DESTINO: OS CAMINHOS REPETIDOS DA VIDA
O texto a seguir é um framento de uma reflexão ainda maior a partir do pensamento dos principais filósofos que se dedicaram a pensar o tema.
O texto a seguir é um framento de uma reflexão ainda maior a partir do pensamento dos principais filósofos que se dedicaram a pensar o tema.
“Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades”
Cazuza. 1986
Na filosofia de Heidegger “destino é a decisão de retornar a si mesmo, de transmitir-se a si mesmo e de assumir a herança das possibilidades passadas. A repetição é a transmissão explícita, ou seja, o retorno a possibilidades do ser-aí que já foram". Assim sendo, o destino é "a historicidade autêntica": consiste em escolher o que já foi escolhido, em projetar o que já foi projetado, em reapresentar para o futuro possibilidades que já foram apresentadas. É, em outros termos, a vontade da repetição, o reconhecimento e a aceitação da necessidade. Antes de Heidegger, Nietzsche fala sobre a necessidade do devir cósmico como vontade de reafirmação: desde a eternidade o mundo aceita-se e quer-se a si mesmo, por isso repete-se eternamente. Mas o homem deve fazer algo mais que aceitar esse pensamento: deve ele próprio prometer-se ao anel dos anéis: "É preciso fazer o voto do retorno de si mesmo com o anel da eterna bênção de si e da eterna afirmação de si; é preciso atingir a vontade de querer retrospectivamente tudo o que aconteceu, de querer para a frente tudo o que acontecerá". Nesse sentido, o que é a previsão futura do que se não a própria leitura do passado?
Destino é para onde todo ser humano se encontra apontando a partir de suas escolhas e também não escolhas, pois se torna impossível não estarmos fadados a alguma direção, mesmo que por um acaso pudéssemos estar estagnados de maneira a não chegar a lugar algum, estaríamos no mínimo entregue aos fatores desconhecidos de estar todavia estagnado, ainda sendo assim sabido por todos que aquilo que se decidir parado ficar, estará ali entregue até o momento da sua não existência. O ar de nebulosidade que permeia o destino e sua graça está justamente em não conseguirmos palpar o como ele se desdobrará, cuja a única certeza é para onde estamos apontados se assim nos comprometemos com a direção que escolhemos. Como quem escolhe fazer uma viagem até um local determinado, assim é o destino, sabemos como chegar a este lugar, às vezes desconhecemos o caminho, porém confiamos nas experiências anteriores de outras pessoas, e nunca sabemos o que acontecerá durante o trajeto, se será fácil ou difícil, rápido ou demorado, animador ou cansativo, mas nossa única certeza que percorrendo o caminho chegaremos ao ponto escolhido.
O interessante é pensar que para tudo na vida, precisamos recorrer a situações anteriores a nossa, bem como cultura e conhecimento são passadas de geração em geração sem tornar seus sucessores recebedores obsoletos e ou primitivos, o conhecimento passado se regenera, se aprimora, adaptando ao tempo vigente dia após dia, mas nunca o conhecimento passado é descartado, pois o sujeito ou comunidade poderia perder aí sua referência do caminhar,. Impossível caminhar sem os conhecimentos passados? Evidente que não, porém haveria uma perda de tempo para se descobrir aquilo já descoberto. Aquele que deseja se tornar um médico, sabe que por obrigação terá que enfrentar um caminho árduo de estudos prévios para poder em um primeiro momento poder concorrer ao ingresso na faculdade de medicina, feito isto, e passada esta etapa também é sabido que começa ali uma jornada de estudos que ao final de no mínimo seis anos será consagrado médico. O termo no mínimo seis anos, refere-se às variáveis do destino, da própria escolha, pois o que se sabe previamente é que tal curso tem essa duração porém vários são os acontecimentos externos e internos que podem interferir nessa trajetória: a não transição entre os períodos devido a repetência, problemas financeiros que impedem o custeamento contínuo, greves de professores, etc.
O fato a se prestar bem atenção nessas linhas é na riqueza de possibilidades das heranças passadas, pois, se todo fato presente é uma repetição daquilo que já se foi, a historicidade nos trará uma abundância de situações que poderá ser utilizada em qualquer tipo de situação, e se tivermos em mãos as ferramentas que nos colocam em capacidade de diagnosticar um nosso outro eu, em um outro momento e lugar da história podemos com facilidade solucionar o já solucionado, o compreender o já compreendido, o curar o já curado e de prosperar o já prosperado.
A humanidade desde sempre mapeia e estuda problemas aparentemente simples, mas que podem se tornar problemas complexos. Caminhos de destino são apresentados às pessoas desde muito cedo. Aos que são responsáveis pela educação de seus sucessores frisam a estes o quanto antes os péssimos comportamentos que estes não devem adotar se quiserem se sair bem na linha da vida. Aquele que repreende de forma incisiva um filho que flerta com a criminalidade crê de maneira árdua em destino, este pai ou mãe não necessita observar o desdobramento da péssima direção que o filho ou filha toma, baseado nas experiências já vistas com outras pessoas e até mesmo vividas, se sabe quais os frutos colhidos em virtude das veredas do crime.
O anel dos anéis no conceito filosófico de Nietzsche, onde o mesmo propõe mais do que somente aceitar nosso destino, mas, se propor a adentrar e aceitar o que o filósofo chama de anel dos anéis. Isto implicaria não negar ou fugir das repetidas situações impostas pela vida porém aceitar-se com excelência. Uma possível interpretação do se entregar ao anel dos anéis, a aceitação do destino pode funcionar como uma ferramenta de afastamento ou de aproximação de acontecimentos repetidos. Uma família cuja seus membros por exemplo, de geração em geração são acometidos por vícios em jogos, drogas ou bebidas, deveria não negar aos seus membros a aproximação de tal realidade porém olhar no espelho do passado e tentar entender com sua própria ancestralidade, os gatilhos e caminhos que desencadearam no passado essa situação. Os caminhos não percorridos, os acontecimentos quebrados, que levaram estas pessoas a situações não comuns em suas vidas. Cada um dotado da própria consciência de si e do mundo, sabe melhor do que qualquer outra pessoa os caminhos que se deve percorrer e se ainda não sabe é porque muito provavelmente esteja dormindo, um eterno assistir a vida e não um viver a vida. O se entregar ao anel dos anéis, consiste em aprender com nossos antepassados, saber a história de nossa ante existência, para que possamos superar com excelência a partir de julgamento próprio as repetições que nos antecederam e as que ainda virão. Em nossa ante existência bem como na linha do tempo já percorrida da nossa vida consta os exemplos a seguir e o não seguir. Cada indivíduo consciente de sua historicidade e trajetória é um sacerdote de si mesmo, criador e escritor de sua própria história.
Se resgatarmos nossa memória mais distante da humanidade, desde sempre estará presente na existência do ser humano a vigília constante acerca de situações ameaçadoras a existência ou bom andamento do conjunto social: ataques de animais, desastres naturais, guerras, doenças, etc. Do coletivo ao indivíduo, há sempre vigília acerca das coisas, pessoas ou situações que podem dificultar ou até mesmo dizimar a existência. Com o temor do não retorno as próprias terras, os navegadores antigos tiveram que aprender a se orientar através das estrelas e só assim fizeram porque os que se aventuraram antes muitos não tiveram a mesma sorte. Afinal, pode-se dizer que sorte é aquilo que quando em desconhecimento do destino pega-se a direção correta, a sorte antecede o destino. Ainda no coletivo a humanidade teve que lidar desde sempre com o estudo e catalogação de atitudes que a colocassem em risco transmitindo às gerações futuras continuamente esses conhecimentos, ainda a exemplo no caso da navegações de todas as naturezas, a importância da orientação fez aparecer a bússola, os mapas, os radares, o gps, etc. Todo esse processo, a partir de uma situação primária absoluta, de que não se é possível navegar sem orientação. O aprimoramento das ferramentas de navegação do nosso exemplo não nos demonstra o novo, mas a lapidação do que um dia já fora descoberto, todas elas se debruçaram sobre uma questão de destino, que nesse caso é que para navegar é necessário se orientar.
Referências:
HEIDEGGER, Martin. Ser e Tempo. [S.l.]: Martins Fontes, 2010
NIETZSCHE, Friedrich. Assim Falou Zaratustra. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
SARTRE, Jean-Paul. O Ser e o Nada. São Paulo: Martins Fontes, 2013.