A criatividade é o processo mental formado por conexões que por vezes tão óbvias que impede as pessoas de encontrar essas conexões por culpa de entraves de várias naturezas. O que comumente se entende como arte é a obra final, aquilo que já passou por um processo de linguagem artística para trazer ao mundo sensorial as conexões óbvias do processo mental e este processo quando compromissado com a natureza excepcional da obra criada tende a se afastar de quaisquer submissões autoritárias. Quanto maior o comprometimento com a elevação na tradução artística maior é o desprezo do criador pelas autoridades que tendem a policiar a criação. Oscar Wilde já categorizava como ridículo a condição de autoridade sobre a arte e também sobre o artista. Essa é uma realidade do processo criativo, ele tende a se afastar daquilo que é convencional, pois, descobrir onde habita a nossa zona criativa implica flertar com a quebra e muitas vezes, de padrões culturais, sociais etc..
A parte contraditória do processo é que percorrer esses caminhos de desconexão das convenções da esfera social pode nos levar novamente a um bloqueio criativo, isto porque um comportamento negativo que as pessoas tendem a ter quando descobrem esse caminho criativo é de se projetarem socialmente num sentido de conflito para com os demais, aquilo que elas desconstruíram nelas mesmas para poder alcançar uma esfera livre de crenças e dogmas negativos tendem a querer desconstruir nas outras pessoas e aí está o equívoco. Apesar de todos sermos dotados de um cérebro e capacidades cognitivas similares, a maioria das pessoas não estão interessadas ou têm essa tendência de interesse em serem criativos, mesmo sabendo que todos os seres são dotados de criatividade. Cada pessoa está ligada a um processo de vida distinto e as vezes mesmo que tenhamos a mesma opinião e gosto por determinada coisa a janela mental que observamos aquela mesma coisa é diferente. Haverá os que se inclinam as veredas criativas e haverá aqueles que pensam: quem bom que existem aqueles que se inclinam a desenvolver a criatividade. Haverá os que facilmente resolvem os problemas e haverá os que compram a solução de quem os resolveu.
Se nenhuma autoridade deve estar sobre a arte e o processo criativo e também sobre o artista, de igualmente todas as personalidades criativas e artísticas não devem navegar em uma atmosfera que objetiva a desconstrução do público. Uma criação fala por si só, assim como não cabe uma autoridade vigilante e colonizadora no processo também não cabe o derrame sobre o público de excentricidades que são tão somente da personalidade do criador. Quando o artista trabalha em um sentido de desconstruir através de seu comportamento a esfera social através do conflito que choca o espectador, ele não mais está fazendo arte, mas, política. O comportamento alucinado de certos artistas nada tem a ver com a obra, e não são nem de longe o fator definidor de uma criação de qualidade. Ainda demorará um tempo para que as pessoas entendam que a criação nada tem a ver com um comportamento decadente cheio de excentricidades que mais se aproxima da autodestruição. Quando o setor político lança mão da liberdade do universo artístico para promover suas ideias ele não está fazendo arte mesmo utilizando linguagem artística, mas, propagando ideologia.
A criatividade é uma condição mental que se manifesta com estímulos fora do convencional, requerendo uma quebra com rotinas e crenças diárias. "Pensar fora da caixa" é uma frase comum entre os motivadores, mas essas pessoas nem sempre são especialistas em criatividade. O que faz sentido no contexto do fluxo criativo é fazer algo diferente para traduzir ao mundo físico uma criação até então não traduzida. A produção criativa é mais ligada ao compromisso com a tradução de uma ideia, não se pode programar uma ideia. Permitir experimentar o não experimentado é a chave para a criatividade. Motivadores seguem um compromisso com processos, planejamento e manutenção, e "pensar fora da caixa" na visão dessas pessoas significa experimentar situações sistêmicas com resultados previstos. Já para aqueles que buscam criatividade, "fazer o não feito" significa imprevisibilidade, e não submissão sistêmica. O esforço é resultado de um compromisso com a criatividade, você não pode planejar criatividade mesmo podendo aprender a ser criativo, nunca se sabe quando uma ideia surgirá e nem sabe o que virá, ela apenas acontece, o nosso compromisso com a ideia é que da forma a obra.
Pessoas criativas têm barreiras autoritárias menos relevantes, pois existem barreiras que podemos ignorar fácil ou não. No escolher uma vida criativa desenvolve-se também depois de um tempo uma espécie de proficiência onde a pessoa saberá diagnosticar algo ou alguém que está impedindo a fluidez natural das coisas.
Um artista envolvido em um relacionamento problemático, com alguém desequilibrado, possessivo e com ciúmes incontroláveis, terá barreiras criativas sérias. Em um momento, ele terá que escolher entre o relacionamento e a criação. As barreiras à criação são muitas e algumas são desconfortáveis, como nos relacionamentos tóxicos, crenças negativas sobre si mesmo e até mesmo amizades ou convivência com pessoas criativas frustradas, essas pessoas se não estivermos atentos podem exercer sobre nós uma autoridade bloqueadora do processo. Outro exemplo é a entrada no mundo das drogas. Drogas e criatividade nunca foram combináveis, apesar de muitas personalidades famosas terem experimentado esse caminho criando aí o estereótipo do artista drogado. A criatividade já estava presente antes nessas pessoas e foi prejudicada pelo abuso de drogas.
Pessoas usam drogas por muitos motivos, como frustração, diversão, fuga da realidade, compulsão, depressão, entre outros, mas onde a criatividade entra nisso? Pode ser compreendido que alguém buscou um desbloqueio criativo pelo uso de drogas, mas as percepções sensoriais fornecidas por elas são artificiais e temporárias, sem sensibilidade ou memória que possa traduzir os efeitos. Talvez muitos escolheram esses caminhos por acreditar que as drogas poderia melhorar o como elas se relacionavam seus medos, sim, o medo também é um instrumento bloqueador se você deixar. É preciso coragem para expor o objeto criado. O problema do abuso de drogas é a volta à realidade, trazendo sensações negativas e afastando a criatividade. A criatividade e a arte não aceitam qualquer tipo de autoridade, nem externa, nem as escolhidas por nós próprios e muito menos as drogas.
Inclinar-se para a direção do compromisso tão somente com a criação é inclinar-se a uma vida comprometida com liberdade, principalmente a liberdade da mente. Ideia criativa é um pequeno farfalhar, uma pequena faísca que nos aborda em um momento que menos esperamos e que de tão sutil requer uma certa sensibilidade para se reconhecer se aquela ideia é boa ou não, se tem a ver conosco ou não. Uma pequena fagulha que causa um verdadeiro incêndio interior, que pede de maneira latente para vir ao mundo, mas ainda quando quando faísca se apaga quando encontra barreiras autoritárias ou mesmo pode nem aparecer.
09/02/2023