“A humildade não é a depreciação de si, ou é uma depreciação sem falsa apreciação. Não é ignorância do que somos, mas, ao contrário, conhecimento, ou reconhecimento, de tudo o que não somos.”
— André Comte-Sponville
O que move este texto é o nosso tempo — esse em que o adjetivo “desumilde” ressuscitou na boca de gamers e influenciadores, enquanto outros se auto celebram como humildes em seus perfis públicos.
A humildade, como virtude, se enfraquece justamente quando é proclamada. Dizê-la já a nega. Ainda assim, tornou-se quase uma exigência performar humildade nas redes — não o fazer pode gerar o julgamento imediato de arrogância. Mas a quem devemos ouvir? Aos algoritmos ou à filosofia?
Minha intuição se alinha com Comte-Sponville, que refletiu sobre isso antes que os likes passassem a medir virtudes.
Vivemos a era da subversão conceitual. Todos falam sobre tudo, mas poucos se entendem — cada um interpreta palavras à sua maneira e as transforma em verdades pessoais absolutas. Humildade, nesse contexto, virou um truque de linguagem, um verniz.
Reconhecer as próprias habilidades, ser bom naquilo que se faz, não é arrogância. Mas se esconder atrás da autodepreciação para parecer modesto também não é humildade — é insegurança disfarçada de virtude. Desumildade, por sua vez, é o ato de inflar a si mesmo além do que se é. Como exemplo, os que compram seguidores ou ouvintes fantasmas para parecerem mais relevantes do que são. Isso não é valorização do trabalho. É distorção da realidade — e confusão identitária.
Quem somos, afinal, sem os filtros, os números e os espelhos digitais?
A internet trouxe avanços notáveis, mas também uma nova forma de definir valor e visibilidade, geralmente orientada por disputas mercadológicas. A “moda” de se dizer humilde é só mais um sintoma de um tempo em que a performance se sobrepõe ao ser.
Reconhecer em si a ausência de humildade pode ser o primeiro ato realmente humilde.