17-02-2023
Por: Raphael Sorto
Muitas vezes nos permitimos embarcar em uma falsa ideia e até mesmo uma falsa crença por influência de todo um sistema que acaba repetindo e exaltando valores que representam somente a falsidade divulgada. Acredito que aquele que dissemina uma pegadinha do pensamento sabe muito bem o que esta fazendo, assim, não o faz atoa. Esse é o caso do termo que muito circulou e ainda circula em meio ao cenário da criatividade: “pensar fora da caixa”. Em texto anterior, o termo aparece de maneira corrida, ainda que certos assuntos sejam chatos de se lidar é necessário que pensemos um pouco mais o que é que tem escondido por trás desse termo. Pois como veremos ainda adiante a crença gerada por essa expressão pode ser uma das maiores bloqueadoras da criatividade do nosso tempo.
O termo pensar fora da caixa, ainda hoje possui uma força inexplicável, na maioria dos livros, palestras, e na boca dos motivadores ele está presente. Particularmente, ao escutar certas coisas tenho algumas ressalvas ou até mesmo várias. Acredito em um mundo onde toda mensagem pode ser transmitida e entendida quando se orienta sua transmissão a partir da linguística e da sensibilidade para entender o perfil daquele que está recebendo a mensagem, e se a mensagem não foi entendida ou distorcida a transmissão do conteúdo deve retornar ao remetente com o seguinte feedback: 1 – Houve uma ação do destinatário em ignorar o conteúdo que tentamos transmitir; 2 – Não soubemos utilizar a linguagem correta. Uma mensagem clara e precisa que, domina a linguagem de seu destinatário não necessita de tradutor ou intérprete. Nesse sentido o termo pensar fora da caixa sempre foi uma espécie de poluição sonora aos meus ouvidos e creio que a muitos criadores também. Na verdade pode-se antecipar que quem utiliza esse termo pouco entende de criação, certamente é alguém que está, mais visando resultados do que o processo criativo.
Que raios quer dizer: Pensar Fora da Caixa? Certamente uma baboseira nascida no mundo corporativo que nada tem a ver com criar, um termo tão obscuro e tão impreciso que muitas vezes necessita de longas palestras explicativas e motivacionais onde você sai dela mais perdido do que entrou. E esse é o verdadeiro objetivo da expressão, me desculpem dos discordantes. Pensar fora da caixa gera um entendimento de fazer o que não foi feito, é fazer o inédito, é trazer ao mundo físico todo o potencial de originalidade. É possível isso? A originalidade é algo em criação que é muito difícil de ser alcançada, poderíamos afirmar que praticamente impossível pois, o termo remete criar algo novo a partir daquilo que você não conhece, é possível isso? A história da humanidade nos diz que não, que tudo criado até hoje esbarra ma condição de já conhecer as ferramentas e que a criação se manifesta a partir da autenticidade e organização que damos para as coisas já conhecidas.
Tales de Mileto, um filósofo pré socrático foi um dos primeiros a desenvolver alguns estudos sobre o fenômeno elétrico, em um capítulo mais recente da história, grandes nomes aparecem dedicados a este mesmo fenômeno como o de Thomas Edson, Nikola Tesla, Benjamin Frankilin, Michael Faraday, entre outros, cada qual com suas criações que muito contribuíram para desfrutarmos de muitas comodidades que temos hoje. Dentre todos esses nomes quais deles pensaram fora da caixa? Exatamente nenhum deles, o que todos esses inventores fizeram foi observar um fenômeno já conhecido e descobrir a partir de sua autenticidade como utilizá-lo a favor de seus projetos. Para Edson por exemplo criar a distribuição de energia, antes teve que conhecer o fenômeno elétrico, estudar a condição condutora dos metais, não existe um inventar original da energia elétrica o que existe é um processo de estudo e conhecimento desse mesmo fenômeno. Ele não tira a condução da eletricidade de fora da caixa mas de dentro dela, organizando seus conhecimentos de uma forma ainda não organizada.
Pensar fora da caixa talvez possa ser o termo que mais tem impedido pessoas criativas do nosso tempo a se manifestarem. Perdidas, como um cão que corre atrás do próprio rabo, podem gastar anos imaginando algo que ainda não foi visto ao invés de dar um trato autêntico para aquilo que já conhecem. Pensar fora da caixa é sem dúvidas um termo que está a serviço de uma colonização mental focada somente nos resultados e não no processo. Perguntar o como é possível pensar fora da caixa para quem divulga essa expressão quase sempre promove um episódio que mais parece uma pregação religiosa, requerendo muita emoção para acreditar e, na maioria das vezes revelam crenças que não estão alinhadas com a ideia de transmitir uma mensagem clara mas, a de confundir o destinatário, que recebe a missão de fazer o que não existe com as ferramentas que ele não tem, um rio de pura ansiedade. O termo não tem um compromisso em transmitir com clareza sintonizada a linguagem do receptor mas o compromisso está unicamente com a coisa pronta. Pensar fora da caixa nos direciona para um encontro com uma genialidade imaginária e fictícia que nunca existiu.
Criatividade não é isso!