ANCESTRALIDADE, ESPIRITUALIDADE E RELIGIÃO: CURIOSIDADES CONTEMPORÂNEAS



Muito tem se falado em ancestralidade, o termo tem se propagado e caído no interesse das pessoas nos últimos dez anos, bastando o olhar a curvatura das pesquisas realizadas utilizando as trends do Google, a partir de dois mil e treze há um despertar de atenção na busca de conteúdos dessa natureza. O conceito têm se mesclado há diversas manifestações do saber, cada qual com seus apontamentos: Para os que exercem seus saberes nas áreas das ciências biológicas essa leitura vem sendo feita através do mapeamento do DNA, facilmente encontrado a venda pela internet; Para aqueles que se encontram assentados sob o ponto de vista religioso o conceito tem se manifestado principalmente através dos saberes emanados pela cultura do povo que vive as religiões de matrizes africanas, onde um corpo de saberes mais complexo e muitas vezes de natureza ocultista, as vezes de difícil interpretação, cada qual se manifesta de acordo com seu campo de saberes e interesses; Há também um conjunto de pessoas que se identificam como espiritualistas, este grupo envolve ainda maior diversidade de conjuntos culturais de saberes e crenças, ele pode ser composto por pessoas que pertencem tanto ao grupo dos que se apoiam sobre os saberes das ciências biológicas tanto quanto dos saberes religiosos utilizando-se de quantos saberes necessários para justificar e direcionar seus saberes e práticas, para este grupo os saberes da espiritualidade são buscados em quantas fontes se achar necessário.


As religiões em qualquer forma manifestativa são amantes e senhoras da espiritualidade e transcendência, no sentido em que se tirarmos da espiritualidade das religiões essas perdem completamente o seu sentido, o que não acontece do contrário o que nos demonstra as religiões não serem proprietárias da espiritualidade. Nesse triângulo histórico entre religião, espiritualidade e transcendência parece ter chegada a hora de receber mais uma parte nesse relacionamento que se chama ancestralidade. Em verdade a ancestralidade aí está nessa dinâmica desde e o princípio para qualquer tipo de exercício humano não só religioso. Em meio ao emaranhado de confusões que permeiam esse cenário cabe as perguntas: O que são esses conceitos? Qual a ligação de espiritualidade e religião? O que é ancestralidade e qual sua importância?


Espiritualidade e Transcendência

As linhas seguintes podem desagradar os distraídos, se assim acontecer não se ocupe de transbordar ódio, pois, o compromisso que seguem essas linhas é para com aqueles que buscam um pouco de lucidez com questões que muitas vezes poluem nosso cotidiano sem nos pedir licença e não para com aqueles que maquiam toda uma realidade.

Espiritualidade e transcendência são conceitos que só fazem algum sentido se olharmos para dentro de uma dimensão humana de inteligência emocional. A espiritualidade trata da lapidação dos apontamentos daquilo que se acredita, ela assenta-se ante uma decisão que tomamos a qual será necessário crer, assim sendo para aquele de matriz africana por exemplo a espiritualidade será todo o conjunto de saberes dos Orixás que manifesta-se através dos oráculos ou nas falas diretas daqueles que estão em transe como no caso dos espíritos conselheiros da Umbanda. Para o evangélico a espiritualidade é se não o corpo dos ensinamentos bíblicos que se manifesta através de revelações. Para os espiritualistas citados no escopo do texto a espiritualidade é todo o conjunto de crenças que será também manifestado através de instrumento próprio.

Em meio a pluralidade de conhecimentos que temos sobre manifestações de deuses e forças que categorizamos como sobrenaturais, o que não quer dizer que sejam, todas elas convergem a um único ponto comum, a espiritualidade assenta-se ante a ação pois é ela quem conduzirá a mudança interior naquele que crê. Sua função é tão somente modificar o estado ao qual nos encontramos. Razão pela qual pessoas verdadeiramente espiritualizadas tem o dom de mudar o estado emocional de si de dos outros. A transcendência é senão o estado pós ação, a condição do próprio processo de mudanças. Todas as duas questões podem ser experimentadas sem que se haja uma condição religiosa.


A religião

Entenda-se religião como a reunião de um grupo de pessoas que em tese professam uma fé em comum e esta reunião/comunidade que cultua o mesmo deus e professa a mesma fé é se não a luz da razão a vivência e experiência de uma outra verdade diferente da percepção de mundo daquele que não habita o seu meio. Não se trata de dizer se esta verdade é por si só fantasiosa ou não mas, se trata de entender que a experiência de uma verdade e visão sobre a vida é possível em várias situações que não somente no ambiente religioso e o ser humano assim o faz desde sempre. Essa condição abre as portas para uma visão de que viver uma outra realidade é uma característica ou até mesmo uma necessidade do ser humano, alguns assim o fazem de outra maneira e porque não também assim o fazer através do meio religioso? Toda religião é congregação dos excluídos, e leia-se excluídos não somente no sentido socioeconômico que a conotação da palavra tem em nossa sociedade mas, aquele que por situações diversas estão fora das coisas do mundo de alguma forma e buscam na prática religiosa uma forma de integrar de alguma forma com os que sofrem da mesma dor. Em toda religião uma visão e realidades diferentes, dentro dessa diferença a crença de que a realidade vivida é a correta muitas vezes desprezando as demais, nesse sentindo mais uma razão para acreditarmos que esse hábito de congregar mais se aproxima de uma necessidade humana do que uma expressão divina. Cabe lembrar ao leitor que nada do que aqui está sendo pontuado é em um sentido de afastar ou aproximar as pessoas da prática religiosa, o objetivo está ancorado de descrever os fenômenos tal como eles são, despidos de inclinações tanto religiosas ou ateias. O texto é tão somente uma construção de livre pensamento que se inicia e termina nele mesmo não possuindo a intenção de convencer esse ou aquele.

Talvez uma visão comum a todas as religiões ou pelo menos a maioria delas é a existência de um Deus soberano, uma figura que a ela é atribuída a criação e a vigília de todas as coisas. Um ser cujo o tempo é sempre em todas as coisas. Uma outra característica desse Deus é de ser tão benevolente quanto punitivo o que se faz completamente compreensível pois, aquele que cria tudo também cria a violência como forma de punição. Não basta o respeito mas, o temor. Talvez aqui tropeçamos em um fator psicológico de alto valor e em uma questão importante o de quem é a semelhança de quem? Pessoas violentas necessitaram de deuses ainda mais violentos?

É necessário crer, sem a condição da crença é impossível sentir a maravilhosa transformação divina que testemunham as comunidades e eis aí a aproximação e até mesmo a tentativa de monopólio da espiritualidade. Para que a espiritualidade promova no ser a mudança que dela provem é necessário também acreditar nela, o diferencial é que quando fora de um contexto religioso nem sempre a espiritualidade terá sua natureza na religião, ela pode ser a palavra de um amigo, uma poesia, uma música, uma obra de arte, uma viagem. A crença transforma e ajuda a suportar e as religiões desde sempre sabem disso, tire das religiões a espiritualidade e não haverá religião. O seu lado sombrio desde sempre não está em suas escrituras e ensinamentos mas na divinização da figura sacerdotal, se tratando da religião uma verdade a parte, o que não há nenhum problema nisso, o problema é quando o conjunto sacerdotal atribui o corpo de verdades religiosas a uma natureza mística e fantasiosa, herança das relações passadas, o que se deveria jogar limpo e esclarecer que tudo isso está tão somente no campo da inteligência emocional e não sobrenatural.


A ancestralidade

O termo ancestralidade vem ganhando o interesse público a partir da última década mais precisamente a partir de dois mil e treze, onde se pode observar uma mudança repentina de buscas através das trends, amplamente divulgado tão somente pelos praticantes das religiões de matriz afro. Estes afirmam a manifestação da sua identidade cultural e religiosa estar totalmente atrelada uma a outra, não existindo uma divisória. Em uma outra linha de incentivo a descoberta e apelo a ancestralidade por incrível que pareça também se encontra uma parte da biologia médica, comumente se encontra um conjunto laboratórios que incentivam a venda de kits de exames de DNA cujo o objetivo é mapear a ancestralidade do ser testado. Todavia não acredita esse texto os dois grupos ter alguma ligação, somente se trata de grupos distintos com interesses distintos. Portanto aqui se encontra uma discussão que tem transcendido tanto os limites biológicos quanto os culturais religiosos.

Da mesma forma que passeamos dentro do conceito de religião sem se deixar envolver com nenhuma crença ou paixão o texto se inclina a ancestralidade, esta refere-se ao conjunto de situações culturais e de pessoas que são responsáveis por uma existência futura, ancestralidade é a origem, o ponto de onde surgiu. Tanto o grupo religioso balizado nas culturas de matriz afro, tanto o grupo da bilogia médica assim vendem esse conceito. No campo da biologia o objetivo encontra-se somente em mapear e informar, assim é sua atividade fim, para o povo religioso que vem buscando essas questões o conceito para além desse ponto de convergência se amplia trazendo outras questões de cunho social, cultural, antropológico, filosófico e religioso. A ancestralidade para o povo negro está muito além das fronteiras biológicas, esse movimento além de um movimento de afirmação é um movimento de resgate e busca de entendimento de costumes e tradições perdidas na diáspora e cruelmente apagados no sistema escravista brasileiro. O povo de Candomblé, Umbanda, e outras práticas tem se levantado em busca de um entendimento mais amplo da sua identidade.


A humanidade se aceita por isso se repete é uma síntese do que diz Nietzsche acerca de destino, a busca do entendimento da ancestralidade está ligado ao fato do entendimento das heranças das gerações passadas que se herda. Os fatores culturais e comportamentais gravados no nosso DNA transmitido de geração em geração e o interesse de uma parcela religiosa nessas informações também atrela-se a uma questão de decodificar questões de destino, já toda religião também é um culto de destino. Tanto os povos dos Candomblés como os seguidores Ifá trazem em sua vivência e práticas religiosas um apelo fervoroso e explicito na crença de destino bem como muitas ritualísticas dessa manifestações religiosas fazem diretamente o culto aos antepassados. O fato contraditório está na busca do entendimento de uma ancestralidade cujo seus ancestrais mais distantes trocaram a verdadeira história por uma história mitológica silenciando assim a cultura antecessora. Há quem defenda por exemplo que o corpo literário sagrado de Ifá tenha mais de quatro mil anos porém quando analisado observa-se que o léxico condiz com uma linguística bem recente.


Ancestralidade Direta: Os segredos de família

Em uma perspectiva de probabilidade se deveria por maior atenção aos legados herdados ao que aqui chama-se de ancestralidade direta e essas questões são válidas tanto para questões genéticas como para questões culturais. Não somos somente nossas heranças, somos elas, mais o meio e mais nossa vontade e inclinação. O produto da nossa ação somado as nossas heranças culturais tem cinquenta por centro de chances de frutificar, agora se juntarmos essa mesma frutificação com a herança, nossa ação e o meio o mesmo resultado já cai para vinte e cinco por cento de chance de um mesmo evento se repetir, se olharmos numa linha do tempo de gerações passadas tudo vai ficando ainda mais distante. Se juntarmos nossa existência com a dos nossos pais, nossos avós e nossos bisavós juntados aos fatores descritos anteriormente tudo cairá para uma probabilidade é de 6,25% de se repetir, qualquer investigação antecessora a essas gerações toma uma proporção ainda mais distante de interferência na realidade, é mais uma ação que tem como finalidade matar uma curiosidade do que acreditar que traços tão distantes farão alguma diferença ou até mesmo que possamos tocar sua longevidade histórica.


A ancestralidade direta é aquela composta pelas três ultimas gerações que deram desdobramento a nossa origem, os acontecimentos que marcaram e que se repetiram compõe o que se denomina ou pelo menos deveria se denominar segredos de família. Os segredos são não aqueles fatos que as famílias escondem por acharem vergonhosos mas os eventos que antecederam fatos importantes, tanto bons quanto ruins, é uma espécie de registro feito de maneira oral ou escrita que tem como finalidade constituir um banco de saber que poderá ser consultado para lidar com as situações quando os mesmos fatos antecedentes se repetirem. A exemplo na família de um amigo, todos os homens faleceram em média idade por morte violenta, todos esses ocupavam bons cargos e todos encontraram esse tipo de fatalidade após adquirirem o hábito de frequentar prostíbulos, lugar onde deu origem as confusões que desdobraram em morte, fato este que já havia acontecido em uma geração anterior também com um familiar homem. Esse tipo de memória estando viva alerta e orienta as gerações futuras. Um acontecimento que se repete com maior frequência aumenta o percentual de se repetir dentro das leis da probabilidade.

O movimento religioso tem buscado justamente um movimento ao contrário aos das leis da probabilidade, evidente que quando se desliga do meio familiar e passa a conviver em outro meio a probabilidade referente ao fator interferente do meio se altera para agora o meio em que se está inserido mas, ainda assim a herança genética acompanha a pessoa. Uma pessoa que tem problemas familiares com alcoolismo e também faz abuso do mesmo pode sim deixar de beber frequentando um meio religioso onde o ato de beber não é bem visto, as práticas culturais do grupo somados a espiritualidade poderão mantê-lo longe do abuso do álcool, mas quando a questão religiosa virar uma questão convencional este poderá sofrer o rebote da herança genética e geralmente quando é chegado este momento, a luz do pensamento de segunda realidade religiosa, toda questão é tratada como falta de fé ou ainda dependendo do meio religioso que se encontrar, que é chegada a hora de renovação da fé ou oferecimento de sacrifício. Sagrado é aquilo que inclinamos nossa importância e não aquilo que se diz sagrado.

Ancestralidade não é um privilégio desse ou daquele, todos a têm e todos são afetados e interferidos de alguma forma pelos seus fatores herdados a sua busca é tão somente um movimento de entendimento daquele que assim o julga necessário, não posicionando aquele que a busca em condição de melhor do que aquele que assim não faz, mas em condição de melhor para si mesmo. Todos tem uma ancestralidade e tem pessoas que viverão felizes sem nem mesmo se quer olhar para um século e ou milênio atrás, outras, mesmo fazendo esse movimento não se sentirão satisfeitos, e essa é uma condição humana de muitas vezes viver em busca de algo e não saber o quê. Sua espiritualidade pode ser resultado da sua ancestralidade assim como sua religião bem como sua fé, percepção de Deus ou até mesmo alguma habilidade. Do contrário o importante é entender que nem ancestralidade, nem espiritualidade são propriedades de religião alguma, a primeira porque é fator interferente e criador que dá origem, ela antecede qualquer religião e todas as religiões têm em algum momento sua origem em alguma ancestralidade mesmo que em um passado mais distante sua história genética nasça em um berço religioso foi a ancestralidade quem deu origem a esse berço e não o contrário, a segunda porque é sutil, íntima, se revela de pessoa para pessoa independente de crédulo religioso e somente o ser para qual foi revelada a entenderá deixando de ser espiritualidade quando divulgada a outros.

30-08-2022