A Privatização do Outro
Setembro/2025
Setembro/2025
É curioso pensar como o uso que fazemos da língua pode extinguir completamente uma forma de adjetivar um comportamento ou um fenômeno. O que antes cabia em uma única palavra, hoje exige explicações, voltas, metáforas de suporte. A soberania da linguagem não está apenas na clareza com que nos comunicamos, mas também na possibilidade de fazer o caminho reverso — voltar à etimologia, às origens — e descobrir se aquilo que se perdeu ainda permanece, mesmo que agora relegado à categoria de um fenômeno não nomeado.
Assim como uma mesma língua pode assumir sentidos distintos em diferentes regiões, também certos termos mudam radicalmente de função. Entre Brasil e Portugal, por exemplo, há palavras que, embora idênticas, soam opostas. “Rapariga”, que em Portugal é moça, aqui se torna ofensa. “Pica”, que em Angola é injeção, no Brasil navega carregada de conotação sexual. Cada povo recria os limites do imaginário linguístico que habita.
Este texto fala de ciúmes. Mas não daquele que a palavra imediatamente acende em você ao ser lida. O ciúme de que falo ficou sem nome em português, porque o conceito foi capturado quase que totalmente pelo campo do comportamento amoroso e erótico — pela posse entre casais, seja consumada, seja apenas imaginada. Nossa cultura depositou o termo nesse canto “melhor utilizado”. Mas será que o ciúme se resume a isso?
Na infância já se ensaia esse gesto. Brincadeiras são acompanhadas de zombarias que cessam quando a criança, pela primeira vez, demonstra ciúme: o riso vira silêncio, porque ali pulsa um desejo reconhecível, ainda imaturo. A cultura então sela o destino: o ciúme pertence ao terreno conjugal. Desde cedo aprendemos que não há ciúmes entre amigos. Se existe, é porque se deseja o outro eroticamente. É o que nos ensinaram, será?
A etimologia oferece um contraponto. O parente grego zêlos nomeava zelo, ardor, emulação. O latim zelum / zelumen ampliava esse campo: superzelo, desejo, rivalidade, emulação. No verbo estava implícita a necessidade de emular, de erguer muros, de cercar e vigiar. O ciúme, nessa genealogia, não era exclusivo do amor erótico: era a marca de uma energia que busca reter para si o fluxo vital do outro.
Ao erotizar o termo, o português abriu uma lacuna cognitiva. Perdemos a palavra para nomear um comportamento que permanece à vista: o ciúme fora do campo amoroso. Esse ciúme não deseja possuir o que é do outro como na inveja, nem se tornar o outro. Ele deseja a exclusividade sobre algo que pertence ao outro — seu brilho, sua inteligência, sua presença. Não basta que exista: deve existir apenas para quem sente ciúmes. É um esvaziamento da energia vital, uma privatização em regime de exclusividade.
É esse ciúme que corta pontes: restringe entradas em grupos de mensagens, bloqueia aproximações, sabota encontros. Ao contrário do afeto saudável, que se fortalece ao se conhecer melhor, o ciumento teme a dissolução da imagem ideal: conhecer demais, nesse caso, é risco de desfazer a representação que alimenta sua posse imaginária. Prefere, portanto, congelar o outro numa vitrine acessível só a ele.
Um exemplo cotidiano: dois amigos saem à noite. O ciumento é quem torpedeia todas as chances do outro se aproximar de alguém — não por desejo erótico próprio, mas para preservar a exclusividade da amizade. Visíveis também são vizinhos que vigiam, colegas que boicotam, parentes que tolhem. São modos distintos de privatizar o brilho e a vitlidade alheia.
No fim, o português deixou sem classificação uma forma de ciúme — que não é inveja, nem paixão, mas a sombra que monopoliza a vitalidade do outro. Ironia final: há também aqueles que mergulhados em camadas emocionais trevosas, que precise ser objeto desse tipo ou tentativa de privatização; há quem necessite da disputa por sua energia, como confirmação de valor, mesmo que pelo viés mais sombrio do afeto.
Visto pela psicanálise, esse ciúme inominado revela-se como uma pulsão de posse dirigida não a um objeto em si, mas à relação e ao valor libidinal que o outro sustenta. É uma defesa contra a angústia de perda: ao territorializar a presença do outro, o sujeito tenta conter a ansiedade de abandono e a ferida narcisista. A dinâmica envolve mecanismos de clivagem e projeção — o ciumento projeta no mundo a crença de que sem sua vigilância o objeto perderia valor, e cliva as qualidades alheias em pedaços que podem ser guardados ou ocultados.
Dessa forma, o ciúme atua como uma estratégia regressiva de segurança: em vez de tolerar a alteridade do outro, busca-se reduzir sua alteridade por meio de exclusão e controle. Nomear o fenômeno é o primeiro gesto terapêutico: só ao reconhecer sua existência fora do campo erótico podemos trabalhar as defesas, expor as feridas narcisistas e abrir espaço para formas menos possessivas de vinculação.
Linguisticamente, a perda do termo é uma perda epistemológica: se não temos palavra para algo, tornamo-nos menos aptos a percebê-lo e a pensar suas implicações sociais. O caminho reverso — reabrir a etimologia, recuperar o espectro de sentidos — é também uma ação fundamental: permite mapear como regimes de linguagem naturalizaram a privatização afetiva e como isso organiza microesferas de poder nas relações cotidianas.
Propor a reinserção desse ciúme no léxico público não é um jogo erudito, mas sim um gesto prático: nomear para intervir, identificar para desconstruir. Quando a linguagem recupera o conceito, temos melhores instrumentos para diagnosticar, criticar e transformar práticas sociais que naturalizam o cerceamento da vitalidade alheia.