A Ilusão do Encontrar
Setembro/25
Setembro/25
A vida, em sua trama silenciosa, não se contenta em oferecer respostas nítidas. É antes um terreno movediço, onde cada passo pode ocultar uma armadilha: a cilada de acreditar que a dúvida será sanada apenas porque ousamos persegui-la. Na ânsia por aliviar o desconforto, corremos atrás de respostas que não nos libertam — apenas nos oferecem o simulacro do alívio.
A verdade, quando se mostra, nunca se entrega por inteiro. Às vezes surge como claridade súbita, simples e direta, quase banal; outras vezes se disfarça de enigma, intocável, inalcançável, obrigando-nos a reconhecer nossa pequenez. Mas, incapaz de tolerar o vazio, a mente investiga, força interpretações, transforma cacos em mosaicos que pareçam significar algo. É assim que o imaginário se traveste de real e passa a reger nossa leitura do mundo.
“Quem procura, encontra” — mas o que se encontra é sempre a verdade, ou apenas a retórica que melhor se adapta às nossas carências? Quando a resposta nos favorece, não tardamos a erigi-la em convicção. E então recolhemos indícios, montamos um tabuleiro de peças mal-ajustadas, mas suficientemente convincentes para nos embalar na crença de que compreendemos.
Esse jogo, contudo, cobra um preço alto: acabamos por habitar mais nossas narrativas do que a realidade. Criamos ficções tão elaboradas que chegam a convencer os outros — e, em parte, até a nós mesmos. Mas o silêncio do real permanece intacto, lembrando-nos de que talvez nunca saibamos. E, se soubéssemos, o que de fato mudaria?
Ignorar não é a verdadeira desgraça. O verdadeiro risco é a ignorância disfarçada de saber, aquela que substitui a busca pelo repouso ilusório da resposta pronta. Talvez o começo do caminho não esteja em preencher a ausência, mas em habitá-la — aceitando o limite, suportando a opacidade, para enfim dar espaço àquilo que, sendo concreto, não depende de nossa imaginação para existir.