Rapha Sorto
06-06-2023
O momento atual é imediato e desmemoriado e aqui não se fala de memória de longo prazo, tudo é esquecido no momento seguinte e essa falta de lembranças é quem nos sucumbe a uma condição hipócrita e não autêntica. Se pode cultuar a falsidade se assim desejar mas, em um momento ao qual tudo é raso é melhor observar os outros com água na canela do que fazer de conta que refrescamos a bunda em águas profundas.
Esse texto não da conta de questões históricas da humanidade, não dá conta de grandes feitos políticos e ou soluções para mazelas urgentes. Esse texto desce aos porões da natureza superficial das relações cotidianas, estas que por motivos desconhecidos colocamos em um pedestal e batemos sobre o ombro alheio dizendo: “meu amigo”. Nós um bando de desmemoriados se afundando cada vez em um poço de relações que julgamos reais, mas não são.
As relações já eram complexas antes mesmo do surgimento da internet, as pessoas já se manifestavam profundamente falsas, antes mesmo disso tudo começar. No seio do ambiente virtual essas que, antes disso tudo assim já eram encontraram um cenário perfeito para escamotear cada vez mais suas intenções. A possibilidade de dizer algo sem estar presente e sem a possibilidade da continuidade de se pedir mais informações acerca de um fato abre caminho a qualquer um, dar vida a um eu completamente abstrato.
Assuntos complexos que emanam dos jardins da alta reflexão não podem todavia serem digeridos na mesma velocidade de engajamento com que são publicados nas redes sociais. Naturalmente aquilo que é complexo de ser dito, terá a mesma proporção complexa de palavras que possam representar essas mesmas ideias. Como pode a concordância ou discordância tão imediata sem uma sincronicidade daquilo que se pensa? Como pode o cérebro degenerado pelo vício e ainda entorpecido afirmar que compreende? Se com rapidez nas condições das interrogações é falsa a afirmativa.
No momento atual parece necessário pelo menos aparentar que somos capazes de reunir um grande número de pessoas ao nosso entorno para que a vitrine onde estão expostas nossas ideias ganhem uma espécie de respeitabilidade, com isto envolve-se com aqueles idiotas úteis que dizem entender as coisas de imediato, mesmo que essas coisas demandem tempo. Até o orador nessa cena de pobreza de autenticidade passa a interagir com assuntos que não são mais de seu interesse a modo de manter e aumentar o rebanho dos concordantes. Suspeita-se que a verdade esteja depositada em algum lugar empoeirado, esquecida em um barraco escuro.
Otelino já era um charlatão antes que a desgraça encontrasse a porta de entrada da sua vida. Todos os acontecimentos ruins só fizeram encobrir sua personalidade fazendo o povo da Vale do Rego se compadecer com seu sofrimento. Que na verdade seu sofrimento se tornou apenas uma tela de fundo, para ele sair por aí pintando suas cagadas. As maioria das pessoas acreditam que sofrimento ensina, nem sempre. As vezes a vergonha ensina mais.
Nosso farsante era personificação daquilo que as relações cotidianas tem se esforçado a cada momento em se tornar, aparentava ser o melhor amigo de todos, contando mentiras que ele mesmo acreditava e se esquecendo delas momentos depois. Tudo exatamente da maneira como tem sido nesses tempos sombrios. O problema era Toinho Madeira e Zé Bento, que também se iludiram engalfinhados nesse mar de falsidade porém tinham boa memória, não valorizavam essas relações digitais assim como os demais.
Uma tempestade está se armando, um novo capítulo está por vir e assim como Kadede e Iza Cabalum, Otelino também passará pelo julgamento da memória.
As coisas complexas do pensamento, as quais muitas vezes levam tempos para serem expressadas a custa da falta de representatividade de palavras para serem ditas, devem todavia serem expressadas com bom humor, na plateia haverá diferentes grupos de ouvintes:
Haverá ali os que lhe tratarão como um bobo da corte, esses logo se ocuparão de rotulá-lo como um piadista, desses você sempre receberá bons convites, é conveniente para eles que você esteja por perto e que você continue falando das coisas como se fosse uma piada. Na verdade eles não entenderam nada, a arrogância própria os faz acreditar que você é um mero contador de histórias em busca de atenção e lhe darão um cargo de cachorrinho engraçado do grupo;
Haverá os que farão silêncio, esses estão perdidos demais para prestar a atenção em qualquer coisa a sua volta e podem ser tão perigosos quanto os que te rotulam como bobo, pois a sua distração fará seguir o grupo dos mais numerosos e os mais numerosos não são os que te entendem;
Haverá aqueles que só lhe entenderão dentro de uma semana ou mais, esses merecem alguma atenção, possivelmente são os verdadeiros e com grandes possibilidades de caminhar ao seu lado, os demais são mentes demasiadamente perdidas e desmemoriadas.