--- A Companhia Alemã do Cabo Submarino na Ilha do Faial ---
( Atualizado em: 19/10/2024 )
A amarração do primeiro cabo submarino à Horta em 1893, ligando a ilha do Faial a Lisboa, nos termos de contrato celebrado entre o governo português e a companhia inglesa “Telegraph Construction and Maintenance Company”, estabeleceu pela primeira vez um meio de comunicação que rompia radicalmente com séculos de isolamento de um arquipélago esquecido na lonjura do Atlântico.
Desde cedo que a Inglaterra teve clara percepção da enorme importância de uma rede de cabos submarinos como elemento integrador do seu imenso império colonial, tanto na perspectiva meramente económica e administrativa, como no plano militar e estratégico. Essa ampla visão, determinante para o desenvolvimento das telecomunicações, coloca-a em posição hegemónica na cena internacional, e o traçado dos cabos submarinos e o seu controlo, passam a desempenhar papel essencial no jogo diplomático entre as principais potências europeias e no relacionamento com os Estados Unidos da América.
O lançamento pela Grã-Bretanha da “rede vermelha”, concebida numa dimensão à escala do próprio Império, faz realçar a importância dos Açores e não é acidentalmente que em 1898 o governo de Sua Majestade Britânica, pede a Lisboa garantias políticas sobre o arquipélago, visando impedir a sua utilização sem sua prévia auscultação.
Com o projecto de reformulação da marinha alemã encetado em 1898, a Alemanha de Guilherme II e da Weltpolitik, surge como principal potência rival da Inglaterra, e nesse contexto com o propósito de estabelecer uma rede de cabos no Atlântico Norte, que implicando um nó intermédio nas ilhas dos Açores, tencionava concretizar sem dependência da Inglaterra.
Contudo, a cedência de direitos à empresa americana “Comercial Cable Cº” e à alemã “Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft”, contrariando essa intenção, obrigava à operação conjunta no edifício inglês instalado na cidade da Horta.
É assim que a 26 de Maio de 1900 é lançado pelo navio Britannia o cabo submarino entre Emden e a Horta e, meses depois, a 28 de Agosto, se completava a ligação transatlântica entre aquela cidade e Manhattan Beach.
In Um Contributo para a História da Companhia Alemã do Cabo Submarino na Ilha do Faial
Yolanda Corsepius & Ricardo M. Madruga da Costa, Horta - 2009
DEUTSCHE ATLANTISCHE TELEGRAPHENGESELLSCHAFT
A amarração dos primeiros cabos alemães na Horta foi precedido de largas conversações pondo à prova a capacidade negocial dos intervenientes, numa fase em que a Inglaterra já preparara o terreno de modo a que futuras autorizações para amarração de cabos fossem concedidas à Europe & Azores sendo esta depois em regime de subconcessão a “autorizar” os alemães e americanos a ligação aos Açores.
As experiências pioneiras dos alemães no negócio dos cabos remontam a 1869 com a German Union Telegraph Co., ao abrigo dum contrato com a Anglo American Telegraph Co. para escoamento do tráfego germânico para os Estados Unidos da América do Norte. Esta via tinha graves inconvenientes, resultantes do estrangulamento nos cabos do mar do Norte, provocando grandes acumulações de tráfego.
Em 1869 foi lançado um cabo entre a Alemanha e Vigo, pela recém-formada German Submarine Telegraph Co., cujas futuras ligações seriam Açores e Estados Unidos. O seu fabrico e lançamento foram adjudicados à British Telegraph Construction and Maintenance. Tal significava o acesso aos cabos da Eastern Telegraph Co., uma nova via de escoamento com grandes vantagens económicas e administrativas, adiando por mais algum tempo a alternativa Açores – Estados Unidos.
Em 1885, a Commercial Cable americana lança o primeiro cabo para a Europa ligando Canso à Inglaterra e oferecendo condições e preços mais convenientes, passando os alemães a preferir essa via. Contudo, em 1889, o tráfego internacional alemão passa para o domínio das autoridades postais, que controlam a sua cedência a companhias subsidiárias.
Fundada em 1899, e tendo absorvido a German Submarine Telegraph Co., é então a D.A.T. quem vai negociar a concessão de facilidades para amarração dos primeiros cabos alemães nos Açores (Horta). De acordo com o contrato celebrado surge então a amarração do cabo Borkum I, ligando Emden, na Alemanha (ilha de Borkum) até ao Faial, por um navio inglês, o “Anglia”, que completa a operação a 26 de maio de 1900.
É no recém-construído edifício, a “Trinity House”, que a D.A.T. fica instalada, compartilhando-o com as outras companhias dos cabos.
Ainda no ano de 1900 ficou completa a ligação aos Estados Unidos da América, a 28 de agosto, quando o navio que trouxe o cabo até à Horta, o amarrou em Manhattan Beach (New York). Em 1903 e 1904 são duplicadas as primeiras ligações com o lançamento do Borkum II pelo navio “Stephan” e o New York II pelo “Podbielski”.
Postal (1910) de Emden, junto da qual amarravam os cabos. Remetido para a Horta por familiares dum empregado da companhia.
Esta duplicação veio permitir um mais rápido escoamento de tráfego, sendo o tráfego local entregue à D.A.T. e não à C.C.C. Contudo, nos E.U.A. em Manhattan Beach, ponto comum de ligação à estação da C.C.C. em Canso, no Canadá, o tráfego do cabo alemão, era encaminhado para os seus destinos pela C.C.C., por acordo estabelecido entre as duas companhias.
Com o deflagrar da I Guerra Mundial, e antes do seu fim, os ingleses que tinham cortado os cabos alemães, em 1914, fazendo valer o estatuto de potência beligerante dominante desviaram, em 1917, os pontos de amarração do Borkum I para Penzance, no sul de Inglaterra, e o New Yorl II, de Manhattan Beach para Halifax, no Canadá, três meses após a entrada dos americanos na guerra.
A França, a outra potência beligerante, reivindica a posse dos outros dois cabos, o Borkum II e o New York I, desviando-os, após acordo com os ingleses, do lado europeu para Deolon, e do lado americano para a estação da Compagnie Française de Cables Telegraphiques, em Manathan Beach.
Em 1919, o Tratado de Versailles, após o fim das hostilidades, ratificou a entrega definitiva dos cabos alemães àqueles países, sem que Portugal tivesse sido tido nem achado nessa partilha.
Durante a guerra a D.A.T. interrompeu as suas atividades na Horta após a saída do seu pessoal sob prisão para a ilha Terceira. Esta interrupção prolongou-se até 1924, ano em que é concedida autorização à D.A.T. para amarração de um novo cabo. Contudo, o regresso dos alemães não foi isento de dificuldades.
O ano de 1919, no pós-guerra, foi de viragem a nível internacional no campo das comunicações, e nos Açores, terminara no ano anterior o prazo de exclusividade concedida à The Europe & Azores, em 1893. Os americanos a maior potência económica e financeira do mundo preparam-se para disputar a supremacia da Inglaterra nesse domínio, apoiando as pretensões da Commercial Cable apostada na amarração de cabos nos Açores sem o aval dos ingleses. Portugal intromete-se na contenda e, em vez de marcar presença, solicita à Inglaterra que defenda os nossos interesses (!) na obtenção dos cabos alemães a título de reparação de guerra, em conferência internacional que ocorreu em Washington. Claro que as forças em confronto eram demasiado poderosas para que a nossa pretensão pudesse vingar, permanecendo tudo conforme as decisões já tomadas em Versailles.
Os alemães conhecendo, por experiência anterior, da inutilidade de negociar com o Governo Português, pela instabilidade política que se vivia em Portugal, e pelo já tradicional domínio da diplomacia inglesa junto dos governos que se iam sucedendo em Lisboa, negoceiam com a Inglaterra a amarração de um novo cabo nos Açores, a troco de facilidades no território alemão para comunicações por terra. Só depois é feito o pedido formal a Portugal, e assinado em 6 de setembro de 1924, o contrato de concessão. Após ao que a D.A.T. solicita a restituição do seu património confiscado durante a guerra, o que foi concedido em junho de 1925, resistindo os ingleses durante algum tempo à devolução dos edifícios e outros equipamentos.
O ano de 1926 coincide com o regresso dos técnicos alemães à Horta, para recuperação das antigas instalações e prepararem a amarração do cabo entre Emden e a Horta, mas coincide também com o sismo de 5 de abril, que provoca danos importantes, e a interrupção dos cabos Horta-Pico e Horta-New York, e o terramoto de 31 de agosto, que destrói grande número de casas da cidade. Encontravam-se em curso obras adjudicadas pela Western Union, a nova companhia de cabo a atuar na Horta desde 1924, e com o regresso da D.A.T. maior necessidade de espaço implicou a construção da denominada “Joint Cable Station”, um novo edifício anexo à “Trinity House”, com capacidade para albergar todos os serviços de exploração das companhias C.C.C., W.U. e D.A.T., funcionando nos mesmos moldes de interligação do dispositivo anterior, comunicando todas entre si internamente e com a companhia inglesa.
Foto dos anos 30, do novo staff da DAT. Da esquerda p/ direita sentados - Alberto Lemos, Gustav Corsepius e o diretor Otto Schroder.
O novo cabo alemão de caraterísticas idênticas ao 1HO da Western Union, ficou ligado “diretamente” a este, sendo as mensagens “passadas” dum para o outro por ligação elétrica, graças à compatibilidade dos equipamentos, tornando-se assim quase desnecessária a intervenção de operadores. Foi de treze anos o tempo de funcionamento deste cabo, desde o lançamento, ao seu corte pelo navio inglês “Mirror”, a 3 de setembro de 1939, logo no início da II Guerra Mundial, encerrando-se assim o segundo ciclo de permanência da D.A.T. na Horta.
O pessoal mantem-se na ilha mais uns anos, até 1943, quando a cedência de bases aos aliados nos Açores determina a sua saída definitiva. No ano seguinte o cabo é desviado para Cherbourg e colocado ao serviço das forças armadas americanas.
Em Portaria de 7 de dezembro de 1963, e a pedido da D.A.T. o seu contrato de concessão é denunciado a partir de 1 de janeiro de 1964.
Bibliografia:
Carlos M. Ramos da Silveira. O Cabo Submarino e outras crónicas faialenses. Núcleo Cultural da Horta, 2002
As Casas dos Cabos Submarinos Transatlânticos amarrados na Ilha do Faial no Ano de 1900
Numa rota pelo Mar do Norte, com origem em Borkum, na Alemanha, e destino final na ilha de Coney à entrada do porto de Nova York, a DAT - Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft, lançou o seu primeiro cabo submarino telegráfico transatlântico com amarração no porto da Horta, Ilha do Faial, Açores. Estava-se no ano de 1900, decorridos apenas sete anos sobre a ligação do primeiro cabo lançado via cidade da Horta pela Telegraph Construction and Maintenance Company cujos direitos, em 1895, foram transferidos para a companhia inglesa E&A - The Europe and Azores Telegraph Company. Ainda no ano de 1900 a companhia americana CCC - Commercial Cable Company estabelece ligações transatlânticas por cabo com a cidade faialense como estação intermédia.
A gravura que se reproduz da edição de 6 de Setembro de 1900 do jornal alemão Illustrierte Zeitung, em que se destacam as "casa dos cabos" arvorando em dia festivo as insígnias daquelas companhias, assinala esta ocorrência histórica extraordinária em que a cidade da Horta se afirma como um dos protagonistas dos desenvolvimentos tecnológicos registados no domínio das telecomunicações à escala global. Estava-se na fase pioneira de um contributo essencial na consolidação de um processo que se prolongaria por mais de meio século, associando a ilha do Faial a uma notável realização técnica cujo alcance civilizacional se revelou de enorme relevância para o progresso da humanidade.
Edifícios da D.A.T. na sua traça inicial
Edifícios principais da "Colónia alemã", antes do terramoto de 1926
Títulos de Ações da DAT
Título de Ação de 1000 Reichsmark, da Deutsche-Atlantische Telegraphengesellschaft, emitido em Berlin, em 27.Abr.1925
Dimensões: 297 x 210 mm
Título de Ação de 100 Reichsmark, da Deutsche-Atlantische Telegraphengesellschaft, emitido em Berlin, em 1.Abr.1928
Dimensões: 297 x 210 mm
Título de Ação (série B) de 100 Reichsmark, da Deutsche-Atlantische Telegraphengesellschaft, emitido em Berlin, em 01.Mar.1926.
Dimensões: 221 x 298 mm
Correspondência Postal relacionada com os Cabos Submarinos na Horta
Sobrescrito de carta da Horta, datada de 28.Nov.1908, de Otto Schröder, diretor da companhia Deutsch Atlantische Telegraphen Gessellschaft, endereçada a C. Bruhn, em Libau, Rússia, onde foi recebida a 19.12.1908. Franqueada com 2 selos de 50 réis (D. Carlos) - Açores, obliterado com carimbo 'C.T.T. HORTA / 28.NOV.08'. Seguiu registada c/ Nº 6501, tendo transitado por Lisboa, onde lhe foi aposto no verso o carimbo 'LISBOA CENTRAL / 9.12.08'. Ostenta ainda carimbo de chegada à Rússia. Correio Marítimo.
Bilhete Postal - Fayal Açores (Cabo Submarino) - Horta, 29.MAR.04
Postal ilustrado circulado endereçado a Anvers, Bélgica, onde foi recebido em 10.Abr.04
FILATELIA COMEMORATIVA - Bilhete-Postal - 120 Anos da amarração do 1º Cabo Submarino na Ilha do Faial (1893-2013)
Os Alemães da Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft na cidade da Horta
Retalhos de uma colecção de História Postal e outros documentos afins
por
Jorge Alberto Flores de Almeida Nunes *
Ricardo Manuel Madruga da Costa **
Boletim do Núcleo Cultural da Horta - 2017
*Director de Serviços de Viação e Transportes Terrestres de Angra do Heroísmo
**Núcleo Cultural da Horta; Investigador Integrado do CHAM - Universidade Nova de Lisboa/ Universidade dos Açores
NOTA INTRODUTÓRIA
O objectivo principal do presente trabalho é a divulgação de alguns exemplares de peças filatélicas integradas numa colecção de História Postal organizada e desenvolvida pelo primeiro dos signatários deste artigo, na qual se acolhem sobrescritos e inteiros postais circulados no período das duas Guerras Mundiais e envolvendo cidadãos alemães que integraram os quadros da companhia alemã do cabo submarino DAT - Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft cujo lançamento entre Emden e a horta o navio Britannia iniciou a 26 de maio de 1900. Nesta oportunidade dá-se também publicidade a alguns documentos associados à presença daquela companhia alemã do cabo submarino que não sendo raridades escapam em geral ao leitor menos atento aos interesses das várias formas de coleccionar sobre os mais variados temas.
Para que os leitores apreendam o contexto em que as peças divulgadas se enquadram, interessará deixar algumas breves notas sobre dois factos relevantes: o historial que dá conta da amarração dos cabos submarinos alemães na ilha do Faial já divulgado em anteriores edições do Boletim do Núcleo Cultural da Horta e a ida dois alemães residentes na cidade da Horta, a que depois se juntaram outros de diversa proveniência, para o Depósito de Concentrados criado em Angra do Heroísmo.
Para além das imagens que respeitam especificamente a peças filatélicas com origem nos referidos técnicos da DAT, dá-se destaque a um conjunto de correspond~encia expedida e recebida por Otto Schröder que foi director da DAT e que, à data do primeiro corte do cabo submarino alemão amarrado na Horta após a declaração que marcou o início da I Guerra Mundial, era vice-cônsul da Alemanha naquela cidade.
A ESTRATÉGIA BRITÃNICA PARA O ATLÃNTICO
E OS CABOS AMARRADOS NA HORTA
É já bem conhecido o historial que dá conta da integração dos Açores na rede global de cabos submarinos iniciada ainda em finais do século XIX quando em 1893 amarra na Horta o cabo entre carcavelos e esta cidade, marcando a primeira iniciativa que determinará a transformação da ilha do Faial num importante centro de telecomunicações à escala mundial.
Importa apenas sublinhar alguns aspectos que ajudarão a compreender o significado das peças que ilustram estas páginas. Temos peças que a presença de uma significativa comunidade de cidadãos alemães a residir no Faial explica, a que se juntam outras evidenciando elementos que se associam à existência do Depósito de Concentrados Alemães da Ilha Terceira.
As características, talvez únicas, que presidiram à concepção britânica da estrutura do dispositivo técnico em que assentou o funcionamento da operação dos cabos instalados na Horta, nomeadamente os que tinham a ver com a presença inglesa, alemã e italiana, foram determinantes para explicar factos e acontecimentos que aqui serão referidos. De facto, a existência individualizada de empresas de telecomunicações por cabo submarino instaladas na Horta, não correspondia a um dispositivo técnico específico de cada uma. sendo certo que a Inglaterra por razões de estratégia visando dominar uma rede de telecomunicações à escala mundial a que deu a designação de "rede vermelha". manteve os Açores fora do sistema graças a sucessivos adiamentos na concretização de contratos de concessão, o facto é que a pressão da Alemanha e dos Estados unidos acabaria por impor uma alteração de atitude por parte da Grã-Bretanha. Porém, esta conseguirá formalizar com Portugal uma situação de exclusividade que vai permitir que a instalação de cabos de outros países se processe por sub-concessão britânica e que a operação fique concentrada no edifício da companhia inglesa. Daí a criativa designação de Trinity House que o edifício da companhia inglesa tomaria e que hoje perdura. Esta circunstância explica que bastaram uns escassos minutos para que o cabo alemão fosse cortado após a declaração que levou à I Guerra Mundial. A decisão de corte do cabo seria reeditada quando a Inglaterra e a Alemanha se confrontam pela segunda vez em 1939.
Nestas circunstâncias visando o enquadramento do tema proposto e que respeita à História Postal, importa referir que o conflito mundial desencadeado em 1914, vai determinar que na Fortaleza de São João Baptista no Monte Brasil em Angra do Heroísmo, seja instalado o Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira depois da declaração de guerra em 9 de Março de 1916. Com a chegada dos primeiros 80 prisioneiros de guerra a 1 de maio de 1916, vindos do Continente, tem início a sua utilização.
No que respeita aos alemães residentes no Faial, mais os tripulantes dos navios confiscados na Horta a 26 de Fevereiro de 1916, a sua ida para o referido depósito teve lugar no dia 29 de Agosto de 1916 no vapor S. Miguel, dando entrada no Depósito de concentrados no dia seguinte. O regresso ao Faial de alguns dos alemães que aqui residiam, depois de terminada a guerra, deu-se em Outubro de 1919. Todavia, o recomeço da actividade da DAT na Horta só terá lugar em 1926.
Apenas como nota adicional, constata-se, como Jorge Costa Pereira que já o notara, que o número apurado por Sérgio Rezendes e a Relação dos súbditos alemães que estiveram internados no Castelo de S. João Baptista da Ilha Terceira, arquivada em Angra do Heroísmo, no que se refere aos aos alemães embarcados na Horta para Angra, não apresenta valores totalmente concordantes. Em qualquer caso, o grupo que da Horta seguiu para o depósito de Angra, da ordem das 80 pessoas, representou uma pequena parcela de um conjunto de pessoas que chegou a atingir mais de 750 prisioneiros.
PARTE I
Da correspondência de cidadãos alemães que integraram os quadros da DAT
Sobrescrito de carta da Horta, datada de 27.Ago.1910, de Otto Schröder, director da companhia Deutsch Atlantische Telegraphen-Gesellschaft, endereçada a J. D. Erdman Schmidt, em Enschede, Holanda, onde foi recebida a 09.Set.1910. Franqueada com selo de 100 réis (D. Carlos) - Açores, obliterado com carimbo 'C.T.T. HORTA / 27.AGO.10'. Seguiu registada c/ Nº 4768, tendo transitado por Lisboa, onde lhe foi aposto no verso o carimbo 'LISBOA CENTRAL / 6.9.10'. Exibe ainda carimbo de chegada à Holanda. Correio Marítimo.
Inteiro Postal de Davos-Platz, Suiça (09.08.1910), endereçado a Otto Schröder, diretor da DAT, Horta, Açores. Marca 'Davos-Platz 9.VIII.10' aplicado na origem, onde pagou porte de 5 + 5 c. Transitou por Lisboa a 12.08.1910.
Inteiro Postal de Schönefeld, Leipzig (18.11.1910), endereçado a Otto Schröder, diretor da DAT, Horta, Açores. Apresenta os carimbos, 'Leipzig - Schönenfeld - 18.11.10' aplicado na origem, onde pagou porte de 5 + 5 pfennig, e 'Horta 18.DEZ.10’ aplicado no destino.
Inteiro Postal de Troppau, Austria (20.12.1910), endereçado a Otto Schröder, diretor da DAT, Horta, Açores. Apresenta a marca postal 'Troppau - 20.XII.10' aplicada na origem, onde pagou porte de 5 + 5 heller. Transitou por Lisboa a 24.12.1910. Carimbo 'Horta 15.JAN.11’ aplicado no destino.
Sobrescrito de New York, EUA (20.07.1939), endereçado a Otto Schröder, diretor da Deutsche-Atlantische Telegraphengesellschaft, Station Horta, Açores. Ostenta os carimbos 'New York, N. Y. (Church St. Annex) / JUL.20.1939' e 'New York, U.S.A. Foreign / 7.20.1939, aplicados na origem, onde pagou o porte 30 c. Registado nº 609673 c/ A.R. Carimbo de chegada 'Horta 12.AGO.39.
Inteiro Postal da Horta, datado de 01.Out.1900, de funcionário da DAT, endereçado ao Assistente Superior de Telegrafia Jahns, Emden, Frísia de Leste, Alemanha, onde foi recebido a 14.Out.1900. Transitou por Lisboa a 10.Out.1900. Pagou porte de 20 réis pré-pago na origem e sobretaxa para o estrangeiro de 5 réis (D. Carlos - Horta). Correio Marítimo.
Senhor Assistente Superior de Telegrafia Jahns
Emden Frisia de Leste
Horta, Outubro 1900
Caro Senhor Jahns. Recebi e agradeço o seu postal. Infelizmente já não me lembro qual o postal que lhe enviei . Talvez fosse de [...] em [...]. É muito dificil arranjar aqui selos a não ser que os compre. Mas a pouco e pouco sempre os vou arranjando uma vez que envio muitas cartas daqui para [...]. Tudo é possível.
Cumprimentos para si e para a Srª [...] do seu Nbbo
Sobrescrito circulado da Horta (14.DEZ.05), remetido por Anton Günther, telegrafista da DAT – Deutsch Atlantische Telegraphengesellschaft, para Emden, Alemanha. Pagou porte de 10 réis – selo D. Carlos (HORTA).
PARTE II
Da correspondência e atividades dos alemães da DAT internados no Castelo de S. João Baptista, em Angra do Heroísmo
Inteiro Postal da Cruz Vermelha Portuguesa (OM CVP-2), de Alfred Ebight, telegrafista da Deutsche Atlantische Telegraphengesellschaft, circulado do Campo de Concentrados, de Angra do Heroísmo (28.09.1916), apresenta a marca "Delegação da Comissão de Prisioneiros - Angra do Heroísmo". Ao cuidado da Cruz Vermelha, transitou por Lisboa, onde foi censurado "Censura nº 8 /14.OUT.1916", e de onde terá sido reencaminhado para o Bureau International de la Paix, em Berne. Isento de franquia.
Sobrescrito de carta datado de outubro de 1918, de Carl Parrow, funcionário da DAT internado em Angra no Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira, endereçada ao Comité Internationale de la Croix Rouge, Genève, Suisse. Registada c/ nº 8842, pagou porte 5 c. (2 x 2 1/2 C. violeta) na origem. Apresenta na face os carimbos ''CENSURADO 25.OUT.1918' e 'OUVERT/ Par l' Autorité Militaire/206'. No verso os carimbos do 'Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira', a de trânsito ''LISBOA CENTRAL 20.11.18', o carimbo 'OUVERT/ Par l' Autorité Militaire/206' e cinta 'Controle Postal Militaire', da censura militar, e ainda o de receção no destino 'GENÉVE DISTR. LETTR. 28.XI.1918'.
58. Noite de Entretenimento
Programa de Concerto Musical no Campo de Concentrados de Angra do Heroísmo - Domingo, 27 de outubro de 1918.
NOTA: De destacar a participação ao piano de Adolf Corsepius, Oskar Kuhl, Joahannes Rebske, e da esposa de Heinrich Saüer, funcionários da DAT.
PARTE III
Outra correspondência e documentos afins
Bilhete Postal - Fayal Açores (Cabo Submarino) - Horta, 5.MAI.04
Postal ilustrado circulado endereçado a Marseille, França, transitou por Lisboa a 16.4.04 (?), o que é estranho face à data de obliteração na Horta (5.MAI.04). Provável erro na data do carimbo obliterador em Lisboa ?!
Apresenta uma legenda em alemão: Horta, Dezembro 1904.
Os melhores votos para o Novo Ano !
Os funcionários da Deutsch-Atlantische Telegr. Gesellschaft.
Postal ilustrado circulado da Horta (14.JUN.05), para Gand, Bélgica. Pagou porte de 10 réis D. Carlos - Horta.
14. Amarração dos cabos na zona costeira da Horta, Açores
Postal Ilustrado circulado, remetido de Amsterdam, em 21.Jul.1921, conforme marca postal aplicada no verso. Selos retirados.
Dimensão: 221 x 298 mm
Título de Ação (série A) de 100 Reichsmark, da Deutsche-Atlantische Telegraphengesellschaft, emitido em Berlin, em 01.MAR.1926.
VINHETA PUBLICITÁRIA, da Deutsch-Atlantische Telegraphengesellschaft
Telegrama que transmitido de Berlin via Açores - para Detroit, a 08.Out.1902, terá “viajado” pelo cabo submarino da DAT, e posteriormente reencaminhado até Detroit, na rede terrestre da The Commercial Cable Company.
BIBLIOGRAFIA
AA.VV., O Porto da Horta na História do Atlântico. O Tempo dos Cabos Submarinos, Horta. Ed. Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, 2011.
AA. VV., O Tempo dos Cabos Submarinos na Ilha do Faial. Valor Universal do património local, Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, 2013.
AA. VV., A Horta dos Cabos Submarinos. "Foi Há 120 anos". O primeiro Cabo Submarino na Ilha do Faial. 1893-2013. Associação dos Antigos Alunos do Liceu da Horta, 2014.
Corsépius, Yolanda, Algumas notas sobre aspectos sócio-culturais na Horta no tempo dos Cabos Submarinos, [Horta], edição do autor, 1999.
Corsépius, Yolanda; Costa, Ricardo M. Madruga da, "Um contributo para a História da Companhia Alemã do Cabo Submarino na Ilha do Faial", in Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Horta, nº 18, 2009, pp. 393-424.
Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira (Catálogo da Exposição, 29 Out. - 29 Jan.), Angra do Heroísmo, Museu de Angra do Heroísmo, 2016.
Pereira, Jorge Costa, "Uma carta a Moisés Benarús. Subsídio para o estudo da presença alemã no Faial na primeira década do Século XX", in Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Horta, nº 20, 2011, pp. 185-203.
Rezendes, Sérgio, "O Depósito de Concentrados Alemães na Ilha Terceira - as memórias de uma reclusão forçada", in Insulana, ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada, Vol. LVIII, 2002.
Rogers, Francis M., Welcome to the Cable Trail and the contributions to transatlantic communicatio made by Horta, Horta, Ed. Comissão Regional de Turismo da Horta, s.d.
Silveira, Carlos Ramos da, O cabo Submarino e outras crónicas faialenses, Horta, Ed. Núcleo Cultural da Horta, 2002, pp. 67-150.
Telo, António José, Os Açores e o controlo do Atlântico, Lisboa, ASA, 1993.
Telo, António José, "Os Açores e as estratégias para o Atlântico", in História dos Açores. Do descobrimento ao século XX (Dir. Artur Teodoro de matos, Avelino de Freitas de Meneses e José Guilherme reis leite), Angra do Heroísmo, Instituto Açoriano de Cultura, 2008, pp. 217-264.
Weston, F. S., "Os Cabos Submarinos no Faial", in Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Horta, 1963, Vol. 3, nº 2, pp. 215-230.
ANEXO
Tendo em conta a raridade do exemplar de um jornal da colecção de Jorge Alberto Flores de Almeida Nunes e da relação do seu conteúdo com o tema, divulga-se a respectiva imagem a que se segue a tradução gentilmente efectuada pela Senhora D. Yolanda Corsépius, registando-se agradecimento pela generosa colaboração.
Das erste deutsche Ueberseekabel, por Heinz Krieger, 1900
O PRIMEIRO CABO SUMARINO ALEMÃO
Heinz Krüger
A 5 de Agosto de 1857, há aproximadamente 43 anos, o navio “Niagara” partia da costa da Irlanda, acompanhado pelo “Agamemnon”, com o objectivo de lançar ao mar o primeiro cabo transatlântico e com isso estabelecer uma via de comunicação rápida entre a Europa e a América do Norte. Era um trabalho difícil, nomeadamente devido à enorme pressão da água a uma profundidade de 3000 toesas, e à tarefa de isolar fios com 3000 milhas marítimas de comprimento, o que pareciam ser dificuldades inultrapassáveis. Mas a resolução dos desafios que se iam colocando era tão aliciante, que os eletricistas ingleses e alemães nunca desanimaram.
A primeira tentativa falhou, o cabo veio a enfraquecer interrompendo a ligação meses depois. Apenas em 1866 se viria a atingir o grande empreendimento. A ligação permanente entre a Europa e a América seria finalmente conseguida.
Logo os investidores se interessaram pelo relançamento do cabo. As 2600 milhas marítimas que tinham de ser ultrapassadas não amedrontaram, nem tão pouco as tempestades, ancoragens, tubarões e perigos do género. Já se sabia que o fundo do mar era relativamente plano e que, apesar da profundidade de 2000 a 2700 toesas, seria relativamente fácil a sua manutenção. É que a areia macia e a calma do fundo seriam a melhor proteção do cabo. Apenas a pressão da massa de água com aproximadamente 500 atmosferas, ou seja 20 toneladas por polegada quadrada, seria uma ameaça para qualquer cabo – qualquer pequeno erro resultaria em fuga da corrente eléctrica para a água. Surgiram bolhas microscópicas no isolamento que rebentaram devido à enorme pressão, mas a repescagem do cabo e a sua reparação já estavam de tal modo aperfeiçoados que o comandante do navio, logo 12 horas depois de ter deixado o porto irlandês, pôde telegrafar: A reparação foi efetuada e já se pode telegrafar novamente.
A telegrafia por cabo submarino ganhou desde então um enorme desenvolvimento. Actualmente existem 12 cabos transatlânticos. A frota conta com 42 navios, tanto para lançamento dos cabos, como para a sua reparação. O Governo inglês, que em 1870 adquiriu por 7 milhões de libras a instalação mais antiga, possui 2 deles, 28 pertencem a companhias inglesas, e os restantes distribuem-se pela França, América e outros países. Das companhias dos cabos, 5 pertencem à Inglaterra e 5 à América. As menos importantes pertencem à França e a outros países. Em 1896 a totalidade de linhas terrestres media 784 668 milhas inglesas, a cablagem eléctrica 2 268 930 milhas inglesas. Os cabos submarinos atingem o comprimento de 177 988 milhas. O investimento foi de 760 milhões de marcos.
O cabo alemão mergulha em Borkum, atravessa o Canal da Mancha e o Oceano Atlântico até chegar aos Açores. Daqui, e em linha quase horizontal, segue em direção a Nova Iorque desviando-se dos célebres bancos de areia da Terra Nova onde, com frequência, tem ocorrido danos nos cabos. Para o lançamento, manutenção e operação deste primeiro cabo submarino alemão foi fundada, sob a direcção de Felten e Guilleaume, em Mülheim, a Deutsche-Atlantische Telegraphen Gesellschaft com um capital de 20 milhões de Marcos. A sociedade iniciou a sua actividade em 21 de Fevereiro de 1899. A sede é em Colónia e funciona em parceria com o Estado, representado pelos Correios. Não se vai limitar à colocação dos cabos, mas também à sua construção. Para esse efeito vai ser construída em Nordenham uma grande fábrica que começará a laborar muito em breve. O cabo agora lançado foi construído em Londres. Tem o comprimento de 4366 milhas e custará, incluindo o seu lançamento e manutenção durante 30 dias, a soma final de 19,7 milhões de marcos. Poderá transmitir pelo menos 25 palavras de 5 letras por minuto e começará a funcionar a 1 de Agosto. O cabo sai da estação de Borkum onde, num edifício, amarra aos cabos vindos de terra, e se podem fazer também as necessárias medições para a Horta, no Faial, Açores. O serviço nesta extremidade do cabo é garantido pela Estação de Emden, por funcionários dos Correios. No Faial a Sociedade utiliza o espaço da Estação da Commercial Cabel Company e da Europe and Azores Company. Desta forma é facilitada a troca de mensagens, e reduzido o custo operacional. Na América do Norte o cabo entra directamente na Commercial Cable Company, que pôs a sua extensa rede terreste à disposição da linha alemã.
O Estado Alemão garantiu perante esta Sociedade, um amplo direito de supervisão, pagando anualmente pela utilização do cabo, 1,4 milhões de Marcos até ao fim da concessão de 40 anos.
Estamos próximos da completa realização da importante obra. Em Borkum, Nordenham, e nos Açores, trabalha-se activamente. O Sr. Von Podbielski ligou o cabo submarino ao cabo terrestre. Este importante “lançamento da primeira pedra” foi acompanhado de um ato festivo. A conclusão será daqui a poucas semanas.
Termina assim o domínio inglês no campo da telegrafia internacional. Passará a haver uma concorrência saudável e duradoura, em particular quanto ao custo, mas igualmente na influência da informação transmitida e colocada ao serviço da comunicação à escala mundial. A Humanidade fica a dispor de um novo meio que ajudará a uma melhor relação favorável à difusão de opiniões e ainda favorável à segurança e paz mundial. Para a Deutsche-Atlantische Telegraphengesellschaft é isto que importa nas telecomunicações neste ano de 1900.
Legenda das imagens:
1ª - Instalação no solo do primeiro cabo submarino alemão nas dunas perto de Emden
2ª - Na inauguração do primeiro cabo submarino alemão: Os participantes mais importantes:
1 - Presidente da Câmara Municipal Fürbringer
2 - Director Moll
3 - Director Sydow
4 - Inspector de Telegrafia Fiker
5 - Director Guilleaume