Na realidade, há duas prisões: uma tal qual nós conhecemos, feita de grades e concreto, e outra cujas grades não são tão visíveis. Estranho, mas os que agora estão encarcerados na primeira talvez não tenham consciência da existência da segunda. Você não está livre, apenas não vê — e, mesmo que esteja mergulhado nessas baboseiras sobre Matrix, isso nada tem a ver com o que aqui é dito.
Há uma série de limitações impostas sobre o seu transitar por aí; não é possível ir até a esquina sem que antes toda uma atmosfera seja organizada para que vá. E, a cada dia mais, você está encarcerado na tela de um celular, com a sensação de que pode perder alguma coisa. Torna-se um vigilante nato do feed de notícias. Praticamente nada do que chega até você tem o poder de mudar sua realidade, mas, mesmo assim, você segue esperando que na próxima rolagem alguma coisa vá acontecer.
A segunda prisão não está nas redes; ela já existia antes das redes sociais aparecerem. O surgimento da cultura cibernética apenas a incrementou e tornou mais difícil detectá-la.
Alguma coisa, neste momento, está faltando — e você, mesmo com a impressão de ter todos os recursos necessários para suprir essa falta, não entende por que não consegue fazer isso. Frustradamente, não consegue sanar o problema, e sua mente insiste em tomar atitudes que possam levá-lo direto para a primeira prisão. E, se por acaso você tenha a impressão de que nada falta, olhe mais atentamente. Você sabe, com plena certeza, que uma parte desse todo não possui garantias de lhe pertencer de fato. A quem é interessante que não sejamos? A quem interessa que não consigamos nos desdobrar para dentro daquilo que nos interessa de fato? E, mesmo aquilo que depende de nós, parece não ser tão simples — o que ganha aquilo que nos impede?
Dependendo de onde esteja ancorada sua crença, ela confundirá seu raciocínio, e você fará coisas acreditando estar certo, mas, na verdade, estará apenas produzindo provas contra si mesmo. Preste devida atenção: no momento em que chegar ao ponto de ter que tomar uma atitude que o colocará em uma rede de vigilância criminal, sabe dizer o que o impede de atravessar essa fronteira? É exatamente aí que a segunda prisão fica exposta: quando nos deparamos com situações que nos fazem raciocinar se vale a pena ou não, há algo quebrado quando a razão se sobrepõe ao instinto, não? Se é justo por qual motivo não faz? Seria a necessidade de certeza de juízo ao seu favor ou uma força maior de fazer o que todo mundo faz?
Cadê a razão em todas as vinte e quatro horas do dia?
O que nos impede de cruzar a fronteira é justamente o que nos prende. E, na maioria das vezes, quando atravessamos, o fazemos facilitando o funcionamento do aparato jurídico-criminal, acreditando estar fazendo o certo. Há certo para quem já está “todo errado”? Não facilitar nada é a missão, sendo que, para muitos de nós, nada foi facilitado desde o princípio.
Somente não cruzando essa fronteira poderemos entender aquilo que nos aprisiona e nos rebelar de alguma forma. Na segunda vez, já estaremos fora dos radares; não haverá agir criminoso, pois, logo, não haverá crime. Não é possível julgar aquilo que não é previsto. O abstrato, todavia, não é negociável.
Ficção?