É necessário falar sobre o tempo, mas não sobre aquele que acreditamos nos faltar — e sim sobre o que está acumulado em nós desde o começo, todas as experiências, tudo aquilo que já testemunhamos e que só foi possível, vivendo. Porque, em parte, somos isso: acumuladores de épocas, de visões, de aprendizados e de milhares de outras coisas que nem recordamos, até sermos presenteados com uma fagulha de memória.
É necessário também nos esvaziarmos, é uma espécie de manutenção da saúde — não só dos objetos entulhados pelos cantos da casa, mas de sentimentos, pessoas, situações e principalmente daquilo que já não somos.
Um serviço de remoção de entulho das coisas que, além de terem perdido significado e importância, já não possuem nenhuma justificativa para permanecer. Porque ganhar tempo também é voltar a acumular — e, de certa forma, desejar voltar a ser é tentar recuperar, o que se perdeu pela via do acúmulo. Mas esse retorno esbarra numa impossibilidade: para que o “voltar a ser” existisse, seria necessário o mesmo cenário e a mesma condição.
O sentimento de retorno é latente em muitos — e junto com ele, a impotência do não possível. Ou, quando há a crença de que seja possível, desconsidera-se aquilo que somos no tempo e no espaço: acumuladores.
Aquele que retoma um antigo emprego não é mais aquele de outrora — e nem a empresa é mais a mesma, ainda que a memória residual nos permita reconhecer algo pelo nome e aparência. Ambos os lados agora carregam uma bagagem ampla — e o que foi sucesso antes pode não ser proveitoso agora. Mas também pode ser, despertando a consciência e nos afastando da fantasia.
Não somos mais aquilo. Somos agora a soma de todas as coisas: aquilo que fomos na época, mais tudo que adquirimos nos momentos em que, para o outro, éramos somente ausência. Voltar a ser é um recorte. É uma amputação. Ser com tudo que está contido em nós parece, de longe, a opção mais alinhada com a realidade.
Há coisas de um período em que estivemos somente em nossa própria companhia que são impossíveis de desapegar, de remover — e não devem ser, pois hoje ocupam um lugar de importância na nossa autoconfiança e permanência no mundo. Em parte, essas coisas são muito do somos agora. Foram elas que nos deram sustentação em dias completamente nublados, quando descobrimos que tudo o que tínhamos... era nós mesmos.
E assim seguimos.
Se podemos contribuir agora com algo novo, mesmo ocupando uma posição que já ocupamos, é porque este novo é produto do acúmulo e do desapego gerado pelo tempo que habita em nós — o tempo de sobrevivente dos tempos trevosos. Invisível, mas ele está lá e nos acompanha por todos os lados.
E a única pessoa que acreditou em nós quando mais ninguém acreditava… fomos nós mesmos. Motivo pelo qual devemos permitir que todos que um dia nos abandonaram preencham nossa vida com sua ausência sendo removidos pela caçamba da boa saúde, mas nós não. Somos os únicos que realmente não pularam do barco no mínimo sinal de mar revolto.