TEORIAS DO CÁRCERE I : A DESCOBERTA DA MENTIRA E A DÚVIDA SOBRE A VERDADE
TEORIAS DO CÁRCERE I : A DESCOBERTA DA MENTIRA E A DÚVIDA SOBRE A VERDADE
“Você percebe algo errado,
está no ar mas, não entende;
Sente e não sabe o quê;
Foi posterior ao cortejo fúnebre
que enterrava a verdade;
Concorda que um pássaro
por desconhecer o que é gaiola
vive a cantar;
Como pode o que te prende lhe dar água,
comida e cuidado?
Cuidado!” 918
É necessário logo de início falarmos sobre a insignificância das coisas que julgamos insignificantes pois o que aqui está, transita em muito nos jardins da memória, pessoal e coletiva. Não há uma preocupação a que porta da categoria do saber se assentam essas palavras, julgue-as como achar melhor, arte, ficção, filosofia, teoria da conspiração. Aquilo que considera-se insignificante por natureza acomoda-se no imenso espaço vazio de nosso esquecimento, aglutina-se em algum canto apagado da nossa memória os acontecimentos, lugares, pessoas, cheiros, sabores e dissabores aos quais do alto da nossa prepotência foram um dia julgados sem importância. Aquilo que se perde ao vazio apagado da nossa memória é matéria cuja a lembrança requer esforço da parte esquecida e não de quem se esqueceu. Assombroso quando alguém que julgamos desconhecido aborda-nos e nos chama pelo nome em meio a uma multidão de rostos que julgamos desconhecidos. Nenhum esforço nosso é sucesso para recordar quando assim esquecemos e a cada momento que a conversa avança há uma sensação de temor e alívio sempre acompanhados de muitas desconfianças das afirmações do orador esquecido. Há os que acreditam mediante essa situação estarem diante de alguém mal intencionado, há os que se sentem menos desconfortáveis a partir do momento que fatos peculiares vão surgindo e há os que fingem recordar para cessar ali o desconforto. Não há os que se recordam. Para recordar é necessário ter memória, e para memorizar é necessário uma espécie de chave figurativa, algo imaginário que só aquele que guarda sabe. Se você pensar no seu melhor amigo, na sua mãe, no seu filho e até mesmo no seu cachorro há uma imagem que se forma mentalmente antes mesmo de você trazer a mente a imagem da pessoa ou seu nome, sua forma, seu cheiro, suas manias, etc. Há algo que vem somente na sua cabeça quando pensa nessas coisas e essa é sua chave mnemônica que acessa a pasta onde está guardado os arquivos de memória referentes a essas pessoas queridas. Nossa memória é organizada de modo de importância, não necessariamente por proximidade afetiva e sim por sobrevivência, onde tudo aquilo que não é importante para nossa sobrevivência vai tomando um lugar secundário nos nossos bancos de memória e apesar de ainda não haver nenhum estudo que diga com precisão o quanto de memória podemos ter e estima-se que é uma quantidade absurda em matéria de grandeza, tudo aquilo que é insignificante para nós caminha não para um setor secundário da nossa memória mas, para os porões do esquecimento, sendo lá se não reavivada essa memória de tempos em tempos, é apagada por completo. Podemos nos esquecer de pagar um boleto, mas não se pode se esquecer de se alimentar, pode-se com facilidade se esquecer qualquer manifestação estabelecida pela cultura em geral, mas não se pode em condições saudáveis se esquecer de coisas que atentem contra nossa sobrevivência ou responsáveis pela manutenção da mesma. Aquilo que está em um setor primário de memória quando aprendido nos lembraremos sem nenhum esforço tão natural quanto alimentação. Todo resto é efêmero e depende de manutenção. Aquilo que julgado por nós insignificante e que não há uma manutenção periódica cairá para sempre em esquecimento, motivo do desconforto quando um “desconhecido” lhe chama pelo nome, o esquecido se esforça a todo custo em emitir sem sucesso informações que possibilite aquele que se esqueceu lembrar, e quanto maior o grau de insignificância que depositamos no passado no ser esquecido maior a possibilidade desse já ter sido apagado de vez da nossa memória não importando a quantidade de chaves mnemônicas que ele tente levantar tudo agora é “novo” outra vez. Aquele que experimentou de uma diversidade enorme de amores e pouco desafetos certamente não se lembrará de todos os amores mas, talvez não tenha experimentado desafetos o suficientes para se esquecer daqueles que em vida julgou inimigo. O trauma nesse caso é maior que o amor e possivelmente atrelado a uma pasta primária contendo várias chaves de ligação. A insignificância é um vulto, que de tão insignificante passa despercebido, nossos amores e desafetos ocupam basicamente o mesmo lugar de importância, somente sendo esquecidos com outras experiências, aquilo que não damos importância pode nem acessar nossa memória.
É necessário se levar a sério nossas ideias sobre mentira e as crenças que balizam nossas concepções. Que assim no âmago das convenções sociais seja repetido: “o diabo é o pai da mentira”. Permita que a afirmativa aqui se estabeleça a priori, somente por uma questão de humor, retirando por um breve momento o caráter pesado que trazem essas linhas. A mentira está em todos os seres humanos, todos mentem em mais ou menos grau, tal afirmativa inclui também o leitor e o escrevente, e se todos mentem logo o diabo habita em todas coisas assim como se prega sobre a figura divina. Mas não é sobre teologias, é sobre as artimanhas antigas as quais com o passar do tempo nos aprimoramos é sobre a mentira e o ato de mentir. Nem Kant do alto de suas teorias conseguiu apontar aquele que não mentisse, na busca da verdade o que seu pensamento conseguiu apontar foi um dever, uma lei que estabelecesse que o ser humano não deveria mentir sobre nenhuma hipótese. A mentira insignificante é a dos outros, a nossa própria nunca, pelo menos em tese, o ato de mentir acredita aquele que mente ocupa um lugar conhecido na nossa memória, mentir é sobrevivência. Mentir é legalizado para aquele que falta com a verdade e extremamente proibido para o ouvinte da fantasia alheia, sobre pena de punição. O fato é que mentira é uma construção social, variável de lugar para lugar e de grupo para grupo, a mentira parece sempre estar em defesa dos interesses de alguém ou de algo. A mentira não é nova, acompanha o ser humano desde as histórias mais antigas, talvez nos acompanhe desde o nascimento da nossa cognição.
O abate do homem pela mentira se dá quando este mente para si mesmo passando acreditar em suas próprias fantasias, fazendo este dar força aos interesses desconhecidos das mentiras que conta e depositar seus próprios interesses na pasta da insignificância. Mas, esta cena patológica também não é nova, há lunáticos com profundas crenças em suas fantasias nos livros de história. Assim como não é novidade o uso da mentira em política, e o que seria da política sem mentira? Se mentira é considerada descrita por aqueles que debruçaram a discutir a questão a sério como um construto social que sempre está em defesa de algo o que seria da política sem mentira já que esta é o exercício da defesa dos interesses. Todo aquele que defende algum interesse mente e todo aquele que faz política defende algum interesse. Mas também não é sobre política, é impossível ela aqui não aparecer, tendo esta uma ligação próxima e até se alimentando da mentira.
O fenômeno das fakenews não é o novo, o novo se encontra na ferramenta utilizada nos absurdos que presenciamos. A notícia cujo o corpo é por completo a falta de verdade e só é condenável porque seu objetivo é macular a visão sobre o objeto atacado. Quem na história fora considerado algo que não era por pura propaganda? A fakenews é a mentira que poda a ascensão daquele que pode fortalecer todo um grupo sem liderança, a notícia falsa é direcionada para aquele que não possui amarras com sua base, é um mal e também o bem necessário para aqueles que a disparam. O temor desse fenômeno se deu somente por sua associação com a internet onde aquilo que é dito não possui filtro e ou moderação, pois seu poder pode derrubar bem mais que governos e eleger idiotas.
Há um fenômeno social que envolve insignificância, mentira, cultura e verdade histórica. Todavia quando em engrenagem as artimanhas que defendem seus próprios interesses é comum a grande maioria pensar um jogo que aconteça dentro de um tempo previsível de intenções. Um candidato que utiliza da não verdade na sua campanha é entendido pela parte mais atenta das camadas populares como alguém que se utiliza desses artifícios com o objetivo de sobressair, de levar o pleito eleitoral a seu favor; Alguém que edita suas fotos para ter um aspecto mais atraente nas redes sociais é entendido por um olhar atento como alguém que quer ganhar a atenção mostrando uma beleza que não tem. Em ambos os casos é exatamente assim que pensamos e ou a maioria de nós pensa: a mentira e suas artimanhas possuem um tempo útil para determinado fim, tirado o caso dos políticos, ninguém se importa com aquele que enche suas fotos de filtro, é insignificante. Não é inclinação desse texto dizer se é correto editar ou não fotos para tentar chamar para si uma atenção cuja os recursos naturais a beleza individual não proveu, é de inclinação do texto mostrar que tal ação que julgamos insignificante são como várias outras coisas que atribuímos o mesmo valor.
Não há prisão maior para aquele que cria, do que as grades mentais, as crenças limitantes que incessantemente formatam, enquadram, se impõem muitas vezes sem o indivíduo formatado perceber. Nossa existência emerge de um ponto insignificante de algum lugar no globo e automaticamente é envolta e esmagada em um processo macro que desdobra em infinitas aceitações de uma realidade que já encontramos pronta, somente somos incumbidos de assim aceitar e se deixar moer em meio a essa grande máquina de triturar pessoas que à propósito é composta por mais pessoas como nós mesmos. Você se torna um recorte das culturas que escolheu praticar somado aquelas que exerceram um formato sobre si mesmo sem sua escolha e, em algum ponto desse conflito e consenso de culturas formatantes acredita ter se tornado algo de sucesso, livre, dono de si. Aliás não permitindo que a cultura aqui formate ainda mais sua percepção entenda que sucesso é algo variável dependente da perspectiva de mundo adotada.
Cada grupo a sua visão, aglutinam-se sobre a esfera do globo que denominamos um todo como civilização. Nesse emaranhado de pessoas e visões diferentes sobre a vida, o mundo e as coisas, está o grupo ao qual você tem maior contato e dentro dele você, a flutuar ora envolto ao cerne de crenças específicas do grupo, ora se aproximando de crenças que julga por si serem satisfatórias para sua existência. Há os que dentro de profunda insatisfação peregrinam longas distâncias atrás de outros grupos desconhecidos para chamar de seu grupo, há os que simplesmente aceitam o fluxo natural das coisas e há os que não se enquadram pois sabem, que há algo que não se encaixa, alguma coisa faz dessas pessoas extremamente insatisfeitas tornando-se agitadoras de massas, ermitões ou até mesmo marginais, muitos se inclinam a uma vida de ilegalidades já que a visão que tem sobre si se encontra muito mais a margem do que se pode entender como sociedade. E nenhum grupo representa de fato os seus flutuantes, as leis de grupo ou sociedades ao que parecem nada mais são que apontamentos para tentar tornar uma massa representativa e outra parte dizer quem está fora dela. O caso curioso a exemplo da esfera social, transgredir não garante ao transgressor sua saída da sociedade transgredida mas, sua pena é ficar aos cuidados da mesma sociedade e sustentado por ela em troca de cuidados educacionais com privações de liberdade.
A educação e a propaganda andam lado a lado, o processo educativo existente dentro de cada grupo não consiste somente em passar adiante os conteúdos de interesses julgados relevantes por aqueles de seu tempo, porém constituído na maioria das vezes por gerações as quais desconhecemos. Para além dessa transmissão acopla-se um movimento propagandista que põe ênfase naquilo que se julga como mais importante de acordo com o indivíduo ou corpo educador. Assim o é, também nos espaços educativos ditos institucionais regulares de ensino público ou privado, aquele que se encontra a frente da labuta educacional imprime sua marca e sua ênfase propagandista na direção das crenças que julgam mais importantes. A exemplo, as várias faces registradas de um mesmo acontecimento histórico é inexistente a exposição e debates sobre perspectivas diversas em sala de aula, ao contrário disso opta por um modelo linear de explicação histórica onde transmite-se os fatos porém se desconhece os motivos. Um movimento educativo que em nada contribui para um ser que pensa mas, contribui em todos os sentidos para um ser que simplesmente se habitua a absorver aquilo que lhe é transmitido. Assim acontece na educação fora da escola e assim acontece na educação da escola e assim será a obediência da sobrevivência.
A mentira assim como a verdade de caráter de uma construção social são pensadas tão somente como objeto fim do ser vivente, como já fora dito imagina-se que ao utilizar-se da mentira como recurso de sobrevivência em sociedade imagina-se junto que, a vida útil de uma mentira tenha tão somente a ver com o período relativo a falsa verdade contada. É extremamente possível analisarmos essa questão pela perspectiva das coisas, fatos e pessoas as quais mesmo onde não se tenha uma chave mnemônica de ligação mas se tenha registros documentais que assim possibilitem a consulta passada do ser ou coisa a ser lembrada. Mas, e no caso da verdade que sempre foi insignificante até que fosse notada? O nosso descuido reside em pensar que a insignificância das coisas reside em um objeto fim com vida útil determinada. Poderia se criar uma verdade a priori insignificante de maneira que esta fosse repassada e ensinada de gerações em gerações até que ela tomasse a cena como verdade histórica desconhecida?
O desconhecido que lhe aborda tratando-lhe pelo nome é verdade, ele faz parte a exemplo de uma conexão da infância a qual somada a falta de constância e contato tomou o status de insignificante e foi varrido da sua memória. Ainda que este narre fatos que você não se recorde tão bem, este ainda é verdade. Talvez você tenha uma dívida com este indivíduo que não se recorda e isso também ainda é verdade. Em meio a confusão de várias referências reais em relação ao passado comum de vocês, começam a tomar formas e talvez esse possa ser o momento ideal para empurrar em você verdades que não são. É hora de fazer com que você dentro na sua inocência e agora insignificante, suba o status da mentira pelo desconhecido contada para verdade. Talvez esse indivíduo não queira nenhuma vantagem financeira de você, nenhuma vantagem que o prejudique mas, chegamos ao ápice do momento ao qual aquilo que até então ocupava o status de insignificante lhe aborda fazendo um exercício de memórias forçando-o sutilmente a atestar sua existência como verdade. O que há nessa lacuna como verdadeiro não se sabe mas, atestar a existência comum passada e com o susto de quem narra tantos detalhes é também atestar a verdade desse indivíduo como um todo, mesmo que não seja, ou não?
Aquele que atesta como verídico o indivíduo, coisa ou situação que utiliza atributos que não tem, atesta e aprova também outras mentiras como verdade, não só o que se vê como sobressaltado mas, tudo aquilo que ainda está ou continuará oculto e que por ventura possa encarcerar mentes. A força da oculto está em sua insignificância que se utiliza de ancoragens reais para se atestar aquilo que não se é. Muito movimento humano tem assim sustentado e movido sua cultura, ensinando verdades que não são atestadas as custas de ancoragens verídicas. O aporte estasia, relaxa para quem possui o dom de orquestrá-lo, certas horas pode até parecer o dom da vidência mas não o é. Não confunda a essa altura a ação presente daquele que fora rotulado como insignificante com o contemporâneo stalker: aquele cuja você não se recorda é real você só não se recorda dele, o stalker também utiliza da força surpresa da insignificância porém ele não terá a mesma força de ancoragem que o primeiro, o stalker é medonho, sombrio o outro é familiar desconcertante ao invés de medo provoca em nós um sentimento de vergonha por não conseguirmos nos lembrar de onde o reconhecemos e automaticamente tendemos a ativar um mecanismo que nos autojulga por não lembrarmos de situação tão próxima.
No âmago dos grupos sociais muitas das crenças difundidas existem naturezas com ancoragens feitas a partir de pessoas e ou episódios reais porém com enormes lacunas preenchidas com verdades duvidosas cujo a única razão é objeto de exercício do poder e controle de seus pertencentes. Hoje uma história que surge de maneira insignificante pode emergir futuramente com extrema verdade apoiada nesses artifícios. A exemplo: Álvaro Thais certamente é um nome insignificante a muitos porém se falarmos Inri Cristo terão uma ligação mnemônica com o astrólogo brasileiro que que diz ser a reencarnação do próprio Cristo, ainda como Inri sua figura pode ser comumente entendida como um desses fenômenos típicos da insignificância que certamente já é apagado há muitos mais novos que sequer ouviram falar do mesmo. Não se trata do que ele é ou acredita ser, nem muito menos de dizer o que ele não é, se trata de entender a inteligência histórica que existe por trás da sua caminhada. Desde sua aparição foi tratado por muitos como um fenômeno pitoresco sendo aqueles casos que onde pela boca de uma pessoa não religiosa o retrata como uma simples piada e através dos religiosos mais ortodoxos o veem como um insulto ao sagrado. Se o mesmo possui consciência do que está fazendo o texto não tem a menor condição de responder essa questão, mas de um ponto de vista histórico através de uma comunidade que se estabeleceu e assim o respeita como tal, que testemunho os descendentes de seus discípulos darão no futuro?
Assim são formadas muitas das que aqui chamamos teorias do cárcere, histórias com personagens reais que ignoradas ao seu tempo ganham força de verdade em tempos futuros, assim como nas relações de pessoa a pessoa estas também podem se dar nas relações entre grupos maiores. Comumente acredita-se que aqueles que montam a verdade de maneira a subtrair vantagens assim fazem somente dentro de seu tempo porém, uma mente mais astuta pode pensar tais teorias com certa longevidade, garantindo assim lugar de evidência para aqueles que um dia foram insignificantes. Em contra partida as pessoas matam e morrem por sua fé em histórias que se quer entendem o mecanismo que move a engrenagem por detrás do enredo, dando lugar de comando aqueles que um dia a sua soberba simplesmente consideraram insignificantes condenando-os ao natural apagar de suas memórias e se inclinando a esses mesmos quando ressurgem com roupagens diferentes. Aquilo que se perde ao vazio apagado da nossa memória é matéria cuja a lembrança requer esforço da parte esquecida e não de quem se esqueceu. Aquele que joga no esquecimento o domínio outrora será dominado.
23-08-2022