Por: Rapha Sorto
14-03-2023
Talvez eu tenha tido o privilégio de fazer parte de algumas sociedades ligadas a literatura, registro escrito e muitas outras coisas boas desse universo que comumente é composto por gente que ama escrever e também cuidar daquilo que um dia foi cuidadosamente registrado por alguém. Livros são uma forma de memória física, que alguém em algum tempo escreveu para que, na posteridade quem sabe fosse degustado/estudado por outra pessoa que não encontrou nos escritores do seu tempo algo que afagasse a sede de saber, algo que só poderia ser dito por alguém que já não está mais entre nós. Todavia esse texto não é para refletir sobre o papel da escrita por aqueles que já se foram mas, também dos que aqui em vida ainda estão. Gostaria de claramente me direcionar a literatura de cunho instrucional religiosa, mais especificamente as religiões de matriz afro, o papel da sua literatura nas práticas religiosas na atualidade e a força que move o ser, para fazer um registro sistemático para deleite do saber das gerações futuras.
Desconheço, na linha da história dentre as mais diversas manifestações de cultos afro-brasileiros, o exercício religioso dessa natureza que despreze o saber dos mais antigos, para além, em todos os cultos que tive oportunidade de conhecer e me relacionar, a figura do mais velho é posta em pauta sempre como uma posição que devemos muito respeito, não só pela tradição notória de hierarquia mas também, pelo acúmulo de saberes práticos vividos pela figura do ancião bem como a singularidade daquele que atravessa a linha da vida de várias gerações sendo a prova viva da benção da longevidade. Cada pessoa na sua caminhada particular aqui na terra se inclina as veredas que bem entende viver, se articula e contribui para sua comunidade da forma como pode e ou que busca saber para se articular. Nessa caminhada, vários foram aqueles que para além de seus saberes práticos, despuseram de seu sagrado tempo para registrar ou ajudar registrar conhecimentos para as futuras gerações dessas manifestações religiosas.
Atualmente é inegável o aparecimento epidêmico das mais variadas figuras na exploração dos meios digitais, mais precisamente das mídias sociais para a captação de novos simpatizantes, adeptos e até mesmo para a formação de uma espécie de “rebanho digital”. Não nos cabe o juízo das motivações acerca de todo esse movimento midiático, o fato a se chamar a atenção em todo esse movimento que vem em uma forte ascendente, muitas vezes vir acompanhado de um discurso antiliterário, anti-saber cuidadosamente sistematizado em outra época por alguém que um dia já foi um ancião. Para além, também é espantoso o discurso anti inteligente contra aqueles que ainda no nosso tempo buscam um outro viés de disseminação de saber que seja não somente a oralidade. Cabe salientar ainda que, a escrita nada mais é do que a tentativa de representação da fala e que por esta razão exige-se uma maior quantidade de detalhamento daquilo que é escrito para poder ser entendido, visto que, na escrita se perde uma ampla gama de linguagens que se julga não verbais. Mas ainda assim a escrita é matéria de suma importância para memória e articulação dos saberes.
O que nos leva a escrita
Uns escrevem por prazer, outros por necessidade, certamente alguns de nós escrevem por puro status, inúmeros são os motivos que podem levar alguém a escrita. Certamente o motivo menos inteligente da escolha por escrever está na opção de escrever por dinheiro, quem escreve sabe que a possibilidade de se deleitar do sucesso financeiro da própria obra é por vezes uma possibilidade, muito, mas muito, remota. Pois diversos também são os mecanismos que hoje se posicionam em uma situação contraproducente para o escritor. O pirateamento de obras físicas já era algo real antes da internet com o avanço dos formatos digitais de leitura tudo ficou ainda pior do ponto de vista comercial, pode ter certeza se você por acaso escrever um sucesso nos tempos atuais, mais da metade de seu lucro será sugado pelos porões obscuros de pirateamento da internet, lhe restando é claro, alguns bons bônus relativos a obra, como palestras, reconhecimento, mesas redondas, etc.. Mas aquele universo de colher o lucro do esforço da escrita tomando seu café no conforto de seu lar é algo quase que inexistente. Por que as pessoas escreveriam então?
Pelos mais diversos motivos, mas há um deles que se situa muito além dos jardins da transmissão de saberes para as gerações futuras: Criatividade. E não menos importante, aquele que se debruça em registrar o saber para as gerações que ainda desconhece, assim o faz por uma questão de visão futura. Sistematizar um corpo de saberes pode estar relacionado simplesmente em manter intacto uma forma singular saber fazer, que possui a extrema vontade de transmitir o seu legado de maneira a não ser interferido por outrem e ou ainda ficar refém de uma oralidade caótica. Oralidade esta que hoje na boca de muitos, desclassifica o esforço despendido na ação do escrevente. Aquele que registrou o como fazer, seguiu o pulso criativo de transmitir ao futuro o conhecimento e esta foi a atitude ousada da sua transmissão.
Aquele que se debruça a sistematizar conhecimentos através da escrita sabe muito bem o peso e leveza do que significa lidar com as veredas criativas. A criatividade talvez seja a única manifestação realmente divina em nossas vidas, é através dela que compartilhamos com o criador de tudo, o seu ofício: o de criar. Quando a ideia bate na sua porta, em uma hora qualquer de um dia ou uma noite nada a ver, você sabe que é hora de colocar aquilo no papel. É muito mais que ganhar dinheiro, é muito mais que somente status, é um privilégio de se envolver com o dom do criador, é ser portador de sua mensagem. Cometeram os sacerdotes erros, ao seguir sua criatividade?
A confusão das confusões
Desprezar o conhecimento que um sacerdote registrou para deleite das gerações futuras é de longe um comportamento grotesco, se este não está mais entre nós soa mais anedótico ainda. A essa altura, podemos acreditar que aqueles que se aventuram nos meios digitais certamente desconhecem e muito do caráter obscuro das ferramentas das mídias sociais e também vivem uma espécie de medo do saber. O fato é que o mundo mudou, essa aquisição de conhecimento verticalizado do passado não mais existe e isso já deve ter uns vinte anos, os saberes sistematizados hoje transitam e leia-se saberes sistematizados: livros. Talvez muitos de vocês sejam produtores de vídeos para internet, vídeo não é saber sistematizado, é um recorte de um recorte, não importando se este tenha cinco minutos ou uma live de cinco horas. Todo conteúdo de mídia social produzido por muitos de nós é de suma importância para divulgação e movimentação dos seguimentos que acreditamos, mas não é nem de longe ensino sistemático de saberes ancestrais, que diga-se de passagem, seja qual for o seguimento religioso de matriz afro, é conhecimento que não acaba mais.
Por muito tempo nosso povo clamou por um crescimento e visibilidade da religião, pois bem, o crescimento aí está. As novas vertentes, as discordâncias, as pessoas que se desgarram e escolhem tocar o seu tambor versado no seu próprio saber, não estão destruindo religião alguma, esse movimento aconteceu historicamente em qualquer religião que tomou popularidade, por que na nossa vez seria diferente? Ah sim, somos abençoados mais que os outros, né!? Vertentes religiosas acontecem por discordâncias, sempre aconteceu e vai continuar acontecendo, o que não pode acontecer é queimar o saber em praça pública como muitos de nós estão fazendo. O que vocês imaginaram que aconteceria com tantos livros circulando?
Por ultimo gostaria de deixar a todos sem exceção um alerta, no que tange mídias sociais, não invento uma historinha tão pouco crio fantasias da minha cabeça. Muitos de nós, entraram por esses caminhos para divulgar o seu trabalho sem pensar o mecanismo que move essas arquiteturas. Quanto mais famoso você for nas redes saiba que, mais alinhado você está com os interesses de quem patrocina as redes, e as redes se retroalimentam da exploração e manipulação dos dados pessoais de seus participantes e também do conflito entre as partes, da batalha entre os iguais. Quando sobrepujamos uma ideia que não concordamos, não estamos perpetuando o valor de saberes que acreditamos, mas estamos, simplesmente fazendo “girar a roda”, criando inimizades e colocando o dinheiro no bolso do patrocinador e não no nosso, por mais que em algumas redes possamos receber uma pequena quantia por nossos views, saibam que o maior desserviço religioso está nesse confronto, na polêmica, no falar mal e não nos livros.
REFERÊNCIAS:
FISCHER, S. R. História da escrita. [s.l], Editora Unesp, 2009.
GILBERT, E.; TELLES, R. GRANDE MAGIA - VIDA CRIATIVA SEM MEDO. Objetiva. 2015.
LANIER, J. Dez argumentos para você deletar agora suas redes sociais. [s.l.] Editora Intrinseca, 2018.
PUCHNER, M. O mundo da escrita. [s.l.] Editora Companhia das Letras, 2019.
SILVA, T. Racismo algorítmico. [s.l.] Edições Sesc SP, 2022.
VÉLIZ, C. Privacidade é poder. [s.l.] Editora Contracorrente, 2021.