Por Raphael Sorto
30/01/2023
As derrotas nas urnas foi um pedido de socorro do povo brasileiro, uma tentativa de se livrar das garras de um governo minimamente estranho, que prezava pela desconstrução da verdade e desinformação, mas o alívio por retirar Bolsonaro do poder parece não ter sido suficiente para dar por encerrado o fantasma que atormenta e distorce a verdade. Mesmo após a posse do governo Lula, seguidores de Bolsonaro se mostram ainda mais ativos que antes deixando a todos perplexos com os ataques antidemocráticos a Brasília e mais do que isso as comemorações daqueles que saíram em liberdade provisória com o uso de tornozeleiras eletrônicas comemorarem tal condição como se a punição ao rigor da lei fosse um prêmio, uma condecoração. Muitos são os que já saturados dessa história se perguntam o quando que, essa história terá um fim, ou quando pelo menos teremos um ambiente minimamente aceitável de paz.
Esse texto é uma opinião, uma tentativa de tentar explicar o como funcionam essas mentes de maneira prudente sem se deixar abater pelos sentimentos negativos que esse movimento tenha nos causado, ele é uma tentativa de sistematizar tudo que vem sendo discutido com as pessoas que buscam entender o assunto. Ele não tem a pretensão solucionar o problema, o entenda tão somente como uma obra de livre pensamento. Há algo de interessante ao olhar de quem vos escreve que envolve marketing religioso e degeneração do bom senso.
Racionalidade e emoção
É necessário que entendamos nossa condição que transita entre dois universos, um extremamente lógico, que valoriza aquilo que emana do pensamento racional que se pauta em construções de um mundo onde tudo se pode provar através de métodos criados por este mesmo modo de pensar que valida, fideliza e prova onde o produto final julga-se ser a verdade, mas não qualquer verdade se trata de um tipo de verdade que em tese não declina quando posta a prova. Em um outro hemisfério somos o desdobramento de um universo completamente emocional, sensível, intuitivo que quando maximizado pode agir de maneira totalmente a desconstruir toda a verdade construída pela racionalidade que muitos veneram. Nessa perspectiva tendemos valorizar coisas da racionalidade e desprezar coisas vindas do mundo das emoções quando nos convém. Tendemos a desprezar a loucura ao invés de permitir que ela se manifeste com toda sua fantasia. Sempre estivemos convictos de que a racionalidade é imperativa e deve-se contrapor as emoções.
Que sejam enganados aqueles que querem ser
Mentes mais racionais tendem a desprezar o universo religioso pois tudo aquilo que é natural do universo religioso argumentam os mais críticos que é uma verdade que engana aqueles que acreditam. Desprezar a manifestação religiosa é a via de regra para aquele que se intitula sábio e não alienado será? Em uma outra ponta aquele que é religioso tende a desconfiar das coisas oriundas de um campo que não seja aquele ligado ou aprovado pela sua fé, onde o comportamento de cada vez mais isolado e submergido dentro dos pensamentos do grupo de origem é o correto e se utiliza até de instrumentos da razão para justificar suas práticas.
O que temos total dificuldade de entender é essa nossa condição. Se nos permitirmos mudar a perspectiva com que tentamos observar a nós próprios consegue-se observar que não se trata de duas realidades que dialogam e batalham entre si mas, trata-se de uma só realidade que possui duas características notadamente sobressaltadas. Aquele que despreza o saber religioso acreditando não haver nele nenhum saber, no exercício de ser um indivíduo extremamente elevado e racional, exercerá sua condição religiosa de outra maneira mesmo que não perceba, pode este não estar atrelado a nenhuma condição religiosa e negar a existência de Deus, porém perece irracional dar sentido racional a todas as coisas, desconheço por exrmplo quem peça o relatório de testes eletrônicos de fabricação de determinado aparelho antes de comprá-lo por exemplo. Aliás quem compra assim o faz mais por emoção que por razão, quantas vezes você comprou no mercado somente o que estava na lista de compras? Reflita: se a condição de acreditar em coisas que racionalmente se classifica como fantasia não fosse uma condição humana por qual motivo existiriam tantos templos? E diga-se de passagem eles estão lotados.
Há uma mácula atrelada no universo das religiões resultado do exercício exacerbado dos saberes daqueles que acreditam, com interferência direta na vida prática, no cotidiano das pessoas que nada tem a ver com esses saberes, na organização das sociedades. Historicamente isso aconteceu, com as cruzadas, a inquisição, a destruição islâmica do Egito antigo, etc.. Religião e política não deveriam se misturar mas, na prática o fato é que as religiões tem sua própria visão de de mundo, e possuir uma visão de mundo implica em possuir um projeto político. Projetos como o de Jair Bolsonaro é um bom exemplo de como ainda hoje somos interferido pelos saberes que emanam de um campo que racionalmente se julga não haver nenhuma racionalidade. O que Bolsonaro fez foi utilizar-se dos mesmos artifícios que se utilizam as religiões apoiado por líderes religiosos para atrair seus seguidores, deu a eles não um motivo mas, uma razão para ressignificar suas vidas.
Todas as coisas que fazemos na vida, trabalho, estudo, vida social. Não necessitam de um propósito para existir e fazermos, um negócio por exemplo pode ir muito bem sem nenhum propósito de existir, pode crescer, ser rentável e obter muito sucesso sem precisar de um por que para existir, e muitas vezes as coisas na vida são dessa maneira, elas não precisam de uma razão, e é até mais leve não ter um por quê. O problema é quando as coisas vão mal e se perdem, somente o que pode salvar uma situação, indivíduo, sociedade, negócios quando estes se perdem é o por quê. Ter uma razão é difícil, uma razão requer acreditar. Como somos seres dotados de uma cabeça que possui duas realidades conflitantes nem sempre, o que te faz acreditar terá a natureza em um hemisfério racional mas, emocional. As religiões sabem muito bem disso. Essa necessidade de acreditar extremamente humana somada a dificuldade que se tem de se formular um por que para as coisas terceiriza assim para um conjunto de valores já prontos o que cada um deveria buscar. Não é errado esse universo movido pelas religiões, também não errado não buscar entender nossas próprias limitações, pode-se dizer que é no mínimo ingênuo. Aquele que escolher os caminhos da fé ainda que seja uma fé cega não é um problema para quem acredita não acreditar, essa pessoa só é um problema quando cego de fé busca interferir na vida dos demais com sua cegueira.
Não há nada mais determinante do que possuir um por que, ao contrário da motivação que necessita ser alimentada pontualmente o por que inspira aquele que o possui e inspira também as pessoas ao redor e inspiração não necessita de motivação ela é auto motivante e contagiante, basta acreditar. E foi assim que Bolsonaro e sua base colocaram um por que na cabeça das pessoas e que mesmo depois da derrota nas urnas eles ainda estão aí completamente ativos e sabemos que todas essas prisões e processos jurídicos não será suficiente para poder parar essas pessoas, o propósito que Bolsonaro entregou as pessoas inclui morrer por algo maior.
Após as prisões dos atos golpistas, a parcela lúcida e democrática acreditava que aquele ato judicial em defesa da democracia seria o suficiente para abalar as estruturas do fenômeno bolsonarista mas, o que se observou após a saída de alguns presos com a progressão para regime semi aberto foi justamente o oposto, as pessoas comemoram suas tornozeleiras como se aquela condição fosse uma condecoração de guerra por um ato de bravura. Entenda, Bolsonaro deu a pessoas perdidas que não pensam por si, um propósito pronto, algo maior do que elas. Temos nesse momento por obrigação entender o que está acontecendo, mesmo que tudo que essas pessoas pregam e fazem vá na contramão daquilo que lutamos e contra elas mesmas, é necessário entender como elas foram parar nessa situação, um confronto é o que eles desejam inspirados tão somente pelas crenças que abraçaram. Ao nos julgarmos lúcidos e capazes de resolver isso mais valerá o jeito que a força. Uma inspiração que nasce de uma justificativa irreal não é um propósito e sim uma manipulação.
Bom senso e degeneração do bom senso
O bom senso diz que a prática religiosa, a escolha de acreditar em Deus é extremamente saudável, não há problema nenhum nisso. Assim fazem muitos de nós e não importa aqui o que inspira essas pessoas de assim o fazer, símbolos, signos, orações, liturgias, cultos, são formas de manifestações culturais que estão ai desde sempre. O bom senso é a condição que nos permite até que não sejamos lógicos demais, analíticos demais, racionais demais. O bom senso são os pesos iguais um em cada lado de uma balança formando assim um equilíbrio entre as forças que se opõe.
A relação do ser humano com seu credo diz respeito tão somente a ele próprio não sendo problema de mais ninguém. Precisamos ser prudentes para entender que é da natureza das religiões que mais influenciam nossa sociedade dividir as pessoas em dois grupos, onde o religioso passa ser possuidor da verdade sagrada e os demais uma possível ameaça para aquilo que se acredita. Em tese e na prática dizer que aquele que não pertence a sua crença é uma ameça para aquilo que você acredita é uma verdade, pois, no caso de uma razão fantasiosa aquele que se deleita da fantasia sem saber que é, só saberá que está vivendo um deleite fantasioso através de uma comparação com aquilo fora da sua realidade.
O bom senso diz que as súplicas feitas a Deus ou as Divindades são extremamente saudáveis e que somente passar ser um problema quando aquele que suplica passa acreditar que uma figura sobrenatural passa a respondê-lo e falar para com que faça coisas. Eis a degeneração do bom senso. A degeneração do bom senso pode levar o ser a coisas extraordinárias na mesma proporção que pode levar a situações catastróficas. A degeneração do bom senso é uma característica que podemos encontrar historicamente tanto na biografia da genialidade daqueles que ajudaram toda uma sociedade como também na biografia dos que tentaram contra ela. A degeneração do bom senso é uma espécie de razão intuitiva da realidade onde o indivíduo ou até mesmo o coletivo passa a dialogar com razões que só uma questão emocional pode justificar sua ações. Até mesmo a loucura vista do ponto de vista de degeneração do bom senso mais aproxima do que afasta, humaniza, causa entendimento e não pavor. Há uma degeneração do bom senso quando bolsonaristas passam a acreditar que somos aquilo que não somos e passam a combater um inimigo imaginário, eis aí quando a degeneração do bom senso passa ser um problema do coletivo não bolsonarista. Em um outro exemplo de degeneração do bom senso acontece quando numa tentativa de esclarecer a essas pessoas que estão sendo enganadas, acabamos por lhes expor ao ridículo, nascendo aí uma enxurrada de piadas, e provocações que nada contribuem para a resolução ou pelo menos a diminuição do problema. Há degeneração do bom senso quando as pessoas acreditam que atacar Brasília é um ato heroico e a punição recebida por tais atos é um prêmio. Consequências tão somente de uma inspiração. O bolsonarismo é a própria degeneração do bom senso catastrófico.
É necessário bom senso para entender o fenômeno e paciência para lidar com a situação até que tudo retorne a ter um ar aceitável de normalidade, o que foi vivido nos últimos anos não está perto de acabar, a cada passo dado na direção da verdade escondida pelo governo passado é uma justificativa nova para essas pessoas, - vide o caso dos Yanomamis mostrado no Fantástico – eles simplesmente não acreditam e não estão fingindo eles não acreditam mesmo porque têm outra coisa para acreditar. Não se pode acreditar que tudo será resolvido na noite para o dia pois não será. Essas pessoas tem uma razão para acreditar, uma inspiração – falsa mas têm – , e o conflito não é o caminho, o caminho é paciência e entendimento, até mesmo o fato desse fenômeno ser latente não somente no nosso país mas, ao redor do mundo, só mudando as personalidades. Aquele que está inspirado não perderá ou trocará sua inspiração por força da racionalidade somente através do campo emocional é possível fazer com que ganhem novas inspirações que julgarem melhores. Uma pessoa não motivada, vai se motivar e te abandonar cuidando da própria vida, uma pessoa perdida quando se inspira não largará tão facilmente sua inspiração para viver sem propósito algum.