é o instrumento cultural necessário em alguns casos ainda que parte desses casos seja somente por um tempo.
Um outro vício comum de profissionais que atuam nessa área é a de atribuir a dependência há algum trauma ligado ao passado, não conseguem lidar com a realidade de que muitas pessoas buscam as drogas somente por buscar, uma simples inclinação, um flerte, não há um fator determinante por trás disso, não há um por quê. Quem usa drogas a única coisa que busca é prazer imediato e nem sempre isso é fruto de um trauma, aceitem. O desvio do caminho acontece quando muitas vezes essas pessoas que buscam prazer imediato acabam perdendo a mão na dose de felicidade diária e virando prisioneiros da própria ilusão que buscaram. Do alto dessa confusão é claro que se sugestionarmos um dependente que seu problema tem a ver com traumas do passado ele assim o aceitará em acreditar levando a uma busca incessante do trauma que nunca existiu ou mesmo criando traumas imaginários.
Os hábitos culturais é que é a porta de saída faltante, é a lacuna não preenchida. O corpo dos profissionais da saúde trata tão somente como questões relativas as mazelas da saúde seja física ou mental, desintoxica a partir daí o paciente está a disposição de um profissional que ainda não existe e que muitas vezes quem faz o papel desse é um familiar, algum parente, amigo ou até mesmo um líder religioso, arcando com a responsabilidade de ligar a pessoa pós clinicada a novas estruturas culturais que possibilitem um redescobrimento de si e um reaprendizado social. Voltando a afirmar, mesmo algumas vezes a liderança religiosa fazendo essa função a religião e nem o líder religioso é o profissional faltante. Essa atuação exige de quem a for executar uma gama de habilidades sendo algumas delas: identificar os aportes culturais; direcionar e incentivar novas práticas sociais em meios onde não haja a mácula da droga sobre a figura da pessoa em reabilitação; promover na pessoa em reabilitação hábitos comportamentais que impossibilite o reabilitando ser identificado por outros dependentes; dialogar e conhecer diversos grupos sociais não se limitando as suas próprias crenças e práticas; mostrar ao reabilitando o caminho da redescoberta nos prazeres das coisas simples da vida; Não possuir nenhuma das crenças limitantes a respeito do reabilitando e nem atribuir a religiosidade e causas sobrenaturais aquilo que por ventura lhe falte conhecimento; Entender que seu trabalho se dá por feito quando o reabilitando encontra-se totalmente reinserido; Para tanto entender que paciência e sabedoria é a engrenagem que move esse exercício.
A dependência química anula, exclui, posiciona o depende em um episódio a parte da vida onde não há vida estando vivo, é mais uma armadilha dos caminhos existentes no mundo que aprisiona. O caminho de saída envolve bem mais que as esferas medicinais, exige um olhar atento para dentro de uma natureza que quase sempre aqueles que lidam com essa realidade desconhecem na prática, somente aquele que experimentou os dissabores e sobreviveu entende as pessoas mergulhadas nesse mar de lama. Prestar suporte ao dependente para além da medicina requer de quem o faz muito mais sabedoria e razão do que misticismo. Quando a música dos garotos de São Paulo diz que a cracolândia está lotada de curioso leia-se também que o universo de degradação da droga está cheio de gente testando suas teorias da salvação que no fundo tem o objetivo de tirar vantagem dos familiares dessas pessoas. Quantos Jhonnys Lopes serão vitimas do despreparo humano? Até quando insistir naquilo que não está funcionando? E a canção se encerra dizendo: E para aqueles que querem desistir da vida porque não esperam mais nada dela, talvez seja ela quem espera de você.
25-08-2022