Amor, Ainda
Um olhar sobre o amor como ato de resistência em tempos de vínculos frágeis e verdades rarefeitas.
Outubro-2025
Um olhar sobre o amor como ato de resistência em tempos de vínculos frágeis e verdades rarefeitas.
Outubro-2025
Parece que, desde sempre, possuímos o dom de anunciar o trágico — o fim, o apocalipse inevitável. Se algo escapa ao nosso entendimento e requer um tempo de reflexão, basta anunciar: tudo está perdido.
Oh, meu Deus... e agora?
O tempo vai, o tempo vem, e alguém sempre anunciará a falência dos relacionamentos, o colapso dos vínculos, o amor como farsa. Em geral, esses discursos partem de um cansaço legítimo, mas raramente alcançam o verdadeiro ponto: o amor não morre por falta de romantismo, e sim por ausência da verdade.
A confusão atual entre desejo, carência e espetáculo dissolveu a noção de encontro autêntico.
Se uma parcela de nós já não sabe mais amar, é porque não sabemos mais ver — e sem ver o outro, não há relação possível. Transformamos o afeto em vitrine, o toque em curtida e o olhar em reflexo de nós mesmos.
Em algum momento, distorcemos o nosso próprio valor, comparando-nos a coisas que não somos, mas que imaginamos ser — escamoteando nossas limitações e defeitos. “E quem não tem defeito que atire a primeira pedra.” Foi escondendo os nossos próprios que aprendemos a não suportar os defeitos do outro.
Enquanto se sustenta uma fé inabalável no fim do amor, há uniões acontecendo por aí. Seriam esses casamentos a manifestação legítima dos herdeiros do mundo da loucura — ou apenas aqueles que ainda suportam olhar para o outro tal como o outro é?
Mesmo os mais céticos reconhecem que amor e verdade precisam coexistir. Mas talvez o próprio ceticismo contemporâneo, cansado da mentira, acabe esbarrando novamente na mesma figura que, há mais de dois mil anos, restaurou esse sentimento em escala universal. Uma pena que o fã-clube dele nunca tenha entendido a mensagem. E talvez seja justamente esse o medo dos céticos em acreditar novamente no amor: a consciência de que aqui sempre haverá o risco da crucificação.
A verdadeira questão não é se o amor morreu, mas se nós ainda somos capazes de suportar a verdade que ele exige. Porque amar, de fato, não é idealizar o outro nem fugir de si mesmo dentro de um par perfeito — é permanecer diante do defeito, sem desistir da presença.
Talvez o dilema contemporâneo se resuma a isso:
seguir sozinhos, pela incapacidade de amar uns aos outros defeituosos que somos, ou continuar nos exibindo em vitrines impecáveis de falsos amores ou exaltar a perfeita solidão?