29/01/2023
Em outras oportunidades já foi discursado sobre a proximidade daquilo que se entende como ideia divina e a própria criatividade, do ar espiritual, ritualístico que paira sobre os processos da criação, não custa mais uma vez adentrar no assunto, antes de darmos a devida importância da criatividade em nossas vidas. A criatividade é a manifestação mais ingênua que podemos ter, ela é leve e fluida mesmo que nosso estado emocional seja o contrário disso no momento da criação. Criar é um exercício que independe se nos julgamos aptos a criar ou não, pelo contrário, o julgamento mental exercido pelo nosso modo racional de ser é quem cria os julgamentos negativos acerca do objeto criado. Há muito de verdade na crença de que criatividade é um dom divino, um sopro que ao qual somos meramente instrumentos tradutores dessa ação divina. O problema dos entraves criativos nessa perspectiva se encontra muito mais na percepção que o indivíduo tem de Deus do que a comparação com o exercício criativo com o divino.
É preciso um pouco mais de calma e tolerância para avançarmos o raciocínio, esse interlocutor que vos escreve não possui a pretensão de converter nenhum de vocês a nenhuma crença, o assunto Deus e religião é presente nessa reflexão devida a representação que a maioria das pessoas tem sobre criatividade e que sim se aproxima de uma manifestação divina. O entrave como falávamos está justamente na percepção de Deus daquele que cria: a educação cultural que a maioria recebe constrói mentalmente nas pessoas uma percepção diretamente ligada a questões religiosas e os mecanismos de persuasão religiosos quase sempre estão em uma perspectiva teológica intimamente ligadas a uma pressão psicológica de punição x benefício. A construção de representação de Deus posiciona o indivíduo de maneira a construir uma mentalidade de que o Criador está acima de nós e eis o motivo do entrave criativo dessa visão. Se a criatividade é a habilidade de um Criador supremo e nós apenas somos instrumentos tradutores desse sopro que emana do divino e ainda os mecanismos de construção de mentalidade religiosa é em sua maioria pautado na ideia de que estamos abaixo de Deus, logo, muitos são aqueles que se julgam incapazes de ser portador desse “dom”.
A criatividade é quem nos mostra o caminho, é através dela que resolvemos pequenos problemas cotidianos e até grandes problemas da humanidade. Não há aquele que não necessite da criatividade, se por um acaso se julga incapaz de ser criativo certamente tenderá a utilizar a criatividade alheira, mas não existirá a possibilidade do bem viver que não exija de nós vivermos sem os desdobramentos do processo criativo. É através das reservas criativas que desenvolvemos instrumentos até mesmo para deleite próprio, para significar o tempo que sem ela seria tão somente tédio e sensação de vida parada. Essa manifestação está ao alcance de todos em menor ou maior proporção, mesmo os indivíduos que se intitulam não serem criativos certas horas tem atitudes que provem tão somente do universo criativo mas não percebem. Aquele que lança mão de uma situação de renda extra para poder quitar um imprevisto financeiro de ultima hora por exemplo mesmo não tendo percebido se apoiou em criatividade para chegar a solução. Os conhecimentos que acumulamos e assimilamos, nada são além de conhecimento e memória se não se articulam para virar uma outra coisa. E tudo isso se manifesta não de maneira racional como imaginamos, mas de uma maneira fluída que utiliza os dois lados do cérebro, por incrível que pareça é o lado racional quem sempre diz que não somos capazes, que estamos loucos, que não vai dar certo, que não somos capazes, etc..
É necessário que levemos mais a sério a criatividade, pois possivelmente é ela quem nos ajudará nos momentos mais adversos, é ela quem nos mostrará as soluções que vivemos esperando que as outras pessoas nos mostre. A divinização do processo criativo é real mas entenda como criador você mesmo e não acredite em criatividade como propriedade e bendição exclusiva do meio religioso, uma pessoa fanática religiosa terá sérios problemas em entender o que é criatividade e que ela pode ser exercitada mesmo existindo criações geniais que emanam do meio religioso. Gosto do exemplo do Codex Buranus, um compilado de escritos poéticos de monges beneditinos que exaltam, o amor, o sexo, a jogatina, etc.. Monges beneditinos escrevendo sobre isso? Sim, vinte e quatro desses poemas foram musicalizados e compõe hoje o que conhecemos como Carmina Burana que certamente você já deve ter ouvido tocar por aí. Um belo exemplo de como criatividade exige uma ruptura brincalhona com aquilo que nos aprisiona.