Rapha Sorto
19-03-2023
Talvez esse texto não trate de nada muito relevante a maioria das pessoas, é possível afirmar que sua não relevância é objeto da grande maioria e mesmo não sendo objeto de interesse de muitos ele traz apontamentos que recortam, retalham e assombram todos nós: A possibilidade de não nos tornarmos aquilo que somos, o abreviamento diário do eu que habita em nós em nome de um eu exigido por um mundo que existe fora de nós. Esse texto é uma pequena provocação ao pensamento de um mundo infinitamente particular totalmente necessário para possibilitar acessar portas que nos encaminhem a direção daquilo que somos, em um mundo onde as pessoas cada vez mais medem o quanto são a partir daquilo que têm. Aliás, impossível inútil matéria a quantificação do que somos ou não somos, esse texto não aponta nessa direção, mas na direção da porta de entrada a saberes que possibilitam encontrar o caminho do que ainda se pode vir a ser.
O avançar do tempo provoca em algumas pessoas a necessidade de se inclinar aos assuntos com maior conteúdo espiritualista. Muitos se quer passarão por este caminho mas, os que assim se encontrarem saibam o quanto é significativo e importante se dedicar aos assuntos que conduzem a uma mudança que vêm do âmago de nós mesmos. A mudança que desabrocha de dentro de nós para o mundo exterior é a única que expressa verdadeiramente o espírito de liberdade nos habita, surgindo da nossa própria vontade de ser. A coragem da mudança é a única manifestação completamente livre pois, implica a nossa submissão as nossas próprias conclusões nos fazendo exercer não mais aquilo que estamos habituados mas, o desconhecido, o não acostumado nos amadurecendo o suficiente para exercermos um ônus não desejado para se obter um bônus que sonhamos.
Toda movimentação externa que nos molda de fora, todavia não é mudança que emana da natureza espiritual, é capacidade adaptativa a realidade externa. A capacidade de se adaptar as realidades é instrumento de sobrevivência nosso e em nada tem a ver com o exercício do espírito livre, exceto pelo fato de a adaptabilidade exigir de nós a mesma maturidade de exercermos aquilo que não esperávamos e muitas vezes não desejávamos exercer. Ao contrário daquele que se inclina a busca da mudança interior na adaptabilidade promovida pelas mudanças externas a recompensa maior não está a serviço da nossa existência mas, exclusivamente daquele que provocou a mudança.
Mudar em ambas as situações é completamente doloroso no entanto dolorosa também é a existência humana quando desacompanhada de saberes para além daquilo que é visível. A ausência do sofrimento exige de nós forças e saberes que não esteja a serviço de um plano de modificação coletiva mas, de um plano de modificações de nós próprios, um campo de saberes que é a pura manifestação daquilo que emana de nós enquanto indivíduos e não do mundo exterior. Sofrer é a ausência da capacidade interpretativa da própria realidade ou a busca da aprovação coletiva de nossa interpretação de infinito particular. A quem interessa a nossa visão particular de mundo e a quem interessa as convicções interpretativas dos mal-estares da nossa alma? Cada qual é ocupado demais com seu próprio infinito e se por um acaso sua interpretação os interessa é por acreditarem que sua interpretação pode ser adaptada aos objetivos de seus próprios interesses e nada mais.
Declinamos de um exercício de liberdade quando terceirizamos nossa capacidade interpretativa da própria realidade individual, negando assim uma das poucas e mais valiosas possibilidades reais de se chegar a uma porta de entrada de um dos poucos exercícios de liberdade que temos, o de modificar nós próprios a nossa própria vontade e saber. A habilidade interpretativa da nossa própria realidade é a única capaz de nos conceder a capacidade de entendimento de relação de nós com os outros e com as coisas, nos permitindo combinar atitudes e exercícios de vida não explorado pelos outros. Se há uma regra que normaliza o rebanho aquele que dele faz parte necessitará de um conhecimento para além do mundo vivido pelo normalizador e também pelo próprio rebanho. Não há vitória em se contrapor ou buscar aprovação nessa dinâmica, a vitória habita em encontrar o caminho onde nada do que aí está nos interessa. Terceirizar ou buscar por aprovação das próprias interpretações, se contrapor a dinâmica do todo é a concretização contínua do que está estabelecido.
Não basta declarar ao mundo a não representatividade de nossos interesses no que aí se encontra, é o alcance do entendimento e profundo desapego das coisas que outros julgam como importante para nós que moverá a afirmativa em dizer que: o que aí está não nos interessa. É o entendimento de que a manifestação da afirmativa do nosso não se interessar nem precise ser dita pois, o silêncio será silêncio de maneira que não precisará ser justificado. A busca e o estudo da mudança interior não é matéria, não se pode apalpar seus apontamentos e a sua materialização só pode ser percebida através de reflexos no mundo físico a partir daquilo que aproximamos ou afastamos da nossa própria existência. Não há conhecimentos que possam ser comercializados nessa direção e tão pouco dinheiro que precifique aquilo que por natureza só existe valor. Não há conteúdos a serem ensinados somente caminhos podem ser mostrados e que cada um se descubra e se exerça a partir daquilo que se tornar. A porta está dentro e não fora!